Eleições 2020: política tradicional de volta

Se há uma marca das eleições de 2018 ela é: “vamos mudar isso daí”. Naquele ano, aparentemente ser parte da política tradicional era um fardo: quase uma condição suficiente para não ser eleito. Ser outsider era a palavra da vez – ainda que muitos, como o próprio presidente, apenas passaram essa imagem, porque no fundo já estavam no sistema há décadas. Foi a eleição do voto com raiva.

Eleições municipais são aquelas em que uma base é formada. Afinal de contas, o município é a esfera pública mais próxima do cidadão. As pessoas vivem nas cidades e é nelas que de maneira mais próxima podem avaliar os resultados de representantes de um determinado partido ou outro. Apesar de vivermos em uma verdadeira salada partidária em que ideologia é algo que não está evidente aos olhos do eleitor, é possível fazer a divisão entre partidos mais à direita, os da amálgama conhecida como centrão e os mais à esquerda.

O paralelo com 2018 é muito importante de ser feito porque nele uma ruptura sistêmica foi observadpela primeira vez desde a redemocratização, aparentemente a máquina eleitoral não fez diferença alguma. O latifundiário de espaços, Alckmin, teve menos de 5% e nem ao segundo turno foi, enquanto o supostamente nanico Bolsonaro, apenas com lives e aparições em redes sociais (e menos de dez segundos de tv) quase levou logo no primeiro turno.

Com ele, vieram governadores e deputados que, de última hora, abraçaram-no quase que incondicionalmente (nesta conta entram pelo menos Doria em SP, Zema em MG e Witzel no RJ). Isso sem falar na bancada do PSL, que de quase inexistente passou a ser a segunda maior, atrás apenas do PT.

O que será que se observou nas eleições municipais em 2020?

Muita conversa, pouco resultado: espaço perdido.

O “mudar isso daí”, que garantiu a eleição de Bolsonaro em 2018, foi mudando paulatinamente ao longo do tempo. Justiça isenta representada por Moro e economia liberal representada por Guedes, que eram as bandeiras principais, foram virando água.

Moro saiu e o fez denunciando interferência na Polícia Federal, o que ainda se apura. Guedes vê a parte técnica ficar cada vez mais enxuta e, diante de um problema fiscal monumental em 2021, fica num bater de cabeças em ideias simplistas e pouco eficazes como uma possível volta da CPMF (que ele chama de imposto digital) ou mesmo “privatizar para reduzir a dívida” (mesmo sequer tendo avançado algo nessa direção até então).

O eleitor vê tudo isso. A esperança misturada com raiva e vontade de mudar tudo na marra aos poucos foi se transformando num abaixar de poeira que permitiu visualizar a realidade. O presidente faz parte do sistema que tanto critica há 30 anos. E “descobriu” que precisa dele para governar – o que faz parte de uma mudança na base política que passou a incluir o centrão como parceiro desde o segundo trimestre desse ano.

É difícil elencar todos os motivos que levaram a configuração que encontramos na manhã desta segunda-feira (08h33min), mas é isso que se verifica: MDB conquistou 454 prefeituras, PSD levou 453, PP com 422, PSDB 356, DEM 313, PL 211 e PDT 205.

Veja que nestes sequer aparecem o PSL (partido que destoou fortemente em 2018), PT (tradicional partido de esquerda) e PSOL. Nas cem maiores cidades, PT e PSL sequer aparecem.

Quando olhamos para as capitais, há uma preponderância de MDB, PSDB e uma presença razoável do PSOL (que inclusive foi ao segundo turno no maior colégio eleitoral do país, que é São Paulo).

O que esperar do amanhã?

Importante ressaltar que por um lado a esfera municipal é a mais próxima do cidadão (portanto a que ele mais pode opinar sobre) e por outro há uma salada partidária em que não se pode cobrar muito a respeito de ideologia.

Porém, em termos gerais, três direcionamentos podemos tirar desse processo eleitoral:

  • O voto para “mudar tudo isso daí” perdeu força: especificamente candidatos apoiados por Jair Bolsonaro (que inclusive direcionou votos em suas lives semanais, o que apesar de ilegal deve passar ao largo de qualquer punição por parte do TSE) tiveram desempenho pífio, sendo talvez a maior derrota referente a Celso Russomano, em São Paulo (que liderava a corrida e derreteu até chegar a 10,5%, ficando em quarto lugar); importante lembrar inclusive que o presidente não tem partido hoje (não dá pra desconsiderar isso como tendo tido algum efeito também);
  • PT e PSOL trocaram de lugar: até a eleição passada o Partido dos Trabalhadores desempenhava liderança razoável na esquerda, mas o que aponta o resultado de ontem é que na verdade o PSOL deve assumir essa liderança (essencialmente a depender dos resultados em São Paulo, onde tem chances reais de conseguir uma vitória);
  • A política tradicional está de volta: seja pela ausência de resultados da suposta “quebra do sistema” que o governo federal prometeu (e até agora deixou a desejar) ou mesmo por um assentar de expectativas, o eleitor decidiu colocar em seu âmbito mais próximo representantes que dois anos atrás jamais estariam ali; a trilha do legislador mediano de partidos como PSD, MDB, e DEM (que ajudam a compor o famigerado centrão) foi retomada com sucesso.

Os ecos de mudança de 2018 passaram um recado explícito a quem está na política tradicional e, aparentemente, este recado foi entendido. A depender disso, caso o governo federal e demais representantes eleitos com a mesma aura almejam continuidade, é mais do que hora de deixar de encontrar problemas e encaminhar soluções.

Ou então não será surpreendente que esse resultado observado agora gere efeitos diretos em 2022.

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 16/11/2020

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