SELIC A 4,5%: HORA DE ABANDONAR A POUPANÇA?

Durante essa semana tivemos mais uma queda na taxa básica de juros, a Selic. O Comitê de Política Monetária (COPOM) aplicou um novo corte de 50bps, fazendo com que ela esteja hoje em um patamar nominal nunca antes visto: 4,5% ao ano. Para se ter uma ideia do que isso significa, dois pontos são importantes: em primeiro lugar, há pouco mais de três anos nossa taxa Selic era de 14,25% (ficou nesse patamar entre 30/07/2015 e 19/10/2016); e segundo, a economia apenas com o pagamento de juros da dívida pública em 2020 será próxima de R$100 bilhões, segundo a equipe econômica.

Para além dos diversos aspectos positivos que ter uma taxa de juros mais próxima do que o mundo pratica nos traz, há um ponto que, caso você não esteja pensando ou se protegendo, certamente está perdendo dinheiro. Esse ponto é a alocação de seus recursos em reservas financeiras ou mesmo investimentos.

Com a Selic em 4,5%, a Poupança, que rende 70% dela, apresenta rendimento anual de 3,15% (o que é menor do que a inflação anual, que deve fechar 2019 entre 3,60~3,80%), um investimento que renda 100% do CDI e tenha desconto de imposto de renda terá rendimento aproximado a 3,71% e mesmo aquele bastante vantajoso 120% do CDI não dará nem 4,5% anualmente (encostará em 4,46%).

De posse das informações acima, é muito provável que o leitor já tenha lido em alguns lugares que “a atitude mais urgente a ser tomada é a de tirar todo seu dinheiro da poupança urgentemente”. A questão é de fato urgente, mas é preciso agir com sabedoria. No fim das contas, não é toda quantidade de recursos que deve ser tirada da poupança – pois há maior vantagem em manter nela os recursos de curto prazo do que buscar algo mais rentável, mesmo que tão conservador quanto.

O item mais falado quando o assunto é “o que existe de tão seguro quanto a poupança, mas renda mais do que ela” é o Tesouro Selic. Esse título da dívida pública brasileira lhe paga, como bem diz o nome, a Selic acumulada do período que você mantiver o título. Juntando o fato da Selic ser 4,5% e a Poupança agora render 3,15%, é lógico que você tire todos os seus recursos da velha conhecida Poupança e parta para a dívida pública nacional, certo? É aí que você precisa lembrar de dois detalhes importantíssimos: os impostos incidentes na operação e a necessidade de liquidez.

Tal qual a Poupança, o Tesouro Selic também apresenta liquidez diária, o que significa que você pode literalmente comprar ou vender em qualquer dia útil. Porém, o grande diferencial entre os dois meios de alocar seu dinheiro guardado, é que o primeiro apresenta rendimentos a cada mês e não incidem sobre esses rendimentos impostos (IOF ou IR) e o segundo apresenta rendimentos diários, mas sob a incidência desses impostos.

Partindo do pressuposto que você não conheça esses impostos, o mais importante a saber sobre eles é como eles incidem. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incide sobre os primeiros trinta dias de uma aplicação (de maneira decrescente a cada dia, 96% no primeiro dia, 3% no 29º e depois zero) e o Imposto de Renda (IR) incide de maneira decrescente ao longo do tempo, mas sempre incide (22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 721 dias). Existem outras peculiaridades a depender do fundo que você aplique também que valem ser observadas, como no caso dos Fundos de Ações em que o IR é sempre de 15%.

POIS BEM, ENTÃO COMO SABER O QUANTO DE RECURSOS FAZ SENTIDO AINDA DEIXAR NA POUPANÇA E O QUANTO DEVO ENVIAR PARA OUTROS TIPOS DE ALOCAÇÃO (CONSERVADORA OU NÃO)?

Imagine que suas entradas líquidas (salário, retiradas societárias, aluguéis,etc) totalizem R$5000,00 por mês e seus gastos mensais estejam nas proximidades de R$3500,00 (mas com variação possível de R$500,00 para mais, em determinados meses, podendo ocorrer ou não). Neste caso, seu fluxo de caixa livre está na faixa entre R$1000,00 e 1500,00. Levando em consideração que esses R$500,00 podem sair em qualquer um dos meses, é recomendável que esse valor fique em sua Poupança, enquanto os outros R$1000,00 podem ser alocados, por exemplo, no Tesouro Selic. Isso é o recomendável porque, no fim das contas, os R$500,00 colocados em um mês e retirados dentro desse mesmo mês praticamente empatarão em rendimentos na comparação entre Tesouro Selic e Poupança, dados os impostos pagos. Porém, há de se verificar uma diferença notável entre ambos conforme o tempo avança – e, assim sendo, os recursos que você não precisar mesmo usar no curto prazo ficarão melhor alocados no Tesouro Selic ou em alguma aplicação mais arrojada.

No fim das contas, tudo se relacionará com o controle que você exerce sobre suas próprias contas. É realmente assustador que a Poupança esteja literalmente te fazendo perder poder de compra (já que hoje rende menos do que a inflação), mas de nada adianta, nem em tempo, nem em esforço e muito menos em rendimentos, decidir que não se deve deixar nenhum centavo na Poupança simplesmente por existirem investimentos com rendimentos maiores – basicamente pela questão dos impostos incidentes.

Outra recomendação bastante importante e essencial em tempos de alarde sobre a urgência de tomar alguma atitude em relação a seu dinheiro guardado é a de conhecer seu próprio perfil de investidor (existem diversos testes online, é interessante pesquisar sobre para se conhecer). É tentador imaginar que com a bolsa decolando e a Selic em sua mínima histórica a melhor pedida seja migrar de uma vez para a renda variável – mas os riscos envolvidos precisam ser conhecidos (e sua reação a eles precisa ser estimada, para que um possível arrependimento não venha a ocorrer).

Dados de novembro de 2019 apontam que, hoje, R$825 bilhões estão depositados em contas de Poupança em nosso país. Certamente esse estoque vai se reduzir quanto mais o brasileiro médio se informar sobre o rendimento dessa velha conhecida – mas, como apresentado neste artigo, não é necessariamente a melhor medida que você transfira 100% de seus recursos ali disponíveis, a não ser que queira ter um esforço a mais para praticamente nenhum benefício adicional.

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