Em um movimento observado desde a chegada à Casa Branca, Donald Trump deixou claro que um dos meios de cumprir sua agenda de Fazer a América Grande Novamente era justamente re-negociar a posição dos EUA perante o mundo, especialmente no tocante a mercados internacionais. É sabido que as duas maiores economias do mundo são justamente os Estados Unidos e a China – então, nada mais natural que fosse essa potência asiática o alvo maior dessa nova política.
Entre idas e vindas, tributações sobre centenas de bilhões de dólares em produtos e um balançar de expectativas que deixou o mundo todo à deriva, a fase inicial do acordo assinado entre as partes ocorreu em janeiro de 2020.
Nessa primeira fase nem todos os problemas entre as duas economias foram equalizados – até por isso que existirão fases futuras -, mas o que se destaca por agora é que a China se comprometeu a comprar US$200 bilhões em produtos e serviços americanos nos próximos dois anos, em contrapartida a uma redução de 15% para 7,5% em tarifas sobre o equivalente a US$120 bilhões em produtos chineses.
Caminhando contra a corrente de fechamento de mercados ou renegociações diversas de foco mais nacionalista do que global, tivemos a aprovação de um acordo que se discutia há 20 anos no segundo semestre de 2019, entre o Mercosul e a União Europeia. Por um lado, comemorações em relação ao enorme mercado que isso abre para as duas partes. Por outro, reclamações diretas de quem entende ser prejudicado por tal abertura – pois não teria condições de competir adequadamente.
Os dois casos acima apresentados parecem muito diferentes entre si, mas tratam de uma questão muito importante para a economia: faz diferença que os mercados internacionais funcionem, pois o mundo fica mais barato, a competição estimula melhorias que ainda não haviam sido vistas e, para além disso, demonstra os meios reais pelos quais as regras do jogo precisam ser definidas.
Se é possível elencar um elemento notável na atitude de Trump com sua saga comercial contra a China é o fato de que a propriedade intelectual precisa ser respeitada e não estava sendo, o que impacta mesmo negativamente em relação aos mercados. Mas é notável que só se observa esse tipo de cópia quando o mercado é aberto o suficiente para receber os produtos originais.
Para quem resiste na ideia de que a proteção ao nacional deve mesmo ser mais forte do que o acesso a melhores bens, serviços e práticas que podem vir do exterior, apenas um lembrete já deve ser bastante esclarecedor: as políticas de proteção à informática nacional nos anos 1980 nos deixaram defasados em relação ao mundo.
Aberturas devem sim serem responsáveis e acompanharem a capacidade dos mercados internos de resistirem a elas. Mas é ilusório pensar que elas simplesmente não devem acontecer. Na dúvida, basta olhar tantos setores brasileiros protegidos há décadas e se perguntar: “por qual motivo não temos acesso a produtos e serviços melhores do que esses?”.
Artigo publicado na Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF-Franca)
