Dentro do campo das previsões econômicas brasileiras temos um apanhado de dados apontados pelo mercado publicado semanalmente pelo Banco Central. É o Boletim Focus, divulgado nas manhãs de segunda-feira com expectativas de agentes do mercado para métricas como PIB, taxa Selic, câmbio e IGP-M (variáveis que estão presentes na vida de todos nós).
Até aí tudo bem, é realmente interessante que se tenha um acompanhamento do tipo. O problema é que, tal qual sobre as previsões mais amplas dos economistas, muitos têm um reclame sempre presente: o de que “não adianta nada olhar para o Focus porque ele nunca acontece”. Se você também está nesse time, tenho uma boa notícia pra você: há sim motivos para se acompanhar o Focus semanalmente.
É correto afirmar que as previsões que lá constam não vão acertar “a mosca”. Para ser bem sincero, é difícil ter quem em uma determinada altura do ano consiga acertar tantos dados assim com uma precisão impressionante. Ainda mais em um país como nosso em que a estabilidade passa bem longe de ser uma realidade. Apenas para ilustrar o que digo: menos de três anos após superar dois dígitos a inflação se colocou abaixo do centro da meta e de lá não saiu mais; a taxa básica de juros saiu de um patamar bastante elevado para seu mínimo nominal histórico em menos de quatro anos; e o câmbio, bem, saiu de uma faixa inferior a R$3,00 para ter como “novo normal” a faixa de R$4,00~R$4,50+.
Então, pra começo de conversa, sim estão corretos os que dizem que o Focus não acerta suas previsões. Em um país como o nosso, estranho mesmo seria que o um boletim semanal em qualquer altura do ano conseguisse cravar dados econômicos do final do mesmo (ou até dos próximos).
Mas então o que devemos olhar no Boletim Focus?
Há dois itens importantes a serem observados no boletim semanal de expectativas de mercado: a tendência entre boletins (e a que os anos futuros mostram) e o que dizem as cinco instituições que mais acertam (chamado Top 5).
Quanto ao primeiro ponto, a razão é bastante simples e direta: você pode estar informado sobre os dados que se têm atualmente ou pode estar focado no que eles vêm dizendo ao longo do tempo. Com uma chance não desprezível, caso você esteja no segundo caso, ficará menos surpreso com outras variáveis que nem estão lá. Um exemplo: caso você acompanhe a trajetória das expectativas para o PIB vai perceber que nos últimos anos mesmo com início otimista vemos um desinchar de expectativas ao longo do período; isso mostra como é preciso focar em avanços reais da economia e não em anúncios de que “estamos decolando”. Sobre esse lado, realmente você será menos enganado pelas os ruídos da economia e ficará mais a par das verdadeiras mensagens dela.
Já em relação ao segundo ponto, como medida de alinhamento de expectativas o Banco Central reúne as expectativas das cinco instituições financeiras que mais têm acertado em um anexo da divulgação semanal. Com isso, você pode ficar a par não só das expectativas gerais como também daquelas que provavelmente mais se aproximarão da realidade. Esse “foco dentro do foco” pode ajudar, por exemplo, a verificar se as instituições mais certeiras estão de acordo com os termos gerais ou são mais otimistas/pessimistas que o mercado em geral. Na edição que foi publicada nesta segunda-feira, por exemplo, enquanto o mercado visualiza a taxa Selic em 3,25% para o final de 2020, as instituições que mais acertam já veem essa taxa encerrando o período em 2,75%, tudo isso pela expectativa de que o IPCA deste ano já esteja rumando para 2% (e então haveria espaço para que a taxa, atualmente em 3,75%, caísse tanto assim).
Então olho ou não o Focus toda semana?
Temos, no fim das contas, que a crítica sobre os dados do Focus não é incorreta porque ele realmente não “acerta os dados”. Porém, levando em consideração que sua ideia seja a de estar mais por dentro das previsões econômicas para o ano (e também os próximos) e não querendo discutir o sexo dos anjos do “decolar do crescimento brasileiro” (como com certa frequência fazem as equipes econômicas de qualquer governo por aqui), não deixe de lado esse relatório publicado semanalmente.
A tendência importa e o direcionamento das instituições que mais têm acertado também. Com isso você realmente pode estar mais informado do que muitos que ouvem apenas o barulho e juram que estão vendo alguma imagem.
O Focus também está aqui no canal da Guide. O Focus sai toda segunda-feira no relatório Mercados Hoje atualizado. Acompanhe para entender melhor o que estamos apresentando!
