Moneyball: aprenda a mudar o jogo

Seguindo a sequência de indicações da coluna do Terraço Econômico aqui no Guia Financeirohoje trazemos o filme Moneyball: O homem que mudou o jogo. Não pretende ser este artigo um resumo do filme, mas sim um apanhado dos ensinamentos mais notáveis que ele traz.

A obra, de 2011, conta a história real de um time de baseball que, entre 2001 e 2002 conseguiu um feito histórico: vencer uma quantidade tão grande de partidas de maneira seguida que marcou um recorde para a liga profissional do esporte. Se isso levou ou não o time a vencer o campeonato, seria spoiler nosso te contar, assista ao filme e descubra. Aqui iremos apresentar algumas das tantas mensagens valiosas dele.

Dentre todos os personagens do filme, vamos concentrar os esforços de análise sobre os dois que mais agregam ao conjuntoBilly Beane (interpretado por Brad Pitt) e Peter Brand (interpretado por Jonah Hill). Beane é um ex jogador de baseball que comanda a gestão do time Oakland Athletics e Brand é um egresso de Economia em Yale que tem um método peculiar de seleção de jogadores, baseado em modelos matemáticos que levam em conta as características principais de ação deles em jogo.

Importante apontar desde já que tratam-se de direcionamentos positivos para a vida, para os negócios e também para os investimentos, o que provavelmente faz com que esse filme seja um daqueles em que você não deve tirar todas as lições assistindo-o apenas uma vez. Vamos então à elas.

Saiba fazer as perguntas certas

A maior tentação que existe diante de um problema, qualquer que seja ele, é abraçar a retórica fácil de que ou as coisas estão muito difíceis, ou o mundo conspira contra você ou mesmo que não escutam suas soluções. Mas, já parou pra pensar que você pode mesmo estar errando em não fazer as perguntas corretas?

O primeiro passo da resolução de um problema é o correto diagnóstico dele, pois é deste ponto que se pode observar o tamanho real do desafio a ser enfrentado para que ele seja superado.

No filme, o time acabou de perder grandes atletas, que receberam ofertas melhores de times maiores. O desafio era como fazer para então substituir esses atletas, não só pelo aspecto de jogabilidade como também perante aos fãs – que não querem desconhecidos, mas sim figuras marcadas e que consigam desempenhar bem seus papéis.

Mas, no fundo, será que o problema era substituir os jogadores ou o que eles entregavam em campo? As figuras que representavam ou os resultados que ajudavam a chegar?

Se você não sabe de algo, encontre quem sabe

Durante o filme vemos que há uma busca por novos jogadores que substituir as entregas de algumas pratas da casa que haviam saído. Beane, quase fechando uma nova contratação, vê que um cara discreto que estava no canto da sala muda a decisão que estava sendo acertada e impede a contratação quase certa de um jogador apenas com algumas palavras que fala a outro homem que estava ali. Curioso para saber o que havia sido dito, após a reunião ele procura esse homem e descobre que é Brand.

Os dois desenvolvem uma conversa e, nessa, a curiosidade de Beane sobre o que havia sido falado por Brand enfim encontra uma resposta: “falei que gosto daquele jogador e que não seria boa ideia vendê-lo”. Isso desencadeou outra pergunta (lembre-se da importância de saber as perguntas certas): “e por que você acha isso?”. Nesse momento Brand explica que tem um olhar específico sobre o que os jogadores entregam.

Esse olhar diferente era levar em consideração características objetivas de jogo de diferentes jogadores e inseri-las em um modelo matemático que indicava quem eram de fato os melhores jogadores. A melhor parte? Como até então a ideia era “seguir o feeling dos olheiros do esporte”, nessa visão mais criteriosa alguns jogadores que não eram tão atraentes aos olhos gerais (e, dessa maneira, estavam disponíveis a baixos preços para aquisição) podiam se transformar em joias da coroa daquele time em transformação.

O encontro de Beane e Brand é a grande faísca que dá mote ao filme.

Olhe pelo que deve ser olhado de fato – e faça com que vejam o mesmo que você

Difícil encontrar quem nunca passou pela situação de, ao chegar com uma solução inovadora e com justificativas plausíveis de sucesso, ouvir de quem já está lá algo como “eu tenho a experiência e você só tem uma novidade tola, por qual motivo deveríamos te ouvir?”. É claro que nem toda ideia nova será boa o suficiente para superar o que já existe, mas caso você tenha com claridade o que precisa ser observado, alinhe as visões de quem precisa concordar com você.

Essa situação ocorre no filme quando o gestor do time apresenta o jovem economista de Yale. Seria a experiência de décadas de alguns olheiros do time suplantada por um modelo matemático recém-chegado?

Provavelmente na vida real a questão não foi tão pontual como mostrado no filme, mas a ideia foi: precisamos alcançar determinados objetivos e isso apenas acontece se levarmos em conta características específicas dos jogadores – e não o bom e velho “eu acho e sinto que esse é dos bons”.

Ah, e alinhar a visão é fundamental: de nada adianta montar gerencialmente um plano que tenha de fato muito sentido e lógica se taticamente ele for tido como algo intangível, maluco ou mesmo que não valha a pena a ser executado. Mais do que dizer que tem que ser feito “porque é uma ordem” procure sempre deixar os executores ao seu lado no aspecto “é naquele ponto ali que todos devemos chegar”.

Seja humilde, reconheça suas limitações

Um dos pontos de resistência de qualquer organização ou relação social é justamente colocar à prova aquilo que você acredita, principalmente se isso tiver sido construído ao longo de um tempo considerável e estiver sendo questionado por alguém que acabou de chegar.

Porém, tão importante quanto saber defender seu ponto é reconhecer que algo novo faz mais sentido e pode sim ser mais eficiente. Não é algo fácil nem trivial, mas necessário. Afinal de contas, você se importa mais em dar o nome a um jogo perdedor ou erguer a taça junto de quem deu a ideia melhor?

Faça o melhor com o que você tem, não com o que sonharia ter

Idealizar, alçar mentalmente voos mais amplos, não é pecado algum. Porém, é no campo da realidade que as situações acontecem de fato e você precisa tomar decisões palpáveis que, no fim do dia, nem sempre serão as mais fáceis do mundo.

Em partes diferentes do filme isso é colocado na mesa. Em algum momento seria a falta de recursos financeiros para a contratação de atletas, em outro a dificuldade de demitir alguém que já não se encaixa mais no elenco e, ainda, o problema em fazer com que o plano seja seguido.

Levando em conta que você tem uma situação, com determinados agentes, recursos e possibilidades, aja como tal. O mundo realmente não está ligando para suas dificuldades ou com os “se’s” mentais estabelecidos, mas sim quer ver o que você consegue com o que tem nas mãos.

Não faça as coisas apenas pelo dinheiro

Uma das decisões mais importantes tomadas na vida por Beane durante sua juventude levou em conta puramente cifras financeiras – e outra que ele não tomará ao final do filme mostra que ele aprendeu que na vida, em termos gerais, não devemos tomar decisões apenas pelo dinheiro. Este que vos escreve se segurou bastante para não dar esses dois spoilers mas faz aqui novamente a forte recomendação de que você assista o filme, pois entenderá com facilidade este trecho após isso.

Este ponto pode ser contra intuitivo para alguns leitores que talvez acreditem que necessariamente se mais dinheiro tiver envolvido melhores possibilidades estarão na mesa. Mas tenha em mente que é sim válido colocar diversos aspectos na balança – dentre eles o dinheiro, mas não somente ele – ao tomar grandes decisões na vida. Mais dinheiro não garantirá, por exemplo, necessariamente maior satisfação.

Tudo é um processo: aproveite a vista

Aparentemente todos os times em qualquer competição objetivam única e exclusivamente vencer os campeonatos que disputam. Seria ilógico discordar dessa ideia, afinal de contas, ninguém entra “para perder”.

Porém, o que você não pode se esquecer é que, independente do resultado que se alcance, os processos podem levar você a uma noite de champanhe e fogos de artifício ou a uma ressaca moral que provavelmente ensina muito mais do que as taças que você não se lembra mais.

Como diria aquela clássica canção da banda Pato Fu: “As brigas que ganhei nenhum troféu pra casa eu levei / As brigas que perdi, essas sim, eu nunca esqueci”.

Passando por uma vitória – ou mesmo a maior sequência de vitórias da história, como no filme – ou mesmo uma derrota, veja o quanto você aprendeu no final. Isso porque, seja em sua vida profissional, pessoal ou nos seus investimentos, derrotas e vitórias acontecerão o tempo todo e o máximo que você pode fazer é aprender a como não cair em velhas arapucas (pela raiva da derrota ou pela empolgação da vitória).

São tantas lições que…

… provavelmente você já deve ter notado que este artigo ficou maior do que a média destes dessa coluna.

Em uma tentativa cirúrgica de não entregar pontos do filme mas sim pontos de atenção do mesmo, encerramos agora indicando mais uma vez ao leitor esse filme.

Provavelmente não será o melhor filme que você verá na vida. Mas a quantidade de toques que ele pode te dar em um sentido amplo pode colocá-lo como seu próximo filme de cabeceira.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 04/09/2020

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