Dentro do pacote de eventos que indicam que o mundo será mais nacionalista nas próximas décadas, tivemos o Brexit. Colocado como plebiscito em 2016, a saída da Grã-Bretanha do bloco da União Europeia foi aprovada pela população, mas, até os dias atuais, seguem em aberto os pontos práticos do que essa saída significaria.
A saída indicada em plebiscito de 2016 teve uma série de motivos, dentre os quais podemos citar o desejo de maior autonomia em decisões orçamentárias, o peso das decisões econômicas sobre o bloco, questões diversas relacionadas a imigração e também dificuldades no relacionamento entre as partes desde o início (tendo sido necessários alguns anos de discussão para que a entrada na Comissão Europeia ocorresse de fato, nos anos 1970).
As previsões a respeito dessa saída variam entre a possibilidade de um maior crescimento da economia com essa independência maior e a redução de possibilidades econômicas devido a maior complexidade de regras (e barreiras tarifárias). Qualquer que seja o caso, os efeitos práticos só serão observados a partir do momento em que um acordo virar prática.
O acordo apresentado até então pela premiê Theresa May é considerado total, direto e capaz de causar fricções entre as partes. Isso porque, segundo ela, a população deu seu recado sobre querer essa saída aprovada.
Oficialmente, a saída se dará em 29 de março de 2019. Até esta data, é preciso que ocorra – sob a pena de que o comércio literalmente trave – um acerto para definição de regras a serem respeitadas mutuamente. Cada uma das duas partes com suas definições próprias, mas com regras em comum para que o comércio ocorra. Há, dentro do plano atualmente proposto, a ideia de que a cada seis meses os conselhos da Grã-Bretanha e da União Europeia se reúnam para discutir os avanços observados.
A não definição dos termos de acordo pode deixar uma janela aberta sobre a eficácia de uma mudança tão grande para a própria Grã-Bretanha. Tal janela está se refletindo, por exemplo, na saída de pessoas do Reino Unido (a maior em uma década) e até influenciando que pessoas estoquem alimentos para o caso de um não-acordo acabar sendo a realidade ao final do primeiro trimestre de 2019. Segundo o FMI, a economia do Reino Unido irá encolher neste caso.
Trata-se de uma questão ampla e altamente relacionada com o sentimento nacional de proteção que busca reverter a queda de barreiras (em termos de transações e migrações) que ocorre em boa parte do mundo hoje em dia.
Com algum acordo mais suave, com este acordo proposto ou com nenhum acordo, a complexidade de uma mudança como essas vai além do pedido de maior autonomia interna e menor necessidade de ajuda a outros membros. Tem muito a ver, no fim das contas, com o meio com o qual os países podem ou não se ajudar em futuros eventos de crise econômica.
Brexit abre uma possibilidade concreta de deixar o mundo todo mais caro, mais complexo e menos partidário de um comércio livre – fenômenos estes fortemente observados dos anos 1990 até o meio da década atual, que começam aos poucos a serem revertidos.
Publicações deste artigo, que foi escrito em novembro de 2018:
– Blog da Guide Investimentos (22/11/2018): https://blog.guide.com.br/textos/brexit-complexo-mesmo-se-nao-se-concretizar/
