PRIMEIRO O URGENTE, MAS NÃO SE ESQUEÇA DO IMPORTANTE

Não se trata de nenhuma novidade o fato de que o Brasil passa por uma grave crise fiscal há anos. Neste ano de 2020 caminhamos para o sétimo ano seguido em déficit fiscal, o que é a maior sequência negativa de nossa história. Mas é imperativo lembrar a diferença entre o que é importante e o que é urgente.

Importante é aquilo que você deve ter em mente para melhorar ao longo do tempo. Urgente é o que aparece no meio da trajetória e demanda que toda a sua atenção esteja focada, ou o importante, no fim das contas, nem terá sequer oportunidade de ser tratado mais adiante.

A situação atual do coronavírus no Brasil parece contornável, mas, seguindo a curva de casos ocorridos em outros países, mostra que estamos perdendo tempo em não caminharmos para um lockdown por aqui. Em diversos lugares estão fechando escolas, shopping centers, serviços não essenciais. Mas, no fundo, ainda parece haver certa resistência em dizer “por favor, fiquem em casa e só saiam em extremo caso de necessidade”.

Essa resistência tem nome. Ela se chama economia. E sim, a economia é muito importante.

Muitos colocam como argumento que não é possível que todos fiquem em casa porque, afinal de contas, “como é que vão fazer com as contas que seguirão chegando?”. De novo: economia realmente importa, o meio como as pessoas fazem para pagar suas contas também. Isso é claro.

Ainda assim, é preciso pensar em uma coisa: terá valido a pena ir contra o que as melhores práticas para reduzir a ampliação de um pandemia recomendam? Qual será a vantagem de ter sua receita mantida mas fazer parte da continuidade de transmissão de um vírus que afeta todo o mundo com uma rapidez assustadora?

Em 16 de março os casos fora da China superaram os que lá ocorreram. Na Itália, país mais afetado em número de casos após a China, já temos a superação em número de mortos do país onde começou a pandemia. Observando a curva de novos casos, no Brasil é possível que acabemos por superar a Itália – e, se lá o sistema de saúde já mostra sinais extremos de esgotamento, não é difícil imaginar o que pode ocorrer por aqui se não tomarmos medidas urgentes.

Mesmo em um país com o lado fiscal bastante estourado como o nosso, o urgente mostra-se notável diante do importante. Em entrevista para a CBN nesta quinta-feira, Mansueto Almeida, Secretário do Tesouro, lembrou sobre isso. “A meta é oferecer a ajuda que for necessária para superarmos esse momento de crise”. A União, mesmo diante de todas as dificuldades que passa há anos (o que não é diferente dos Estados e Municípios), estará atenta para oferecer o máximo de auxílio que puder. Neste ano, de fato a meta fiscal ficou para depois diante do enorme desafio que enfrentaremos.

E sabe qual a diferença de não esquecer do importante? Isso facilita muito as coisas quando o urgente acontece. Vejamos por exemplo o caso da Alemanha, que segundo sua premiê Angela Merkel enfrenta seu maior desafio desde a Segunda Guerra Mundial. Por lá, graças a existir um colchão de superávits fiscais seguidos, o país será capaz de oferecer, literalmente, ajuda ilimitada a empresas (liberando, logo de início, US$550 bilhões).

Voltemos para o nosso caso. É possível que, diante dos esforços realizados mundo a fora em termos de liquidez aos mercados e crédito direto a empresas, alguém por aqui diga: “e como o Brasil não consegue fazer a mesma coisa?”. A resposta está no entorno deste artigo: por aqui, ao longo dos anos, o importante não se faz presente, então o urgente assusta ainda mais. É exatamente por isso que precisamos seguir reformando logo após toda essa tempestade passar. Só assim, focando no importante, estaremos mais preparados para quaisquer urgências que surgirem mais adiante.

Mercados estão aí e seguirão existindo após toda essa pandemia. Ganhar dinheiro em sua atividade é algo que também vai seguir existindo. Torcemos fortemente para que um abalo deste tamanho ofereça o menor dano possível ao cenário econômico. Torcemos ainda mais para que o urgente, que é o controlar a disseminação deste vírus, possa se colocar mesmo que momentaneamente à frente do importante que é manter a economia seguindo em frente.

Podendo trabalhar de casa, trabalhe. Podendo evitar o contato com outras pessoas, evite. Quanto mais fizermos (nós, o poder público e as empresas) para reduzir a disseminação desta pandemia, mais cedo nos veremos livres deste urgente para podermos focar no que é importante. O risco de não fazermos nossa parte chama-se caos.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 20/03/2020

Reformas econômicas em 2020: prioridade importa

Prioridade é uma palavra complicada no Brasil. Segundo o dicionário, ela indica preferência, primazia, colocar em primeiro lugar na ordem. Mas, por aqui, não necessariamente a palavra dita significa um encaminhamento de ações realizado.

Desde Temer nosso país mostra-se disposto a uma guinada reformista. De fato temos reformas aprovadas: TJLP virou TLP, reforma trabalhista, teto de gastos e reforma previdenciária são alguns exemplos. Para além dos passos dados é sabido que ainda há uma miríade de assuntos a serem resolvidos. Dentre eles, os dois principais elencados são a reforma administrativa e a reforma tributária.

Desde a aprovação em primeiro turno da reforma previdenciária na Câmara dos Deputados (com fortes indícios de que não haveria o que impedisse mais que ela fosse finalmente aprovada em seguida) já se começava a discutir o ritmo pós-previdência de reformas. Logo de imediato as duas, tributária e administrativa, apareceram no radar.

É nesse ponto que começam a aparecer complicações. Em primeiro lugar, apesar das duas reformas terem apoio popular, nenhuma das duas apresenta consenso majoritário do que deveriam atacar. Na tributária temos a divisão entre modelos de imposto sobre valor agregado e imposto único. Na administrativa há uma imensidão de temas que podem ser tocados e, mesmo que apenas sirvam para quem entrar no serviço público a partir delas, ainda assim teremos um forte lobby do corporativismo por não alterações sobre isso.

Para além da disputa de narrativas – tal qual foi com a previdência e o “tem ou não tem déficit” -, cada uma dessas reformas abre um leque sobre as possibilidades do que se pode fazer. Não há um direto caminho e, dado que haverá ainda discussão democrática ampla sobre cada um dos assuntos, não é tão lógico assim imaginar que serão processos rápidos em termos de tramitação.

Duas angústias se somam a isso. A primeira: estamos em ano eleitoral e, como ocorre nesses anos, parte sensível do parlamento estará dedicada a suas bases eleitorais de agosto/setembro até o fim do período eleitoral (ou seja, o ano legislativo acaba sendo mais curto). A segunda: quando não se verifica atraso no envio de propostas (a administrativa se aventa de ser enviada desde o terceiro trimestre de 2019 e já sofreu vários adiamentos), encontra-se sobreposição de ideias (a tributária têm projetos da Câmara, do Senado e do Executivo, não parece trivial “unir os pontos” das três).

Reforça-se que o país está mesmo em ritmo reformista desde Temer e deu passos importantes como a notável aprovação da reforma previdenciária no primeiro ano de Bolsonaro. Mas é preciso ter em mente que o ímpeto de reformar, apesar de necessário, não é suficiente para que as reformas de fato ocorram. E, para além disso, é preciso priorizar. Pense: será que a reforma previdenciária teria passado em 2019 caso disputasse diariamente os holofotes com uma ou até duas outras reformas? Pessoalmente creio que não. E é por isso que, quando o assunto for reformar, prioridade importa. Importa muito.

 

Publicado na Revista da ACIF-Franca. Link para acesso.

FELIPE DA VÉRIOS INVESTIMENTOS no Terraço em Quinze Minutos #158

Nesta edição especial, Caio Augusto acompanhou Felipe Sotto-Maior, CEO da Vérios Investimentos, nos seguintes assuntos:

– Como a empresa de vocês analisa o atual momento do mercado financeiro?

– Do ponto de vista do investidor pessoa física, qual a atitude mais recomendada nesses momentos de alta volatilidade?

– Como está sendo o comportamento das carteiras da Vérios nesse momento?

Conheça sobre a Vérios no site deles: verios.com.br (https://verios.com.br/)

Não se esqueça também de conferir todos os nossos conteúdos em nosso portal, o terracoeconomico.com.br (https://terracoeconomico.com.br/)

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LOCKDOWN: É POSSÍVEL FECHAR O BRASIL?

Uma doença que inicialmente surgiu na província chinesa de Wuhan, o Coronavírus, espalhou-se rapidamente por toda a região. De maneira igualmente rápida, o vírus da doença, que passou a ser intitulada como Covid-19, tornou-se internacional, chegando a outros países asiáticos, e, posteriormente, “desembarcando” também em países da Europa e da América do Sul e do Norte.

Covid-19que alcançou status de pandemia, também chegou ao Brasil, por enquanto não com a mesma intensidade que países como Coreia do Sul, Itália, Espanha e EUA, mas esse cenário tende a se alterar com a situação no Brasil agravando-se dentro de poucos meses, momento em que a transmissão da doença estará no pico por aqui. Assim, considerando essa previsão quase inevitável – realizada com base em fontes confiáveis -, o que fazer?

Infelizmente, não existe uma solução pronta e fácil para combater um problema com tamanha complexidade, – nesses casos, o remédio costuma ser tão amargo quanto a própria doença -, mas, por sorte, ainda há a opção de acompanhar práticas que já estão sendo adotadas – e com algum nível de sucesso – em outros países. O que vem sendo posto em prática por países como Itália, Espanha e França é um lockdown a nível nacional. Esses países se fecharam, sendo restringida a abertura de comércios e até mesmo a movimentação de pessoas pelas ruas. De maneira geral, e salvo algumas exceções, a regra é ficar em casa, evitando-se ao máximo qualquer tipo de aglomeração e contato social. Outros dois exemplos de considerável sucesso são Singapura e Coreia do Sul, que focaram em testar o máximo de pessoas possível para o coronavírus e também restringir fortemente eventos e aglomerações..

Em Terra Brasilis, a coisa parece ser diferente do resto do mundo: protestos neste domingo, dia 15/03, levaram até o Presidente da República a sair do isolamento em que se encontrava e cumprimentar alguns apoiadores. Nada contra os protestos, independente de qual natureza e orientação política sejam. Mas é no mínimo assustador e irresponsável que aquele que deveria representar o exemplo máximo do país faça o contrário do que se recomenda em tempos de pandemia, principalmente levando em conta o contato direto que teve com pessoas contaminadas com o vírus nos últimos dias.

Em um momento que demanda bastante cuidado, é preciso no mínimo se questionar: não seria correto partirmos para um lockdown no Brasil?

É bem claro que um lockdown nacional não é uma solução simples, trata-se de uma medida drástica com implicações bastante amplas, sobretudo para o campo da Economia. Para compreender melhor isso, basta que façamos um simples exercício mental, imaginando lojas fechadas, aeroportos com voos cancelados e hotéis vazios. Tudo isso se choca diretamente contra os princípios básicos da Economia, entre os quais estão a importância do livre comércio.

A ameaça de uma disseminação do Covid-19 no Brasil já foi o suficiente para derrubar a Ibovespa. Trata-se de um tombo histórico de 39%, resultado pantagruélico que pegou de surpresa analistas de mercado experientes, algo que mostrou a pujança de uma doença encarada inicialmente – de forma totalmente errônea – como um simples resfriado. No caso de uma epidemia, no sentido estrito do termo, os impactos são impossíveis de prever.

Para combater o Covid-19 algo drástico e rápido deve ser feito, muito diferente da letargia atual de grande parte dos governantes e da população em geral, que ainda continua negligenciando os efeitos dessa pandemia. Nesse contexto, um lockdown no Brasil parece ser algo inevitável, senão agora, mas num futuro muito próximo.

Ou então podemos aguardar. O que tem potencialmente um elevado custo econômico, social e de saúde. Em caso de dúvidas, veja a situação da saúde da Itália e se pergunte com sinceridade se vale a pena arriscarmos o mesmo por aqui.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 16/03/2020

CIRCUIT COMBO BREAKER no Terraço em Quinze Minutos #157

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Rachel de Sá e Renata Velloso com os seguintes temas: OPEP quebrou o cartel e o petróleo desabou, Coronavírus com Itália totalmente parada e o mundo acompanhando a contaminação aumentar (exceto a China, que está reduzindo), atualização sobre as primárias Democratas nos EUA e VIX (o Índice do Medo, que mede a volatilidade) nos maiores níveis desde 2008. Não deixe de acessar todos os conteúdos do Terraço Econômico em terracoeconomico.com.br

 

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O QUE É POUPANÇA?

A frase “saia da poupança, ela está te fazendo perder dinheiro!” foi, quando o assunto são as finanças pessoais, uma das coisas que mais foram ditas em 2019. Aqui nesta coluna, ao final do ano passado, você viu que, apesar de pouco valorizada e realmente pouco rentável, ainda existem motivos para você não desistir da mais tradicional alocação de dinheiro guardado no país.

Mas, para além de frases feitas e discursos diretos de que você não deveria fazer parte dela, você sabe como funciona a Poupança? Tal qual nosso recente artigo sobre o Tesouro Direto, agora você terá maior conhecimento real sobre esse investimento (considerando que seja ele “investimento” ou sem as aspas mesmo).

COMO FUNCIONA A POUPANÇA?

 A Caderneta de Poupança (ou simplesmente Poupança) é uma espécie de conta bancária que apresenta menos funções do que uma conta corrente, estando basicamente presente na ideia de receber aportes que sirvam para uma salvaguarda futura de recursos. Está intimamente ligada ao verbo poupar, que seria literalmente guardar recursos, separá-los para uso futuro.

O rendimento da poupança ocorre de modo diferente do que a grande maioria dos investimentos: ele ocorre por aniversário. Funciona da seguinte maneira: a aplicação na poupança sendo, vamos supor, em um dia cinco de um mês, o rendimento só ocorrerá no dia cinco do próximo mês (não todos os dias). Caso você decida retirar os recursos aportados um dia antes do aniversário da poupança (o dia quatro, neste caso hipotético aqui apresentado), sacará os recursos sem rendimento algum.

Em termos de custos, é fácil de entender como a Poupança é tão popular: por lei, esse é um dos poucos meios de se juntar dinheiro que não apresenta custo nem de abertura, nem de manutenção. Além disso, a poupança também não tem Imposto de Renda. Na prática, o maior custo (se é que podemos chamar dessa maneira) é você aportar recursos e não aguardar a chegada do aniversário deles, pois, desta maneira, o dinheiro terá ficado parado sem rendimento no tempo.

Para fazer uma conta poupança você precisa ter contato com um banco comercial. Pode ser desde os bancos mais tradicionais até os bancos digitais. De novo: sem custo para abrir ou mesmo manter aberta essa conta.

A liquidez da poupança é outro fator que ajuda a entender como esse investimento é popular: ela ocorre em todo dia útil. Você pode aportar ou resgatar recursos dela todos os dias úteis. Isso faz com que, apesar de termos tido um episódio assustador de confisco destes recursos durante o governo Collor, essa alocação siga sendo tradicional porque apresenta “custo zero” e disponibilidade para saque a qualquer momento. Praticamente todos os outros tipos de investimento tem pelo menos alguma restrição temporal a saque e, neste caso, a liquidez/disponibilidade é sempre imediata.

Ainda no que se fala sobre a segurança da Poupança, é o fato de que ela entra nas possibilidades de garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Esse fundo, que é uma entidade privada sem fins lucrativos, faz o “socorro” dos recursos em caso de falência da instituição (até o limite de R$250.000,00 por CPF por instituição bancária). Isso aumenta a segurança de alocar recursos nesse investimento.

QUAL É O RENDIMENTO DA POUPANÇA?

rendimento da poupança hoje, alvo cada vez mais presente de polêmicas, tem relação com a Selic. Segundo as normas vigentes, caso a Taxa Selic esteja em mais de 8,5% ao ano, os juros da Poupança serão de 0,5% + Taxa Referencial (TR) ao mês (desde 2008 a TR é 0%). Para o caso da Selic estar em 8,5% ou menos, o rendimento passa a ser de 70% dela + a TR.

Em valores atualizados, peguemos fevereiro de 2020: o rendimento mensal da poupança foi de 0,2446%. Tendo em vista que a inflação para o mesmo período foi de 0,25%, podemos perceber que investir na poupança deve ser algo para um prazo mais curto (com foco mesmo em poupar mais do que necessariamente investir), porque ao longo do tempo, com consideráveis chances, se manter na Poupança significará perder dinheiro no tempo.

Um meio bastante eficiente e rápido de verificar o rendimento da poupança em um período é pela Calculadora do Cidadão do Banco Central. Com essa calculadora poupança e simulador poupança, basta inserir a data inicial, a data final e o valor a ser corrigido para encontrar o valor final levando em conta o rendimento do período.

QUAIS AS VANTAGENS E AS DESVANTAGENS DA POUPANÇA?

 Em termos gerais, as vantagens são a segurança (garantida pelo FGC), a liquidez (aportar ou resgatar todo dia útil) e os custos baixos (é isenta de Imposto de Renda). As desvantagens estão em ter os rendimentos ocorrendo apenas a cada aniversário (não diariamente), o custo de oportunidade de ter seu dinheiro alocado ali (tendo em vista que existem outros investimentos tão seguros quanto e com rendimento superior, como o Tesouro Direto) e o fato de que, com o atual nível da Selic, ser um investimento que perde para a inflação, ou seja, apresenta perda real ao longo do tempo.

VALE A PENA INVESTIR NA POUPANÇA?

 Levando em consideração o quanto rende a poupança – que, frisamos, perde para a inflação em boa parte do tempo agora – e a possibilidade de poder investir em outros meios tão seguros quanto (até por não existir risco da poupança) e com rendimentos maiores (o Tesouro Direto, por exemplo), é válido pensar na Poupança como um meio adequado de manter um caixa que não tenha zero rendimento. Ou, mais diretamente: vale mais usar a Poupança como meio de poupar dinheiro do que necessariamente de investí-lo.

CONHEÇA INVESTIMENTOS MELHORES QUE A POUPANÇA

 Como já apresentamos durante o artigo, e também mostramos em outro guia, temos o Tesouro Direto como opção de realmente focar em investimento com segurança. A segurança é a mesma da Poupança (não por ser garantido pelo FGC, mas sendo garantido pelo próprio Tesouro Nacional) e apresenta rendimentos maiores (o Tesouro Selic, por exemplo, entrega o rendimento da Selic no período, o que supera a inflação).

EM OUTRAS PALAVRAS…

 Aquele que é o investimento mais tradicional do Brasil mas que nos anos recentes foi tão achincalhado segue merecendo sua atenção. É sempre válido manter uma disponibilidade de recursos, seja para ser usado em alguma emergência ou em alguma oportunidade. Para este aspecto, a boa e velha Poupança continua sendo uma excelente opção.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 13/03/2020

OBECON VEM AÍ no Terraço em Quinze Minutos #156

Nesta edição especial, Caio Augusto acompanhou Gabriel e Tomás Aguirre sobre a Olimpíada Brasileira de Economia (OBECON), nos seguintes assuntos: como surgiu a ideia de uma Olimpíada de Economia (nacional e internacionalmente), como funciona a edição brasileira e qual a experiência de participar de uma (Aguirre nos conta seu caminho entre ter participado e sido medalhista tanto das edições nacional quanto da internacional). As inscrições para a OBECON 2020 estão abertas até 14 de março e você pode verificar todas as informações no site dos nossos parceiros: https://obecon.org/ Não se esqueça também de conferir todos os nossos conteúdos em nosso portal, o terracoeconomico.com.br

 

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NOVO GRANDE PROBLEMA DE 2020: PETRÓLEO DESABANDO

Entramos em 2020 pensando em qual fim teria as tensões comerciais entre China e Estados Unidos. Acordo assinado ainda em janeiro (mesmo que uma fase inicial, ainda dependendo de outros arranjos). Pronto, sorrimos felizes e o bullmarket continuava. Ledo engano. Temos entre alguns dos leitores, certamente, até saudosistas dos tempos em que um acordo comercial conseguiria encaminhar as coisas adequadamente.

Pois bem. O ano que já se mostrava atípico, dados os efeitos da paralisação inicialmente chinesa e agora de diversos outros locais no mundo em função do novo coronavírus (covid19), agora se vê diante de uma nova grande complexidade: em reunião da OPEP, a organização dos maiores produtores de petróleo do mundo, não houve acordo entre russos e sauditas para controle de oferta. Resultado prático? Não executarão ações diante do preço que já vinha caindo desde o início do ano e, adicionalmente, iniciaram uma guerra de preços entre si e não irão controlar a produção (para que o preço torne a se elevar).

Esse desequilíbrio todo mostrou sua conta logo no domingo. Considerando a cotação do Petróleo Brent (britânico), na noite deste domingo (08/03) a cotação caía quase 25%, com o barril nas proximidades de US$34; no caso do Petróleo WTI (norte-americano), a queda superou 25,5% e o barril esteve nas proximidades de US$30. Apenas para ter uma ideia do tamanho dessa queda, os preços de Brent e WTI começaram 2020, respectivamente, em US$66,26 e US$61,30. Tal queda advinda do não-acordo do final de semana foi a maior desde 1991 e a maior neste século (superando o ataque de 11 de setembro de 2001). Uma imensa e relevante queda.

Por qual motivo isso entra no radar como sendo o grande problema que temos em 2020 até agora? Porque dada a desaceleração que já vinha ocorrendo no mundo desenvolvido da virada do ano pra cá somado aos efeitos de redução ainda maior com as paralisações do coronavírus, com mais esse efeito negativo sobre essa commodity tão relevante na economia fica improvável prever que as bolsas consigam ter poder de reação – especificamente no caso dos EUA, porque isso irá no final enfraquecer a indústria do petróleo por fraqueamento (o shale oil), que precisa de preços mais elevados para ser financeiramente viável, sem contar a participação relevante da indústria do petróleo em termos de geração de crédito e empregos por lá, que certamente será afetada com essa diminuição de preços.

Segundo análise da Morgan Stanley, é possível que esta guerra interna na OPEP e sua consequente queda vertiginosa nos preços do petróleo seja problema ainda maior do que o coronavírus. Sob a ótica microeconômica da Teoria da Firma, podemos visualizar o motivo: quando há a formação de um cartel para decidir produção ou mesmo os preços diretamente, a figura mais importante para a continuidade do esquema é a confiança; isso porque, caso um dos agentes decida deixar o cartel, iniciar-se-á uma guerra de preços que levará a zero todo o excedente que existia por parte dos participantes deste. Com esse elo de confiança quebrado, ao menos por enquanto, apenas o que se pode esperar é uma guerra de preços com efeitos consideráveis para o resto do mundo.

Uma pergunta que pode ser levantada pelo leitor é: como a Petrobras pratica precificação interna de acordo com os preços internacionais do petróleo, na prática veremos os combustíveis terem seus preços reduzidos por aqui? Essa não é uma pergunta trivial, mas podemos ter uma dica do que acontece olhando os dados do petróleo em US$ e do dólar. Utilizando o Brent como referência:

 

  • – 05/01/2020 – Petróleo Brent em US$68,42 e dólar em R$4,06 (em R$ então, 277,79)
  • – 08/03/2020 – Petróleo Brent em US$36,05 e dólar em R$4,63 (em R$, 166,55).

 

É possível verificar que o efeito da queda do petróleo (especialmente dessa mais recente) é maior do que a alta do dólar. Isso sugere que os preços que vemos na bomba de combustível devem diminuir para diesel e gasolina.

De fato, como já discutimos aqui nesta coluna e iniciamos o artigo falando, uma desaceleração no mundo desenvolvido já estava no radar desde o ano passado. Seja por meio de uma forte recessão ou mesmo de um soft landing, a expectativa era mesmo que pudéssemos observar uma redução no crescimento neste ano. Mas o que fatores como a guerra comercial entre EUA e China (que agora parece nem existir mais, mesmo que não esteja concluída), o coronavírus e o desabar dos preços do petróleo fazem é, na prática, acelerar a aterrissagem. E é nessa queda vertiginosa que está o grande perigo de 2020.

Se há um conselho prudente, nessa analogia aérea, este seria: mantenham os cintos apertados, porque a turbulência está longe de cessar.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 09/03/2020

O QUE É TESOURO DIRETO?

“Saia da poupança! O Tesouro Direto rende mais do que ela e tem a mesma segurança!”. Certamente você já leu ou ouviu essa frase por aí, especialmente em tempos de Selic na mínima nominal histórica. Com esse guia pretendemos fazer com que você possa, definitivamente, romper com a inércia e enfim tomar uma atitude de mudança.

 O Tesouro Direto tem origem em 2002. Trata-se de um programa cuja ideia é democratizar o acesso a títulos públicos – que são papéis da dívida do governo. Anteriormente a esse programa apenas era possível comprar títulos inteiros da dívida pública mas, com ele, é possível comprar 1% desses títulos. Tudo isso como um investimento seguro (dado que os investimentos são devidos pelo Tesouro Nacional, um risco soberano), digital (basta ter conta em uma corretora para fazer as compras e vendas) e flexível (uma vez que você pode comprar e vender todos os dias, conforme sua necessidade).

Mas tudo isso custa caro? Pois bem: como apresentamos, o Tesouro Direto te permite comprar 1% de um título público. Na prática, isso significa que com menos de R$50,00 você pode começar a investir no Tesouro Direto. Veja os valores para alguns dos títulos encontrados no site do Tesouro Direto na tarde do dia 05/03 (um dia antes da publicação deste artigo) com cada prazo de resgate:

Respondendo a pergunta do parágrafo anterior: se for bem ver, não custa tão caro assim, você consegue investir também.

COMO FUNCIONA O TESOURO DIRETO?

Para poder comprar e vender títulos no Tesouro Direto basta que você tenha um CPF e uma conta em uma corretora. As operações acontecem em todos os dias úteis, das 09h30 às 18h, utilizando preços e taxas do momento presente da transação. Bastando ter os recursos mínimos para o fazer – e mostramos anteriormente que não são tão elevados – e cumprindo os outros dois requisitos aqui apresentados, você já está apto para atuar no Tesouro Direto.

TIPOS DE TÍTULOS PÚBLICOS NO TESOURO DIRETO

 A história do Tesouro Direto nos mostra que até poucos anos atrás os títulos lembravam uma sopa de letrinhas. Buscando deixar seus conceitos ainda mais diretos, os nomes foram alterados para que se tornem mais intuitivos ao investidor, contribuindo ainda mais para a democratização desse investimento. Os nomes atuais estarão aqui, mas os tradicionais estarão entre parênteses junto deles.

Dentre os tipos apresentados, há basicamente duas vertentes: os pré-fixados, para os quais há uma taxa pré-definida de rendimento dos títulos no momento da compra e você sabe exatamente quanto vai receber no vencimento, e os pós-fixados, nos quais o rendimento varia ao longo do tempo em função da inflação e da Taxa Selic, sendo que a rentabilidade definida por é equivalente apenas a variação desse índice referencial ou é relacionado a variação de um índice referencial mais uma taxa fixa (esse último caso, o título é considerado híbrido, pois contempla aspectos dos títulos pré e pós).

Além disso, há duas possibilidades de recebimento do valor investido: todo ele no momento do vencimento ou com juros pagos semestralmente e mais o valor do vencimento na data final. Lembrando que, como já dito, você pode comprar e vender esses títulos todos os dias úteis, não precisando manter até o vencimento.

Títulos pré-fixados
Tesouro Prefixado (LTN)
 – Também conhecido como Letra do Tesouro Nacional, uma vez adquirido, você já conhece sua rentabilidade anual no momento da compra; recebimento ocorre apenas no vencimento.
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais (NTN-F) – Também conhecido como Nota do Tesouro Nacional Série F, assim como o anterior, já apresenta sua rentabilidade no momento da compra, mas o diferencial é que distribui juros semestralmente; recebimento dele ocorre semestralmente e no momento do vencimento.

Títulos pós-fixados

Tesouro Selic (LFT) – A rentabilidade diária deste título (também chamado de

Letra Financeira do Tesouro) está vinculada à Taxa Selic (ou seja: o rendimento que você terá com este título é o da Selic no período que você o mantiver); recebimento ocorre apenas no vencimento.

Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B) – Este título (também chamado de

Nota do Tesouro Nacional série B) tem rentabilidade atrelada à inflação (IPCA) somado a uma taxa conhecida de juros no momento da aquisição do título; seu recebimento ocorre em juros semestrais e também no momento do vencimento.

Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal) – Neste título a rentabilidade está na inflação (IPCA) somada a uma taxa conhecida no momento da aquisição, com a diferença do anterior sendo o momento do recebimento (que aqui ocorre apenas no momento do vencimento).

QUAL É O MELHOR TÍTULO PARA INVESTIR?

 O melhor título e qual tesouro direto é mais rentável vai depender, no fundo, de seu horizonte de investimentos e de como você categoriza sua carteira, de acordo com as informações na hora da compra. Trazendo para o bom português: se seu objetivo for formar uma reserva de emergências ou uma disponibilidade de caixa, o Tesouro Selic é boa pedida, porque possui rendimento diário na Selic e isso significa que, na briga Tesouro Direto X poupança, ganhar da poupança com segurança ainda maior que ela (lembrando que quem garante esses títulos em custódia e pagamento é o Tesouro Nacional).

Considerando que seu horizonte de investimentos é mais longo, cabe observar as perspectivas de mercado para os fatores de inflação (IPCA) e Selic.

Caso esteja mais adiante uma possibilidade de que os juros atuais se reduzam, é interessante ter títulos pré-fixados, dado que garantem seu rendimento com os juros atuais e você ganhará esse mesmo rendimento ainda que a economia toda esteja rodando em valores menores. Hoje a Selic está em 4,25% e, por mais que o cenário para novas quedas ainda esteja em aberto, talvez elas não sejam tão sensíveis. Mas olhando para um período turbulento, como o de janeiro de 2016, fica mais fácil observar: naquela época tínhamos títulos pré-fixados pagando cerca de 16% ao ano; quem comprou aqueles títulos naquele momento (havia títulos com vencimentos em 2019, 2023 e 2027) e quem ainda os têm continua a ter esse rendimento pré-fixado combinado até hoje, independente da Selic nas mínimas que vemos agora.

Porém, caso a expectativa futura seja de uma manutenção da situação econômica em termos de taxas de juros de inflação ou mesmo uma possibilidade de alta nos juros prevista para o futuro, vale estar posicionado nos títulos pós-fixados, que, conforme já apresentado, têm seu rendimento atrelado a essas outras taxas.

Importante notar aqui que há dois aspectos a serem observados: o rendimento do título e o seu valor presente. De acordo com a fórmula do Valor Presente (que é, na prática, o trazer de fluxos de caixa esperados para o tempo atual), quanto maior os juros de um título, menor seu valor presente. Ou seja: é importante notar que estes “ganhos ou perdas” estão vinculados a segurar os títulos até o vencimento, uma vez que, caso resgate o tesouro direto antes do vencimento, títulos vendidos no meio do período, podem ocasionar tanto em ganhos quanto em perdas em função de movimentos de curto prazo. Em função dessas oscilações, por exemplo, tivemos em 2019 três títulos do Tesouro Direto que superaram o Ibovespa (e olha que tudo isso ocorreu em pleno bull market na renda variável brasileira).

No fim das contas, o Tesouro Direto é uma possibilidade acessível de investimentos a longo prazo. Você pode sim adquirir e vender títulos todos os dias úteis, mas os rendimentos mais sólidos se dão ao longo do tempo.

COMO INVESTIR NO TESOURO DIRETO?

E, depois disso tudo, você deve estar se perguntando como começar a investir no Tesouro Direto. Como já apresentamos, para investir no Tesouro Direto você precisa ter um CPF e uma conta em corretora. O investimento mínimo é referente a 1% do valor dos títulos disponíveis e, nas atuais circunstâncias, isso significa que com mais de R$30,00 você já está apto para começar a investir.

O rendimento do Tesouro Direto depende do título ser pré ou pós-fixado, mas, ainda que o indexador possa variar, a rentabilidade desta categoria é apresentada logo no momento da aquisição. Por exemplo: o Tesouro Selic é o Tesouro indexado à taxa Selic que rende a taxa do período que você ficar com ele, o Tesouro IPCA+ rende uma taxa acertada neste dia mais a variação da inflação no período e o Tesouro Prefixado rende aquela taxa combinada anualmente. O único título que você tem certeza total do rendimento é o pré-fixado, pois os pós-fixados estarão atrelados ao IPCA ou a Selic, que variam ao longo do tempo. E, também como já dito: você observará o rendimento do título pré-fixado se ficar com o título até o vencimento, caso contrário, estará sujeito a oscilações do mercado caso opte por vendê-lo ao longo do tempo.

O resgate no Tesouro Direto ocorre por solicitação direta a sua corretora e o horário em que as transações ocorrem está entre 09h30 e 18h dos dias úteis, ou seja, o Tesouro Direto tem liquidez diária.

QUAIS OS RISCOS DO TESOURO DIRETO?

São basicamente três.

O de menor possibilidade é o Tesouro Nacional decidir não honrar a dívida pública. A possibilidade disso ocorrer é baixíssima, dado que esses títulos dão “lastro” a diversos outros do sistema bancário (como o próprio CDB dos bancos).

O de possibilidade um pouco maior é o de uma mudança na política econômica que altere radicalmente a situação da inflação e da Selic. Com isso, poderão haver mudanças sensíveis caso o título não seja pré-fixado. Um exemplo: se a inflação apontar para cima e demandar que a Selic suba, uma alta dos atuais 4,25% para 10% reduziria consideravelmente o valor presente dos títulos pré-fixados.

O que está sempre presente é o de oscilação dos preços diários. Como já apresentamos, a rentabilidade, seja ela pré ou pós-fixada, refere-se ao que o título irá entregar até seu vencimento. Porém, no meio do caminho compras e vendas são realizadas todos os dias e, nessas transações, os valores e as taxas do tesouro direto variam. Com isso, você pode acabar tendo um rendimento bem acima ou bem abaixo do “combinado” no momento da aquisição, em virtude dessas transações que ocorrem diariamente.

QUAIS AS VANTAGENS DE INVESTIR NO TESOURO DIRETO?

 Praticidade, facilidade, rendimentos diários (ao contrário do “apenas no aniversário” que a poupança oferece) e, principalmente, o Tesouro Direto é seguro.

COMO DECLARAR O TESOURO DIRETO NO IMPOSTO DE RENDA?

 Os títulos do Tesouro Direto devem aparecer em dois locais na sua declaração de imposto de renda. Primeiramente, deve ser declarada na parte de Bens e Direitos, contendo o saldo da aplicação em 31/12/2019. Se você tiver saldo em duas corretoras diferentes, os valores devem ser declarados em linhas separadas.

Se tiver havido algum pagamento de juros ou mesmo do principal dos títulos, os valores ganhos devem ser declarados na parte Rendimentos Sujeitos à Tributação Exclusiva. É importante salientar que no informe de rendimentos que você recebe da sua corretora / banco esses valores já estão destacados no documento. Assim, é só copiar e colar os valores no Software da Receita.

 Simule um investimento no Tesouro Direto

 Hoje em dia há diversos sites que simulam o quanto você ganharia ao investir determinada quantia em algum título do tesouro por determinado período. Como sugestão, deixamos aos leitores o ótimo simulador de investimentos do próprio site do Tesouro Federal, disponível aqui.

Com todas essas informações em mãos, esperamos que você se sinta mais confortável no investimento no Tesouro Direto!

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 06/03/2020