PRAGMATISMO COMERCIAL: COM A CHINA SIM, COM A ARGENTINA NÃO

Desde sua eleição, Jair Bolsonaro anunciou que o Brasil mudaria os rumos de sua política externa. Parafraseando-o, deixaríamos de nos alinhar com os países “esquerdistas” para enfim voltarmos a ter alinhamento com o mundo desenvolvido. Logo de cara houve um receio: isso significaria, então, que grandes parceiros comerciais seriam deixados de lado, como Argentina (caso voltasse aos tempos Kirchneristas, como de fato veio a ocorrer) e China (por seu sistema político)? Muitos industriais e interessados nas atuais parcerias tremeram por aguardar qual seria o desfecho.

No começo deste trimestre, o presidente realizou uma viagem ao oriente para tratar de, entre outros aspectos, as relações comerciais entre o Brasil e os países de lá. Era o momento de testar se o discurso de “vamos mudar isso daí” entraria em prática. Para surpresa de muitos, o que veio a acontecer foi algo bastante diverso: apesar de não ter assinado grandes acordos, a postura foi de aproximação e amizade, especialmente com a China. Para quem depende direta ou indiretamente dessas relações – e também para quem acredita mais em mercados do que em ideologias -, um resultado positivo. O pragmatismo com o país que nos permite ter um superávit comercial de quase US$25 bilhões apenas em 2019 é importante.

“Ufa, então nosso presidente entendeu a importância de estar alinhado com nossos parceiros comerciais! ”. É, muita calma nessa hora.

Nesta semana há a posse do novo presidente argentino, Alberto Fernández, e, devido a um encontro realizado na semana anterior desse recém-eleito presidente com o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (e também alguns parlamentares de partidos de esquerda), houve certa irritação gerada ao presidente brasileiro que, se desde a eleição já afirmava que não estaria presente na posse, agora desiste de ter qualquer presença no evento, deixando de enviar sequer um ministro para acompanhar o evento como representante do Brasil.

Ainda é muito cedo para afirmar que as relações estejam todas arranhadas e que seja impossível verificar avanços mais adiante. Porém, dois pontos são notáveis sobre essa atitude: em primeiro lugar, a Argentina é um importante parceiro comercial brasileiro – convém relembrar que o Mercosul foi iniciativa dos governos brasileiro e argentino da época; e, em segundo lugar, o recente acordo entre Mercosul e União Europeia, que ficou vinte anos em discussão, pode vir a ser desatado em virtude de discordâncias dentro do nosso próprio bloco, o que seria um retrocesso imenso.

As discussões sobre apoiar ou não os direcionamentos políticos de outros países são longa e não cabem em um curto artigo como este. Porém, algo que precisa estar em mente é que o impacto de “apoiar nações amigas” (como se fez em demasia nos governos anteriores a 2016) ou “apenas fazer alinhamento com quem é desenvolvido, mas não necessariamente é parceiro comercial” (como se tem feito ultimamente em aproximação quase sempre unilateral com os EUA) é praticamente o mesmo: perdemos tempo que poderia estar sendo dispensado em nutrir melhores relações com quem realmente nos faz avançar em termos comerciais.

Não se trata de deixar de lado quaisquer práticas que estejam sendo realizadas dentro dos respectivos países – como a repressão a movimentos que pedem por democracia (a China está fazendo isso com Hong Kong nesse exato momento) ou a retomada de medidas econômicas heterodoxas que já se provaram absolutamente ineficientes (a Argentina já anunciou que tomará esse caminho) -, mas sim de, em termos comerciais, não “desandar o caldo”, principalmente em um momento de, como se anuncia desde o momento da eleição, procurar encaixar nosso país nas cadeias globais de integração e geração de valor.

Em suma: é muito mais válido que procuremos como país o estabelecimento e manutenção de boas relações comerciais que nos sejam capazes de trazer divisas e gerar novos negócios do que perder tempo discutindo ideologias – porque, dessa maneira, a única coisa a se observar de mudança real é o espectro político apoiado.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 09/12/2019

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