Como será a recuperação econômica pós-coronavírus?

Começamos o artigo já com algo que o leitor deve ficar ciente caso ainda não esteja: 2020 será um ano de recessão global. As previsões mais amplas indicam que este ano que acaba de entrar em seu segundo trimestre será negativo para o mundo todo. Sem muita tecnicidade, é razoavelmente fácil explicar: China teve uma forte paralisação por quase dois meses e meio e o mundo desenvolvido, que já desacelerava desde o ano passado, vê a diminuição de movimento suave virar uma queda abrupta.

Dado que teremos um período recessivo, a pergunta que não quer calar é: há algum meio de saber como vamos sair desse período e como será a recuperação quando tudo isso passar?

Em primeiro lugar, tenha em mente que, diferentemente da crise internacional de 2008 ou da crise que tivemos por aqui no biênio 2015-2016, as razões pelas quais nos encontramos em situação complicada vão muito além do fator econômico. O aspecto da saúde faz com que, na prática, seja muito mais complexo de verificar cenários de recuperação. Feito o disclaimer, vamos para essas possibilidades.

Estudo recente da consultoria McKinsey apresenta algumas possibilidades de recuperação pós-coronavírus. Dentre as possibilidades elencadas, a análise realizada se concentra em quatro cenários mais prováveis: considerando que o vírus seja contido poderemos ter uma recuperação lenta (“em U”) ou uma recuperação rápida (“em V”) e, levando em conta que o vírus terá novas ondas que demandarão períodos de quarentena após o que atualmente estamos vivendo, uma recuperação lenta significa um crescimento menor no longo prazo e uma recuperação mais rápida significa que, mesmo aos trancos e barrancos, o mundo terá capacidade de retomar o crescimento em curtos ciclos. Outros cenários tidos como menos prováveis vão desde uma queda consistente da economia até um atraso considerável de tempo para recuperação total da economia.

O aspecto estratégico a ser considerado nesta recuperação envolve dois aspectos importantes.

O que importa para sairmos dessa situação?

O primeiro é a capacidade de cada país de contenção do avanço do vírus. Enquanto na China a situação parece ser de retomada (embora com receio e lentidão), na Europa alguns países  têm visto os efeitos da pandemia começarem a se reduzir, nos Estados Unidos a doença se alastra e faz com que Trump já sinalize esticar a quarentena até o fim de abril e, por aqui, a situação de não coordenação nacional faz com que cada estado decida de maneira autônoma. Por este lado, diferentes soluções são tentadas, embora grande parte delas caminhem para o isolamento social horizontal e a testagem da maior quantidade de pessoas possível. Importante apontar aqui que falamos de um cenário em que ainda não se sabe exatamente como o comportamento do vírus é em se tratando de novas ondas de contaminação – o que reforça ainda mais a ideia de que o isolamento social não deve ser descartado até que exista uma segurança maior para deixá-lo de lado.

Um ponto a ser observado a respeito deste primeiro tópico é um estudo que analisou a reação dos países à gripe espanhola (entre 1918 e 1920): segundo ele, os países que fizeram uma política mais adequada de isolamento social tiveram como resultado uma recuperação econômica mais robusta, isso porque os danos econômicos e sociais com a doença em si acabaram sendo menos disseminados do que onde a ideia foi permitir uma circulação inalterada da população.

O segundo coloca todos os países do mundo em uma mesma situação: a busca por uma vacina que seja eficaz contra o vírus ou mesmo contra remédios que consigam reduzir consideravelmente o tempo de internação nos hospitais (o que é, no fim das contas, um dos maiores aspectos de preocupação mundo afora). Apesar de já termos algumas discussões sobre soluções prováveis (como a hidroxicloroquina tão falada pelo presidente), é importante frisar que o período atual é de testes sobre a eficácia de quaisquer soluções. De fato temos uma parte importante da comunidade científica diariamente sobre essa urgente questão mas, novamente, o que se tem até então são intensos testes, sem confirmações reais do que pode ser mais útil.

Apesar de ainda nada confirmado sobre este segundo aspecto, dois fatores mostram como os avanços já podem ser algum sinal de esperança: a Johnson & Johnson anunciou estar em fase de testes de uma vacina que pode vir a ser lançada no início de 2021 e a Bill & Melinda Gates Foundation anunciou que está construindo sete fábricas diferentes para testar vacinas que possam ser eficazes.

Especialmente sobre esse segundo tópico, a entrevista com Bill Gates apresenta algo pouco intuitivo para a maioria de nós mas que, para quem pensa adiante, talvez seja trivial: serão gastos bilhões de dólares para construir fábricas que, no fim das contas, talvez nem sejam utilizadas; porém, se uma delas der certo (e seis ficarem sem utilidade, ao menos inicialmente), trilhões de dólares em perdas econômicas poderão ser revertidas – ou seja, o cálculo no fim mostra que o esforço valerá a pena porque cada mês economizado contará.

Em termos de prazo, o que podemos esperar?

Do que depender do esforço dos países, o que se tem até então é que um lockdown parece mesmo mais interessante para encaminhar um achatamento da curva de contaminação e permitir que os sistemas de saúde possam lidar melhor com a situação toda. Em relação ao esforço internacional que está sendo empenhado para encontrar um tratamento/cura para este vírus, a não ser que algo muito fora da curva ocorra, apenas entre o final deste ano e o início do próximo teremos algo próximo de uma vacina (e, quanto ao remédio, nos próximos meses é possível que tenhamos maiores confirmações).

Neste mês de abril a contaminação e a mortalidade devem aumentar sensivelmente em nosso país. Seguimos recomendando fortemente que, sendo possível que você não saia de sua casa, o faça. É muito mais seguro levando em consideração tudo que conhecemos até agora deste vírus.

Afinal de contas, como já dissemos aqui nesta coluna, apesar dos impactos do atual momento sobre os mercados, uma hora essa crise vai passar e vamos poder, dadas as novas circunstâncias do mundo, retomar as atividades. Ganhar dinheiro é algo que pode (e provavelmente vai) mudar depois disso tudo. Mas a alternativa a não fazermos nossa parte reduzindo as atividades agora é o caos mais adiante.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 06/04/2020

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