Economia combalida e caminhando lentamente. Eleições se aproximando e pouca previsibilidade – seja pelo alto número de candidatos ou pela falta de favoritos reais entre eles. O vice-presidente que está no exercício da função máxima da república tem popularidade baixíssima e nem se sabe se ele vai concorrer à reeleição. A população parece desejar um político fora dos padrões comuns, dado que os do mainstream estão quase todos englobados em um imenso escândalo de corrupção.
Estamos falando de 2018? De 1989? O futuro que se parece com o passado.
PRIMEIRAMENTE, 1989.
Em 1985, as eleições indiretas levaram a vitória da chapa composta por Tancredo Neves e José Sarney. O primeiro morreu antes de assumir o cargo – para frustração do Brasil recém democratizado -, deixando em seu lugar o muito menos popular, Sarney.
Estávamos nos últimos anos da chamada Guerra Fria e o mundo passava por uma alta nos preços do petróleo. Inflação, crise de dívidas interna e externa, alta dos juros internacionais e problemas no balanço de pagamentos: tudo isso formava uma tempestade perfeita sobre a economia brasileira.
Já em maio de 1985, algumas mudanças geraram ânimo e popularidade: após a não-concretização dos anseios populares no ano anterior no movimento Diretas Já, é aprovada a emenda constitucional que garante eleições diretas para presidente, prefeito e governador. Na economia, o grande Plano Cruzado, cujo resultado positivo durou tão pouco quanto a aprovação do presidente, que chegou a 5% ao final do falido plano. Após isso, planos diversos (Bresser e Verão, por exemplo) tentaram domar, sem sucesso, o dragão inflacionário.
Durante o feriado de Proclamação da República, em 1989, após 25 anos de ditadura e 29 sem voto direto para presidente, tivemos o primeiro turno eleitoral. 22 chapas: não faltavam números e nomes na cédula de votação. O cardápio para o eleitor era muito farto.
O debate eleitoral contou com nove dos candidatos, sendo praticamente o dobro dos debates que estamos acostumados a assistir nas últimas eleições. Durante esses debates, aconteceram muitas cenas pitorescas, anedotas e muito dedo na cara. A mediadora Maria Gabriella teve que chamar o intervalo comercial algumas vezes para controlar os candidatos.
Alguns dos candidatos da época ainda seguem com sua vida política ativa. Ronaldo Caiado e Roberto Freire são dois deles. Nenhum era um candidato “Tiririca”, que estava lá apenas para fazer presença. Todos estavam presentes com planos e intenções reais. Até Silvio Santos, o homem do baú, chegou a ser candidato por um curto período de tempo, mas sua candidatura foi impugnada pelo TSE.
O cenário daquela época era, não só em termos políticos como também econômicos, altamente imprevisível. Tudo poderia acontecer.
AGORA, DE VOLTA PARA O FUTURO, 2018.
Brasil está saindo da pior crise de sua história, totalizando um encolhimento de 8% da economia. Outro item que bate como o pior da história, é o escândalo de corrupção atualmente investigado – a Lava Jato faz com que, por efeito comparativo, a corrupção dos anos 80 seja uma simples brincadeira de criança.
Apesar de alguns sinais, por parte da economia, de que as ideias da equipe econômica atual têm funcionado, a confiança popular ainda é baixa e muitos índices econômicos ainda não refletiram o vigor da recuperação econômica.
O sistema político está desacreditado. Isso não é novidade, mas ainda no campo da incerteza temos pré-candidatos que talvez nem cheguem a condição de candidatos de fato, como Lula.
Lula, apontado como líder de intenção de votos em grande parte das pesquisas eleitorais, está fora do páreo pela Lei da Ficha Limpa, após sua condenação em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá (pelo TRF-4).
Muitos candidatos têm surgido e se manifestado com planos bastante diferentes entre si e exaltando os ânimos sociais. A pouca previsibilidade, de até então, nos deixa em vista três candidatos bastante diferentes: Geraldo Alckmin, com política mais moderada e posicionado na centro-direita, apostando no avançar das políticas desenvolvidas pela atual equipe econômica; Jair Bolsonaro, mais à direita com política econômica liberalizante (pelo menos no papel); e Ciro Gomes, mais à esquerda, sugerindo uma retomada do desenvolvimentismo (sim, o mesmo já tentado nos anos 1980 e na Era Dilma, com um tom de “agora vai dar certo”).
Isso sem falar de Henrique Meirelles, Guilherme Boulos, Paulo Rabelo de Castro, João Amoedo, Marina Silva, Joaquim Barbosa, Levy Fidelyx, Eymael, Rodrigo Maia, Manuela d’Ávila, Álvaro Dias, Collor (ele mesmo!), João Vicente Goulart (o filho de João Goulart), e certamente esquecemos de algum. A única coisa que ganha das eleições em nomes participantes é o álbum de figurinhas da copa do mundo.
De candidatos protocolares, sempre presentes apesar da mínima chance de vitória, a outros com equipes mais bem estruturadas e daqueles que sempre estão presentes em períodos eleitorais àqueles que apenas dizem estarem interessados em concorrer, temos uma imensa e imprevista lista de opções que podem ocupar a cadeira da Presidência da República em primeiro de janeiro de 2019.
Podemos esperar todo e qualquer tipo de caminho. Podemos também esperar campanhas com alto nível de populismo e ataques. O que realmente não dá para esperar é qualquer tipo de previsibilidade sobre o próximo presidente (ou presidenta) do Brasil – tal qual ocorreu em 1989.
Diz-se que “aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Como nós, eleitores, podemos mudar este final?
Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico
Hoje o maior blog independente de economia do Brasil, foi criado por 4 amigos em 2014, o motivo? Fornecer análises claras e independentes sobre economia e finanças, sempre com a missão de informar o leitor.
Publicações deste artigo, que foi escrito em abril de 2018:
– Blog da Guide Investimentos (02/12/2017): https://blog.guideinvestimentos.com.br/textos/1989-e-2018-o-paralelo-eleitoral-impressiona/
