O que esperar de 2021?

Você não leu errado o título deste artigo: realmente vamos falar aqui do próximo ano. Para que não exista confusão, explicamos que isso é necessário porque este ano, tomado por efeitos negativos da pandemia do coronavírus, reações dúbias do poder público em relação a isso – que resultam em um verdadeiro abandonar de medidas de segurança por cada vez mais pessoas -, além das eleições municipais no Brasil e presidenciais nos EUA, não fica difícil imaginar que, apesar de muito ter para acontecer, pouco de fato será decidido ainda neste ano.

Explicação feita, vamos ao que interessa. O que será que o próximo ano pode nos reservar? É possível observar isso em três diferentes óticas: saúde, economia/reformas e política/relações internacionais. Vejamos cada uma delas.

Saúde

O mundo todo está atrás de uma vacina para a Covid-19, isso não é novidade. No momento em que esse artigo é escrito, temos cinco vacinas em Fase 3, que é a fase mais avançada, só anterior a aprovação.

Conforme informa o Bloomberg, e podemos ver na imagem abaixo, as vacinas em fases mais avançadas de teste têm sua aprovação prevista, caso tudo ocorra de maneira positiva, entre o quarto trimestre deste ano e o segundo do ano que vem:

Processo de desenvolvimento da vacina do covid-19

Em termos de saúde, certamente o aspecto mais relevante para 2021 será o fato de encontrarmos uma ou mais vacinas para lidar com a atual pandemia. Provavelmente serão algumas vacinas, o que é bastante positivo, dado que a quantidade de pessoas a serem imunizadas é imensa, demandando algumas bilhões de doses – que, até o presente momento, não sabemos se ocorrerão em dose única ou em mais de uma.

Por mais que alguns países já tenham reduzido as medidas de segurança, não podemos descartar novas ondas de contaminação, dado que, por mais desanimador que isso pareça, é complexo demais contar com o “bom senso” das pessoas em ficarem por tanto tempo seguindo medidas de segurança.

Por basicamente dois motivos: em primeiro lugar, a ideia era de que em no máximo dois meses teríamos a situação controlada (e aqui no Brasil já caminhamos para cinco) e, em segundo, ainda há uma linha tênue entre o que sabemos e o que não sabemos desse vírus – o que nos deixa no limiar entre acreditarmos que de fato há um “novo normal” ou apenas no aguardo de uma vacina que nos faça retornar ao que conhecíamos antes.

Qualquer que seja o caso, a prudência segue sendo necessária.

Economia/Reformas

Outro bom motivo para lembrar que vale mais olhar 2021 do que o ano atual é o fato de que mesmo chegando ao final da primeira quinzena de agosto desse ano o governo apenas colocou na mesa parte de uma reforma (a tributária), ainda não tendo efetivamente tratado da administrativa. Levando em conta que as eleições municipais – que formam a base mais capilarizada dos partidos – estão logo ali, se o governo não coloca para o Congresso o que quer que seja votado, difícil imaginar atitude altiva deste último nessa direção também.

É possível considerar 2021 como sendo um ano estratégico para o campo de reformas que impactem a economia basicamente por dois aspectos: considerando que seja encontrada uma vacina (ou até mais de uma) e a imunização tenha tido início, a pandemia vai aos poucos saindo do foco principal que tem atualmente (que concentra basicamente todos os esforços, ao menos em teoria) e, para além disso, temos mais um ano de espaço entre duas eleições (a municipal de 2020 e a presidencial de 2022).

Levando em conta que a estratégia seja a mesma de 2019 com a reforma previdenciária, de um foco maior em esclarecer amplamente quais seriam as intenções da mudança pretendida – o que teve relativo sucesso, visto que houve a aprovação da mesma -, podemos prever que ao menos uma das duas reformas mais importantes para o momento (tributária e administrativa) deve ser aprovada em 2021. Atenção: isso só acontece se o foco for o mesmo de 2019.

A recuperação da economia deverá ser lenta. Não é demais relembrar que, antes mesmo da crise atual chegar, ainda não havíamos nos recuperado do baque de 2015-2016. Outro indício dessa recuperação mais lenta é o fato de que nossos mercados – como o de trabalho – são pouco flexíveis e, no fim das contas, embora tenhamos a sensação de que aqui sofremos menos com a situação atual do que outros países no mundo, isso certamente contribui para que nos recuperemos mais lentamente também. Reformas auxiliam nesse caminho de retomada – embora, mais uma vez, elas deixam o caminho mais fácil, mas não garantem a chegada.

Política/Relações internacionais

Embora estejamos aqui focando no próximo ano, um fator do atual momento fará muita diferença para o(s) próximo(s): a eleição nos EUA. Isso acontece porque duas plataformas bastante distintas entre si estão em disputa: o nacionalismo de Trump vs o globalismo de Biden.

Os destinos eleitorais na maior economia do mundo impactam o resto do mundo diretamente. Isso já acontece em tempos regulares, mas agora isso torna-se ainda mais intenso, com efeitos notáveis sobretudo aos países emergentes como o Brasil.

A reeleição de Trump significaria uma continuidade das medidas que vão em direção do famigerado America First e, dentre outros pontos, isso significa que tensões comerciais com a China devem seguir adiante e os caminhos para relações internacionais mais diretas entre países – e não tanto em blocos de países – devem se intensificar.

Já a vitória de Biden acarretaria um retorno do pêndulo do mundo para o lado da globalização, aliviando tensões internacionais em prol de um comércio mais amplo mundialmente. Neste cenário, ganham os países emergentes, por passarem a ter uma nova janela temporal de investimentos que antes concentrar-se-iam justamente onde houvesse maior foco nacional – nos EUA, por exemplo.

Qualquer que seja o caso nas eleições norte-americanas não podemos nos esquecer que a China já corre por fora para ampliar sua presençaEsse movimento que começou logo no início do segundo trimestre aumenta a cada dia. Como economia que há décadas cresce ininterruptamente e caminha nos próximos anos para se posicionar como a maior do mundo, o gigante asiático não quer depender tanto dos rumos no Tio Sam.

Nossa política aqui influencia? Sim, mas com maior relação ao item anterior (das reformas) do que sobre o resto do mundo. Ajeitar a casa por aqui fará muita diferença – porque quem se mostrar como boa oportunidade de negócios irá receber os mais vultosos fluxos financeiros.

Vem logo, 2021!

Tal qual passada a aprovação da reforma previdenciária na Câmara em 2019 e o famigerado questionamento sobre “o que vem no pós-previdência”, o foco está cada vez mais direcionado para o que vem no pós-pandemia. Tendo em vista que se trata de uma questão sanitária, esse aspecto será primordial para equalização de tudo.

2020 ainda reserva muitas emoções, isso é sabido. Mas tenham em mente desde já: pode ser que 2021 seja mais calmo, mas certamente será um ano estratégico em todo o mundo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 10/08/2020

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