SELIC A 4,5%: HORA DE ABANDONAR A POUPANÇA?

Durante essa semana tivemos mais uma queda na taxa básica de juros, a Selic. O Comitê de Política Monetária (COPOM) aplicou um novo corte de 50bps, fazendo com que ela esteja hoje em um patamar nominal nunca antes visto: 4,5% ao ano. Para se ter uma ideia do que isso significa, dois pontos são importantes: em primeiro lugar, há pouco mais de três anos nossa taxa Selic era de 14,25% (ficou nesse patamar entre 30/07/2015 e 19/10/2016); e segundo, a economia apenas com o pagamento de juros da dívida pública em 2020 será próxima de R$100 bilhões, segundo a equipe econômica.

Para além dos diversos aspectos positivos que ter uma taxa de juros mais próxima do que o mundo pratica nos traz, há um ponto que, caso você não esteja pensando ou se protegendo, certamente está perdendo dinheiro. Esse ponto é a alocação de seus recursos em reservas financeiras ou mesmo investimentos.

Com a Selic em 4,5%, a Poupança, que rende 70% dela, apresenta rendimento anual de 3,15% (o que é menor do que a inflação anual, que deve fechar 2019 entre 3,60~3,80%), um investimento que renda 100% do CDI e tenha desconto de imposto de renda terá rendimento aproximado a 3,71% e mesmo aquele bastante vantajoso 120% do CDI não dará nem 4,5% anualmente (encostará em 4,46%).

De posse das informações acima, é muito provável que o leitor já tenha lido em alguns lugares que “a atitude mais urgente a ser tomada é a de tirar todo seu dinheiro da poupança urgentemente”. A questão é de fato urgente, mas é preciso agir com sabedoria. No fim das contas, não é toda quantidade de recursos que deve ser tirada da poupança – pois há maior vantagem em manter nela os recursos de curto prazo do que buscar algo mais rentável, mesmo que tão conservador quanto.

O item mais falado quando o assunto é “o que existe de tão seguro quanto a poupança, mas renda mais do que ela” é o Tesouro Selic. Esse título da dívida pública brasileira lhe paga, como bem diz o nome, a Selic acumulada do período que você mantiver o título. Juntando o fato da Selic ser 4,5% e a Poupança agora render 3,15%, é lógico que você tire todos os seus recursos da velha conhecida Poupança e parta para a dívida pública nacional, certo? É aí que você precisa lembrar de dois detalhes importantíssimos: os impostos incidentes na operação e a necessidade de liquidez.

Tal qual a Poupança, o Tesouro Selic também apresenta liquidez diária, o que significa que você pode literalmente comprar ou vender em qualquer dia útil. Porém, o grande diferencial entre os dois meios de alocar seu dinheiro guardado, é que o primeiro apresenta rendimentos a cada mês e não incidem sobre esses rendimentos impostos (IOF ou IR) e o segundo apresenta rendimentos diários, mas sob a incidência desses impostos.

Partindo do pressuposto que você não conheça esses impostos, o mais importante a saber sobre eles é como eles incidem. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incide sobre os primeiros trinta dias de uma aplicação (de maneira decrescente a cada dia, 96% no primeiro dia, 3% no 29º e depois zero) e o Imposto de Renda (IR) incide de maneira decrescente ao longo do tempo, mas sempre incide (22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 721 dias). Existem outras peculiaridades a depender do fundo que você aplique também que valem ser observadas, como no caso dos Fundos de Ações em que o IR é sempre de 15%.

POIS BEM, ENTÃO COMO SABER O QUANTO DE RECURSOS FAZ SENTIDO AINDA DEIXAR NA POUPANÇA E O QUANTO DEVO ENVIAR PARA OUTROS TIPOS DE ALOCAÇÃO (CONSERVADORA OU NÃO)?

Imagine que suas entradas líquidas (salário, retiradas societárias, aluguéis,etc) totalizem R$5000,00 por mês e seus gastos mensais estejam nas proximidades de R$3500,00 (mas com variação possível de R$500,00 para mais, em determinados meses, podendo ocorrer ou não). Neste caso, seu fluxo de caixa livre está na faixa entre R$1000,00 e 1500,00. Levando em consideração que esses R$500,00 podem sair em qualquer um dos meses, é recomendável que esse valor fique em sua Poupança, enquanto os outros R$1000,00 podem ser alocados, por exemplo, no Tesouro Selic. Isso é o recomendável porque, no fim das contas, os R$500,00 colocados em um mês e retirados dentro desse mesmo mês praticamente empatarão em rendimentos na comparação entre Tesouro Selic e Poupança, dados os impostos pagos. Porém, há de se verificar uma diferença notável entre ambos conforme o tempo avança – e, assim sendo, os recursos que você não precisar mesmo usar no curto prazo ficarão melhor alocados no Tesouro Selic ou em alguma aplicação mais arrojada.

No fim das contas, tudo se relacionará com o controle que você exerce sobre suas próprias contas. É realmente assustador que a Poupança esteja literalmente te fazendo perder poder de compra (já que hoje rende menos do que a inflação), mas de nada adianta, nem em tempo, nem em esforço e muito menos em rendimentos, decidir que não se deve deixar nenhum centavo na Poupança simplesmente por existirem investimentos com rendimentos maiores – basicamente pela questão dos impostos incidentes.

Outra recomendação bastante importante e essencial em tempos de alarde sobre a urgência de tomar alguma atitude em relação a seu dinheiro guardado é a de conhecer seu próprio perfil de investidor (existem diversos testes online, é interessante pesquisar sobre para se conhecer). É tentador imaginar que com a bolsa decolando e a Selic em sua mínima histórica a melhor pedida seja migrar de uma vez para a renda variável – mas os riscos envolvidos precisam ser conhecidos (e sua reação a eles precisa ser estimada, para que um possível arrependimento não venha a ocorrer).

Dados de novembro de 2019 apontam que, hoje, R$825 bilhões estão depositados em contas de Poupança em nosso país. Certamente esse estoque vai se reduzir quanto mais o brasileiro médio se informar sobre o rendimento dessa velha conhecida – mas, como apresentado neste artigo, não é necessariamente a melhor medida que você transfira 100% de seus recursos ali disponíveis, a não ser que queira ter um esforço a mais para praticamente nenhum benefício adicional.

PRIVATIZARAM A ÁGUA no Terraço em Quinze Minutos #142

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Paulo André e Rachel de Sá com os seguintes temas: Reconhecimento de vínculo trabalhista pode jogar água no chopp das empresas de transportes e facilidades, Posse presidencial na Argentina (sem representação plena do Brasil) e Novo marco do saneamento básico brasileiro. Leia os artigos do Terraço Econômico em: terracoeconomico.com.br

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PRAGMATISMO COMERCIAL: COM A CHINA SIM, COM A ARGENTINA NÃO

Desde sua eleição, Jair Bolsonaro anunciou que o Brasil mudaria os rumos de sua política externa. Parafraseando-o, deixaríamos de nos alinhar com os países “esquerdistas” para enfim voltarmos a ter alinhamento com o mundo desenvolvido. Logo de cara houve um receio: isso significaria, então, que grandes parceiros comerciais seriam deixados de lado, como Argentina (caso voltasse aos tempos Kirchneristas, como de fato veio a ocorrer) e China (por seu sistema político)? Muitos industriais e interessados nas atuais parcerias tremeram por aguardar qual seria o desfecho.

No começo deste trimestre, o presidente realizou uma viagem ao oriente para tratar de, entre outros aspectos, as relações comerciais entre o Brasil e os países de lá. Era o momento de testar se o discurso de “vamos mudar isso daí” entraria em prática. Para surpresa de muitos, o que veio a acontecer foi algo bastante diverso: apesar de não ter assinado grandes acordos, a postura foi de aproximação e amizade, especialmente com a China. Para quem depende direta ou indiretamente dessas relações – e também para quem acredita mais em mercados do que em ideologias -, um resultado positivo. O pragmatismo com o país que nos permite ter um superávit comercial de quase US$25 bilhões apenas em 2019 é importante.

“Ufa, então nosso presidente entendeu a importância de estar alinhado com nossos parceiros comerciais! ”. É, muita calma nessa hora.

Nesta semana há a posse do novo presidente argentino, Alberto Fernández, e, devido a um encontro realizado na semana anterior desse recém-eleito presidente com o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (e também alguns parlamentares de partidos de esquerda), houve certa irritação gerada ao presidente brasileiro que, se desde a eleição já afirmava que não estaria presente na posse, agora desiste de ter qualquer presença no evento, deixando de enviar sequer um ministro para acompanhar o evento como representante do Brasil.

Ainda é muito cedo para afirmar que as relações estejam todas arranhadas e que seja impossível verificar avanços mais adiante. Porém, dois pontos são notáveis sobre essa atitude: em primeiro lugar, a Argentina é um importante parceiro comercial brasileiro – convém relembrar que o Mercosul foi iniciativa dos governos brasileiro e argentino da época; e, em segundo lugar, o recente acordo entre Mercosul e União Europeia, que ficou vinte anos em discussão, pode vir a ser desatado em virtude de discordâncias dentro do nosso próprio bloco, o que seria um retrocesso imenso.

As discussões sobre apoiar ou não os direcionamentos políticos de outros países são longa e não cabem em um curto artigo como este. Porém, algo que precisa estar em mente é que o impacto de “apoiar nações amigas” (como se fez em demasia nos governos anteriores a 2016) ou “apenas fazer alinhamento com quem é desenvolvido, mas não necessariamente é parceiro comercial” (como se tem feito ultimamente em aproximação quase sempre unilateral com os EUA) é praticamente o mesmo: perdemos tempo que poderia estar sendo dispensado em nutrir melhores relações com quem realmente nos faz avançar em termos comerciais.

Não se trata de deixar de lado quaisquer práticas que estejam sendo realizadas dentro dos respectivos países – como a repressão a movimentos que pedem por democracia (a China está fazendo isso com Hong Kong nesse exato momento) ou a retomada de medidas econômicas heterodoxas que já se provaram absolutamente ineficientes (a Argentina já anunciou que tomará esse caminho) -, mas sim de, em termos comerciais, não “desandar o caldo”, principalmente em um momento de, como se anuncia desde o momento da eleição, procurar encaixar nosso país nas cadeias globais de integração e geração de valor.

Em suma: é muito mais válido que procuremos como país o estabelecimento e manutenção de boas relações comerciais que nos sejam capazes de trazer divisas e gerar novos negócios do que perder tempo discutindo ideologias – porque, dessa maneira, a única coisa a se observar de mudança real é o espectro político apoiado.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 09/12/2019

SÓ SE FALA EM DÓLAR no Terraço em Quinze Minutos #139

Nesta edição, Caio Augusto acompanha Daniele Chiavenato, Paulo André e Rachel de Sá com os seguintes temas: Banco Central se posiciona mediante escalada da cotação do dólar Tabata Amaral e Rodrigo Maia juntos por melhorias para o Bolsa Família Contas públicas continuam comprometidas, mas há esperança?

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Lições de Kyiosaki-Lechter: viva dos rendimentos, esqueça o capital (parte 3)

Continuo apresentando as quatro breves lições a respeito do livro Pai Rico, Pai Pobre, de Robert T. Kyiosaki e Sharon Lechter. Isso é, aquelas que este que vos escreve considera serem mais importantes no best seller de finanças pessoais. Neste chega a seu terceiro capítulo, após falar sobre ativos (e não passivos) e eficiência no uso do orçamento pessoal, falemos sobre os rendimentos! Esqueça o capital!

Construindo patrimônio

Esse ensinamento pode estar no topo de prioridades de quem já investe altos montantes e pensa até em parar de trabalhar, mas se engana quem pensa que este artigo dialoga apenas com este perfil. Na verdade, o alvo aqui são todas as pessoas que pensam sobre dinheiro e na construção de um patrimônio para se resguardar seu futuro.

Há uma ilusão acerca daqueles que têm dinheiro, supostamente fazem uma retroalimentação entre seu estilo de vida (possivelmente mais caro em termos de consumo) e os bens acumulados ao longo do tempo: “a pessoa é rica porque tem como gastar”. É justamente nesse ponto que muita gente se engana, as pessoas acumulam bem porque conseguem viver um degrau abaixo do que ganham, não porque gastam mais do que ganham.

Há uma pergunta que incita muitas respostas em termos de consumo e quase nenhuma em termos de investimento: o que você faria se ganhasse alguns milhões no próximo sorteio da Mega Sena? A resposta média se aproxima bastante da clássica cena do Pica Pau: “iates, mansões, automóvel…”

É claro que, a depender do quanto você ganhe, vai querer ajudar seus familiares e realizar sonhos que antes não eram possíveis. Contudo, o pecado está em não acreditar que há dia seguinte. Inclusive, alguns casos práticos que mostram como isso pode mesmo ocorrer.

O cenário de vencedor na Mega Sena é pouco provável, então vamos à realidade dos fatos. Considerando que você consiga juntar um alto montante durante décadas de sua vida. Ótimo, chegou ao tão sonhado milhão de reais acumulados, após muitos anos de investimento (erros e acertos) e alocação do dinheiro que foi sobrando período a período. Se você chegou a este ponto ou mesmo almeja chegar, pense no seguinte: não basta chegar, mas é preciso permanecer (ou melhorar) nessa situação. Por esse motivo, o máximo que você pode gastar desse montante são seus rendimentos.

Vamos aos números, considerando este montante de R$1.000.000,00 (que, reforço, você juntou durante muitos anos e com muitos investimentos diferentes, pois essa missão realmente está longe de ser fácil), se você conseguir um investimento que te dê um retorno de 7% ao ano (já líquido de impostos), são R$70.000,00 anuais e cerca de R$5833,33 a mais a cada mês.

Levando em conta que você começou a trabalhar com 25 anos e demorou 30 anos para juntar esse montante (juntando R$500,00 por mês, a uma taxa mensal de 0,80% de rendimento), pode passar a contar com um salário razoável e extra que, a depender de sua situação aos 55, vai te permitir inclusive deixar de trabalhar.

Não existe caminho fácil

Convém dizer por uma terceira vez, para que realmente não exista enganos por aqui: não se trata de uma missão fácil, envolve ter um compromisso consigo mesmo ao longo do tempo. Trata-se de guardar recursos para seu eu do futuro e ouvir muito durante o caminho que “isso é besteira, pois você nunca sabe o dia de amanhã”. A parte paradoxal é que, no fim das contas, não saber como será o dia de amanhã deveria ser o maior estímulo possível para que você se prepare hoje, financeiramente, fisicamente e emocionalmente.

Essa lição, de todas as que o livro apresenta, é uma das mais difíceis de seguir. Porque você, se ainda não tem patrimônio, tende a acreditar que nunca acumulará tal montante inimaginável. Pode ter certeza, basta consultar alguém que acumulou patrimônio por toda a vida para descobrir como vale a pena dar valor àquilo que se construiu. Uma grande crítica sobre a educação financeira recai justamente sobre esse ponto: os educadores financeiros estariam imaginando um mundo colorido em que todos seriam racionais e capazes de seguir normas e mudar suas realidades.

Realmente, não são todos os indivíduos que decidirão por poupar recursos para o futuro, nem serão todos que optarão por pensar sobre o futuro. Na verdade, pouquíssimos entre os que acompanham o Terraço Econômico tomarão alguma decisão mesmo. Porém, se você que estiver lendo fizer parte do grupo dos que tomarão alguma decisão, independente do ponto que você estiver em termos de patrimônio agora: começando ou já finalizando seu planejamento, lembre-se que viver dos rendimentos é muito mais adequado do que reduzir o capital acumulado após chegar onde você desejava. Subir a enorme escada dos investimentos pode ser complicado, mas descer dela pode ser muito mais rápido e certamente uma decepção.

 

Publicado no Terraço Econômico em 20/11/2019

Ambiente de negócios: de onde virá o real crescimento sustentável

Nos últimos anos temos caminhado rumo a mudanças econômicas consideráveis, as maiores desde a redemocratização. Discutimos um limite aos gastos do Estado, uma adequação ao sistema previdenciário e estamos prestes a discutir mudanças sobre o ambiente de negócios. Este último aspecto pode, sem exageros, mudar a cara da economia brasileira para as próximas gerações.

Segundo o Doing Business, que é uma pesquisa realizada pelo Banco Mundial em cerca de 200 países para levantar as facilidades e dificuldades do ambiente de negócios, não estamos na segunda centena de países. Em alguns aspectos, como o que envolve o pagamento de impostos, estamos entre os últimos dez colocados. Em outras palavras: realmente o ambiente de negócios no Brasil é inóspito.

Existem atualmente duas possibilidades bastante positivas para mudar esse cenário e permitir uma melhoria considerável desta situação: uma reforma tributária e a chamada medida provisória da liberdade econômica.

A primeira possibilidade atualmente se divide em dois modelos diferentes: termos um imposto único a ser cobrado a cada transação bancária efetuada (proposta encabeçada por Marcos Cintra, secretário da Receita Federal) ou então um imposto sobre valor agregado (há pelo menos duas propostas, sendo uma delas capitaneada pelo economista do Centro de Cidadania Fiscal, Bernard Appy). Na visão deste que vos escreve, embora os dois modelos promovam uma facilitação no processo de pagar impostos, os impostos únicos são soluções simples para problemas complexos – e têm efeitos adversos que fazem a ideia não ser positiva no final das contas – e, enquanto isso, impostos sobre valor agregado podem adequar o país às melhores práticas internacionais.

Já a segunda está mais disponível e sua aprovação está sendo discutida. Tal medida provisória reduz uma quantidade de burocracias atualmente existente a empresas de pequeno porte – que representam, na prática, 99% de todas as empresas, segundo o Sebrae. Exigência de alvará para pequenos negócios e startups que não ofereçam perigo à saúde ou à segurança pública, por exemplo, deixará de existir. Para quem empreende, não há dificuldade de se entender o quanto reduzir burocracia no dia a dia é benéfico para a produtividade – dado que, dessa forma, tempo que seria perdido em processos não produtivos agora poderá ser utilizado em novas formas de otimizar o negócio.

Segundo o mais recente Doing Business, no Brasil as empresas passam cerca de 2000 horas e aproximadamente R$60 bilhões por ano lidando com burocracias. Reduzir esse tempo e essa imensa quantidade de recursos gastos tem um enorme potencial de crescimento para nossa economia. E, diferentemente do que vimos nos últimos ciclos de impulsionamento econômico, seria agora com sustentabilidade ao longo do tempo.

Publicado na Revista da ACIF Franca, edição especial de 75 anos da entidade, página 94

DECISÃO NÃO INTUITIVA: SACAR OU NÃO O FGTS?

Temos, a partir de determinação do atual Ministério da Economia, a possibilidade de sacar recursos do FGTS novamente. Da vez mais recente em que isso ocorreu, no governo Temer, era possível sacar todo o valor contido em contas inativas. Agora são duas as possibilidades: de realizar o saque de R$500,00 por conta inativa ou ativa – há possibilidade, por Medida Provisória, que o valor passe a ser de R$998,00 -, que é o chamado saque imediato, ou fazer um saque proporcional ao saldo uma vez ao ano mas com certos condicionantes, que é o chamado saque aniversário. Na outra vez, a escolha estava entre sacar os recursos ou deixá-los com o rendimento pífio fornecido pelo gestor do mesmo (o governo). Agora, há condições que tornam não tão óbvia a escolha.

Causa de uma certa desilusão neste ano, o FGTS agora se põe no centro de uma dúvida. Vale a pena ou não sacá-lo? É importante observar as novas regras para então decidir. Dentre elas, a que mais deve impactar nessa decisão é: caso opte por fazer o chamado saque imediato (nos próximos períodos, com valor máximo por conta inativa ou ativa), o valor limite de R$500,00 (ou R$998,00 com a MP) só pode ser retirado nesta vez e, se a opção for pelo saque aniversário (fazendo isso nos meses próximos ao mês de seu aniversário), embora um valor proporcional possa ser sacado todos os anos, em caso de demissão apenas a multa de 40% poderá ser sacada, não mais o saldo todo como anteriormente – sendo que este valor restante só poderá ser sacado em condições específicas.

SACAR OU NÃO SACAR?

No fundo, vai depender da sua disponibilidade de dinheiro em curto prazo ao longo do tempo.

Parece confuso, mas não é tanto assim. De olho em seu saldo de FGTS acumulado – aquele que você recebe de tempos em tempos pelos correios – e em seus rendimentos mensais, se faça a seguinte pergunta: caso eu seja demitido hoje, precisarei de todo esse recurso disponível ou é mais razoável que eu o tenha disponível em parcelas a cada ano?

Numericamente, pense em dois exemplos para tentar encaixar sua realidade. Imagine que seus rendimentos sejam, líquidos, de R$2.500,00 por mês e que seu saldo de FGTS seja de R$6.000,00. Caso você opte pelo saque aniversário, em um dos meses seu rendimento passará a ser de R$3.100,00 líquidos (pois, segundo a tabela da Caixa, nessa faixa de saldo residual é possível que sejam sacados 20% dele, R$600,00, no caso, 24% acima do que você costuma receber), mas, em caso de demissão com o saldo nesse mesmo montante, no lugar de receber R$8.400,00 (o saldo somado a multa de 40% do mesmo), receberá apenas R$2.400,00.

Agora imagine que seus rendimentos líquidos sejam de R$6.500,00, com um saldo de R$10.000,00, que você opte pelo saque imediato e tenha apenas essa conta disponível, ainda ativa. Neste caso, no mês do saque (que se limita a R$500,00 por conta), seus rendimentos líquidos serão de R$7000,00 (7,7% a mais) e, apesar de manter as condições anteriores para o saldo que lá restar (em caso de demissão você recebe o estoque somado a multa de 40%), não haverá outra oportunidade para fazer esse saque, a não ser que você preencha os requisitos das outras condições para isso.

No fim das contas, tudo se resume a colocar na balança os dois lados dessa questão: com seus rendimentos líquidos atuais, seria mais interessante ter um acréscimo de valor todos os anos em algum dos meses e em caso de demissão poder sacar apenas o valor da multa, pegar os recursos uma vez só ou deixá-los lá e ter um saldo maior a ser sacado em caso de ser demitido?

Apesar dos exemplos numéricos e da “balança”, se ainda assim a escolha ainda estiver pouco intuitiva, aqui vai uma sugestão: caso você tenha rendimentos líquidos mensais que lhe permitam ter uma vida razoavelmente confortável e, na atual situação, você possuir uma reserva de emergências e eventualmente investimentos que lhe auxiliem nesse aspecto, aproveite para sacar estes recursos e complementar seu bem estar ou seus investimentos; porém, caso sua situação seja de ter esses rendimentos apenas capazes de cobrir suas despesas mensais com pouca ou nenhuma sobra de caixa todos os meses (e não exista reserva de emergência ou outros recursos que possam ampliar sua liquidez em casos extraordinários), deixe para ter acesso a esses recursos apenas nas situações específicas em que a Caixa determina.

A sugestão acima se baseia na seguinte observação: se você já tem outros recursos em certa disponibilidade, conseguirá aproveitar os saques anuais para complementá-los e, em caso de demissão, terá certo montante que poderá absorver a situação de curto prazo. Já na situação em que você não tem outros recursos além dos rendimentos mensais para suprir eventuais momentos de desequilíbrio financeiro (como uma demissão), farão mais falta os recursos advindos do FGTS, seja ele com a multa de 40% ou apenas a multa.

Situação ideal que gostaríamos de ver nossos leitores é justamente a de estarem em possibilidade de sacar seus recursos disponíveis no FGTS a cada período, sem necessária preocupação com valores a serem recebidos em caso de demissão. Mas, caso você ainda não tenha disponibilidade suficiente para custear pelo menos alguns meses de seus gastos em caso de demissão (a famigerada reserva de emergências), pense bem antes de abraçar a supostamente óbvia escolha de sacar os recursos – ainda que, como no exemplo numérico deste artigo, eles possam significar um considerável aumento de rendimentos líquidos em um dos meses do ano.

É possível que você, leitor, discorde dos apontamentos numéricos levantados neste artigo. Não há problema nisso, afinal, os recursos lá disponíveis são seus, não deste que aqui está escrevendo. Ainda assim, fazemos um apelo: reflita, mesmo que rapidamente, sobre a balança que apresentamos aqui. Não deixe que a disponibilidade de recursos no curto prazo possa te prejudicar em caso de uma inesperada demissão – ou, caso estiver na situação mais confortável, não deixe de aproveitar para ter um recurso adicional para contribuir em seu bem estar ou em sua árdua caminhada rumo à independência financeira.

Cada caso é um caso, há sempre o que analisar. Que todos os nossos leitores tomem a melhor decisão para seus respectivos saldos de FGTS!

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 18/11/2019