NA POLÍTICA, PEDRAS E VIDRAÇAS TROCAM DE LUGAR – E ISSO IMPORTA MUITO

Estamos na semana do segundo turno de eleições em alguns estados e para a Presidência da República. No primeiro turno vimos muito do que se pode chamar de renovação acontecer e, nesta segunda rodada, não há de ser diferente.

Porém, algo que até então foi muito pouco pontuado precisa ser: oposição e situação devem trocar de lugar pela primeira vez desde 2003. E, apenas para relembrar, a oposição será aquela que se viu durante o período entre a redemocratização e a eleição de Lula em 2002: atuação forte e direta, não um eterno aguardar das ondas.

Se por um lado o Partido dos Trabalhadores tem imensa dificuldade em admitir erros cometidos ou fazer um mea-culpa de qualquer natureza, por outro este tem uma grande facilidade de apontar erros alheios quando se situa do lado opositor. Este partido foi o que pediu impeachment de todos os presidentes que não os do próprio partido – Sarney, Collor, Itamar, FHC e Temer ouviram seus devidos e contundentes “FORA!”.

Provavelmente o leitor irá argumentar que os outros presidentes petistas também tiveram pedidos de impeachment protocolados. Sim, é verdade, mas há uma diferença fundamental: os que foram protocolados contra Lula além de não passarem ficaram à base de banho-maria (lembre-se da célebre frase de 2005, sobre deixar o PT “sangrar”) e aquele que derrubou Dilma contou mais com a reprovação de seu governo do que com a ação real de uma oposição (importante lembrar também que a dita oposição demorou alguns meses para articular-se junto aos movimentos de rua em prol do impeachment).

A demonstração prática do que o PT pode oferecer como oposição é o fato de terem, em dois anos de governo Temer, construído o cenário de que o país fora destruído por este. Mesmo parecendo para muitos um absurdo pensar que os erros cometidos anteriormente teriam sido esquecidos, essa história levantada pelo partido que ocupou o poder entre 2003 e 2016 é aceita por pelo menos um terço dos eleitores – que não só votam em candidatos do partido como também sinalizam acreditar nesta versão dos fatos. Não se pode esquecer que, a partir de 2019, a maior bancada da câmara dos deputados será a petista.

Quando ocorre a troca de lugar entre pedras e vidraças, algumas inconsistências podem ocorrer – como quem era vidraça dizer que nada tem a ver com a fragilidade das coisas -, mas certamente acabam algumas justificativas como “a culpa é de quem era a vidraça anterior”. Ou, melhor dizendo: logo o dito maior problema do país, que era o PT no governo, passa a ser aquele que vai perguntar insistentemente todos os dias quando é que as coisas vão começar a dar certo.

Em se tratando de Bolsonaro alguém cujos planos parecem não ter muita consistência, é preciso ficar atento ao fato de que diariamente a nova oposição – que, como já dito, é muito melhor como pedra do que como vidraça – se esforçará para querer dizer que o Brasil está chegando ao seu fim. E, nisso, o PT tem uma maestria muito maior do que quem se opôs a ele desde que voltamos a ser uma democracia.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em outubro de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (22/10/2018): https://blog.guide.com.br/textos/na-politica-pedras-e-vidracas-trocam-de-lugar-e-isso-importa-muito/

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