Reforma da previdência: uma batalha de comunicação

Considerando o panorama de contas públicas em nosso país nos últimos anos, o tópico mais recorrente em discussão é a questão da reforma da previdência. Trata-se de um dos sistemas mais tradicionais dentro do mercado de trabalho em nosso país. Literalmente, gerações já iniciam sua carreira profissional pensando no tão sonhado dia em que irão se aposentar.

Dado o caráter praticamente petrificado desta estrutura, qualquer discussão a respeito de alterar esta expectativa logo recebe o direcionamento de ser uma “tentativa de acabar com sua aposentadoria”. Foi assim no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, no primeiro governo de Lula, quando Dilma ponderou sobre colocar uma idade mínima em seu primeiro mandato e durante o tempo de Temer.

Agora, com Bolsonaro, não seria diferente: o recém-iniciado governo de Bolsonaro, mesmo entre idas e vindas no que propôs até chegar na proposta final. Por um lado isso demonstra uma abertura maior a ouvir todas as partes, enquanto por outro sinaliza ou um despreparo a respeito do que vai ser oferecido (apesar das intenções de mudar consideravelmente a estrutura) ou mesmo uma discordância entre colocar para discussão uma reforma idealizada como Paulo Guedes pensa e colocar uma “que seja capaz de ser aprovada” (portanto, mais branda) como Jair Bolsonaro já mencionou.

As idas e vindas do que propõe essa reforma fazem com que este artigo torne-se obsoleto caso ouse enunciar alguns números, seja do que será possível economizar em uma janela de dez anos (já ouvimos entre R$1 bi e R$1,3), da janela de transição (poderia colocar a regra para valer a partir de 2022 ou passar 12 anos mudando) ou mesmo das idades mínimas propostas (que já foram de 62 e 57 ou mesmo 65 e 62 para homens e mulheres, respectivamente). Ainda assim, é preciso que sejam apresentadas as incoerências que tal reforma procura corrigir.

Primeiramente, a concentração de renda que ela gera. Hoje temos cerca de 30 milhões de aposentados pelo INSS e três milhões aposentados pelo regime de previdência pública. Proporcionalmente falando, este segundo grupo apresenta um déficit – diferença negativa entre recursos destinados ao pagamento das aposentadorias e o que é efetivamente pago – maior que o primeiro.

Em segundo lugar, a insustentabilidade do sistema. Atualmente, o sistema funciona pela chamada repartição de recursos: quem está trabalhando contribui para a aposentadoria de quem já está aposentado, não para a própria aposentadoria no futuro. Isso funcionava bem quando, nos anos 1980, tínhamos 9,2 pessoas em idade ativa para cada aposentado, segundo o IBGE – relação que hoje é de menos de cinco e, nas próximas décadas, rumará para menos de dois. Literalmente, a pirâmide se inverte e impossibilita o futuro do sistema como está. A mudança é urgente.

Finalmente em terceiro, mas não menos importante, as funções do Estado. Alguns advogam pela ideia de que mesmo que exista déficit previdenciário, ainda assim o sistema não deve ser alterado. Como essa despesa é crescente dado o envelhecimento populacional e que todo orçamento tem limite, essa escolha implica que outras áreas recebam menos recursos. Saúde, educação, segurança e outras políticas públicas ficarão ainda mais descobertas pelo curto cobertor orçamentário brasileiro.

Provavelmente você não pensava a respeito das questões elencadas neste artigo porque ouvia que essa reforma era apenas um jeito de “acabar com sua aposentadoria”. A má notícia é que enquanto essas ideias florescem, o sistema previdenciário segue rumo ao abismo – caminho que percorre há algumas décadas, não sendo algo iniciado agora.

A expectativa é que a equipe de Bolsonaro consiga mostrar a importância dessa reforma para que o apoio popular permita que seja aprovada. Ou então a narrativa que venceu nos últimos 20 anos sairá vencedora novamente – e o governo brasileiro virará apenas um enorme pagador de aposentadorias. A escolha está posta.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em fevereiro de 2019:

– Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF Franca), Edição 270, Página 48: http://www.acifranca.com.br/SITE/edicao/acif-em-revista-edicao270.html

COMO VOCÊ ESPERA ESTAR QUANDO SE APOSENTAR?

A pergunta que dá título a este artigo assusta ou afasta muita gente. Quando é tópico de alguma conversa, o assunto das finanças pessoais acaba trazendo em muitos de nós um certo receio, quando não mesmo medo ou desinteresse. Não precisava ser assim. Em tempos de rediscussão de previdência – havendo possibilidade de que algo tão esperado fique para mais adiante do que se esperava -, é importante retomar este assunto amargo para muitos.

Em termos de lidar com o dinheiro, existem três categorias nas quais você possa estar encaixado. A primeira e mais indesejável é estar em algum cadastro de negativados (realidade de quase 35% dos brasileiros). A segunda é não necessariamente estar negativado, mas não ter recursos em reserva (o que ocorre com 65% dos brasileiros). A terceira, mais confortável e desejada, é ter recursos reservados (22% estão enquadrados nessa categoria).

O caminho entre o dia de hoje, em que você lê este artigo, e o dia em que você deverá completar idade suficiente para se aposentar (seja pelo sistema previdenciário em que você se encaixa ou por ter conseguido juntar recursos pelo caminho) é composto pelo tempo que você tem para sair da primeira categoria e chegar à terceira. Fácil, realmente não é, principalmente porque envolve escolhas, mas é um meio de dizer ao seu “eu do futuro” que você se importa bastante com ele.

Considerando que você esteja entre a segunda e a terceira categoria, já conseguindo reservar recursos após ter resolvido ou controlado quaisquer dívidas que você tenha, a primeira pergunta que terá a fazer é: e agora, o que fazer com os recursos que sobraram? Basicamente neste momento que você precisa fazer a primeira grande escolha, que é a de manter sua estrutura de gastos apesar do dinheiro que sobra.

Após tomar esta primeira atitude, a pergunta sobre o que fazer com o dinheiro que sobra começa a ganhar contornos mais interessantes. Primeiramente, é recomendável que você faça uma reserva pessoal, que geralmente os especialistas indicam ser entre três e seis meses de despesas – reserva essa que deve estar em fundos de acesso imediato.

Em seguida, tendo essa reserva trabalhando pra você, é hora de procurar meios a curto, médio e longo prazo que possam permitir que o dinheiro trabalhe para você. Neste momento é importante descobrir qual seu perfil de investidor e alocar recursos no que mais se encaixam em suas reais necessidades ao longo do tempo.

Importante frisar novamente que não se trata de uma tarefa fácil. Um segredo que poucas vezes te contaram é que cuidar de dinheiro mais parece com os cuidados de um campo de grama do que com o observar de um bambu em sua crescente diária. Ou, mais diretamente: esteja mais atento a retornos acima de mercado ao longo do tempo do que a “oportunidades imperdíveis que vão te dar retornos inacreditáveis da noite pro dia”.

Felizmente, aqui na Guide você pode fazer de sua estadia na terceira categoria uma viagem bastante positiva ao redor do tempo, afinal, com os investimentos aqui oferecidos, seja você um investidor totalmente avesso aos riscos ou que os aprecie ao máximo, haverá sempre uma possibilidade de alocação. E, outro segredo que você nunca deve esquecer: Einstein dizia que uma das forças mais robustas era a dos juros compostos – se você aproveitar isso tendo o tempo como seu aliado, garanto que não irá se arrepender dos resultados (e seu eu do futuro será muito grato por isso).

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em abril de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (15/04/2019): https://blog.guide.com.br/textos/como-voce-espera-estar-quando-se-aposentar/

AVIANCA E O PERIGO DO CONCENTRADO MERCADO AÉREO BRASILEIRO

Em dezembro de 2018, a Avianca, empresa que apresentava crescimento e boa avaliação por seus passageiros, anunciou que entrava em regime de recuperação judicial – que é, em termos práticos, uma última tentativa de recuperar as atividades antes que ocorra uma falência, protegendo o crédito do devedor e procurando restabelecer os rumos da companhia.

Este processo de recuperação judicial envolve também as empresas que fizeram leasingdas aeronaves para a Avianca, naturalmente. De acordo com um tratado internacional, esse tipo de empresa deveria ficar fora de processos assim a fim de permitir que, em até trinta dias, ou a dívida existente seja paga ou os bens (no caso, as aeronaves) sejam devolvidas. Mas, por uma liminar concedida que objetiva manter as atividades da empresa, essas empresas foram colocadas na negociação também – o que adiciona um problema ao todo: as ações judiciais delas para mudar essa situação.

mercado aéreo brasileiro é bastante concentrado. Existe um número considerável de empresas, mas, segundo os dados de participação de mercado da ANAC, 86,99% dos passageiros estão voando em apenas quatro empresas aéreas: Latam (29%), Gol (28,39%), Azul (19,18%) e Avianca (10,42%). Não fica difícil imaginar o quanto as primeiras três empresas têm se beneficiado dessa recuperação judicial em termos de ampliar seus mercados.

Não é novidade para quem se utiliza dos serviços aéreos no Brasil que, além de concentrado, esse mercado é geralmente ineficiente – tanto que oferece serviços de qualidade questionável a preços razoavelmente altos e ainda assim se verificam notícias a respeito da dificuldade financeira delas. Essa eficiência deve melhorar com a permissão da entrada de empresas com capital 100% estrangeiro – e elas já estão chegando para, a um preço mais baixo, oferecerem uma interligação maior que amplie a capilaridade do sistema aéreo brasileiro.

Voltemos à Avianca. Seu grande pecado foi atuar de maneira muito arriscada em termos gerenciais – não que ampliar o mercado em momentos de crise seja má ideia, mas o fazer de modo próximo ao limite operacional (ampliando o que oferecia ao consumidor, mas ao custo de um aumento de dívida de maneira vertiginosa). O pedido de recuperação judicial seria uma tentativa de reverter a situação, mas, por ora, o cenário encontrado é bastante instável.

Este caso é mais uma demonstração do paradoxal resultado da concentração de mercados: os poucos players ficam com boa parte do mercado e, por uma certa acomodação com tal situação, esquecem-se (porque, afinal de contas, não vale a pena) de se atentar à eficiência dos processos e, no fim das contas, amargam os próprios prejuízos.

O remédio é amargo no curto prazo e gera reclamação principalmente de quem não se prepara quando tem a chance: chama-se competição.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em abril de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (12/04/2019): https://blog.guide.com.br/textos/avianca-e-o-perigo-do-concentrado-mercado-aereo-brasileiro/

ANOS 2010: DÉCADA MAIS QUE PERDIDA

Segundo estudo recente do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), teremos nos anos 2010 o pior crescimento médio de PIB em 120 anos. Caso você tenha ouvido falar nos últimos anos que esta seria uma “década perdida”, tal qual se atribui aos anos 1980, é hora de confirmar tal expectativa. Essa será a década mais “perdida” em mais de um século.

Há uma miríade de razões que explicam esse resultado e, na prática, seria pouco pertinente apontar apenas uma ou duas para resumir toda a questão. Porém, todo esse conjunto de medidas tem um nome: descaso com o longo prazo.

Nosso campo de políticas públicas, tanto à direita quanto à esquerda, sempre foi repleto de preocupações com causas que não costumam afetar tanto o longo prazo. Na dúvida, basta olharmos três dados alarmantes que nos colocam em posição vergonhosa.

Metade da população brasileira não tem acesso a saneamento básico. Esse tipo de problema, que poderíamos imaginar no século XIX mas é altamente preocupante que seja um dado dos dias recentes, contribui para a continuidade de doenças contagiosas e a difícil batalha de enxugamento de gelo que é a de todos os anos com os desembolsos públicos na saúde.

Menos de 10% dos brasileiros consegue entender bem o que lhe é dito e se expressar adequadamente. Este número surreal mostra como é fácil de entender que nosso atoleiro econômico não tem solução fácil: a partir deste dado podemos depreender, por exemplo, a ocorrência em diversos setores da existência de vagas que não são preenchidas porque não se têm candidatos preparados em número e qualificação suficiente.

Dos quase 200 países analisados em termos de facilidade de fazer negócios, estamos na segunda centena. Burocracia, dificuldades diversas e uma quantidade inominável de imbróglios e embaraços tornam a atividade empreendedora quase um sinal de heroísmo por aqui.

Provavelmente o leitor deve lembrar agora também de nosso problema com as contas públicas, que tem nos trazido a uma situação de aumento de carga tributária e dívida pública ano após ano – com exceção aos anos 2000, em que a China impulsionava bastante nossa economia e os superávits do período nos permitiram aliviar essa trajetória sensivelmente (o que inclusive deu a ilusão de que, já que os problemas estavam todos resolvidos e o sol brilhava, não era preciso trocar o telhado que já dava sinais de estar bastante desgastado). Ou ainda do nosso descuido quase que sempre presente em termos de nossa produtividade (que está estagnada há décadas).

Tudo isso culminou no pior biênio em termos de PIB da história do país (2015-2016) e, conhecemos agora, na pior década em 120 anos.

O que não faltam são motivos para explicar o porquê desse resultado tão ruim. A única notícia boa disso tudo, é que, quando estamos em uma situação muito negativa, há muitos exemplos bons a replicar para que o bom resultado volte a ocorrer. Ou então, que aceitemos que a realidade é ficarmos presos no tempo em termos de renda.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em abril de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (03/04/2019): https://blog.guide.com.br/textos/anos-2010-decada-mais-que-perdida/

BolsoMaia NAQUELA DR! Terraço em Quinze Minutos #78

Você faz o decreto de sexta no Terraço em Quinze Minutos!

Nesta edição, Lucas Goldstein acompanha Arthur Solow, Caio Augusto, Rachel de Sá e Renata Kotscho Velloso respondendo as suas perguntas:

Maia está certo em cortar e reatar com Bolsonaro?
O que aconteceu com o Mercosul?
Se a Previdência não passar, olê olê olá…
Guedes fica até o fim do mandato?
Em quem Guedes se baseia para fazer economia? O que seria do governo sem ele?
Reforma do Temer pode ser uma alternativa?

Em defesa das finanças pessoais na educação do brasileiro

Discussões em torno de finanças pessoais estão em praticamente todos os lugares nos últimos tempos. O boom de curiosidade a respeito deste assunto veio com o recente meme-financeiro da Bettina, a milionária (de verdade e da propaganda da Empiricus). Mas, para além de piadas a respeito, o assunto é bastante importante.

De tempos mais antigos temos o Gustavo Cerbasi. Mais recentemente, Nathalia Arcuri. Ainda mais recentemente, esta humilde coluna do Terraço Econômico. O assunto está cada vez mais presente e suscitando um questionamento que, na maioria das vezes, não é bem respondido: qual a utilidade das finanças pessoais para mim?

Verdade seja dita: entender sobre os rumos do seu dinheiro independe da profissão que se tenha. Muito provavelmente você conhece algum economista ou contador que, apesar de lidar com alocações financeiras ou cenários do mercado diariamente, não sabe exatamente o que bem fazer com seu dinheiro ao final do mês – o que implica que, mesmo quando há sobras, apesar de mostrar excelentes caminhos durante horário comercial na empresa em que trabalha, não sabe responder a um simples questionamento a respeito de como investe e se entende o porquê. Este primeiro ponto pode parecer desanimador (“então ninguém sabe sobre isso”), mas na verdade é um alerta (“todo mundo deveria saber”).

Entender sobre os caminhos do seu dinheiro, o que envolve conhecer em detalhes o quanto e como entra, quais são as despesas e o que eventualmente sobra ajuda a ter uma tranquilidade num aspecto que preocupa grande parte dos brasileiros. Inicialmente pode se mostrar como assustador, com constatações como “nossa, eu gasto tudo isso?” ou “imagina quanto poderia sobrar se eu parasse de gastar com isso aqui que eu nem gosto tanto assim”, ou mesmo “ah, é por isso que nunca me sobra dinheiro”. Esse segundo ponto, apesar de parecer um sadomasoquismo (você precisa sentir essa dor se quiser mudar os rumos de sua vida financeira), é importante.

Após entender o que se passa com seu dinheiro, você precisa começar a tomar atitudes. Sendo seu caso de endividamento, de empate entre receitas e despesas ou mesmo de sobra, para além do diagnóstico também há a necessidade de pensar no que fazer com essa informação. Neste aspecto, as finanças pessoais ajudam bastante, com dicas como “procurar as dívidas mais caras e de curto prazo para pagar primeiro”, “verificar o quê de suas despesas pode ser cortado sem ter prejuízo em bem-estar para que sobre dinheiro” ou mesmo “procurar entender sobre opções de reserva e investimento para onde esse dinheiro que sobra pode ir”. Este terceiro ponto é indispensável.

Neste momento, você também pode estar pensando em um segundo questionamento. “Mas isso não é só pra quem tem muito dinheiro?”. Esse é justamente o ponto que deveria ser mais desmistificado em todo e qualquer material de finanças pessoais: não, entender sobre dinheiro não é só para quem ganha muito dinheiro, é para todo mundo. Aliás, como já dito aqui, a própria concepção de “pessoa que tem dinheiro” não é simplesmente baseada em consumo e pode ser muito mais ampla do que parece.

Uma crítica feita rotineiramente a este tipo de conteúdo é que ele costuma ser falacioso ou muito imaginativo. Propagandas como essa da Empiricus que dão a entender que “é simples assim sair de mil reais para um milhão” contribuem para esse tipo de coisa. Dizer de maneira direta o que você não consegue provar que conseguiu também de maneira simples cria um ar negativo e de desconfiança, é verdade.

Ainda assim, colocar absoluto descrédito sobre um conteúdo que tem real potencial de te ajudar a entender sobre seu próprio dinheiro e tornar sua vida mais confortável financeiramente é, no mínimo, problemático. Qual é o problema de ensinar algo que pode tornar a vida mais tranquila no futuro? Reforço aqui: contanto que seja comprovável e esteja ligado a melhorias reais, não a puro e simples propagandismo.

Em um país cujas contas públicas demonstram claramente que o arcabouço de proteção social não é suficientemente coberto pelos recursos (e, aliás, cada vez menos será no futuro), ensinar sobre a importância de depender menos do auxílio do Estado e entender mais sobre como estar do lado que ganha (e não do lado que paga) os juros é fundamental.

É preciso defender a difusão da boa educação financeira, apesar da fantasiosa ideia que se tem sobre elas de que não envolvem complicadas decisões que podem realmente mudar sua vida. Ou, em outras palavras: brigue com o mensageiro, não com a altamente relevante mensagem.

 

Caio Augusto, Editor do Terraço Econômico, assina este artigo.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Terraço Econômico (28/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/em-defesa-das-financas-pessoais-na-educacao-do-brasileiro/

BETTINA EM APUROS! Terraço em Quinze Minutos #77

Nesta edição, Lucas Goldstein acompanha Caio Augusto, Rachel de Sá e Renata Kotscho Velloso nos seguintes temas:

Guedes adia ida à CCJ para falar de Previdência
Caso Bettina: Procon aciona polícia sobre propaganda enganosa
Petrobras apresenta nova política de preços do diesel
Brexit: parlamento britânico toma frente nas negociações
EU derrota gigantes da internet em disputa sobre direitos autorais

PETROBRAS MUDA DE NOVO: O XADREZ NA GREVE DOS CAMINHONEIROS

A não ser que você estivesse em outro planeta, sabe o que aconteceu em terra brasilisnos últimos dez dias de maio de 2018. A greve dos caminhoneiros deu uma amostra grátis dos anos 1980 a quem nunca viveu desabastecimentos e busca acirrada por bens de consumo básicos.

Dentre as motivações principais desta greve, a política de preços da Petrobras estava no alvo: por acompanhar a paridade internacional de preços e, tanto dólar quanto petróleo terem subido consideravelmente, a alta dos preços nos combustíveis foi tamanha que os caminhoneiros alegaram falta de previsibilidade para prestarem seus serviços. Como resultado, primeiramente uma queda de 10% no valor, depois outra de R$0,46 via corte de impostos e, no fim das contas, um congelamento até o último dia de dezembro.

2019 chegou e, por uma nova alta observada tanto no dólar quanto nos preços do petróleo – esta que está se refletindo novamente em subida dos preços dos combustíveis -, estão sendo monitoradas novas movimentações grevistas.

Assim sendo, a Petrobras mudou novamente sua política de preços do diesel: a partir de agora, os reajustes ocorrerão com no mínimo 15 dias de diferença entre um e outro e, para aliviar a flutuação de preços que se observa diariamente, a empresa seguirá utilizando mecanismos de proteção (hedge) para manter a paridade de preços internacionais.

Se isso evitará uma nova greve dos caminhoneiros é difícil afirmar, principalmente porque, pelo que observamos no ano anterior, o movimento parece mais espalhado do que comandado por alguma liderança ou grupo de lideranças (impressão reforçada a cada novo “o governo fechou com as lideranças da greve e ela irá acabar hoje” com aviso em seguida de que “na verdade ela segue em frente”). Porém, temos aqui que a empresa acertou na medida por pelo menos dois motivos.

Primeiramente, o acerto se dá porque a empresa mostra que está interessada em manter suas margens e a paridade internacional de preços ao mesmo tempo que apresenta uma estabilidade maior de preços ao consumidor final de diesel – que é majoritariamente composto pelos caminhoneiros. Uma antecipação a um possível movimento grevista em relação ao aspecto tido como sendo dos mais relevantes mostra que houve aprendizado com o ocorrido do ano anterior.

Em segundo lugar, se a capacidade de articulação, que com Temer já foi bastante questionável – dada a demora para colocar a questão nos eixos de quase meio mês -, a de Bolsonaro ainda está sendo colocada a prova. Não que se duvide da capacidade do presidente; mas, se em quase três meses concluídos de governo ele ainda questiona publicamente o que deveria ser feito para articular algo urgente como a reforma da previdência (que é discutida há pelo menos duas décadas, tempo inferior ao que ele passou como membro da casa legislativa, o que deveria indicar ao menos um conhecimento básico a respeito dessa articulação necessária), é temerário pensar que dependa exclusivamente dele ou de sua ordem para uma finalização de um novo evento como esse.

Lembrando que o próprio, durante a greve, ora apoiou, ora pediu que fosse encerrada, conforme a conveniência que observava mais adequada.

Petrobras agiu de maneira inteligente e jogou adiante no xadrez da possível nova greve dos caminhoneiros. Como algumas articulações tratam de um início provável no dia 30, em breve descobriremos se funcionou ou não.

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (27/03/2019): https://blog.guide.com.br/textos/petrobras-muda-de-novo-o-xadrez-na-greve-dos-caminhoneiros/

É só cobrar os devedores da previdência?

Em tempos de discussão sobre a reforma previdenciária, alguns argumentos surgem para inferir que existem outros caminhos para a além de uma reforma, ou mesmo, mais diretamente, que ela seria desnecessária dado que outras possibilidades estariam facilmente postas à mesa.

Uma dessas possibilidades – e tenho certeza que você, leitor, já ouviu falar dela – é a de cobrar os devedores da previdência.

Em primeiro lugar, é preciso admitir que os altos valores talvez queiram significar que a cobrança por eles não seja das melhores. Precisamos verificar quais os meios estão sendo utilizados para entender se há eficácia nessa cobrança ou se seria preciso alterar o modo como tem sido feito. Possivelmente, a PEC que está em tramitação a respeito deste assunto possa encaminhar uma solução mais adequada.

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Mas, vamos direto aos dados: quanto devem os cem maiores devedores da previdência? Segundo dados de 2017 da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, cerca de R$50 bilhões, conforme ilustra a tabela abaixo:

A tabela acima também pode ser acessada clicando aqui.

Peço que o leitor localize o terceiro maior devedor e confira a imagem a seguir. É a VASP. Veja qual a situação atual e reflita, por um momento, com bastante seriedade: qual a real capacidade de pagamento desta dívida por parte desta empresa?

Fonte da imagem: Dorival Moreira FineArt

Neste momento o leitor também pode alegar algo que também é verdadeiro: “já ouvi falar que o valor é bem maior do que estes R$50 bilhões”. De fato, o valor total destes devedores é de mais de R$400 bilhões. Logo, imagina-se a reação: “e isso não seria capaz de resolver a situação por completo, então?”. Neste momento entramos na mesma explicação que existe sobre o maior erro da pesquisa anual da Oxfam – erro sobre o qual já escrevemos aqui.

O déficit da previdência é um demonstrativo anual de que as contas não fecham em seu fluxo, considerando as entradas e saídas de cada ano. As dívidas da previdência formam um estoque, montante este que, uma vez zerado, não estará disponível para uso novamente.

Reafirmo: é claro que tais dívidas devem ser cobradas, mas, mesmo que sejam integralmente pagas (e, analisando os devedores, uma parte não desprezível não conseguirá pagar), a questão do déficit (o resultado negativo que ocorre ano a ano) não será resolvida.

Há uma miríade de problemas brasileiros que precisam ser resolvidos além das contas públicas e da previdência – e seria uma irresponsabilidade pensar que apenas a reforma previdenciária será capaz de encaminhar todas essas questões. Mas, se temos uma solução direta e diante de nossos olhos, que é a reforma da previdência, em vez de utilizarmos diversos subterfúgios para evitar a resolução do problema (como “só faz sentido se resolvermos outras coisas antes”), podíamos aproveitar a oportunidade e começar de uma vez a resolver a situação.

Caso contrário, teremos apenas a continuidade de uma imensa questão a ser resolvida – e a continuidade do incêndio, mesmo que o hidrante esteja disponível bem diante de nossos olhos.

Caio Augusto, Editor do Terraço Econômico, assina este artigo.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Terraço Econômico (25/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/e-so-cobrar-os-devedores-da-previdencia/