Após um período eleitoral bastante diferente do que estamos acostumados – com direito a atentado, campanha tocada por redes sociais e ausência de debates no segundo turno -, Jair Bolsonaro sagrou-se como o trigésimo oitavo presidente brasileiro, vencendo Fernando Haddad, cuja plataforma representava um virtual retorno às políticas desastrosas do primeiro mandato de Dilma Rousseff. Seu mandato se inicia em primeiro de janeiro de 2019, mas as articulações a respeito das decisões que serão tomadas já começam agora.
O desafio a ser enfrentado pelo novo governo é enorme e tal dificuldade é notória. Apesar da relativa calmaria promovida por Michel Temer com algumas reformas que permitiram uma queda considerável nos juros e um certo controle na oscilação do dólar, a trajetória dos gastos públicos preocupa e mostra que, caso nada seja feito a respeito, toda essa suposta calmaria se tornará caos em um curto espaço de tempo – alguns anos, no máximo.
A plataforma eleita pelo povo brasileiro parece ser o sonho impossível de reduzir o tamanho do Estado de modo a permitir que as atividades de quem produz possam ocorrer mais tranquilamente do que hoje, ao menos no tocante a exigências e cobranças deste ente que gera tantos reclames. Porém, como sempre, nem tudo são flores em Terra Brasilis. Algumas coisas estão iguais ao que eram antes.
Paulo Guedes capitaneará a equipe econômica de Bolsonaro. Liberal, vindo da famosa escola de Chicago, um dos fundadores do Banco Pactual e tendo fundado e dirigido empresas e fundos de investimentos, sem dúvidas é um perfil que agrada bastante a quem crê na possibilidade real de reduzir o Estado – dentre outros motivos, por ser alguém que conhece bem o lado das exigêrncias deste.
Se o perfil de Guedes ajuda a fazer acreditar em uma mudança nunca antes vista, dois fatores servem para manter a pulga atrás da orelha que nos faz brasileiros.
Primeiramente, o futuro superministro da Economia nunca ocupou cargo público e, portanto, não tem conhecimento de como opera a máquina pública. Isso em si pode não fazer diferença alguma, mas pode servir de redutor de motivação tanto a ele quanto aos que creem fielmente nos superlativos números anunciados por ele – tais como “um trilhão de reais com venda de empresas”, sendo que, se considerarmos o valor integral de todas as empresas estatais listadas na Bovespa, temos no máximo metade disso (lembrando que o governo não detém 100% desse valor).
Em segundo lugar, o bom o velho corporativismo se fará presente. Observamos uma renovação no legislativo, é verdade, mas tal troca de representantes também engrandeceu bancadas corporativistas, ou seja, que defendem grupos de interesse. Isso também pode não representar problemas, mas é difícil imaginar um cenário em que representantes de um setor sejam partidários de reduzir seus próprios benefícios em prol do país – e essa resistência poderá fazer diferença no final, por exemplo, em reformas como a da previdência.
Jair Bolsonaro terá de demonstrar, ainda em 2019 (preferencialmente dentro dos primeiros três trimestres), que está do lado liberal. Caso contrário, a frustração de expectativas com sua atuação por parte dos mesmos que hoje comemoram sua eleição será imensa. A pergunta de um bilhão de dólares sobre a economia do Brasil em 2019 será: nesse novo governo vence o liberalismo ou o corporativismo?
Publicações deste artigo, que foi escrito em novembro de 2019:
– Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF Franca), Edição 267, Página 44: http://www.acifranca.com.br/SITE/edicao/acif-em-revista-edicao267.html
