Eleições compõem um período quase sempre conturbado no Brasil. Não é difícil de entender: com um Estado deste tamanho e uma Constituição que dita tantos caminhos, faz muita diferença por aqui quem ocupará o cargo máximo do poder Executivo.
Em algumas ocasiões, esse desarranjo acaba por resultar em múltiplas candidaturas – como foi em 1989 e ocorre agora em 2018 – e, na maioria dos casos, resulta em certa bipolarização – PT e PSDB ocuparam esta disputa direta basicamente desde 2002.
Neste ano, algo inédito e bastante surpreendente tem ocorrido: por um lado a desilusão com o quadro político abriu uma miríade de candidaturas (após o anúncio inicial de quase vinte, treze acabaram confirmadas) que deixou o cenário bastante incerto; por outro, mais recentemente, duas enormes rejeições acabam atraindo o voto útil aos extremos: Haddad, herdeiro direto de Lula (e do antipetismo) e Bolsonaro, autor de diversas frases altamente questionáveis e dono da atual maior rejeição do pleito.
Bolsonaro é o típico liberal de primeira viagem. Há quase 30 anos no Congresso, votou por pautas estatizantes com frequência e hoje indica que seguirá cartilha liberal, basicamente por ter se associado a Paulo Guedes, economista que tradicionalmente segue esta linha. Em termos econômicos, então, é um mistério: vencerá sua veia autoritária e estatizante ou sua recentíssima orientação liberal? A instabilidade é exatamente essa.
Haddad é aquele que assumiu o papel ingrato de dizer, explicitamente, que “já que Lula não pode disputar a eleição, cá estou”. Pessoalmente é figura moderada e razoavelmente racional – tão moderada que já chegou a ser chamado de “o mais tucano dos petistas”. Mas, pelo papel que está se admitindo prestar, pelo plano de governo que levanta a quebra de reformas promovidas por Temer e pela praticamente impossibilidade de executar um novo estelionato eleitoral (vide o péssimo resultado que tal tentativa teve para Dilma Rousseff), temos nele um grande ponto de interrogação também. Vencerá a racionalidade ou o radicalismo herdado?
O novo fenômeno que observamos neste ano é o afunilar de intenções de votos baseados no fato de que “o outro não poderia ganhar, porque faria um péssimo governo”. Um sinal do nível lamentável em que nossa política se encontra.
Este afunilar é tão rápido que, desta vez, parece que muitos têm se esquecido que temos dois turnos e há inclusive pregação de esquecer o chamado “voto do coração” (depositando a confiança, no primeiro turno, no candidato que mais se acha preparado, independentemente de suas chances reais de vencer) em prol de um “derrotar do péssimo outro lado”.
O país que tipicamente se dividia entre paixões com candidatos agora parece se dividir entre ojerizas. Até hoje – porque de nada podemos duvidar no Brasil -, esta é a eleição mais direcionada por rejeição que já tivemos no país. E, entre esses dois extremos, padece um país que já não aguenta mais aguardar por estabilidade.
Publicações deste artigo, que foi escrito em setembro de 2018:
– Blog da Guide Investimentos (25/09/2018): https://blog.guide.com.br/textos/entre-os-extremos-padece-o-brasil/?_ga=2.197415919.1312209336.1538393511-2094246922.1536081422&_gac=1.95345006.1537878101.Cj0KCQjwuafdBRDmARIsAPpBmVXTgXfOCdVNiMcVdVG4QYty7zGtbeg2BbqcySl88IBQ2cM_3pegDXUaAgZYEALw_wcB
