Em tempos de quarentena – ou pelo menos de quem ainda está nela, ainda que parcialmente -, boas indicações de filmes ajudam com os longos finais de semana. Imagina se você, além de ver um bom filme, ainda puder aprender um pouco mais sobre economia?
Inside Job, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2011, vai a fundo no cerne da questão: o que aconteceu para o mundo chegar ao cenário de implosão que observamos em 2008? E, para além disso: seria possível ter sido evitada essa tragédia?
The Big Short, de 2015, apresenta a mesma questão, mas pela visão de alguns personagens que não só viram o que estava para acontecer como jogaram contra o mercado e tiveram resultados bastante rentáveis com suas apostas.
O que esses dois filmes têm de diferente? A profundidade e o grau técnico com o qual abordam a crise de 2008.
E o que tem em comum? São dois excelentes modos de você, caso tenha a curiosidade e ainda não saiba, entender com detalhes o que de fato se passou em 2008.
Mas afinal, o que aconteceu em 2008?
O documentário, como todo filme deste tipo, além de apresentar um arcabouço técnico sólido a respeito dos instrumentos financeiros que “lastrearam” todo o castelo de cartas que desabou em 2008, fala também com quem esteve lá nos Bancos Centrais, centros de pesquisa e até no FMI quando tudo aconteceu.
Mesmo a um olhar mais atento – de alguém que entende do assunto -, algumas pausas são necessárias para a melhor compreensão do documentário. Um exemplo disso é a cena que explica o que é um CDO: ainda que seja um desenho que mostre passo a passo do que era esse instrumento financeiro, não é difícil que se tenha de parar pra pensar sobre como ele funcionava (e, convenhamos, talvez tenha sido essa mesma a intenção de quem o criou, não ser entendido).
Já o filme, com uma mistura de momentos de bastante seriedade e tensão – como a cena de uma palestra entre um grande investidor e um dos personagens que apostou contra o mercado imobiliário em que o mercado está implodindo literalmente enquanto eles falam – e outros que parecem um filme do Scorsese – com Selena Gomez e o Nobel de Economia Richard Thaler explicando um dos termos que encaminham o instrumento financeiro CDO – acaba por mostrar para o telespectador que, no fim das contas, a questão ficou dentro do espectro técnico por muito tempo mas acabou impactando a todos de certa maneira, mesmo aos que sequer tinham algum conhecimento da questão.
Uma proximidade entre o documentário e o filme também está no fato de que marcas não são poupadas. No filme, por exemplo, há uma cena em que os nomes dos bancos que receberam as apostas contra o mercado imobiliário aparecem claramente. No documentário esses nomes também ficam visíveis diversas vezes.
Importante notar que tanto em um quanto no outro, você verá que a grande origem do que se passou em 2008 foi um mascarar de títulos lastreados no mercado imobiliário que eram vendidos como sendo de baixo risco mas contendo todos os segmentos possíveis de risco – o que, na prática, significava que o risco não era baixo como se apresentava. A diferença fica apenas no nível de detalhamento apresentado e na proximidade que cada um passa.
Como todo bom documentário, Inside Job apresenta ao espectador uma visão passiva das situações. Entrega o conteúdo com maestria, mas de forma bem técnica. Já em The Big Short, temos cenas inclusive de quebra da quarta parede, quando o personagem que narra a história se dirige a quem está assistindo não só para fazer observações como também para questionar a visão de quem vê sobre o que acabou de acontecer.
Isso coloca uma proximidade que mostra justamente o ponto de que “embora quisessem confundir o mundo com esse instrumento financeiro, ele tinha mais a ver com você do que você imagina”.
A indicação dessas duas obras se dá porque o documentário é o meio mais técnico-didático que se tem para entender o que se passou em 2008 e o filme é mais provocador.
A ordem dos fatores importa!
Sendo possível indicar uma sequência, assista primeiro ao Inside Job e, tendo essa base teórica do que se passou, veja o The Big Short. A triste notícia é que esse tipo de estratégia utilizada em 2008 muda de nome mas segue sendo uma realidade até hoje no mundo financeiro. A boa notícia é que, sabendo disso, não só você não será tão facilmente enganado com alguns cenários econômicos como também não cairá no conto da carochinha ao analisar alguns investimentos.
Importante apontar que mesmo tendo direcionado algumas cenas dos dois, a experiência não foi arruinada, porque ambos são bacanas de se ver – apesar das notícias desoladoras que trazem sobre a realidade.
Boas sessões!
