Flexibilidade no mercado de trabalho importa

Ao final do mês anterior tivemos a divulgação do CAGED de abril deste ano e, através destes dados do saldo entre empregos criados e desfeitos, vimos que o Brasil perdeu apenas em um mês 860 mil postos de trabalho com carteira assinada. Nesta mesma coluna você viu, logo em seguida, uma breve análise que tratava de como apesar deste número ser bastante negativo, em termos práticos, ele ser menos danoso do que poderia em virtude de dois programas governamentais criados para que as empresas possam superar a crise sem um aumento relevante do desemprego.

Na semana anterior, um dado também sobre o mercado de trabalho – mas desta vez do norte-americano – chamou a atenção: embora aguardando um aumento no desemprego em cerca de oito milhões de vagas, na verdade o que aconteceu foi a geração de 2,5 milhões delas. O número surpreendeu a todos e acabou gerando um impulso nos mercados globais tendo em vista que uma recuperação mais rápida do que o esperado estaria por acontecer, pelo menos no mercado americano..

Antes de apresentar a ideia deste artigo sobre o que significam esses dados (do abril brasileiro e do maio norte-americano), duas ressalvas específicas sobre o que foi divulgado na semana passada: em primeiro lugar, esse dado é de curto prazo e não necessariamente reflete que toda a recuperação já possa ser precificada, uma vez que, ainda que se trate de um bom sinal no curto prazo, é importante frisar que a informação mais relevante para precificação dos ativos agora, que é “até quando vai essa desaceleração e como entraremos no novo normal” ainda é desconhecida. Em segundo lugar, um aspecto técnico da medição dos dados pode significar que, na verdade, que o desemprego por lá é maior do que diz esse último relatório, já que algumas milhões de pessoas podem ter sido incorretamente categorizadas como não-desempregadas.

O que significa este desemprego?

Ressalvas feitas, vamos ao ponto principal: o que o desemprego de 860 mil pessoas no abril brasileiro e a geração de 2,5 milhões de vagas no maio norte-americano têm a nos apresentar? Que a flexibilidade no mercado de trabalho importa. Por flexibilidade no mercado de trabalho entenda: a facilidade, em termos de burocracia e de todos os custos envolvidos, entre a contratação e a demissão de pessoas para trabalharem em uma empresa.

Em nosso país temos um código de regras bastante específico e cheio de nuances a respeito de como devem ser feitas as contratações e demissões e, para além disso, temos custos diversos tanto para contratar quanto para demitir. Nos EUA, a realidade é mais flexível neste aspecto e há maior facilidade em qualquer uma das duas coisas. Sob essa ótica aqui apresentada, temos então que o mercado de trabalho brasileiro é mais rígido e o norte-americano mais flexível.

Essa flexibilidade costuma ser encarada como um meio de desproteger os empregos, dado que os coloca sob um crivo muito mais simples e suscetível a mudanças de curto prazo. De fato esse ponto existe e, em períodos extraordinários como o que vivemos, deve ser levado em consideração. Porém, essa “dificuldade adicional em contratar e demitir” no Brasil coloca um ponto que não necessariamente é lembrado: essa rigidez dificulta as operações das empresas porque não permite que a adaptabilidade seja tão rápida quanto muitas vezes é necessário.

Observando diretamente a gestão das empresas no Brasil, muitas vezes se encontra o seguinte dilema: diante de uma elevação na demanda, vale a pena utilizar mais completamente a capacidade de seus colaboradores ou prontamente contratar mais pessoas e, tendo em vista uma queda na demanda, vale a pena demitir as pessoas para readequar ou esperar que a demanda retome? Nesta parte o leitor deve estar pensando: “então, por isso que ajuda a proteger os empregos”. Sim, ajuda, mas nada faz pelas pessoas que seguirão desempregadas, apenas pelas que já estão empregadas – e com o regime comum de carteira assinada, veja que não estamos aqui nem falando dos informais, que cresceram fortemente nos últimos anos, dentre outros aspectos, também por essa dificuldade (e pelos custos) em se formalizar.

Em uma realidade como a dos EUA, por exemplo, a facilidade entre iniciar e rescindir contratos de trabalho permite que, na prática, um aumento ou queda de demanda tenha reflexos em resultados mais rápidos sobre o mercado de trabalho.

Com esta diferenciação entre os dois mercados de trabalho e a rigidez de cada um podemos apresentar a seguinte questão: a flexibilização neste mercado tem relação direta com momentos de crise ou de crescimento econômico se refletem na geração ou redução de empregos. E a relação é a seguinte: quanto mais flexível é contratar e demitir, mais rápidos os efeitos se darão sobre a taxa de desemprego em momentos de recessão ou de recuperação.

Vamos aos dados: no Brasil, que ainda não havia se recuperado da crise que vivemos em 2015-2016 antes mesmo do coronavírus apresentar seus efeitos por aqui, nossa taxa de desemprego se manteve em dois dígitos desde então – e encerramos 2019 com 11%, taxa essa que já está mais alta hoje, aproximando-se de 13%. Nos EUA, dado o vigor econômico dos últimos anos, a taxa de desemprego estava em 4,4% em março e saltou para 14,7% em abril, tendo recuado neste momento, levando em consideração a apuração correta dos dados, para cerca de 13%.

O que podemos extrair destes dados? Que o forte efeito recessivo de curto prazo advindo do coronavírus foi sentido mais bruscamente nos EUA do que por aqui, dada a flexibilidade maior no mercado de trabalho deles. O que podemos prever a partir dos dados de maio? Que a recuperação econômica no novo normal tende a ter efeitos mais rápidos de redução do desemprego nos EUA do que no Brasil.

Isso significa que direitos trabalhistas devem ser desconsiderados? Não necessariamente. Mas sim que, em eventuais reformas que busquem de fato tornar nosso mercado de trabalho mais dinâmico, a facilitação de contratações e demissões deveria entrar em pauta de maneira mais madura.

Ou então, tal qual vimos ocorrer da crise de 2015-2016 pra cá (e veremos em vários dos próximos anos), acompanharemos um aumento do desemprego no curto prazo seguido de uma desalentadora queda neste aspecto que tanto impacta para a renda da economia.

Que possamos pensar de maneira madura sobre como a proteção aos que estão empregados pode, infelizmente, significar um impasse a mais para aqueles que não estão. Pois, no fim do dia, quem não pode demitir com facilidade certamente não contratará com facilidade.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 08/06/2020

Tempos extraordinárias, medidas extraordinárias

Não deve ser novidade ao leitor desta coluna que o Brasil não desempenha adequadamente a lida com seu orçamento público há anos – 2020, reforço, será o sétimo ano seguido em déficit primário. Mas este ano não é um ano regular. Passamos atualmente por um momento absolutamente extraordinário e, como demandado nesses períodos, medidas também são.

Essas medidas envolvem diretamente uma atuação do governo como agente que mudanças e sustentação durante um período que, até então, não se sabe quando terá fim. E, mesmo que tenhamos a consciência de que nossa situação fiscal não permite amplos programas, é justamente do Estado que alguma ação precisa sair em um momento como esse.

Existem dois tipos de medidas possíveis: as de direcionamento e as que envolvem desembolsos (estes que, segundo Relatório de Acompanhamento Fiscal de maio/2020 do Instituto Fiscal Independente do Senado, o IFI, levarão o déficit deste ano a R$671,8 bilhões). No primeiro tipo o que podemos observar é um complexo emaranhado de confusões entre instâncias diferentes (federal, estaduais e municipais), dando uma verdadeira aula ao mundo do que não fazer em termos de coordenação. Já no segundo tipo, temos alguns avanços, mas ainda há muito o que se estudar – e escolhas complexas terão de ser feitas muito rapidamente.

No que tange aos desembolsos do governo neste momento, três aspectos demandam atenção direta. O primeiro é o da vulnerabilidade: pessoas sem renda ou com renda informal precisam sobreviver a este período, então temos o auxílio emergencial (ou coronavoucher), este que atualmente teve duas parcelas pagas (abril e maio), terá certamente uma terceira (junho) e estuda-se ficar presente por mais alguns meses. O segundo é o dos entes públicos subnacionais: as receitas dos estados e municípios podem ficar em média 30% menores neste ano e, sem um socorro federal, faltará dinheiro para que diversos serviços públicos possam ser tocados. Já o terceiro é o do setor privado e, neste, as escolhas não são tão triviais.

Provavelmente não é novidade ao leitor que nosso país tenha diversos setores altamente concentrados e que demandam mais competição para que o consumidor saísse mais beneficiado. Porém, alguns desses setores sofreram e ainda sofrerão muito com os efeitos dessa pandemia e do novo normal que a acompanha. Um exemplo rápido é o setor aéreo: praticamente três empresas dominam o setor no Brasil e a decisão de que devemos simplesmente deixá-las quebrarem – já que estão faturando praticamente zero neste período e talvez demorem a voltar aos patamares anteriores – não é trivial porque possivelmente destruiria toda uma cadeia de conexões territoriais no país. É por isso que o governo, acertadamente, estuda ser sócio de algumas delas para ajudar a passar essa fase.

Mais importante do que as decisões tomadas agora, em tempos de pandemia, é lembrar que elas não podem servir de subterfúgio para planos malfadados do passado. Ou, em termos mais diretos: medidas extraordinárias para tempos extraordinários, para que não repitamos 2008 – em que tais medidas, que de fato aliviaram a economia, acabaram virando um suposto moto-perpétuo que foi até 2014 (e cujos efeitos de irresponsabilidade sentimos até hoje).

 

Publicado na edição de Junho de 2020 da Revista da ACIF Franca (Página 52)

Gestão de negócios e a pandemia: com o que você se importa?

A pandemia do coronavírus tem trazido diversos pensamentos e aflorado reações em todas as esferas possíveis. Uma que não passa em branco, justamente por ser seriamente afetada, é a econômica. Afinal de contas, o fechamento de muitos negócios – seja por exigência dos governos, queda da demanda ou mesmo por espontaneidade dos gestores das empresas – afeta sim. Definitivamente não é situação fácil ter de jogar seu faturamento a zero ou quase zero por alguma motivação que independe do seu próprio negócio.

Neste momento em que flexibilizações da quarentena começam a acontecer em diversos lugares do Brasil e do mundo, mesmo levando em consideração que ainda não temos tratamento comprovadamente eficaz ou mesmo uma imunização contra o coronavírus, uma pergunta bastante delicada está na mesa de todos os gestores de negócios: é seguro abrir as portas agora?

Importante fazer a ressalva de que há negócios que são da chamada cadeia essencial e permaneceram abertos por todo esse período em que outros ficaram fechados. Nestes negócios há chances consideráveis de que a gestão já tenha (ou esteja muito próxima de) encontrado meios de aumentar a segurança de quem trabalha na empresa e de quem transaciona com ela de qualquer maneira. Também notável lembrar que, nessa caminhada a um novo normal, demandas já estão diferentes e quem não buscar se adaptar acreditando que “tudo voltará ao que era antes” tem chances não desprezíveis de se decepcionar. Terceiro ponto importante: muitos negócios já quebraram nesse período e os que estão aguentando as pontas devem estar loucos para retornar as atividades.

Ressalvas feitas, voltemos a pergunta: a depender da região em que você se encontra e do estado da pandemia ao seu redor, vale a pena reabrir as portas e voltar a faturar agora?

Mark Cuban, empreendedor dono do time de basquete Dallas Mavericks, recentemente soltou uma frase que faz muito sentido nesse momento: “como você trata seus empregados hoje [nesse período de pandemia] terá mais impacto sobre sua marca no futuro do que qualquer propaganda ou qualquer outra coisa que você tentar fazer”. É uma frase forte e bastante ampla, que importa muito para quem gere negócios. Na média, como você faz essa gestão importa o tempo todo. Mas, você se importa com períodos extraordinários também?

Em um mar de exemplos que sinalizam que talvez não se importe tanto assim com quem trabalha com você ou quem se utiliza de seus produtos e serviços – com reaberturas em momento precoce puramente baseadas no argumento “é preciso ganhar dinheiro” -, alguns exemplos chamam a atenção, como o desse bar em Ourinhos: em anúncio pelo Instagram informou aos seus clientes a decisão de, mesmo com flexibilização autorizada pela prefeitura, não reabrir as portas porque não sente que haverá suficiente segurança para isso. Veja só o comunicado:

Não é toda empresa que tem a capacidade de fazer isso. Ressalto aqui que, sim, muitos negócios inclusive já quebraram por não terem conseguido acesso aos meios de enfrentar esse período ou por não terem estrutura própria para isso. E, importante dizer, ninguém está demonizando ganhar dinheiro. Mas é de fato notável que, não sentindo segurança para funcionar, em qualquer que seja a situação – e em termos de saúde não há opção a vida -, a gestão deve tomar atitudes que não necessariamente coadunam com o que se esperaria em tempos regulares.

Para além de ler esse breve artigo e questionar sobre qual a intenção deste que vos escreve, deixo a reflexão direta a você que gere negócios ou conhece quem o faz: você se importa com quem está contigo ou apenas com o dinheiro que seu negócio faz?

“Um negócio que não produz nada além de dinheiro é um negócio pobre.” (Henry Ford)

 

Publicado no Terraço Econômico em 05/06/2020

TODOS OS PRÉDIOS IMPORTAM no TerraçoCast #174

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Renata Velloso e Rachel de Sá sobre os seguintes assuntos:

– Renata, faça um levantamento a respeito das manifestações após o brutal assassinato de George Floyd nos EUA;

– Rachel, explica pros nossos ouvintes sobre a ampliação do programa de financiamento de folha (e o que ele pode significar);

– Renata, atualize nossos queridos ouvintes a respeito das novidades sobre o coronavírus (o já consagrado CoronaNews);

Gostou do nosso podcast? Compartilhe com quem você gosta! É com muito amor, satisfação e suor que produzimos conteúdo novo constantemente pra você.

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LUAN SPERANDIO E O FIM DO LIBERALISMO BRASILEIRO no TerraçoCast #173

Nesta edição especial, Caio Augusto acompanhou Luan Sperandio, Editor Chefe da Apex Partners, sobre o liberalismo brasileiro em tempos de pandemia:

– Na lata: o coronavírus é o fim do capitalismo?

– Sobre as reformas fiscais, devemos abandoná-las em função da mudança econômica que a pandemia traz?

– No Brasil de hoje em dia, liberalismo e livre mercado ainda têm espaço?

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