Em mais um evento de sexta-feira – essas que, em Terra Brasilis, andam tão emocionantes quando o assunto é a política -, tivemos a divulgação na íntegra de um vídeo revelador.
Para quem não acompanhou, um pequeno resumo dos fatos: Sergio Moro anunciou em 24 de abril (uma sexta-feira) sua decisão de sair do Ministério da Justiça e Segurança Pública após saber da decisão de que o diretor da Polícia Federal seria trocado por Jair Bolsonaro e, dentre outros motivos, o fez porque afirmou discordar das intenções do presidente em interferir no órgão. Uma das provas dessa interferência seria o vídeo de uma reunião ministerial ocorrida dois dias antes, além de mensagens trocadas entre os dois.
Após toda uma saga que envolveu um longo depoimento (quase oito horas) de Sergio Moro na Polícia Federal em Curitiba para apresentar suas provas, todas as atenções se voltaram para o juiz do STF que estava com a decisão de levantar ou não o sigilo do tal vídeo. Celso de Mello o fez na última sexta-feira.
Uma semana toda de tensões antecedeu o momento em que tivemos a suspensão do sigilo e a seguinte publicização do mesmo. Bolsonaro apareceu algumas vezes dando a entender que queria que o vídeo fosse inteiramente apresentado, outras dizendo que isso não poderia ser feito. A defesa de Moro insistia que o vídeo deveria ser todo colocado para a sociedade. Então chegamos às proximidades do horário limite de divulgação (17h da última sexta-feira).
O que tinha no tal vídeo?
O país assistiu a uma reunião ministerial com nível elevado de tensão, em que o presidente cobrava de seus subordinados que fizessem uma defesa pública dos pilares de seu governo e também de sua figura quando essa fosse arranhada de alguma forma. Diversos palavrões foram ditos também, mas isso era o de menos.
Alguns dos itens apontados por Sergio Moro se fizeram presentes, mas, no todo, o saldo parece apontar para uma vitória política de Jair Bolsonaro. Essa vitória política ocorre porque, no fim das contas, os discursos de que o povo estaria sob uma “quase ditadura” dos governadores e prefeitos, acaba por assinalar a visão que muitas pessoas no país têm de que muitas atividades econômicas estão paradas não pelo efeito da pandemia, mas porque esses chefes de poderes executivos subnacionais ordenaram o fechamento de tudo – ao contrário do que o presidente preconiza.
Uma reunião com ares de “grava aí que depois vamos utilizar isso”, cheia de frases feitas e direcionamentos que indicam uma preocupação elevada do presidente com seu povo e como este estaria sofrendo com a situação. No caso, a situação que causaria o sofrimento seria a da economia parada, dado que apenas em duas situações isoladas de todo o evento o coronavírus foi citado, pelo ex-ministro Nelson Teich.
O que não tinha no vídeo?
Por mais que no momento em que a reunião tenha ocorrido um número alarmante de casos e crescente de mortos já se verificava no país, não se verifica nesta extensa reunião uma discussão mais ampla do que deveria ser feito em termos de protocolos de saúde ou de qualquer natureza para que a situação pudesse ser encaminhada rumo a um novo normal.
Aparentemente não é um erro de análise indicar que em nosso país o último assunto da pauta seja justamente o que está sendo mais discutido ao redor do mundo.
Quando a crise chega, não há espaço para conversa fiada
Conversa fiada, para o leitor que eventualmente não saiba, é aquela cujo objetivo é justamente se esvair de si mesma, chegando a lugar nenhum. Sem medo de arriscar, boa parte da condução do poder público com a pandemia do Covid-19 por aqui envolve encontrar culpados mais do que resolver os problemas.
No curto prazo de algumas semanas isso poderá fazer sentido. Atualmente, após esse vídeo, a impressão de que o presidente do país nada tem a ver com o que se passa e, na verdade, só queria ajudar o povo, provavelmente prevalecerá. As culpas sobre o aumento nas mortes e a crise econômica cairão sobre o colo de prefeitos e governadores. O discurso está pronto.
Porém, nos próximos meses duas coisas notáveis devem ocorrer.
A primeira é que a arrecadação de impostos cairá vertiginosamente – o que já acontece agora, já que a arrecadação federal de abril foi a menor desde 2006. Contra isso não haverá remédio: serviços públicos começarão a não ter mais capacidade e algo que nunca havia acontecido em termos gerais no país passará a acontecer: acabará o dinheiro para pagar até salários do funcionalismo.
A segunda: com a reabertura de tudo devemos observar uma queda na demanda advinda de um receio das pessoas de voltarem “ao normal” ou mesmo de uma volta abrupta a tudo que se conhecia antes seguida de um aumento elevado no número de casos e mortes seguida de um isolamento voluntário, independente de direcionamentos de governadores e prefeitos. Somente neste momento observar-se-á que a redução da atividade econômica se deu na verdade pelo coronavírus, não por ordem de quem quer que seja de fechamento de atividades que envolvam aglomeração.
No momento em que esse duplo impacto atingir o país a estratégia de passar a culpa no lugar de procurar como solucionar o problema poderá seguir na mesa. Mas com uma diferença fundamental: até quem não tiver “sentido no bolso” estará reclamando quando isso acontecer.
O aprendizado disso tudo
O mundo discute protocolos de segurança enquanto por aqui discutimos quem seria o culpado de tudo. É como ver uma casa pegando fogo e, em vez de ligar para os bombeiros, começar a brigarmos uns com os outros sobre quem esqueceu de chamar o eletricista para verificar aquele fio desencapado que estava fazendo um barulho esquisito.
Temos chances não desprezíveis de sermos um dos últimos países a sair dessa situação toda. Optamos por deixar a política como assunto principal mesmo quando o foco deveria ser lidar mais adequadamente com este período de travessia ou mesmo sobre como sairemos dessa situação com segurança mais adiante.
Novamente: no curto prazo, enquanto ainda há uma forte ilusão de que “logo tudo volta ao normal”, a ideia de procurar culpados em vez de soluções para os problemas serve como uma luva; o mesmo provavelmente não poderá ser dito quando o dinheiro acabar – tanto em termos de arrecadação do governo quanto do caixa das empresas para segurar esse período – e “de repente descobrimos” que perdemos tempo com qualquer coisa menos o que deveríamos ter perdido.
Ou, como diz aquela clássica frase de Abraham Lincoln:
“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo.”
Até quando irá a ilusão em que vive a política brasileira, de achar que pode enganar a todos o tempo todo?
Qualquer que seja o calendário em que essa viva, não é difícil imaginar que em poucos meses tenhamos a dura resposta dessa pergunta.
