Por que estamos demorando tanto para nos recuperarmos da crise?

O ano de 2008 marcou o momento em que o mundo sofreu um dos maiores abalos já vistos pelo capitalismo. No Brasil, nosso presidente daquela época apresentou que, enquanto nos Estados Unidos a crise teria o efeito de uma tsunami, por aqui seria análogo a uma marolinha. Na prática, a frase não era mentirosa: fomos um dos primeiros países a saírem da crise mundial e, dois anos depois dela, crescemos impressionantes 7,5%. Por que o mesmo não acontece agora? Curiosamente, a saída da primeira crise explica a segunda.

Em primeiro lugar, é importante frisar que, economicamente falando, não estamos mais em crise. Segundo o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE – Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), responsável por apresentar quando crises se iniciaram ou terminaram, a última recessão teve fim em dezembro de 2016, após onze trimestres de queda e contração acumulada de 8,6%. A maior crise registrada, dado que a recessão do governo Collor durou onze trimestres e levou a redução de 7,7% e a queda pós-milagre econômico nos anos 1980 durou nove trimestres e gerou encolhimento de 8,5% da economia.

Se a crise oficialmente há pouco mais de dois anos, por que até então a sensação é de que estamos patinando?

Dois fatores ajudam a responder a essa pergunta. O girar da roda da economia depende da mútua alimentação entre a expectativa de que a demanda irá aumentar e a oferta de bens e serviços também se ampliará para acompanhar. Na prática, quem produz aguarda para aumentar sua produção a o desejo de consumir também se aumentar. Esse desejo de consumo é derivado da capacidade de endividamento e também da disponibilidade de recursos no tempo presente.

Pelo lado do endividamento, tanto empresas e famílias quanto o governo têm possibilidades de ação mais reduzidas do que no cenário de 2008. Naquela época, uma das soluções foi ampliar o consumo para manter a produção: o governo abriu mão de receitas (como do IPI para linha branca de eletrodomésticos e veículos) e viu sua dívida bruta aumentar do patamar de 55% para 60%. Atualmente, a dívida ruma para 80% e pode até ultrapassar 100% do PIB nos próximos anos, sinalizando uma imensa redução de margem de manobra. Quanto às pessoas e empresas, o endividamento também é maior na situação atual do que em 2008: cerca de 60% atualmente, frente aos pouco mais de 30% de 2008.

Outra limitação para a roda da economia é a disponibilidade de recursos, que está altamente correlacionada ao desemprego. Atualmente, temos uma taxa de mais de 12% de desempregados – ao passo que tínhamos o menor desemprego da série histórica, cerca de 5%, cerca de dez anos atrás.

Pouca margem de manobra do governo, das pessoas e das empresas somado a uma disponibilidade menor de recursos no tempo presente fazem com que a sensação atual seja a de marasmo pós-crise, não de recuperação. Talvez seja essa a crise que mais demore a gerar o sentimento popular de “agora sim as coisas voltaram a melhorar”.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em fevereiro de 2019:

– Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF Franca), Edição 269, Página 44: http://www.acifranca.com.br/SITE/edicao/acif-em-revista-edicao269.html

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