Cisnes negros em 2020: pouso suave que virou queda livre

Errei. Inicio este artigo com essa informação importante. Mas o faço porque tenho motivo. Na virada de 2019 para 2020, os maiores riscos observados para o mundo eram as eleições nos EUA e a guerra comercial entre os americanos e os chineses e, por aqui, a continuidade das reformas e as eleições municipais (questionando se seria possível aprovar mesmo com o calendário mais curto). No entanto, o que fazia de 2020 um ano potencialmente mais lento em termos de crescimento econômico, principalmente no mundo desenvolvido que já desacelera desde o terceiro trimestre de 2019, se transformou em um cenário totalmente adverso e intenso.

Cisne Negro é um conceito cunhado por Nassim Taleb em um livro homônimo e significa todo e qualquer evento que, por não ser esperado, acaba por pegar todo mundo desprevenido e despreparado. Afinal de contas, mesmo os mais cautelosos acabam sendo atingidos fortemente.

2020 até então (e tomara que pare por aí) nos trouxe dois deles.

O coronavírus (ou Covid-19), doença contagiosa que se iniciou na China e se espalha pelo globo com uma velocidade avassaladora, coloca todo e qualquer tipo de previsão de crescimento ou desaceleração que vinha sendo elencada em suspensão. O Brasil, por exemplo, que começou o ano com previsão de crescimento no Boletim Focus nas proximidades de 2,3%, já vê previsões de grandes bancos circundando 0%. De “isso é um PIBinho” para “não ter recessão já era um alívio”. Isso ocorreu dentro de um mesmo trimestre.

A OPEP, organização (também chamada de cartel) dos maiores produtores do petróleo, em reunião no início de março chegou a um impasse. Russos demandavam uma redução da produção para que os preços pudessem retornar a subir, Sauditas discordavam disso. Resultado? Preços do petróleo que já vinham em queda desde a virada do ano em função de redução da demanda afundaram. Com isso, a cadeia produtiva que envolve essa commodity é fortemente afetada e, junto dela, também a de outras commodities.

Estes dois acontecimentos mudam radicalmente as previsões que existiam até poucos meses atrás para o crescimento do Brasil e do resto do mundo. Isso acontece porque enquanto o primeiro representa literal paralisação de países que optaram por fechar fronteiras e isolar suas populações para reduzir o contágio do vírus, o segundo mostra como um dos pilares de estabilidade e crescimento tem se comportado diante dessa desaceleração e também da quebra do cartel de petróleo.

Tudo que se pode recomendar em um momento como esse é cautela. Cautela de quem emprega, cautela de quem é empregado, cautela de quem presta serviço, de quem contrata serviço. Seguir as recomendações médicas mais adequadas para reduzirmos ao máximo os danos desse vírus (econômicos, sociais, humanos, totais).

O pouco que podemos ter de certeza agora é que o pouso suave que se anunciava para a economia virou uma queda livre.

 

Artigo publicado na Edição 280 (Abril de 2018) da ACIF em Revista, página 12

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