Caso você, leitor, não acompanhe com frequência a coluna do Terraço Econômico aqui no Guia Financeiro, já começamos o artigo com uma informação importante: na economia, a questão mais delicada para 2021 será como o governo encaminhará suas contas públicas, dado que 2020, antes mesmo dos desembolsos extraordinários com a pandemia, já seria o sétimo seguido em déficit fiscal; no ano que vem uma parte considerável da dívida vence logo no primeiro quadrimestre e, mesmo quase entrando em dezembro, ainda temos muitas questões em aberto em relação a isso.
A chamada política de balão de ensaio que elegeu o governo ao consultar com a sociedade temas, confirmar aqueles que tinham boa resposta e dizer que “na verdade era só um teste” sobre os que tinham rejeição, precisaria urgentemente ser trocada por uma atitude altiva e crível diante dos problemas que enfrentaremos nos próximos meses.
O que temos até agora de ideias e planos?
Até agora temos um apontamento já no Congresso – a reforma administrativa, que como está em nada altera o presente. A reforma tributária, que teria um efeito mais direto sobre a eficiência da economia do que necessariamente sobre a arrecadação, fica no eterno adiar de “semana que vem”. Porém, nas falas recentes sobre ideias “fáceis de fazer” (mas que até agora ficamos apenas no aguardo da operacionalização), duas têm chamado a atenção: a de privatizar para reduzir a dívida e a de vender reservas internacionais visando o mesmo objetivo.
Sobre a primeira ideia já temos um direcionamento de que não deve acontecer tão cedo. Primeiramente porque não é automático que esse dinheiro arrecadado vá diretamente para a dívida, ele pode simplesmente ser realocado dentro do orçamento. Em segundo lugar, e talvez ainda mais relevante, porque a sequência infundada de promessas, tais quais “vamos arrecadar R$1 trilhão privatizando” ou mesmo a “vamos privatizar quatro empresas em 90 dias”, mostra que não há conhecimento real da atual equipe dos meandros envolvidos em qualquer processo de privatização ou das negociações envolvidas com o Congresso para que elas venham a ocorrer.
Ou, no mínimo, alguma sinalização mais real de qualquer processo do tipo já seria notoriamente conhecido.
Já a segunda passa por um efeito mais técnico, mas também importante de ser apresentado. Vender reservas para abater dívida não é a coisa mais simples, direta e trivial a se fazer.
Por que vender reservas para abater dívida é má ideia?
Há uma ideia, pelo menos marginalmente reforçada nesses discursos recentes do Ministro da Economia, de que as reservas internacionais estão lá, paradas, sem utilidade alguma e com uma possibilidade imensa de fazer muito pelo país. Algo como “o que estamos esperando para usar esse recurso que nos é disponível e fácil desse jeito?”.
Porém, não é tão simples assim. Dentre outros papéis, as reservas internacionais servem como uma sinalização de que se a moeda passar por algum ataque especulativo, há um colchão de segurança para que uma desvalorização da moeda nacional não ocorra. As reservas financeiras servem basicamente para três funções: ajuste, liquidez e confiança. Trata-se de uma segurança que países que a tem (como o Brasil) ficam muito menos vulneráveis do que países que quase não a tem (como Argentina e Turquia). Aliás, o Brasil já passou por crises cambiais na década de 80 e 90 sem reservas de dólar, e o resultado não foi nada bom…
Por outro lado, existe também um aspecto importante, que é a diferença entre fluxo e estoque.
Pensamos em um exemplo que aparecia de tempos em tempos quando da discussão da reforma da previdência: alguns alegavam que não haveria necessidade de fazer tal reforma uma vez que os grandes devedores do sistema tinham um montante maior a pagar do que o déficit que ocorria; porém, há aí um detalhe importante: o valor devido, ainda que fosse integralmente pago no tempo presente, só o seria feito uma vez, enquanto o déficit que aparece é estrutural; ou seja, as despesas seguiriam sendo maiores do que as receitas (e é esse o verdadeiro problema a ser combatido).
Trazendo a questão de fluxo e estoque para o caso de reservas internacionais e dívida pública, ainda que exista algum efeito direto de redução, o grande problema fiscal brasileiro é o desajuste estrutural das despesas. O Estado pega uma parcela cada vez maior do orçamento público e alívios de qualquer magnitude serão temporários se não levarem isso em consideração.
Há ainda a questão do que isso representa em termos do câmbio: dada a proteção que essas reservas oferecem em função de quaisquer choques que possam acontecer vindos de fora, a sinalização dada por uma redução de proteção (um estoque) para lidar com uma questão que já se arrasta há quase dez anos (e vem em fluxo) daria a entender claramente que não existem realmente grandes planos para lidar com a questão. Até porque, olhando com bastante cuidado, essa questão tem mais influência no câmbio do que em todas as outras – e, embora seja uma saída que já vem sendo utilizada nos últimos anos com certo sucesso, mira o descompasso do dólar e não da dívida.
São mecanismos diferentes e resultados também diferentes.
Sem querer jogar água fria em plena segunda-feira, mas…
O ano de 2021 terá a seguinte escolha diante das más notícias para o lado fiscal: ou o governo começará a contar que elas existem e tomará decisões que impactam no curto prazo ou fingirá que elas não estão presentes e tomará uma rasteira das mesmas.
Não há terceira via.
Pelo lado positivo temos que o diagnóstico existente hoje é apurado e a equipe econômica , ao menos o que ainda resta dela no governo, é razoavelmente bem técnica e preparada. Por outro, diagnóstico e vontade per se não bastam. A não ser que Jair Bolsonaro queira ser, neste último ano da década, um prolongar das medidas de “ajuste fiscal de fantasia” que vimos no segundo mandato de Dilma Rousseff.
