Os últimos acontecimentos marcantes dão uma ótima oportunidade de reflexão sobre a nossa própria sociedade brasileira. Com a greve dos caminhoneiros, cujos resultados ainda visualizamos, não será diferente. A reflexão desta vez é sobre o que o cidadão brasileiropensa a respeito do Estado.
Nossa carga tributária é enorme e nos incomoda mais que três elefantes em uma sala apertada. Este incômodo não ocorre apenas por seu valor relativo a tudo que é produzido, mas pelo retorno médio que nós percebemos no dia-a-dia. Na média, o brasileiro paga duas vezes (via impostos e por substitutos privados) por saúde, educação e segurança, tendo sempre em mente a ideia de que, se não for por vias privadas, não obterá qualidade.
Ou seja: a população reconhece que o tamanho do Estado não condiz com o retorno que tem sido oferecido e, portanto, o tamanho deste ente não só poderia como deveria ser reduzido.
Curiosamente, neste país de jabuticabas, também é sabido que um pensamento bastante presente é o de que, justamente por pagarmos uma carga tributária que não corresponde ao que se espera de retorno social, teríamos todos uma miríade de direitos justamente porque “pagamos impostos para tudo”. Neste ponto que entra, especificamente, uma suposta magia que dominou as mentes de boa parte dos brasileiros durante a greve dos caminhoneiros: se o problema não é falta de dinheiro dos impostos, provavelmente seria a falta de vontade política de assinar medidas de “apoio ao povo”.
PREVISIBILIDADE DOS PREÇOS
Uma das questões centrais reivindicadas pelos grevistas era a previsibilidade dos preços do diesel. Como já apresentamos aqui, oferecer previsibilidade ao preço de algo negociado internacionalmente (os derivados de petróleo, no caso) torna necessário impor custos sociais amplos. Saindo do economês: todo mundo vai pagar esse subsídio ao diesel, concordando com ele ou não.
Chegamos então ao ponto mais paradoxal da dúvida que nomeia este artigo. Ao cair em si de que o custo do subsídio ao diesel cai no bolso de quem apoiou (uma vez que, se não são aumentados impostos, pelo menos vemos ocorrer uma realocação de recursos), o brasileiro então reage novamente afirmando que o problema não é a carga tributária, mas sim uma má vontade da Petrobras (estatal, que deveria “servir ao povo”, seja lá o que isso signifique) em proteger o país da malvada oscilação de preços dos combustíveis.
Certamente todos os fatores apontados têm suas contribuições. A carga tributária é elevada, o retorno sobre ela é questionável e poderíamos mesmo ter uma previsibilidademaior de preços de um produto tão utilizado em nossos modais logísticos nacionais. Entretanto, três fatores essenciais não podem fugir ao debate: qual o custo de colocar em operação uma política de preços mais “suave”, quem vai pagar essa conta e como podemos pensar numa equalização da questão ao longo do tempo.
O QUE VAI ACONTECER?
Por ora, como de costume em nosso país, as soluções são de curto prazo e excelentes até que se provem rapidamente que são infundadas e vão custar caro: sugere-se que a Petrobras teria de “prejudicar os acionistas que estão lucrando tanto” (mesmo considerando que 51% desses acionistas são o governo e diversos fundos de pensão do país), que preços deveriam ser controlados e que aqueles que promoveram a política de preços que fez a empresa emergir das cinzas são os culpados de todas as mazelas que o povo enfrenta e que a solução seria nacionalizar todos os processos produtivos.
Quanto a variações internacionais de commodities como o petróleo e o efeito sobre seus derivados, o que podemos fazer é aguardar uma resolução mais apurada sobre sanções dos EUA ao Irã ou um encaminhamento de solução da crise venezuelana (uma vez que estes dois fatores prejudicam a oferta do produto, elevando o preço). Controlar preços, na canetada, não funciona – já vimos isso anteriormente, não adianta sermos teimosos. Já quanto a educação em economia, para entendermos que não há almoço grátis, que escolhas envolvem renúncias que não dá para fazer tudo que se deseja simplesmente assinando leis, quem sabe mais algumas décadas de aprendizado doloroso nos consigam passar a lição.
Enquanto isso, seguiremos na real dúvida do brasileiro ser o liberal que reconhece o peso do Estado como sendo um agente complicado em diversos aspectos ou o estatista clássico que prefere pagar mais caro e “com estabilidade” do que encarar qualquer malévola realidade de preços.
Antes mesmo dessa dúvida ser sanada, todos vamos pagando a conta.
Hoje o maior blog independente de economia do Brasil, foi criado por 4 amigos em 2014, o motivo? Fornecer análises claras e independentes sobre economia e finanças, sempre com a missão de informar o leitor.
Publicações deste artigo, que foi escrito em junho de 2018:
– Blog da Guide Investimentos (25/06/2018): https://blog.guideinvestimentos.com.br/textos/brasileiro-estatista-ou-liberal/
