E a recuperação econômica?

Tendo como principal assunto o coronavírus em 2020, após termos entrado na segunda metade do ano cresce a pergunta: já é possível visualizar como será a recuperação econômica pós pandemia? A resposta ainda é inconclusiva, mas alguns dados recentes podem ajudar nessa tentativa de compreendermos o que vem pela frente.

O primeiro trimestre: ponta do iceberg

Tendo em vista que o coronavírus chegou ao Brasil com certo “atraso” em relação ao resto do mundo – o primeiro caso confirmado por aqui foi em 26 de fevereiro – e que nossas “medidas de isolamento” começaram também de maneira antecipada (em meados de março), imaginávamos que o primeiro trimestre sofreria menos com a desaceleração e que os impactos seriam sentidos mais fortemente apenas no segundo. Porém, a realidade infelizmente surpreendeu em termos negativos: queda de 1,5% já no primeiro trimestre.

Diferentemente dos Estados Unidos em que temos os chamados “dados de alta frequência” (com divulgações semanais e no máximo mensais), por aqui acabamos tendo de visualizar os dados com maior acurácia apenas em uma base mais mensal e, ainda assim, com certo distanciamento. Ainda assim, dois dados recentemente divulgados para o Brasil – a Pesquisa Mensal do Comércio e a Pesquisa Mensal de Serviços, do IBGE, ambos de maio – nos ajudam a visualizar alguns pontos iniciais.

Pesquisa Mensal do Comércio: recuperação em V?

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) surpreendeu até os mais otimistas. A média de expectativas aguardava um crescimento no volume de vendas no comércio varejista de cerca de 6% e, no fim das contas, o resultado observado foi de 13% para o mês de maio.

Para além desse dado otimista, precisamos observar três aspectos bastante importantes.

Consumo reprimido

O que inicialmente era apenas um consumo desenfreado de álcool gel, papel higiênico e itens essenciais alimentícios mudou em maio. Houve reversões consideráveis nos itens de tecidos e vestuário, assim como também subiram razoavelmente o consumo de móveis, de eletrodomésticos e de materiais usados em escritório (devido ao home office).

E-commerce

Está subindo bem. Levando em consideração que as lojas estavam fechadas, as pessoas aumentaram sua base de consumo diretamente pelos meios eletrônicos e, na prática, o varejo acabou se beneficiando por essa praticidade de pedir em casa. Isso sem falar na união dessa praticidade com a utilidade de muitos que tiveram que se adaptar para trabalhar diretamente de suas casas.

Auxílio emergencial

O impacto do também chamado Coronavoucher é direto sobre a renda. Na média, ele empurra para cima a massa salarial – que é a renda disponível das pessoas, não importando se estão formalizadas ou não – em cerca de 7% no país, o que é ainda mais pronunciado nos estados do Nordeste, onde a participação superará 16%. Em termos bem diretos: esse dinheiro está não só chegando na ponta como virando consumo de maneira bastante rápida.

Levando em conta estes três aspectos, é salutar que aguardemos os próximos dois meses pelo menos para verificar a sustentação dessa alta.

Pesquisa Mensal dos Serviços: longo caminho adiante

Pelo lado da Pesquisa Mensal dos Serviços (PMS) a realidade já é diferente: em maio, ante abril, a redução do índice de volume de serviços foi de 0,9%. A base desse indicador segue bastante depreciada: neste ano a queda está em 7,6% e, em relação a maio de 2019, vemos uma redução de 19,5%.

Diferentemente do consumo do varejo, que pode ocorrer de maneiras diferentes como o e-commerce, os serviços têm uma dificuldade relacionada a sua execução: boa parte deles necessita de presença física e, ainda que muitos tenham se adaptado aos tempos atuais com alternativas remotas, esse dado mostra que ainda há um intervalo razoável para que possamos retornar aos níveis anteriores a pandemia.

Então o que podemos esperar da recuperação?

Novamente, importante frisar: vale a pena aguardar as divulgações setoriais dos próximos meses até o final do ano.

Isso porque, na prática, precisaremos observar basicamente dois aspectos: até quando serão necessários os auxílios do governo (às empresas e famílias) e quando veremos um início consistente de recuperação, um atingir certeiro do fundo do poço – este que, se aparentemente já aconteceu para o mercado de renda variável em março, ainda não se pode confirmar de ter ocorrido agora.

Importante lembrarmos que, no fim das contas, toda essa recuperação estará condicionada ao descobrimento de um tratamento ou de uma vacina para a Covid-19. Na ausência dessa descoberta faz-se ainda necessária uma série de medidas de isolamento social, medidas essas que, necessariamente, acarretam em algum nível de restrição a economia.

É possível sim que entre junho e julho já tenhamos alcançado o fundo do poço da economia como um todo – com os efeitos negativos mais fortes concentrados no segundo trimestre. Mas, quanto a tal “recuperação em V” que vem sendo tão divulgada, é necessário cautela: aparentemente, se ela ocorrer em “U” já será motivo de comemoração, uma vez que em 2020, antes mesmo do coronavírus chegar, ainda estávamos nos recuperando do baque do biênio 2015-2016.

A recuperação econômica caminha e demanda atenção. Vejamos quais serão as cenas dos próximos capítulos. Ainda é cedo para cravar qualquer previsão mais certeira, pois para uma análise dotada de maior profundidade vamos precisar observar a sustentabilidade dos dados nos próximos meses.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 13/07/2020

Deixe um comentário