O fantasma do desenvolvimentismo está sempre por perto

Não será novidade alguma para o leitor desta coluna o fato de que estamos em um ano extraordinário. Como já defendido aqui, os desembolsos adicionais por parte do governo visando a superar esse período da maneira menos danosa possível são mesmo necessários, além de ser a praxe que tem sido realizada em todo o mundo. Porém, por aqui, temos motivos para sempre ficarmos de olhos bem abertos diante de ideias mirabolantes.

O ano era 2008. O mundo encarava a pior crise que o capitalismo já havia visto desde 1929. Iniciada no mercado imobiliário dos EUA e derrubando diversas economias ao longo do mundo, por aqui foi chamada de “marolinha”. O segredo foi uma inversão da política econômica mais centrada no controle de gastos e de crédito que havia sendo feito nos últimos anos em troca de outra mais expansiva. Funcionou, aliviou e ainda crescemos 7,5% em 2010.

Porém, criou uma ilusão: se o Estado gastar mais, não tem como pararmos de crescer, então o segredo seria simplesmente gastar cada vez mais. Por mais que não exista moto-perpétuo – e mesmo já tendo visto que isso não funciona, por exemplo, na década de 1980 -, a ideia foi seguida fielmente até 2014. Saímos, nestes poucos anos, de um endividamento de cerca de 50% para a faixa de 70%, sem que se notassem resultados para a economia em termos de produtividade. Em palavras mais diretas: gastamos muito e mal.

Voltemos para 2020. Sétimo ano seguido em déficit fiscal (antes mesmo de termos o coronavírus por aqui já era o que se previa). Uma situação que já não era confortável ficou ainda mais: a dívida pública que estava nas proximidades de 75% do PIB terá um incremento que, segundo cálculos mais agressivos, nos fará encostar em 100% do PIB. Olhando pra mudança em 2008, veremos que se isso acontecer teremos dobrado nossa dívida pública em pouco mais de uma década. Reformas se colocam como ainda mais necessárias.

Diante de uma questão tão evidente como essa, o ajuste das contas públicas, o que estaria em nosso caminho? A mudança na Secretaria do Tesouro e a tentação do Plano Pró Brasil.

O primeiro item é a saída de Mansueto Almeida, conhecido por sua habilidade não só com o lado fiscal como também com o lidar político de questões e entrada de Bruno Funchal – Ex-Secretário da Fazenda do Espírito Santo que ajudou a colocar o estado em melhor situação fiscal do Brasil. O nome que entra é extremamente qualificado, mas não podemos descartar que possamos ver uma repetição de Joaquim Levy no segundo mandato de Dilma Rousseff (muita capacidade, mas pouca possibilidade de execução).

O motivo disso é o segundo item. Plano Pró Brasil é uma ideia apenas em esboço que lembra os programas malfadados de expansão do Estado que vimos aflorar entre 2008 e 2014. Mas será que cairíamos no mesmo erro novamente? Basta ver o apetite do governo por “recuperar a economia em V”.

Em se tratando do nosso país, o populismo fiscal e o desenvolvimentismo estão sempre por perto. Sigamos atentos ao que pode ser o repetir de um erro enorme que nos levaria a um colapso absoluto das contas públicas – este que não só essa geração como também as próximas passariam a arcar.

 

Publicado na edição de Julho de 2020 da Revista da ACIF Franca (Página 38)

E a recuperação econômica?

Tendo como principal assunto o coronavírus em 2020, após termos entrado na segunda metade do ano cresce a pergunta: já é possível visualizar como será a recuperação econômica pós pandemia? A resposta ainda é inconclusiva, mas alguns dados recentes podem ajudar nessa tentativa de compreendermos o que vem pela frente.

O primeiro trimestre: ponta do iceberg

Tendo em vista que o coronavírus chegou ao Brasil com certo “atraso” em relação ao resto do mundo – o primeiro caso confirmado por aqui foi em 26 de fevereiro – e que nossas “medidas de isolamento” começaram também de maneira antecipada (em meados de março), imaginávamos que o primeiro trimestre sofreria menos com a desaceleração e que os impactos seriam sentidos mais fortemente apenas no segundo. Porém, a realidade infelizmente surpreendeu em termos negativos: queda de 1,5% já no primeiro trimestre.

Diferentemente dos Estados Unidos em que temos os chamados “dados de alta frequência” (com divulgações semanais e no máximo mensais), por aqui acabamos tendo de visualizar os dados com maior acurácia apenas em uma base mais mensal e, ainda assim, com certo distanciamento. Ainda assim, dois dados recentemente divulgados para o Brasil – a Pesquisa Mensal do Comércio e a Pesquisa Mensal de Serviços, do IBGE, ambos de maio – nos ajudam a visualizar alguns pontos iniciais.

Pesquisa Mensal do Comércio: recuperação em V?

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) surpreendeu até os mais otimistas. A média de expectativas aguardava um crescimento no volume de vendas no comércio varejista de cerca de 6% e, no fim das contas, o resultado observado foi de 13% para o mês de maio.

Para além desse dado otimista, precisamos observar três aspectos bastante importantes.

Consumo reprimido

O que inicialmente era apenas um consumo desenfreado de álcool gel, papel higiênico e itens essenciais alimentícios mudou em maio. Houve reversões consideráveis nos itens de tecidos e vestuário, assim como também subiram razoavelmente o consumo de móveis, de eletrodomésticos e de materiais usados em escritório (devido ao home office).

E-commerce

Está subindo bem. Levando em consideração que as lojas estavam fechadas, as pessoas aumentaram sua base de consumo diretamente pelos meios eletrônicos e, na prática, o varejo acabou se beneficiando por essa praticidade de pedir em casa. Isso sem falar na união dessa praticidade com a utilidade de muitos que tiveram que se adaptar para trabalhar diretamente de suas casas.

Auxílio emergencial

O impacto do também chamado Coronavoucher é direto sobre a renda. Na média, ele empurra para cima a massa salarial – que é a renda disponível das pessoas, não importando se estão formalizadas ou não – em cerca de 7% no país, o que é ainda mais pronunciado nos estados do Nordeste, onde a participação superará 16%. Em termos bem diretos: esse dinheiro está não só chegando na ponta como virando consumo de maneira bastante rápida.

Levando em conta estes três aspectos, é salutar que aguardemos os próximos dois meses pelo menos para verificar a sustentação dessa alta.

Pesquisa Mensal dos Serviços: longo caminho adiante

Pelo lado da Pesquisa Mensal dos Serviços (PMS) a realidade já é diferente: em maio, ante abril, a redução do índice de volume de serviços foi de 0,9%. A base desse indicador segue bastante depreciada: neste ano a queda está em 7,6% e, em relação a maio de 2019, vemos uma redução de 19,5%.

Diferentemente do consumo do varejo, que pode ocorrer de maneiras diferentes como o e-commerce, os serviços têm uma dificuldade relacionada a sua execução: boa parte deles necessita de presença física e, ainda que muitos tenham se adaptado aos tempos atuais com alternativas remotas, esse dado mostra que ainda há um intervalo razoável para que possamos retornar aos níveis anteriores a pandemia.

Então o que podemos esperar da recuperação?

Novamente, importante frisar: vale a pena aguardar as divulgações setoriais dos próximos meses até o final do ano.

Isso porque, na prática, precisaremos observar basicamente dois aspectos: até quando serão necessários os auxílios do governo (às empresas e famílias) e quando veremos um início consistente de recuperação, um atingir certeiro do fundo do poço – este que, se aparentemente já aconteceu para o mercado de renda variável em março, ainda não se pode confirmar de ter ocorrido agora.

Importante lembrarmos que, no fim das contas, toda essa recuperação estará condicionada ao descobrimento de um tratamento ou de uma vacina para a Covid-19. Na ausência dessa descoberta faz-se ainda necessária uma série de medidas de isolamento social, medidas essas que, necessariamente, acarretam em algum nível de restrição a economia.

É possível sim que entre junho e julho já tenhamos alcançado o fundo do poço da economia como um todo – com os efeitos negativos mais fortes concentrados no segundo trimestre. Mas, quanto a tal “recuperação em V” que vem sendo tão divulgada, é necessário cautela: aparentemente, se ela ocorrer em “U” já será motivo de comemoração, uma vez que em 2020, antes mesmo do coronavírus chegar, ainda estávamos nos recuperando do baque do biênio 2015-2016.

A recuperação econômica caminha e demanda atenção. Vejamos quais serão as cenas dos próximos capítulos. Ainda é cedo para cravar qualquer previsão mais certeira, pois para uma análise dotada de maior profundidade vamos precisar observar a sustentabilidade dos dados nos próximos meses.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 13/07/2020

Inside Job e The Big Short: entendendo a crise de 2008

Em tempos de quarentena – ou pelo menos de quem ainda está nela, ainda que parcialmente -, boas indicações de filmes ajudam com os longos finais de semana. Imagina se você, além de ver um bom filme, ainda puder aprender um pouco mais sobre economia?

Inside Job, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2011, vai a fundo no cerne da questão: o que aconteceu para o mundo chegar ao cenário de implosão que observamos em 2008? E, para além disso: seria possível ter sido evitada essa tragédia?

The Big Short, de 2015, apresenta a mesma questão, mas pela visão de alguns personagens que não só viram o que estava para acontecer como jogaram contra o mercado e tiveram resultados bastante rentáveis com suas apostas.

O que esses dois filmes têm de diferente? A profundidade e o grau técnico com o qual abordam a crise de 2008.

E o que tem em comum? São dois excelentes modos de você, caso tenha a curiosidade e ainda não saiba, entender com detalhes o que de fato se passou em 2008.

Mas afinal, o que aconteceu em 2008?

documentário, como todo filme deste tipo, além de apresentar um arcabouço técnico sólido a respeito dos instrumentos financeiros que “lastrearam” todo o castelo de cartas que desabou em 2008, fala também com quem esteve lá nos Bancos Centrais, centros de pesquisa e até no FMI quando tudo aconteceu.

Mesmo a um olhar mais atento – de alguém que entende do assunto -, algumas pausas são necessárias para a melhor compreensão do documentário. Um exemplo disso é a cena que explica o que é um CDO: ainda que seja um desenho que mostre passo a passo do que era esse instrumento financeiro, não é difícil que se tenha de parar pra pensar sobre como ele funcionava (e, convenhamos, talvez tenha sido essa mesma a intenção de quem o criou, não ser entendido).

Já o filme, com uma mistura de momentos de bastante seriedade e tensão – como a cena de uma palestra entre um grande investidor e um dos personagens que apostou contra o mercado imobiliário em que o mercado está implodindo literalmente enquanto eles falam – e outros que parecem um filme do Scorsese – com Selena Gomez e o Nobel de Economia Richard Thaler explicando um dos termos que encaminham o instrumento financeiro CDO – acaba por mostrar para o telespectador que, no fim das contas, a questão ficou dentro do espectro técnico por muito tempo mas acabou impactando a todos de certa maneira, mesmo aos que sequer tinham algum conhecimento da questão.

Uma proximidade entre o documentário e o filme também está no fato de que marcas não são poupadas. No filme, por exemplo, há uma cena em que os nomes dos bancos que receberam as apostas contra o mercado imobiliário aparecem claramente. No documentário esses nomes também ficam visíveis diversas vezes.

Importante notar que tanto em um quanto no outro, você verá que a grande origem do que se passou em 2008 foi um mascarar de títulos lastreados no mercado imobiliário que eram vendidos como sendo de baixo risco mas contendo todos os segmentos possíveis de risco – o que, na prática, significava que o risco não era baixo como se apresentava. A diferença fica apenas no nível de detalhamento apresentado e na proximidade que cada um passa.

Como todo bom documentário, Inside Job apresenta ao espectador uma visão passiva das situações. Entrega o conteúdo com maestria, mas de forma bem técnica. Já em The Big Short, temos cenas inclusive de quebra da quarta parede, quando o personagem que narra a história se dirige a quem está assistindo não só para fazer observações como também para questionar a visão de quem vê sobre o que acabou de acontecer.

Isso coloca uma proximidade que mostra justamente o ponto de que “embora quisessem confundir o mundo com esse instrumento financeiro, ele tinha mais a ver com você do que você imagina”.

A indicação dessas duas obras se dá porque o documentário é o meio mais técnico-didático que se tem para entender o que se passou em 2008 e o filme é mais provocador.

A ordem dos fatores importa!

Sendo possível indicar uma sequência, assista primeiro ao Inside Job e, tendo essa base teórica do que se passou, veja o The Big Short. A triste notícia é que esse tipo de estratégia utilizada em 2008 muda de nome mas segue sendo uma realidade até hoje no mundo financeiro. A boa notícia é que, sabendo disso, não só você não será tão facilmente enganado com alguns cenários econômicos como também não cairá no conto da carochinha ao analisar alguns investimentos.

Importante apontar que mesmo tendo direcionado algumas cenas dos dois, a experiência não foi arruinada, porque ambos são bacanas de se ver – apesar das notícias desoladoras que trazem sobre a realidade.

Boas sessões!

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 10/07/2020

EDUCAÇÃO APENAS É O NOME DO MINISTÉRIO no TerraçoCast #180

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Arthur Solow, Renata Velloso e Victor Candido sobre os seguintes assuntos:

– Arthur, para além de quem será o novo Ministro da Educação, o que não está sendo observado no Ministério?

– Renata, apresente para nossos queridos ouvintes o Boletim Internacional (que, neste ano, é praticamente dominado por novidades sobre o coronavírus, o já consagrado CoronaNews);

– Victor, dados da PMC do IBGE indicaram uma recuperação em maio mais otimista que o maior dos otimistas. Vem recuperação em V por aí?

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Colecionismo: como ganhar dinheiro com itens procurados e exclusivos

Colecionismo é, de maneira bastante direta, o ato de procurar itens parecidos de um mesmo tipo/espécie e mantê-los consigo de maneira afetiva. Esse consumidor acaba por distinguir-se dos demais por ter uma verdadeira paixão por um determinado tipo de item e, geralmente, o uso dado aos itens é diferente do que suas funções originais indicariam. Essas coleções podem ser de diversos tipos: obras de arte, carros, edições comemorativas de brindes, antigos cartões telefônicos, moedas do mundo, entre tantos outros.

Em geral, esses emotional assets estão relacionados a pessoas de alta renda ou ao menos que podem ter renda suficiente para a manutenção de tais coleções, como veremos a seguir. Realmente trata-se de um mercado de amplas possibilidades. E ele pode ser explicado através de um conceito econômico chamado Função de Utilidade.

Dentro da economia o que se conhece por Função de Utilidade é a atribuição de valor a algo e, na prática, isso varia de pessoa para pessoa – ou, no economês, cada pessoa tem sua própria. De maneira direta, esse conceito mostra que, levando em conta pessoas que têm a mesma quantia de dinheiro, seu consumo provavelmente irá variar de acordo com marcas diferentes porque as preferências podem ser diferentes.

Unindo os conceitos de colecionismo e função de utilidade, temos que o colecionador é aquele indivíduo cuja função de utilidade atribui valor maior a itens específicos geralmente fora de seu meio comum de utilização.

Vamos a alguns exemplos para que fique mais claro ao leitor que eventualmente não tenha ainda compreendido a relação entre as duas coisas.

Ô LOCO, MEU!

Um dos maiores colecionadores de relógios do país é o apresentador Fausto Silva. Em sua coleção estão peças que vão de alguns milhares até mesmo milhões de reais. O cuidado é tamanho que, além de ter em sua residência um cômodo específico para guardar sua coleção, mantém um funcionário apenas para essa manutenção – também, pudera: peças que custam em média R$100 mil e chegam a superar R$1 milhão demandam cuidado. Mais recentemente, apresentando de seu apartamento o Domingão do Faustão, descobrimos também que ele é colecionador de carros em miniatura, tendo mais de 1.500 unidades.

Apresentador Fausto Silva, com sua coleção de relógios de luxo em prateleira ao lado. Foto: Observatório da Tv – UOL.

Em reportagem de 2016 conhecemos quatro dos maiores colecionadores de carros do país. Entre Mercedes Benz, Porsches e raridades como a única unidade do mundo do Moon 6-45 Piton 1918 (cuja montadora fechou em 1930). Um dado interessante também encontrado nessa reportagem: segundo a consultoria Hagerty, enquanto entre 2006 e 2014 a bolsa praticamente andou de lado e o ouro se valorizou em 100%, o mercado de carros antigos registrou alta de 250%. Por aqui o leitor já consegue compreender que, além de ser um hobby o colecionismo também pode ser bastante lucrativo.

Obras de arte também formam um mercado movimentado. Recente entrevista com uma consultora de Art Advisory & Finance de um grande banco, podemos observar como algo que é estritamente dependente da função de utilidade de cada um – e não apenas da mera escassez – é passível de virar investimento. É destacado nessa entrevista que, para além do desejo de colecionar e dos vultosos recursos envolvidos, é preciso que a pessoa tenha certo amor pela arte que justifique as aquisições.

Uma das bebidas mais nobres do mundo também está entre os itens de colecionadores: uma edição especial do whisky The Macallan já foi arrematada por mais de R$5 milhões de reais e tiragens limitadas fazem com que milionários mundo afora paguem verdadeiras fortunas por rótulos da marca. Aliás, em 2019, dentro do mercado de luxo, foi justamente essa bebida a que mais se valorizou: cerca de 40%, de acordo com o Knight Frank Rare Whisky 100 Index.

Vejamos que em todos estes casos existe a aficção por itens que não necessariamente serão utilizados em sua função principal e se acumulam de maneiras diferentes sob a posse das pessoas. Fausto Silva guarda seus relógios, mas não consulta as horas em todos eles ao mesmo tempo, nem “brinca” com os carrinhos em miniatura; os colecionadores de carros os mantém bem cuidados em suas garagens, não necessariamente “dando uma voltinha” com cada um deles o tempo todo; os donos das obras de arte mais seletas do mundo não necessariamente abrem suas mansões para que o mundo possa vê-las; também é muito improvável que os donos dos whiskies mais caros do planeta façam o consumo da sua coleção em festas de família a cada fim de semana.

Qual é o tamanho do mercado de colecionismo no mundo?

Mas, para além das paixões despertadas pelo colecionismo, também existem os mercados envolvidos, o aferir de lucros que se consegue fazer sobre as transações de itens específicos que movem tais paixões.

Em nosso país temos um fundo focado em artes plásticas, chamado Brazil Golden Art. A ideia do fundo é ter participações diferentes tanto de obras de artes de artistas renomados quanto aqueles que apresentam potencial de valorização ao longo do tempo. De maneira bem direta, como todo fundo de investimento ou instrumento financeiro, objetiva no longo prazo ter retornos positivos através das transações relacionadas neste mercado.

O mercado de colecionismo no mundo é considerável: estima-se que esteja na casa dos US$370 bilhões. A distribuição é vasta, como se pode observar no gráfico a seguir:

Fonte: Tech Crunch.

Outro exemplo que temos no Brasil do mercado de colecionáveis – que inclusive é um dos itens de destaque do gráfico – é o de moedas: a startup O Numismata reúne os amantes desse tipo de coleção e faz o intermédio entre compradores e vendedores de moedas.

Segundo o que apresentam, o interesse por esse mercado de nicho sempre esteve presente em nosso país, mas aumentou após as Olimpíadas de 2016 e as moedas especiais lançadas em comemoração aos jogos. Ainda dentro do colecionismo de moedas temos também o Collectgram, marketplace específico para quem quer comprar e vender moedas.

De mero hobby a profissão, de paixão específica a mercado, é possível perceber com os diversos exemplos aqui apresentados como o colecionismo é um meio da economia real em que você pode não só transacionar itens como também fazer um bom dinheiro com eles. Seja por meio de fundos de investimento específicos ou mesmo pela aquisição e venda de coleções diretamente, temos que aquilo que no passado até poderia ser chamado de “acumulação sem sentido” hoje, em um mundo bastante conectado, pode ser na verdade um meio bastante rentável para aplicar seu dinheiro.

No mundo dos investimentos alternativos e ativos reais, o colecionismo pode começar a aparecer com mais frequência nas transações que envolvem esse mercado.

 

Publicado no Terraço Econômico em 08/07/2020

Como você se prepara para sua carreira? – Live Terraço + CMOV Edtech

Você já parou para pensar em como está se preparando para sua carreira, para alcançar aquela posição que deseja no mercado de trabalho? Os terraceiros Caio Augusto e Douglas Albuquerque batem um papo nesta live com as Cofundadoras da CMOV Edtech Laura Fuks e Sabina Augras sobre este tema.

Link para a live no YouTube

CORONAVOUCHER PRORROGADO no #TerraçoCast 179

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Victor Candido, Renata Velloso e Rachel de Sá sobre os seguintes assuntos:

– Rachel, com o Auxílio Emergencial (ou Coronavoucher) prorrogado, o que isso sinaliza pro lado fiscal? Quais são os riscos pro futuro?

– Renata, apresente para nossos queridos ouvintes o Boletim Internacional (que, neste ano, é praticamente dominado por novidades sobre o coronavírus, o já consagrado CoronaNews);

– Victor, segundo a PNAD o desemprego subiu de 12,3 para 12,9%; sinal de que estamos passando ao largo da coronacrise ou tem algo aí que não está sendo observado?

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Novo marco do saneamento básico: o Brasil saindo do século XIX

Um número absolutamente alarmante para iniciar este artigo: cem milhões. Este é, aproximadamente, o número de pessoas hoje no Brasil que não tem acesso a tratamento de esgoto. Como resultado, doenças que atrasam a vida de crianças em fase escolar e adultos que já trabalham. Os números são impressionantes: em 2018, foram 15 mil vidas perdidas em decorrência de “saneamento ambiental inadequado” no Brasil, com 346 mil internações, sendo que uma parte não desprezível dos atingidos é de crianças e jovens. Dessa forma, qualidade de vida e produtividade são diretamente afetadas.

A aprovação do Novo Marco do Saneamento Básico ocorreu no Senado com uma votação realmente expressiva: 65 votos favoráveis e apenas 13 contrários. Agora seguirá para a sanção presidencial, o que deve ocorrer em breve. A partir da aprovação deste novo marco do saneamento básico no Brasil podemos observar que um serviço antes não acessível a praticamente metade da população brasileira passará a estar acessível nos próximos anos.

O que é o novo marco do saneamento?

Os três pontos mais essenciais deste novo marco são os seguintes:
(i) a necessidade de licitação e competição entre empresas (essas que podem ser as que já exercem o serviço atualmente ou novas empresas de origem privada);
(ii) o direcionamento em formato de metas para universalização dos serviços e;

(iii) regulação mais direta do setor por parte da Agência Nacional de Águas (ANA).

A diferença que isso pode fazer para o provimento dos serviços é a seguinte: a partir de agora, ao contrário da situação atual que se encontrava em boa parte do país, haverá necessidade direta de se estabelecerem prazos e metas realísticas para que o serviço seja colocado em operação.

Tal mudança nos faz lembrar o que ocorreu no final dos anos 90 com a privatização das telecomunicações. Naquele momento o país não possuía sequer 20 milhões de linhas de telefonia fixa. Por mais que o desenho regulatório tenha permitido uma concentração razoavelmente forte neste setor, hoje temos mais de uma linha móvel por habitante no país – o que mostra como, de fato, o serviço foi universalizado.

E as críticas?

Existe uma crítica sobre o atual movimento de que se trataria de uma privatização de um item tão essencial para as pessoas quanto a água. Porém, o que deve ser observado, é que não se trata de uma privatização do recurso em si, mas sim da possibilidade de execução do serviços envolvidos em saneamento básico por empresas privadas (lembrando que não necessariamente serviços serão realizados por essas empresas, dado que deverá ser resolvido este assunto após licitação em cada um dos municípios).

Outro aspecto que deve ser levado em consideração é que o Estado passará a entrar em definitivo como regulador da atuação, função essa que hoje não é tão diretamente executada – ou mesmo não gera sanções a quem não cumpre metas, mesmo quando elas eventualmente existirem. Mais uma vez é importante frisar que isso não significa que a gestão necessariamente ocorrerá por meio de empresas privadas (pode ser que ocorra pelas próprias empresas já existentes), mas sim que haverá um direcionamento mais rigoroso em relação a universalização do serviço e, na prática, sanção a quem não cumprir com suas metas.

O motivo do título deste artigo é bastante simples: com a possibilidade real de universalização dos serviços de saneamento básico nos próximos anos, sairemos de uma situação lastimável para outra que pode, enfim, nos trazer ao atual século em termos de saúde. Afinal, muitas doenças que hoje combatemos em um verdadeiro enxugar de gelo terão sua presença fortemente reduzida com essa mudança.

No Brasil de 2020, a dificuldade de se superar a maior pandemia em cem anos pode ser aliviada em partes por termos um sistema de saúde que abrace a todos, mas certamente por nossa situação em relação ao saneamento básico é mais complicada. É como se um problema urgente (a pandemia do coronavírus) viesse se sobrepor a um outro urgente e importante (a necessidade de aumentarmos o acesso a saneamento básico no país).

Hoje é mais fácil encontrar alguém com acesso a 4G do que com acesso a água encanada e esgoto tratado em nosso país. A mudança desse cenário não é instantânea, mas certamente terá como primeiro passo essa aprovação deste ano. Afinal, coleta de esgoto e água tratada são condições BÁSICAS para o cidadão do século XXI.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 29/06/2020

O QUE SÃO ESG E PIX no TerraçoCast #178

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Victor Candido, Renata Velloso e Rachel de Sá sobre os seguintes assuntos:

– Victor, o que indica a última ata do COPOM a respeito do futuro da Selic?

– Renata, atualize nossos queridos ouvintes a respeito das novidades sobre o coronavírus (o já consagrado CoronaNews);

– Rachel, explica pros nossos queridos ouvintes o que significam ESG e PIX, que são dois nomes que provavelmente serão cada vez mais falados nesse ano.

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A resposta dos Bancos Centrais à crise da COVID-19

Ao longo dos anos, nosso conhecimento sobre crises econômicas e financeiras vai sendo construído a partir de filmes, artigos e leituras em geral que fazemos sobre diversos episódios que ocorreram na história. Crise asiática, quebra da bolsa de Nova Iorque, crise do petróleo, empréstimos subprimes e mercado imobiliário, crise da dívida soberana europeia. A lista é longa, e o processo de recuperação da economia foi distinto em cada um dos episódios mencionados.

Apesar de mudanças na forma como essas crises começaram, os dias seguintes são bem conhecidos: redução no consumo, fechamento de empresas, demissões, diminuição do poder aquisitivo, aumento do desemprego, queda da confiança dos agentes (produtores e consumidores).

Contudo, vale a pena mencionar que as crises anteriores foram resultado de imperfeições inerentes à economia, como os contratos muito arriscados do subprime, elevação sem transparência das dívidas soberanas de nações européias, aumento repentino na produção de petróleo com manutenção da demanda, etc.

Agora, estamos no olho do furacão de uma nova crise, provocado por uma fator externo à economia: o surgimento de um vírus. Diferente dos outros casos, a economia não desacelerou a partir de um fato; na realidade, a “roda da economia” simplesmente PAROU por alguns meses, devido ao chamado shutdown realizado em todos os continentes. Após esse período, a produção voltou a se “normalizar”, embora em uma velocidade inferior ao momento anterior ao surgimento do vírus.

Até aqui, o que estou contando é que aparentemente o mercado foi capaz de absorver o primeiro impacto e aos poucos retomou a produção e consumo. Isso não é a verdade dos fatos.

Ficou faltando falar sobre um personagem que conseguiu acalmar os ânimos dos agentes por meio da injeção de liquidez e compras de títulos públicos e privados nos mercados financeiros.

Quê? Se você não entendeu, fique tranquilo! Deixando o “economês” de lado, vou te explicar o que significa essa intervenção e o papel dos Bancos Centrais na redução da incerteza nesse período de crise!

A resposta dos Bancos Centrais 

Em momentos de forte turbulência como o vivido atualmente, os Bancos Centrais se fazem presentes basicamente através da injeção de liquidez na economia objetivando que o sistema siga respirando apesar da paralisia que o cerca. Essa injeção de recursos acontece de maneira a comprar títulos que estejam circulando e, desta forma, assumindo os riscos deles. Em momento de crise, como o atual, os compradores “somem”, fazendo com o que os preços desabem. Por isso, a intervenção dos BCs tem o objetivo de suavizar essas oscilações de mercado.

A resposta, dessa vez, é bem mais rápida e vultosa do que em 2008. O motivo é razoavelmente simples: enquanto naquela época o ponto era recuperar a parte financeira da economia que tinha observado uma quase quebra com origens no mercado imobiliário dos EUA, dessa vez a economia como um todo – em aspectos financeiros e reais, no mundo inteiro – observou uma rígida paralisia. A necessidade de respostas hoje é, de fato, superior.

Elaboração do gráfico: Bloomberg.

Esse injetar de liquidez acaba resultando em uma externalidade que pode vir a beneficiar o Brasil: tendo em vista que os recursos disponíveis para manutenção do sistema circulando lá fora se dão presentes, os países desenvolvidos começam a olhar para locais mais arriscados para se investir e, nessa conta, entram os emergentes. É possível que uma onda de recursos não observada em muitos anos seja direcionado para cá.

Cuidado: liquidez que não realiza vira ilusão

Desde a crise de 2008 até a atual grande crise que vivemos, um perigo que está sempre a solta é o da dependência de estímulos de bancos centrais para que as economias sigam basicamente se desenvolvendo. Um forte indício dessa dependência é o fato de que bancos centrais como o dos EUA, do Japão e da Europa basicamente viram seus balanços aumentarem ano a ano desde 2008 juntamente da recuperação econômica e, no atual momento, o que vemos é uma tendência ainda maior do tamanho desses balanços para cima.

De um lado podemos sempre observar que injeções de liquidez dão um alento maior à economia para períodos complicados. Por outro, é possível observar também um descolamento entre os fundamentos das empresas e o porquê de estarem se valorizando tanto. Explica-se: o que faz com que empresas se valorizem de verdade é quando elas apresentam receitas maiores dados os custos e despesas (e, no fim do dia, lucros maiores também).

Uma amostra do que essa inconsistência significa está por exemplo no caso da Hertz. A empresa abriu processo de falência recentemente e, logo em seguida, buscou US$1 bilhão no mercado de ações – e conseguiu. Pensemos com clareza: qual o sentido de uma empresa falida levantar capitais nesta magnitude? A única explicação possível é a miopia da liquidez exacerbada que temos no presente momento.

E como fugir dessa miopia?

Temos dois caminhos para aproveitar essa liquidez gigantesca que os Bancos Centrais estão promovendo nas economias mundo afora. Um tem maior possibilidade no curto prazo e outro tem foco em prazos alongados.

A primeira possibilidade é surfar a onda da valorização da renda variável. No curto prazo, de fato essa liquidez inundará fortemente os mercados e será responsável por uma valorização sem precedentes. Inclusive, é importante notar que mesmo março de 2020 tendo sido um dos piores meses da história para a renda variável no Brasil, a recuperação já observada a partir de abril e as positivas perspectivas de recuperação que seguem são razoáveis. Porém, como já dito, o efeito do descolamento entre os ativos financeiros e a economia real pode resultar mais adiante em quebras de empresas – evidenciando que os ganhos nesta estratégia tendem a ser de curto prazo.

O segundo ponto seria aproveitar essa liquidez para focar em ativos da economia real. Dado que aplicações de baixo risco agora passam a ter retornos bastante baixos, diversos projetos de investimentos em ativos reais passam a ser mais atrativos do que antes. Os investimentos da economia real têm prazo de maturação bem mais longo do que a compra de ações no mercado de renda variável mas, no final do dia, apresentam uma consistência maior ao longo do tempo.

Fique de olho nos ativos reais!

O momento em que vivemos suscita muitas emoções, mas, a regra fundamental para geração e multiplicação de patrimônio ao longo do tempo é o pensar sobre fundamentos do investimento realizado com parcimônia e lógica. Qual o sentido de abraçar grandes ganhos de curto prazo que não devem se sustentar ao longo de décadas?

A janela de oportunidades que se abre para os ativos reais é, por mais paradoxal que pareça neste momento, ainda mais interessante do que a existente para os ativos financeiros. Tudo isso em função, justamente, da resposta firme que os Bancos Centrais dão ao redor do mundo neste exato momento.

 

Publicado no Terraço Econômico em 24/06/2020