QUEM GANHA COM AS PRIVATIZAÇÕES no Terraço em Quinze Minutos #119

Nesta edição, Lucas Goldstein, Renata Kotscho Velloso, Caio Augusto e Rachel de Sá respondem às perguntas dos seguidores do Instagram:

aestepaniack: “Alguns dizem que o Brasil está em crise, outros dizem que a crise está vindo… Onde estamos?”
_rodrigues10: “Privatizar para desregulamentar, ou o contrário?”
alvesolv: “Como promover a abertura da economia?”
lacerda1623: “Quais os efeitos reais das privatizações?”
fmantelatto: “Quem escolhe as perguntas do Terraço”?

Capitalização, estados e municípios: já que ainda não foram, ficam para depois!

Paulo Guedes, ministro da Economia e atual fiador da política econômica do governo Bolsonaro, em maio já afirmava: se a reforma da Previdência virasse reforminha, pediria para sair. Logo, após a definição do texto que iria para votação na Câmara dos Deputados, este que excluía estados e municípios e deixava de lado a discussão futura sobre capitalização, novamente o ministro foi enfático ao dizer que estava decepcionado com as lapidações realizadas.

De fato, Guedes não está errado. Embora a economia (ou redução de gastos futuros) da proposta enviada ao Senado seja considerável — na ordem de R$930 bilhões de reais —, o sistema continuará o mesmo (contribuições dos trabalhadores indo para os inativos) e estados e municípios (com seus mais de 2000 regimes próprios, muitos caminhando para o colapso) não estarão presentes.

A ideia inicial da Nova Previdência era que estivesse nas novas normas a possibilidade de discussão futura sobre a capitalização e a presença de estados e municípios obedecendo aos critérios gerais aprovados. Isso não aconteceu, por isso temos que o sistema seguirá o mesmo apesar do notável fôlego fiscal para a próxima década.

Agora, a questão nas mãos dos senadores é direta: buscar a aprovação da reforma que veio da Câmara como está ou incluir estados, municípios e sistema de capitalização agora? Há pelo menos quatro motivos que indicam para a aprovação da reforma como ela está ser o melhor caminho.

Em primeiro lugar, por mais paradoxal que pareça, como o esforço feito para aprovação da reforma na Câmara não foi suficiente para incluir estes dois aspectos, não é de se imaginar que incluindo agora no Senado — e tendo de fazer o texto retornar à Câmara para nova aprovação pelos deputados — subitamente o assunto se torne palatável o suficiente. Sim, o ideal seria que tudo isso estivesse incluído, mas é possível que não houvesse aprovação caso isso tivesse sido a realidade. Fato é que estamos muito próximos de aprovar algo que há duas décadas apenas se discute (e não dá para negar que isso é um considerável avanço).

Outro motivo é que tais tópicos, por mais claros que pareçam ser, não foram devidamente explicitados à opinião pública. Tal qual a narrativa de “essa reforma vem para prejudicar os mais pobres” foi razoavelmente superada, ainda precisamos encarar o mito de que “a capitalização vai apenas beneficiar os bancos e prejudicar o trabalhador”. Que fique claro: ambos são pontos não verdadeiros levados adiante por grupos corporativistas que defendem a estabilidade de seus próprios benefícios — e pouco justificam, quando perguntados, sobre quais são suas reais razões ou fonte de informações para o que declaram ser a realidade.

Terceiro motivo: ao ser tratada numa PEC própria, a capitalização poderá ser discutida mais detalhadamente e, de maneira democrática. Assim pode ser encontrado um caminho mais adaptável ao nosso país. Por enquanto, como quase nada se propôs objetivamente a isso (a não ser a ideia de que seria discutido no futuro), narrativas como “será tão perverso aos trabalhadores quanto a previdência chilena” acabam vencendo. Discutir esse tópico em separado permitiria um detalhamento melhor do que esse plano significaria em termos práticos, desde o seu funcionamento ao longo do tempo até o aspecto de transição entre o regime atual para este novo.

Por último, mas não menos importante, temos a postura de estados e municípios diante do processo como um todo. De fato, os dois tipos de entes subnacionais se declararam partidários da aprovação, mas de uma maneira mais tímida do que poderia ter sido. Provavelmente isso é reflexo de um peso maior dado às eleições municipais do próximo ano do que aos deficits crescentes que todos enfrentam há anos. Assim como na Capitalização, ter uma PEC em separado permitiria uma discussão mais apurada sobre os benefícios de termos um regime nacional previdenciário.

A ideia de que podemos aprovar reformas uma de cada vez parecia ruim poucos meses atrás, afinal, qual o motivo de não se aproveitar até o apoio popular existente para fazer tais mudanças todas de uma vez? Porém, não nos esqueçamos de que mudanças que representem “passos maiores do que as pernas” são um problema no Brasil. Como curiosamente já disse o próprio presidente, quando ainda da tramitação da reforma em comissões da Câmara dos Deputados: “difícil o texto passar como chegou do Executivo”.

 

Publicado no Terraço Econômico em 21/08/2019

OI: DO SONHO AO PESADELO

Oi é uma daquelas empresas cuja história se confunde com a do seu próprio país de origem. Idealizada para ser uma ‘supertele’, nasceu da fusão da Telemar e a Brasil Telecom, e contou com bastante recurso público, como foi o caso da participação societária do BNDESpar, linhas de financiamento a juros subsidiados oferecidos pelo BNDES e Banco do Brasil, além de participações financeiras consideráveis de fundos de pensão de empresas públicas, do Banco do Brasil (Previ), Caixa (Funcef) e Petrobrás (Petros). Eleita uma ‘campeã nacional’, nos moldes dos governos desenvolvimentistas de Lula II e Dilma I, a Oi conseguiu dinheiro barato e tempo para fazer frente aos seus competidores.

A Oi teimava em ficar apenas na quarta posição na telefonia móvel e o mercado de telefonia fixa minguava com um todo. A operação de fusão com a Portugal Telecom em meados de 2013 foi um total fiasco, tendo apenas adicionado acionistas que não viam o resultado melhorar. Além disso, operações de compra de empresas estrangeiras, como foi o caso da Unitel em Angola, regados à recurso público, adicionaram dívida para a companhia e diversos problemas judiciais, que queimavam caixa.

E os tão esperados resultados positivos não vieram. Desde 2014, conforme mostra o gráfico abaixo -, a Oi destrói valor a uma velocidade impressionante. Tirando o efeito positivo em 2018 provocado pela aprovação do processo de Recuperação Judicial, o resultado operacional dos outros anos é uma verdadeira catástrofe corporativa. As ações da empresa (OIBR3) anteciparam a derrocada financeira da companhia e já iniciaram queda livre a partir de 2013/2014, chegando aos incríveis (e impensáveis) R$ 1,00 da última segunda-feira (19/08/2019).

*Resultado dos últimos 4 trimestres. Fonte: ADVFN (https://bit.ly/2HfP91f)

Sobre a história da companhia, podemos dizer que a Oi faz parte de algo que podemos chamar de “processo de melhoria notável que poderia ter sido ainda melhor”. Esse processo é a privatização das telecomunicações no final dos anos 1990, durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Embora tenha aumentado enormemente a base telefônica do país (de cerca de 17 milhões de linhas fixas e menos de 5 milhões de móveispara atuais quase 230 milhões de linhas móveis), o desenho da desestatização deixou a desejar porque permitiu concentração de mercado posterior.

Em processos de desestatização, o Estado deixa de ser o provedor para ser o regulador dos mercados. Ideia positiva, dentre outros motivos, porque a competição permite benesses que o setor público, com seus monopólios, estava longe de conseguir. Porém, no momento da venda das empresas públicas para a iniciativa privada, permitiu-se a possibilidade de concentração de mercado em poucas empresas. Por mais que mercados que demandam economia de escala acabam tornando-se concentrados, um desenho que encaminhe uma maior pulverização poderia amenizar o efeito de perda de excedente dos consumidores aos produtores.

Analisando com olhar mais atento, muitos setores que fizeram essa transição do público ao privado nos anos 1990 passam pelo mesmo problema hoje. A expectativa é de que o desenhar das desestatizações do atual governo seja mais adequado e que possamos ver cada vez menos tais situações.

Na Oi, a união de más medidas de gestão com uma quase manutenção de status público – dada a participação de empréstimos e capital públicos, além da própria intenção de se ter uma tal Supertele, focando mais em “investimentos amigos” do que investimentos rentáveis – faz com que a empresa seja um notável exemplo de fracasso retumbante.

E os números mostram isso, sem nenhuma sombra de dúvida. Pobre dos acionis… credores da companhia.

 

Artigo publicado no Blog da Guide Investimentos em 20/08/2019

Esforços do governo no segundo semestre: aquecer a economia

Quem acompanhou mesmo que brevemente os rumos da política econômica no primeiro semestre do governo de Jair Bolsonaro observou com clareza que a meta principal era a reforma previdenciária. Todos os esforços ficaram focados em redirecionar nossa maior despesa pública nos próximos dez anos. Mas, assim como a recorrente discussão sobre a previdência, outra parecia assombrar a equipe econômica de Paulo Guedes: o que vem além disso?

Neste segundo semestre o governo buscará atacar pontos que também possam apresentar resultados positivos e palpáveis para o curto prazo. De toda a agenda pretendida, três, apresentados a seguir, devem aparecer com frequência nas discussões. Estes pontos serão apresentados por ordem de efeito: de curto prazo a mais longo prazo.

Análogo ao que se praticou durante o governo Temer, uma medida de instantâneo retorno deve ser colocada à disposição: discute-se neste momento a possibilidade da liberação dos valores disponíveis em PIS e em FGTS (incluindo, neste último caso, as contas ativas). Assim como no governo anterior, a previsão é que estes recursos sejam usados majoritariamente para o abatimento de dívidas existentes – o que é um avanço, mas diferente de significar um incremento relevante ao PIB neste ano.

Objetivando reduzir o preço do gás natural para o consumidor final, o governo buscará neste segundo semestre abrir este mercado. A ideia é que distribuidoras e transportadoras do gás natural (atualmente todas da Petrobrás ou que a tenham como sócia) sejam vendidas e o uso dos dutos deixe de ser exclusivamente estatal. Espera-se que assim mais empresas passem a competir neste mercado e, desta forma, o custo venha a se reduzir – segundo Paulo Guedes, uma forte redução dos preços deve ocorrer nos dois anos após tal medida colocada em operação. O grande desafio nesta área é a infraestrutura deficiente de transporte e armazenamento: caso não seja conjuntamente melhorada, os ganhos com a redução de custo podem ficar fechados à cadeia produtiva (ou seja: mais empresas entram mas usam esse reduzir de custos para compensar a operação pouco eficiente).

Por falar em infraestrutura, eis o terceiro ponto relevante. O trabalho do Ministro da Infraestrutura Tarcísio Gomes de Freitas, por ora silencioso, deve ganhar relevância no avanço e finalização de obras que já estão em curso. Outro trabalho a ganhar destaque será o de Jose Salim Mattar Jr, Secretário de Desestatização e Desinvestimento, que deverá colocar no mercado uma quantidade imensa de empresas para concessão e privatização (isso sem falar em uma parte que deve ser extinta). Essas duas ações em conjunto devem ter efeito de mais longo prazo, mas são importantes por deixarem os mercados mais bem estruturados e, como já discutimos nessa coluna, permitirem que o item que possibilita o PIB realmente avançar de agora em diante (o Investimento) faça sua presença em nossas vidas.

Assim como no caso da previdência, muitos “se’s” estão no meio do caminho. Será muito bem-vindo se tais avanços venham sem condicionantes perigosos – por exemplo a queda nos preços de energia com a MP 579 de Dilma que praticamente quebrou o setor elétrico ou a queda de juros forçada no mesmo governo que virou pouco tempo depois no arrastar de uma elevada taxa de juros. Focando no que realmente faz a economia avançar, ela trata de avançar, sem truques ou insustentabilidades como outrora se fazia.

 

Publicado na edição 273 (página 32) da Revista da ACIF Franca

INVISTA SEU BÔNUS: 3 RECOMENDAÇÕES

Evitando a famigerada expressão de que “casa de ferreiro é espeto de pau”, para além de dar indicações e fazer alocações de investimentos no dia a dia, é interessante que você faça o melhor também por seu próprio dinheiro, seja ele salário, bônus ou qualquer outro.

Em finanças pessoais recomenda-se que parte dos seus ganhos seja poupada todos os meses para que vire reserva de emergência e investimento depois. Mas, o que fazer quando se trata de uma quantia que vem, apesar de em data conhecida, em valor que não se tem certeza? Se você é agraciado com esse bônus, pode aproveitar para dar um passo adiante em sua tranquilidade financeira futura.

RESERVA DE EMERGÊNCIA

Aquele bom e velho recurso para utilizar em caso de adversidades. Recomenda-se ter sempre “na agulha” entre três e seis meses de salário, porque em caso de uma demissão, acidente de trânsito ou qualquer outra adversidade, será muito útil ter esse recurso disponível. Dica de alocação: Tesouro Selic ou algum fundo de saque imediato como o Guide Cash. Não será de fato um investimento, mas te permitirá fazer investimentos imediatamente após ter essa reserva.

REFORÇAR O PATRIMÔNIO FINANCEIRO

Considerando que você já tenha uma reserva de emergência, foque nos ativos que você mais considera seguros e aumente sua posição neles. Sempre válido dar uma apimentada colocando um pedaço dessa receita em ativos um pouco mais arriscados – não precisa investir em títulos da Venezuela, mas um fundo de ações já coloca um risco maior (que pode te render um retorno mais robusto ao longo do tempo).

DIVERSIFICAR

Supondo que você já conhece, aplica e está bem posicionado (ou seja, sua casa de ferreiro é de ferro mesmo), dá pra aproveitar esse recurso extra para se posicionar em possíveis pepitas não observadas. Que tal buscar investir fora do país, em algum ETF de mercado que pode explodir (ou implodir, tá aí a definição de risco), apostar contra algo que você acredita que está para dar certo mas sempre tem uma chance de dar errado (aqui no Brasil dá pra chamar isso de “Fundo Cambial”) ou mesmo direcionar recursos para grandes reservas de valor clássicas esperando que uma grande crise esteja chegando (ETF de ouro, talvez)? Se você já tem uma base financeira considerável e segura, pode utilizar recursos adicionais para buscar multiplicar o que você já tem.

Seja para criar reserva de emergência, reforçar o que se tem atualmente ou buscar multiplicar com apostas diferentes, nunca se esqueça de pesquisar bem sobre onde você vai alocar seu dinheiro – os riscos, como funciona para investir, segurança do processo.

Certamente há caminhos adequados para além de simplesmente pegar esse dinheiro e gastar como se não houvesse amanhã – até porque há.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 16/08/2019

CRISE MUNDIAL À FRENTE? Terraço em Quinze Minutos #117

Nesta edição, Lucas Goldstein, Arthur Solow, Caio Augusto e Rachel de Sá respondem às perguntas dos seguidores do Instagram:

marcosbmaiacnt: . Afinal, a economia global vai entrar em recessão?

lacerda1623: Qual a atitude que o Brasil tem que tomar para se prejudicar menos, frente às crises econômicas? Falem um pouco sobre a escolha do BC em vender dólar, o que afeta os Swaps cambiais.

salvitti22: Reformas avançando em um cenário externo desastroso. Qual efeito prevalecerá na economia aqui?

Dicas financeiras: não é força, é jeito!

Este artigo começa fazendo uma mea culpa. Se em algum momento a coluna Dinheiro no Terraço deu a entender que a tarefa de mudar os rumos financeiros de sua vida era “para qualquer um” ou “sem dificuldades”, pedimos nossas sinceras desculpas.

Em um post recente de nosso editor Arthur Solow, a temática do “apenas os incapacitados não conseguem acertar a vida financeira e virar um sucesso” foi colocada em xeque. Recebemos, nesta postagem (que foi feita em nosso Instagram), um comentário que nos chamou bastante atenção e motivou o presente artigo. Eis o comentário:

Um fator não havia sido abordado até então nesta coluna: a adaptabilidade à regras de bolso do mundo das finanças pessoais dependem muito do momento em que você está vivendo. Na prática, isso não permite que todo mundo seja um sucesso financeiro apenas seguindo simples passos, como alguns gostam de falar.

É absolutamente normal que você esteja numa situação fora dos parâmetros ideais e descritos por diversos desses manuais. Você pode estar no meio de uma pós-graduação (o que consome mais de seu orçamento, mas por um bom motivo), talvez esteja momentaneamente desempregado (consumindo reservas caso as tenha formado nos anos anteriores), acabou de se mudar para um novo emprego e está se adaptando. São incontáveis as situações que mostram como o “qualquer um consegue” é de pouca sustentabilidade.

Para além de formar reserva financeira e garantir um futuro mais confortável para você e seus familiares, é preciso sempre parar para refletir e aproveitar os momentos da vida, algo que passa tão rapidamente.

Percentuais e dicas fechadas são um conjunto de ideias, mas o que vale mesmo é a essência básica das finanças pessoais: ao longo do tempo, verificar como o dinheiro lhe tem sido útil para todas as suas atividades. Extremos de “não ligo para o futuro então me endivido o máximo possível” e “poupo tanto que não faço nada com meus amigos e familiares” são perigosos. Aliás, como dizem os mais antigos, “tudo em excesso é prejudicial”.

Com nossa coluna e nosso conjunto de dicas não esperamos que você mude seus hábitos a ponto de um dia se arrepender. Nossa ideia aqui não é servir como aquele esquema de dieta em que, como diria Tim Maia, após passadas duas semanas você apenas percebe ter perdido 14 dias. O ponto aqui é gerar uma reflexão a respeito do que fazemos com nossos recursos financeiros e onde nossas ações de hoje poderão nos levar amanhã.

Pensar a vida em perspectiva é o ideal. Não há mágica curto-prazista que te leve até um futuro encantado de independência financeira e está longe de ser correta a afirmação de que “se você não faz como eu faço, está logicamente errado”. Mas, novamente, o importante é conseguir ter clareza sobre as atitudes tomadas a respeito de algo que, paradoxalmente, muito nos tira o sono quanto menos tempo nos dedicamos com seriedade a ele.

Viva a sua vida hoje. Pense no futuro, mas viva o hoje. Ninguém está sentado na sua cadeira — e é tão responsável — por seu futuro financeiro, familiar e social quanto você mesmo.

Caio Augusto e Arthur Solow, editores do Terraço Econômico, assinam este artigo

 

Artigo publicado no Terraço Econômico em 12/08/2019

REFORMA DA PREVIDÊNCIA AVANÇA PARA O SENADO

Hoje, a PEC 6/2019 foi aprovada em segundo turno pela Câmara dos Deputados. Estamos falando, é claro, da reforma da Previdência que contou com o voto favorável de maioria absoluta dos deputados federais. A próxima parada do projeto, conforme dita o rito de aprovação, é o Senado.

O passar do tempo revela dois debates previdenciários: a batalha de narrativas negacionistas, majoritariamente liderada pelos militantes digitais, e a batalha da realpolitik, travada no Congresso Nacional por congressistas, algumas vezes a serviço de grupos de interesse – o típico rent-seeking praticado num Estado patrimonialista. Aos poucos, no entanto, a realpolitik, favorável ou contrária à reforma, se sobrepõe aos negacionistas.

O sistema previdenciário brasileiro chegou onde está, também, graças à inabilidade dos governos passados. Parafraseando o ex-presidente Lula, não podemos gastar aquilo que não temos. É uma questão de bom senso. O ex-presidente Temer, aliás, diria que é preciso coragem para enfrentar a reforma da Previdência.

Afinal, assim como afirmou a ex-presidente Dilma, trata-se de uma questão quantitativa. No futuro, o número de brasileiros trabalhando será menor e o número de brasileiros aposentados será maior. Considerando essa mudança sem precedentes na configuração demográfica – a população está vivendo mais – aliada à minoria das super-aposentadorias, temos o sistema previdenciário brasileiro: uma bomba-relógio que, enquanto não explode, gera mais e mais desigualdade.

De FHC a Bolsonaro, a realidade é que não houve presidente que tivesse não tocado nessa questão delicada buscando transformá-la em algo mais suave para as gerações futuras. Entretanto, hoje, a lucidez gera desconforto nos prisioneiros de uma ideologia retrógrada. É o caso, por exemplo, de Tabata Amaral e de tantos outros que contrariam meros rótulos e fazem uso do juízo racional: destaque especial aos votos dos tão celebrados representantes do Norte e do Nordeste na Câmara.

Ainda assim, a reforma da Previdência não é panaceia, apesar dos deboches negacionistas. Trata-se um passo necessário para a estabilização da dívida pública, mas, temos que solucionar os milhões de desempregos país a fora. A agenda econômica encontrará outros desafios adiante: reforma tributária, infraestrutura, educação e tantos outros.

Em uma analogia à economia brasileira no século passado, esta reforma é como o PAEG, enquanto o Plano Real aguarda seu momento para aparecer. Como dissemos inclusive em artigo, a reforma, apesar de necessária, não é o suficiente. Você que é leitor do Terraço Econômico e nos acompanha em análises sabe que, por aqui, não se vendeu a enganação de que “após essa reforma aprovada teríamos outro Brasil”. É o primeiro e importante passo, mas a caminhada apenas começou – precisamos seguir reformando.

Para além de esquerda, direita ou qualquer faixa do espectro político, a reforma da Previdência não é a reforma de um (ou mais de um) governo. Trata-se, na verdade, do princípio de uma reforma do próprio país. Por fim, o projeto segue para o Senado Federal. Observemos.

Caio AugustoPaulo André Silveira Jr. | Editores do Terraço Econômico

 

Nota publicada na página do Facebook do Terraço Econômico em 07/08/2019

LIVRE COMÉRCIO com os EUA!? Terraço em Quinze Minutos #112

Nesta edição, Lucas Goldstein acompanha Caio Augusto, Paulo André e Rachel de Sá com os seguintes temas:

REUNIÕES: dia decisivo para juros americanos e brasileiros
FGTS: Caio Augusto explica melhor proposta de Paulo Guedes
BOLSOM*RDA: Presidente ataca pai desaparecido de presidente da OAB
COMÉRCIO: presidente americano abre porta para acordo com Mercosul