Alguns meses atrás, quando começavam a se desenhar e oficializar as chapas políticas para a eleição do cargo mais alto do poder executivo, os olhos dos analistas políticos procuravam saber ao máximo sobre as alianças que se desenhavam. Com essas alianças, muito mais do que apoio ideológico – que podemos questionar se existe de verdade no Brasil – vinha também orçamento no fundo partidário e tempo de televisão. O famigerado Centrão, amálgama que comanda o poder legislativo com partidos de menor calibre, era o alvo preferido.
No fim das contas, nas proximidades do fim do período de oficialização de campanhas, o Centrão acabou ficando com Geraldo Alckmin. Neste momento, uma das falas que, ex post, acabou se transformando na maior falácia do ano, veio à tona: “Alckmin pode não ter a força que esperamos hoje, mas basta começar a campanha na TV que a coisa muda”.
Pois é, a coisa mudou mesmo, mas de modo que poucos acreditavam que seria possível. As inserções começaram, o considerável tempo de TV passava e nada acontecia. Alckmin deixou a disputa no primeiro turno com menos de 5% dos votos válidos, Bolsonaro levou no segundo turno com 55%. O segundo candidato teve menos de dez segundos de tempo de televisão graças a sua aliança partidária reduzida a partidos nanicos.
Observamos em 2018 um fenômeno que deve entrar para os livros de história: a mudança do meio principal de atração, não só de interesse, como discussão política. Na época de Vargas, o rádio. Desde as eleições de 1989, a televisão. Hoje, a internet.
Pode-se discutir amplamente sobre as distorções que isso pode gerar nas informações espalhadas e a validade que elas tenham ou não, dado que o meio emissor de informações passa de “uma fonte principal em um horário determinado” para “fontes diversas e 24 horas por dia”, mas é inegável que, de forma contundente, podemos dizer que o meio pelo qual o brasileiro médio tem acesso a tópicos que o fazem decidir seu voto, mudou.
Em 1989 tivemos o emblemático caso de Ulysses Guimarães, que mesmo tendo o maior tempo de televisão e apoio de partidos acabou ficando em sétimo lugar na disputa geral. Porém, a situação se diferencia atualmente porque não havia outro meio de massa envolvido na questão e, com a televisão mesmo, foram difundidas as ideias de Collor e Lula, que foram ao segundo turno. O caso ficou inclusive conhecido como Maldição de Ulysses – se bem que, após essas eleições, podemos adicionar Alckmin a ela também.
Nas próximas eleições poderemos ter ou não confirmação deste fenômeno. Mas, se um candidato com menos de dez segundos de televisão conseguiu vencer a presidência basicamente movimentando sua campanha por atuação orgânica em redes sociais, não podemos deixar de esperar que ocorra continuidade deste novo meio.
Publicações deste artigo, que foi escrito em outubro de 2018:
– Blog da Guide Investimentos (31/10/2018): https://blog.guide.com.br/textos/bolsonaro-venceu-e-o-mercado-com-isso/
