DE CRISE EM CRISE: O CHORO HERMANO

Recentemente vimos algo surreal ocorrer em nosso vizinho latino-americano: em uma semana, a Argentina aumentou sua taxa de juros três vezes e agora a colocou em 40% ao ano. Mas a história nos diz que isso é normal por lá, por mais surrealista que pareça. Os hermanos estão presos em um ciclo de calmaria e choro econômico, a décadas.

Mas o que está havendo ao sul? Basicamente o que tem atingido todo país em desenvolvimento: a recuperação da economia norte-americana que gera inflação e, por consequência, a necessidade de aumento de juros por lá, o que acaba resultando em uma atração de investimento financeiro para a terra de Trump (uma vez que o título do tesouro dos EUA é o mais seguro do mundo e, com o aumento dos juros, paga cada vez mais aos seus credores).

Olhando pelo retrovisor da história, há um problema que nós também estamos acostumados: o estabelecimento de gastos obrigatórios que não cabem na constituição. Observemos a seguir o histórico do país em relação a este assunto.

A virada entre os séculos XIX e XX foi bastante positiva para a Argentina. No cenário político emergiu liberalismo – logo após a ditadura de Juan Manuel Rosas -, havia crescimento econômico e o país se aproveitou de uma crise europeia para ampliar seu parque industrial. Essa ampliação permitiu que o controle político passasse a ser um objetivo de trabalhadores que melhoraram sua condição socioeconômica durante esse avanço a partir da urbanização. O país passou a ser a quinta maior renda per capita do mundo durante esta época. A Argentina era uma verdadeira potência e um exemplo a ser seguido ao sul da linha do equador.

Tensões políticas entre a elite estabelecida e os grupos trabalhadores deram origem ao que se chamou de União Cívica Nacional. Esta União conseguiu eleger um representante na década de 1920, mas foi derrotada por forças opositoras na década seguinte. Em 1943, as forças estabelecidas impuseram o mandato de Ramon Castilho, cujo Ministro do Trabalho era Juan Domingo Perón. O apelo populista deste último o fez eleito em 1946 e reeleito nas eleições seguintes.

Durante seus dois mandatos, Perón ampliou direitos trabalhistas, centralizou o poder, nacionalizou diversos setores e ampliou sensivelmente a dívida pública, o que, logicamente, levou o país à bancarrota. Após ele, tivemos três períodos militares (1955-1958, 1966-1971 e 1981-1983), sendo intercalados por representantes do Partido Justicialista (de Perón) e da União Cívica Radical (a que já havia eleito representante na década de 1920).

Após todos estes períodos, tivemos também o revezamento de poder entre estes dois partidos. Ao longo de 60 anos, o país observou a manutenção e ampliação de tudo que já havia sido estabelecido décadas atrás, mesmo que isso resultasse em aumento da dívida pública e um super calote em 2001.

O ano de 2001 representa a mais traumática crise já enfrentada pela Argentina, tanto política quanto economicamente.

Pelo lado econômico, o país sentiu fortemente neste ano os efeitos da década de 1990, em que houve uma dolarização da economia (o peso argentino teve sua cotação atrelada ao dólar norte-americano entre 1991 e 2001) e pelo menos duas crises internacionais (México em 1994 e Ásia em 1997) que reduziram a liquidez internacional. Se no começo da década os juros dos EUA eram baixos e permitiam investimentos feitos ao redor do globo, no final dela a instabilidade internacional era imensa e a possibilidade de seguir em frente tendia a zero. Foi em 2001 que a Argentina declarou moratória a sua dívida externa, à época, de US$100 bilhões. Isso afastou investidores externos e deixou o país em um completo caos econômico.

Deve estar na lembrança do leitor a imagem dos argentinos batendo panelas em diversos protestos daquela época. Mas não era para menos: sem meios de resolver as questões econômicas e com uma desconfiança popular imensa, a “solução” encontrada para a corrida aos bancos foi a repressão policial. O efeito político resultante impressiona: em apenas doze dias, o país chegou a ter cinco presidentes diferentes.

Após toda essa comoção social, Néstor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos e saiu com expressiva aprovação em 2007, quando passa o poder para sua esposa, Cristina. Ambos seguiram com o impulso populista observado outrora, embora com tentativas do primeiro de renegociação da dívida externa.

Como fim da dinastia Kirchner e a eleição de Maurício Macri em 2015, o país parecia dar sinais de mudar este cenário caótico que vivia desde a eclosão de 2001. Ele vem do partido Proposta Republicana, de centro-direita, com a proposta de colocar nos trilhos a economia argentina, sem usar medidas tresloucadas como as de governo populistas que o antecederam.

Realmente algumas mudanças foram alcançadas: uma guinada no mercado internacional (foi reaberto o diálogo com os chamados “fundos abutres”, permitindo a retomada de negociações com credores internacionais) e uma mudança no cenário externo (com um olhar menos focado no Mercosul e mais focado em mercados “imperialistas” como os Estados Unidos) foram observadas.

O que não pôde, até então, ser observado, é uma mudança no tocante aos grupos de interesse existentes no país e, portanto, em relação ao caminhar das despesas públicas. O resultado, como bem conhecemos por aqui, é que as contas públicas não fecham, a inflação caminha para cima, a pressão sobre o aumento nos juros aumenta e a desconfiança sobre o pagamento da dívida pública também. Esta, segundo dados recentes, teve aumento de 35% desde a chegada de Macri ao poder.

O movimento observado nos juros na semana anterior é uma demonstração de que o país hermano pode até ter mudado em alguns aspectos com Macri, mas, caso não reveja seu posicionamento em relação ao que não pode publicamente arcar, seguirá na mesma trajetória conturbada sobre a qual o mundo já se acostumou quando pensa naquele país. Outro indício de que o pensamento estabelecido não mudou tanto assim é o fato de que, também recentemente, o governo argentino passou a adotar medidas de incentivo ao consumo.

Não se trata de uma batalha fácil, dado o histórico que se tem. Macri não é o culpado de boa parte das mazelas econômicas que enfrenta: de Perón aos Kirchner, o populismo reinou na Argentina, que não parou para avaliar o avanço de suas políticas sociais e apoio a grupos de interesse, nem o fato da conta não fechar ano a ano em razão disso. Mas certamente o atual presidente argentino entrará para a história econômica como responsável pela continuidade das mesmas, caso não lute contra a raiz do problema, que são os gastos insustentáveis do governo.

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Publicações deste artigo, que foi escrito em maio de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (09/05/2018): https://blog.guideinvestimentos.com.br/textos/de-crise-em-crise-o-choro-hermano/

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