CDI AINDA SERVE DE MEDIDA COMPARATIVA AOS INVESTIMENTOS?

“Brasil, o país da renda fixa” é o tipo de frase com a qual sempre estivemos acostumados em Terra Brasilis. E não é para menos: considerando o período em que nosso país apresenta estabilidade de preços (pós-1994, com o Plano Real), sempre se teve como referencial a taxa de juros como comparativo. De uma Selic em dois dígitos quase como regra a um nível de juros nunca antes visto de tão baixo, hoje a temos como inevitável o questionamento que dá título a este artigo.

Usar um comparativo de rendimento de investimentos é um meio importante de observar se sua estratégia ao longo do tempo está ou não sendo eficiente. No fundo, aproximar-se de um índice ou até superá-lo acaba sendo uma medida prática do quanto se tem alcançado em resultados em relação ao que se espera alcançar com sua estratégia.

O que fez historicamente com que ficássemos acostumados a comparar todos os investimentos à evolução da renda fixa é o fato dela sempre ter atraído capital excedente na economia por ter rendimento superior. Em termos práticos: com uma Selic em dois dígitos (vamos supor 12%), um negócio ou ação precisaria suar a camisa para superar tal crescimento anual e “valer a pena o risco” de não deixar o dinheiro aplicado no banco; porém, com o rendimento atual nas proximidades de 4,25% ao ano, muitas alternativas surgem capazes de superar este rendimento.

Outro motivo relevante que explica o porquê de utilizarmos tradicionalmente a renda fixa como benchmark é o fato de que esse dado está mais fácil de ser acessado do que outros índices. Certamente é mais fácil encontrar quem saiba em que proximidade se encontra o CDI (dado que sempre está levemente abaixo da Selic) do que, por exemplo, qual foi a variação no último ano das small caps, do Ibovespa ou ainda no IMOB.

Em todo caso, se ainda não se puder cravar que o Brasil deixou mesmo de ser “o país da renda fixa” (dado que nosso lado fiscal ainda é bastante deficitário e existem reformas importantes ainda a serem tocadas para suavizar com maior firmeza o futuro dos juros no país), pelo menos por enquanto já é possível verificar que o nível atual de rendimento para a renda fixa custa a superar a inflação do período.

Vamos aos números: com a Selic no atual patamar de 4,25%, a poupança passa a ter um rendimento anual de 2,98%, 100% do CDI passam a representar 3,51% e 120% do CDI significam 4,21%. No Boletim Focus mais recente, a expectativa de inflação para 2020 é de 3,25%. Em outras palavras: mesmo se você conseguir 100% do CDI, ainda assim estará basicamente empatando com a inflação – o que faz com que sua alocação não seja nada muito além do que uma manutenção do valor do dinheiro do tempo, com sério risco de ser uma diminuição (considerando que o cenário de inflação possa superar as expectativas positivamente).

Chegamos novamente ao impasse que o título nos traz: então a renda fixa deixou de ser referencial?

O ideal, no fim das contas, é acompanhar com a maior proximidade possível o tipo de investimento que se está fazendo em relação a sua classe própria de ativos. Ou, em termos mais diretos: se você está investindo em ações do Ibovespa, busque comparar o rendimento de sua carteira com o do Ibovespa; se está investindo em fundos imobiliários, compare o rendimento de sua carteira com o IMOB; e assim sucessivamente.

A má notícia de deixarmos de ter a renda fixa como “referencial de ouro” é o fato de que haverá um esforço maior para buscarmos referenciais aos investimentos caso essa estrutura de juros baixos seja mesmo uma nova realidade no Brasil. Mas a melhor parte disso é que diversas oportunidades para fazer seu dinheiro ter ganhos maiores ao longo dos anos acabam por surgir em uma situação como essas.

Se por um lado “acabou a moleza do 1% sem risco por mês”, por outro temos uma oportunidade nunca antes vista no país de ampliar o conhecimento do público em geral sobre como alocar seus recursos guardados ao longo da vida para que, em sua aurora, eles possam lhe prover da melhor maneira possível.

Em suma: passe a comparar os investimentos de acordo com a classe de ativos em que se encontram, não mais apenas com a renda fixa. É mais saudável do que ter a ilusão de que se está com um desempenho excepcional por superar um índice que está muito baixo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 10/02/2020

BREXIT APROVADO: BRITÂNICOS JÁ PODEM COMEMORAR?

Com enredo de novela mexicana (cheio de nuances, idas e vindas, mas com final feliz), a saída do Reino Unido da União Europeia finalmente ocorreu na última semana, ironicamente no final de um mês que parecia não querer acabar em 2020. A vontade do povo – com 51,89% dos votos no plebiscito em 2016 – foi finalmente atendida neste ano, após adiamentos, derrotas políticas, troca de primeiro-ministro e discussões infindáveis no parlamento britânico. Até a rainha Elizabeth II declarou que o ano havia sido conturbado, e tratava o prazo final de 31 de janeiro como prioridade número um do governo (não se esqueça que o sistema britânico ainda é o de monarquia parlamentar, que apesar de simbólico, tem muita influência na política daquela região).

Apesar do atraso na definição do tema, finalmente o resultado das urnas chegou de fato a uma definição concreta: o Reino Unido não faz mais parte da União Europeia. E com isso, algumas questões permanecem sem respostas aparentes, mas que deverão ser solucionadas nos próximos 11 meses, no qual os termos do divórcio serão implementados, que envolvem acordos comerciais, segurança, a livre circulação de pessoas, entre outros assuntos.

Relativo ao comércio, com o Brexit valendo temos o Reino Unido com permissão de fazer acordos diretos com quem quiser – o Mercosul, por exemplo, já se movimenta na direção de um possível acordo futuro. Porém, importante ressaltar que apesar dessa liberdade maior de negociar com o resto do mundo, no curto prazo de onze meses deverão ser verificados todos os aspectos do comércio com o continente logo ao lado. Parece algo “já resolvido”, mas, observando com cuidado o enorme tempo tomado apenas para que a separação ocorresse, não deverá ser algo tão trivial negociar algo tão mais complexo.

Dois breves episódios – talvez meramente simbólicos, mas que podem significar algo – demonstram como a saída comemorada pelos britânicos talvez não seja tão fácil de lidar. Nigel Farage, um dos representantes do Reino Unido no Parlamento Europeu (e líder do partido que trabalhou pelo Brexit ativamente), quando do discurso final anunciando a partida teve a ideia de levantar bandeiras nacionais para dar adeus àquela entidade e, por esse motivo, teve seu microfone silenciado por Mairead McGuinness, que tocava a sessão; como se pouco fosse, ainda ouviu dela: “tirem essas bandeiras daqui e as levem com vocês já que estão indo embora”. Curioso que, por coincidência, o microfone de Farage foi cortado bem no momento em que ele anunciava o anseio de negociação comercial “como soberanos” entre o Reino Unido e a União Europeia.

Outro caso, dessa vez mais cômico, foi o do selo postal comemorativo da Áustria. Para celebrar a saída do Reino Unido da União Europeia, uma cutucada sutil: selos postais com a data do Brexit e o mapa do continente em azul (com exceção, é claro, dos que acabaram de sair do bloco). A parte mais curiosa deste caso é que os selos já estavam prontos para serem lançados em outra data, 29 de março de 2019 – mas como veio a ocorrer mesmo em 31 de janeiro de 2020, a outra data impressa aparece riscada. Um recado bastante sincero de que a saída já era mesmo dada como certa e só se aguardava a concretização para ser celebrada.

Por falar em celebração, por mais que em algumas partes houvesse quem tenha se desapontado com a decisão, muita comemoração pela saída pode ser vista na terra da rainha. A decisão democrática do povo é soberana e foi respeitada, mesmo que tenha demorado tanto tempo e custado tanto capital político – lembremos que, nesse meio do caminho, até queda de primeira ministra tivemos (Theresa May).

Outro aspecto notável de mudança com essa saída: agora a política de circulação de pessoas também será livre. Segundo o que se levantou até então, uma das medidas a serem tomadas pelo Reino Unido será a atração de imigrantes qualificados. Essa questão também não será fácil, porque alteraria o atual fluxo mais livre de entrada de imigrantes ao qual a União Europeia está acostumada.

Nesta coluna você deve ter verificado como acompanhamos a saga do Brexit em alguns momentos diferentes. Foram três artigos: um sobre as incertezas que esse evento acaba por gerar, um segundo apresentando que mesmo caso não se concretizasse já teria causado instabilidades irreversíveis e um terceiro, de outubro de 2019, questionando se finalmente a complicada saída seria enfim concretizada. De fato, como nos artigos que já tivemos aqui no Blog da Guide a respeito do assunto, há incertezas em jogo, o balançar de tabuleiro político faz com que algumas marcas não possam mais ser desfeitas e, agora, há um agravante: os onze meses para que as mudanças sejam acordadas realmente são o prazo final (uma vez que o Reino Unido já se encontra fora da União Europeia e, dessa vez, não há adiamento).

No final das contas, reforça-se, a vontade do povo foi soberanamente respeitada. Resta saber, nos próximos meses, o quanto a comemoração pelo alívio da saída terá valido a pena em melhorias reais quando se concretizar por completo a partir de 2021.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 03/02/2020

NO IBOV O ASSUNTO É CORREÇÃO no Terraço em Quinze Minutos #150

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Paulo André, Renata Velloso e Pedro Lula Mota com os seguintes temas: resumo do Brasil no Fórum Mundial Econômico em Davos, Coronavírus (atualização da maior incerteza de 2020 até então) e queda nas bolsas mundo a fora. Não deixe de acessar todos os conteúdos do Terraço Econômico em terracoeconomico.com.br

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