Vem aí o Renda Brasil. Não, não se fala mais em Renda Brasil. Vem aí o Renda Cidadã, que será custeado com o adiar de pagamento de precatórios. Isso de adiar precatórios é má ideia, deixemos pra lá. Não, espera, vai ter precatório sim…
Esse imbróglio mais recente a respeito de um programa de renda mínima que venha a substituir o Bolsa Família é só o episódio mais recente de um modus operandi que, se funcionou com sucesso no período eleitoral, hoje coloca em dúvida a credibilidade do que é anunciado pelo governo.
Chamemos aqui de “política econômica de balão de ensaio” todos os momentos em que anúncios de novas medidas econômicas ficam literalmente ao sabor das opiniões emitidas por diversos agentes após elas serem divulgadas. Dependendo da opinião majoritária, essa política prossegue ou é sumariamente abandonada.
O lado bom: ouvem-se opiniões
Em relação ao atual governo, de tempos em tempos vemos por aí uma discussão: ele é capaz de aceitar críticas ou apenas segue adiante com suas ideias independente dessas opiniões alheias? No caso da política econômica, aparentemente temos o primeiro caso: ouve-se um bocado quem analisa as medidas econômicas assim que são divulgadas.
Sob a égide de “mudar isso daí”, frase tantas vezes ditas quando então candidato e pelo agora presidente (e pré candidato em 2022, claramente) Bolsonaro, os dois pilares do que seriam a tal grande mudança que o Brasil poderia esperar seriam Sérgio Moro e Paulo Guedes, respectivamente os “Super Ministros” da Justiça e da Economia. O primeiro saiu, o segundo agarrou-se ao estilo de governar.
Moro, ao sair, deu entrevista em que colocava sob as luzes do escrutínio midiático um fato: o presidente é quem acabava por decidir as coisas no fim do dia. Não que isso não fosse de sua alçada ou possibilidade, mas isso se distanciava do que fora prometido em período eleitoral. Já Guedes, como grande fiador da economia, sempre teve como apontamento ser aquele que tem a palavra final sobre os rumos da economia.
E o que mais tem feito aquele que tem o poder de decisão sobre as medidas econômicas? Ouvir bastante o que dizem sobre elas logo que anunciadas.
Temos aqui um lado positivo: especialistas e analistas da economia podem apontar direcionamentos sobre o quê das políticas apontadas faz sentido e quais coisas poderiam ser alteradas para que as mudanças fossem mais relevantes.
O lado ruim: qual é o plano?
Se por um lado é positivo que o governo seja aberto para ouvir, por outro podemos questionar sobre a existência ou não de planos reais que possam gerar mudanças impactantes. Ou mesmo se o diagnóstico da realidade faz algum sentido na prática.
Voltemos algumas casas para discutir brevemente o modo como o governo enxerga a realidade. Entre 2018 (antes mesmo de entrar) e 2020, três grandes promessas foram colocadas na mesa: zerar o déficit orçamentário em 2019, arrecadar R$1 tri vendendo imóveis e outro R$1 tri vendendo empresas estatais. Planos ambiciosos que jogam as expectativas para cima, mas trazem junto o questionamento: e como isso será feito?
Para além dessas três promessas e de outras mais recentes, como a de realizar quatro grandes privatizações em 90 dias (que inclusive venceu em prazo nesse fim de semana sem sequer sabermos quais seriam), a equipe econômica do atual governo parece jogar um jogo perigoso de deixar para a opinião geral o que deveria ser feito, no lugar de propor caminhos.
Um adicional de periculosidade nessa equação toda é o fato de que as próprias áreas internas do governo que são responsáveis por esses direcionamentos econômicos parecem estar em pé de guerra: Guedes e Marinho, por exemplo, se estranharam recentemente nessa questão de ter ou não precatórios como fonte de financiamento do Renda Cidadã, assim como já tivemos (e possivelmente ainda temos) rusgas entre Guedes e Maia.
O cavalo está indo embora selado, de novo
O governo praticamente não tem oposição, tem de fato uma equipe econômica competente – ao menos a que não saiu dele – e está diante de 2021, um ano intervalado de eleições que permite um mundo de possibilidades positivas em termos de reformas. Ao mesmo tempo, coloca sobre a mesa propostas que encaminham soluções muito tímidas e, ainda assim, quando questionadas, acabam virando “não foi bem isso que quisemos dizer”.
A oportunidade de fazer mudanças e entrar para a história como um governo que realmente conseguiu transformar o país vai escapando como areia das mãos a cada dia que se passa e a cada nova justificativa pouco plausível para o não alcançar de resultados.
Ficam aqui dois questionamentos: até quando vai a política econômica de balão de ensaio? E será que, mesmo diante de um cenário incrivelmente favorável, deixaremos a oportunidade de gerar reais mudanças passar mais uma vez?
A cada nova promessa aparentemente impossível de cumprir, a distância entre o que se fala e o que se cumpre coloca cada vez mais em cheque toda a política econômica. Se a confiança é cada vez menor, não terá sido por falta de aviso caso ela chegue definitivamente a zerar.
Publicado no Blog da Guide Investimentos em 05/10/2020