5 anos de Terraço Econômico. O que vem pela frente?

Quase sem perceber, imersos em pensamentos cotidianos e rotineiros, chegamos a 5 anos de Terraço Econômico no ar. São mais de 1.800 dias em que tentamos falar de forma descomplicada sobre assuntos delicados, sejam econômicos, políticos ou sociais, que afetam a nossa vida aqui no Brasil e no resto do mundo. A jornada não foi fácil.

Começamos pequenos, com muita vontade de fazer, mas sem muita direção para onde queríamos ir. Uma ideia movimentava as iniciativas: a de ser referência em boa informação e análise. Estávamos cansados de viver em um mundo repleto de informações, mas que ao mesmo tempo nos sentíamos sugados por análises rasas e sem muita fundamentação.

Avaliações realizadas nos últimos anos na página do Facebook

Não se trata de nadar contra a corrente ou ser “do contra”, mas sim de evitar o “vamos aplaudir só porque estão aplaudindo” ou “vamos vaiar só porque estão vaiando”. O que é boa medida, você vê aqui sendo elogiado por ser boa medida. O que é ideia de jerico, você também vê aqui, sob um olhar diretamente crítico. Independente de quem seja o(a) mentor(a) intelectual da ideia. Estamos ligados muito mais às ideias do que a pessoas.

Esta missão é interminável. É um trabalho de formiguinha. Somos alvos de incontáveis críticas mordazes à esquerda e à direita; ouvimos com certa frequência que talvez estamos falando para poucos apesar do alcance crescente que temos ao longo destes anos. Porém, se tem algo que no dia a dia seguimos aprendendo é que ser pedra é muito mais fácil, mas são poucos os que se arriscam ao papel das vidraças.

E erramos no meio do caminho, isso é fato.Por incrível que pareça, manter um site de economia e política por 5 anos no ar é uma tarefa que demanda esforço, organização e muita conversa. Discussões acaloradas ocorreram ao longo do caminho, mas as diferenças não superaram o nosso objetivo final, que é o de criar e manter o Terraço Econômico aberto e disponível para todos vocês.

Somos um dos espaços mais democráticos no país em termos de abertura ao leitor. Por aqui, temos duas seções reservadas ao envio de artigos: Você no Terraço, para leitores que nos acompanham poderem expor suas opiniões e Convidados Especiais, para especialistas e grandes nomes que chamamos para contribuir conosco – você vê não apenas nossa opinião editorial, mas também a opinião de quem nos ajuda a crescer e avaliar criticamente nossa própria atuação.

Começamos aqui, neste espaço. Expandimos ao Facebook, ao Twitter, ao Instagram, ao YouTube e em diversas plataformas de áudio com nosso podcast (Spotify, SoundCloud, Apple Podcasts, etc). Em 2018, até em documentário você nos acompanhou. Temos ainda três cursos disponíveis na Hotmart, com mais de 90 alunos que assistiram as aulas de Micro, Macro ou Estatística.

De vez em quando você nos ouve por aí em participações como no UOL, na Rádio Globo e até mesmo na Jovem Pan. Tudo isso ocorreu e segue ocorrendo porque você acredita no conteúdo que produzimos, dia a dia, sob um esforço imenso e, não tenha dúvidas disso, extremamente recompensador.

A pergunta do título deste artigo é altamente questionadora. De modo algum pode ser respondida com facilidade. Mas é esse mesmo o espírito que nos move: o de perseguir quais são as novas perguntas e, assim, evoluir e apresentar sempre da forma mais descomplicada e interessante – simples, mas não simplista – conteúdos a respeito de economia e política que façam diferença na sua vida.

Não é sempre que você concordará conosco – e, cá pra nós, realmente toda unanimidade é burra, nem nós concordamos sempre uns com os outros como equipe, como foi mencionado. Mas se neste período todo já fizemos alguma vez você pensar “nossa, não tinha visto por esse ponto de vista”, é porque de alguma maneira estamos cumprindo nossa missão.

Um brinde aos terraceiros de hoje e sempre. Vida longa do Terraço Econômico!

Arthur Solow e Caio Augusto assinam este artigo em nome da Equipe Terraço Econômico (fundadores, agregados e colaboradores)

Para quem quiser conhecer um pouco mais dos números atingidos pelo Terraço, ver a apresentação institucional disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1LdwLm26lfMLc0hrvV8o0Yq8lqBPhyf-c/view

Ou na página:

SOBRE

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Terraço Econômico (23/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/5-anos-de-terraco-economico-o-que-vem-pela-frente/

REFORMA DA PREVIDÊNCIA: TODOS PRECISAM DAR SUA CONTRIBUIÇÃO

Há uma característica intrínseca ao ser humano que, no caso do brasileiro, é ainda mais evidente: notar que o outro tem um problema, “esquecendo-se” de um problema que se tenha também a ser resolvido. Essa ocorrência se dá em diversas esferas e, quando o assunto é discutir a previdência, não é surpreendente que ocorra uma vez mais.

O trabalhador sob o guarda-chuva do INSS diz, com razão, que o servidor público é privilegiado por geralmente se aposentar mais cedo, com integralidade e benefício em média muito mais altos. O servidor público aponta que os benefícios dos políticos são injustificáveis, também com razão. Os políticos visualizam as pensões militares como uma parcela sensível do déficit e, adivinhem, também estão certos.

Tais personagens, além de apontarem o problema como sendo sempre dos outros, esquecem-se que fazem parte do insustentável sistema previdenciário. Em regimes diferentes, mas seguem fazendo parte.

Outra estratégia que costuma ser dita, aliás, é a de que regimes diferentes mostram que, enquanto há insustentabilidade em alguns, outros permanecem sólidos. Mas temos aí aquela velha piada do indivíduo que, ao ver a casca de banana no chão ao longe, logo diz “eita, vou cair de novo”. Qual o sentido de não querer melhorar a situação hoje que você sabe que vai ficar pior amanhã?

Nesse eterno “apontar de culpados”, caminhamos para o vigésimo primeiro ano de discussões praticamente anuais do que devemos fazer com a previdência. É verdade: por mais que te digam ser essa discussão “um tanto açodada”, ela já ocorre entre especialistas há pelo menos 30 anos e, em termos de colocar na pauta das casas legislativas, podemos notar sua presença no mínimo desde 1999.

Em todas as vezes, encontramos o mesmo final: “na verdade não temos déficit” ou “está na Constituição que o governo tem que arcar com esse déficit, então tudo bem”. Precisamos sempre deixar claras as escolhas sociais: se o governo precisa cobrir este descasamento negativo em seu orçamento e vemos que isso é crescente ao longo do tempo, ele terá no fim das contas cada vez menos recursos para todas as outras áreas – independente do que a Constituição disser.

Não se faz aqui um ataque ao que defende a Constituição, apenas uma reflexão sobre escolhas sociais e suas consequências em termos de custos. Em se tratando de uma escolha que o sistema previdenciário se mantenha como está, isto implica necessariamente que outras áreas sejam cada vez menos atendidas. Foi mais ou menos o que fizemos como sociedade desde que esse tópico sensível começou a ser discutido: o “deixa pra depois” se transforma muito rapidamente em aumento de carga tributária, de dívida pública e de inflação, enquanto o que vemos ser reduzida é a capacidade de ação do Estado onde ele mais poderia ser eficiente.

As casas legislativas discutirão novamente a questão, agora com Bolsonaro. Será que, uma vez mais, com a casca de banana já a poucos metros, iremos indicar que iremos cair de novo, basicamente porque “todos são culpados, mas ninguém o é”?

Todos precisam dar sua contribuição nesta mudança. E, a cada dia que se passa – com o irônico discurso de que a discussão é “muito rápida e pouco detalhada” -, mais difícil ficará.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (22/03/2019): https://blog.guide.com.br/textos/reforma-da-previdencia-todos-precisam-dar-sua-contribuicao/ 

Missão Bettina: a mais nova ninja dos investimentos

Podemos assumir que você clicou neste artigo por já saber de toda a polêmica recenteda campanha publicitária da Empiricus a respeito de, com mil e quinhentos reais de capital inicial, ser capaz de alcançar mais de um milhão de reais de patrimônio basicamente utilizando-se do mercado de ações.

Porém, você já parou pra pensar em quanto seria preciso, em uma média mensal de aportes e rendimentos, para fazer seu capital de R$1500,00 ser multiplicado por quase 700 em apenas 36 meses? A Bettina não fez essa conta, mas por aqui fizemos:

O valor anunciado pela personagem principal dessa história é de R$1.042.000,00. Na prática, segundo nossos cálculos apresentados acima, no mínimo ela obteve um rendimento de cinco vezes o que teve o IBOVESPA e fez aportes de R$3.500,00 todos os meses.

Um adendo importante a ser feito é que, de fato, o índice representa apenas o humor do mercado como um todo considerando as empresas nele listadas. Observando investimentos individuais em ações, podemos verificar casos de rendimentos extraordinariamente superiores à média que o índice representa: as ações do Magazine Luiza, nestes mesmos 36 meses, tiveram valorização superior a 4.700%.

Considerando também o mercado de derivativos, outras possibilidades ainda mais impressionantes ocorreram. Quando da tragédia em Brumadinho, as opções de venda de ações da Vale se beneficiaram da queda do valor acionário e se beneficiaram quase 21.000%.

Ainda assim, mesmo considerando esses eventos bastante superiores ao crescimento médio observado no índice, é difícil saber qual a realidade dos fatos sem uma abertura real aos dados de como isso ocorreu ao longo do tempo. Não que ela seja realmente obrigada a fazer isso, mas, em termos de apresentar um programa que “mudará sua vida financeira”, seria muito mais honesto que isso fosse feito. Ou então, que a empresa acostumada a críticas mordazes siga recebendo-as (assim como novos clientes que vêm pela curiosidade com o tal programa).

Deste modo, o que se pode inferir sobre essa questão como um todo é que realmente pode ter ocorrido esse ganho e, na atualidade, Bettina deve mesmo ser detentora de um patrimônio investido superior a R$1.042.000,00. Porém, nada disso é “simples assim”, como anunciado por ela mesma na peça publicitária. Não acredite no conto da riqueza rápido e fácil: assinar o conteúdo de investimentos pode te ajudar, mas não será a salvação da lavoura para te transformar no(a) novo(a) milionário(a) da praça. É prudente sempre desconfiar do conto do hipster que fez algo que ninguém pensava e tenta te vender como sua salvação essa mesma técnica.

Talvez o único dinheiro fácil, rápido e de baixo risco tenha ido mesmo para a Empiricus, que deve ter ampliado sua base de clientes – esta que já supera hoje a marca de 330 mil assinantes. Para se ter ideia do que isso significa, imaginando um ticket médio de R$12,00, temos então um faturamento de R$3,96 milhões por mês.

No fim das contas, até este merchan grátis que estamos fazendo contribui para isso. Se Bettina cumpriu ou não a missão ninja que declarou, não sabemos. Mas a Empiricus, com toda certeza, já cumpriu.

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

Vladimir Damiani Caridá – Graduado em Economia Empresarial e Controladoria pela FEARP/USP. Atualmente, cursa mestrado em Economia no Insper e trabalha em banco

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Terraço Econômico (19/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/missao-bettina-a-mais-nova-ninja-dos-investimentos/

PREVIDÊNCIA dá trilhão? Terraço em Quinze Minutos #74

Antecipamos o decreto de sexta no Terraço em Quinze Minutos!

Nesta edição, Lucas Goldstein acompanha Arthur Solow, Pedro Lula Mota e Caio Augusto nos seguintes temas:

Temas desta edição:

Serasa aponta que cadastro positivo pode “injetar” R$ 1,3 trilhão na economia
Levantamento indica 150 deputados favoráveis à Reforma da Previdência
Governo Bolsonaro apresenta novo pacote de ajuda financeira aos estados

Por que estamos demorando tanto para nos recuperarmos da crise?

O ano de 2008 marcou o momento em que o mundo sofreu um dos maiores abalos já vistos pelo capitalismo. No Brasil, nosso presidente daquela época apresentou que, enquanto nos Estados Unidos a crise teria o efeito de uma tsunami, por aqui seria análogo a uma marolinha. Na prática, a frase não era mentirosa: fomos um dos primeiros países a saírem da crise mundial e, dois anos depois dela, crescemos impressionantes 7,5%. Por que o mesmo não acontece agora? Curiosamente, a saída da primeira crise explica a segunda.

Em primeiro lugar, é importante frisar que, economicamente falando, não estamos mais em crise. Segundo o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE – Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas), responsável por apresentar quando crises se iniciaram ou terminaram, a última recessão teve fim em dezembro de 2016, após onze trimestres de queda e contração acumulada de 8,6%. A maior crise registrada, dado que a recessão do governo Collor durou onze trimestres e levou a redução de 7,7% e a queda pós-milagre econômico nos anos 1980 durou nove trimestres e gerou encolhimento de 8,5% da economia.

Se a crise oficialmente há pouco mais de dois anos, por que até então a sensação é de que estamos patinando?

Dois fatores ajudam a responder a essa pergunta. O girar da roda da economia depende da mútua alimentação entre a expectativa de que a demanda irá aumentar e a oferta de bens e serviços também se ampliará para acompanhar. Na prática, quem produz aguarda para aumentar sua produção a o desejo de consumir também se aumentar. Esse desejo de consumo é derivado da capacidade de endividamento e também da disponibilidade de recursos no tempo presente.

Pelo lado do endividamento, tanto empresas e famílias quanto o governo têm possibilidades de ação mais reduzidas do que no cenário de 2008. Naquela época, uma das soluções foi ampliar o consumo para manter a produção: o governo abriu mão de receitas (como do IPI para linha branca de eletrodomésticos e veículos) e viu sua dívida bruta aumentar do patamar de 55% para 60%. Atualmente, a dívida ruma para 80% e pode até ultrapassar 100% do PIB nos próximos anos, sinalizando uma imensa redução de margem de manobra. Quanto às pessoas e empresas, o endividamento também é maior na situação atual do que em 2008: cerca de 60% atualmente, frente aos pouco mais de 30% de 2008.

Outra limitação para a roda da economia é a disponibilidade de recursos, que está altamente correlacionada ao desemprego. Atualmente, temos uma taxa de mais de 12% de desempregados – ao passo que tínhamos o menor desemprego da série histórica, cerca de 5%, cerca de dez anos atrás.

Pouca margem de manobra do governo, das pessoas e das empresas somado a uma disponibilidade menor de recursos no tempo presente fazem com que a sensação atual seja a de marasmo pós-crise, não de recuperação. Talvez seja essa a crise que mais demore a gerar o sentimento popular de “agora sim as coisas voltaram a melhorar”.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em fevereiro de 2019:

– Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF Franca), Edição 269, Página 44: http://www.acifranca.com.br/SITE/edicao/acif-em-revista-edicao269.html

May para presidente… do Íbis! Terraço em Quinze Minutos #73

A primeira-ministra mais impopular dos últimos tempos é estrela desta edição do Terraço em Quinze Minutos!

Nesta edição, Lucas Goldstein acompanha Rachel de Sá, Pedro Lula Mota, Renata Kotscho Velloso e Caio Augusto nos seguintes temas:

Temas desta edição:
Reforma da previdência VOLTOU
Brexit! Theresa May perde novamente no parlamento
BolsoTrump se encontrarão nos EUA
IPCA surpreende pra cima (mas bem pouquinho)

PLANO DE EQUILÍBRIO FISCAL: UMA GRANDE IDEIA

Para quem acompanha os cenários das contas públicas, não é novidade a informação de que os estados, assim como o governo federal, estão quebrados ou estão a passos largos de entrar nesse caminho. RJ, RS e MG são exemplos diretos do que anos de má alocação orçamentária para equilíbrio fiscal podem fazer.

Esta não será a primeira vez que a União concederá socorro aos estados. Porém, agora haverá uma diferença fundamental: além da necessidade de se encaixar em determinadas condições, a exigibilidade será contratual para que elas ocorram de fato. Capitaneado por Mansueto Almeida, Secretário do Tesouro Nacional, o plano muda positivamente os incentivos para esse tipo de programa.

A condição para poder aderir ao plano é de estar – dentro da medição de Capacidade de Pagamento (CAPAG) – na faixa C. Esse índice analisa a situação dos entes subnacionais junto à União, visando verificar as condições de concessão de crédito a eles. Atualmente, onze estados estão nesta situação e poderiam ingressar neste plano. Os que se encaixam em A e B (treze estados, 44% de todas as unidades federativas) poderiam resolver suas questões fiscais internamente e os que estão em D entram no Regime de Recuperação Fiscal (até então estão aqui o RJ e o RS, sendo que MG pode entrar também dada a situação aguda em que se encontra). Este último estágio envolve medidas como a suspensão dos pagamentos líquidos de dívida à União.

O plano irá na direção dos gastos que mais têm comprometido a situação fiscal dos estados: a folha salarial dos servidores. Atualmente, uma medida de alívio rápido nesta questão seria a aprovação de constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal de permitir que os estados reduzam seus gastos com pessoal através de uma redução de horários (e consequente diminuição dos salários, de modo proporcional a essas horas que deixarão de ser utilizadas). Outro caminho, mas de maior dificuldade e tempo, é o de revisar os futuros reajustes, para que possam caber melhor no orçamento dos entes.

A grande novidade deste plano é o incentivo para que as ideias se tornem realidade e os gastos realmente se reduzam. Ao contrário do que costumava ocorrer, em que as reduções de gastos eram solicitadas, o dinheiro era encaminhado (ou os pagamentos de dívidas cessavam) e não havia sanção para o caso das reduções não ocorrerem, agora a ideia é que seja apresentada a economia em termos financeiros e os recursos sejam efetivamente entregues, mas em quatro parcelas, acompanhando a continuidade de execução do plano de enxugamento da máquina – só chegando até a última parcela quem realmente colocar em prática a redução de gastos.

Um exemplo numérico ajuda a explicitar. Imagine que um estado irá se comprometer em reduzir seus gastos em R$10 bilhões de reais e, com vistas a isso, o governo decida conceder uma ajuda de R$4 bilhões de reais. Diferentemente do que era usual, este dinheiro não será encaminhado e ficar-se-á aguardando a “boa vontade” do estado em colaborar – o que na imensa maioria das vezes se transforma rapidamente em arrependimento com o destino dado ao “dinheiro extra” -, mas sim em quatro parcelas de R$1 bilhão (uma por ano, até 2022), que terão gatilhos contratuais definidos pelos bancos que participarão da operação.

Importante notar que também há intenção neste plano de incluir os municípios (a partir das próximas eleições municipais) e, nesta conta, segundo os dados de CAPAG, 1.223 deles (22% do total) poderiam participar. A situação é ainda mais preocupante que nos estados, dado que apenas 762 municípios (14% do total) está entre A e B, sendo o restante localizado nas faixas C, D ou em dados não suficientes/não disponíveis.

Provavelmente você verá alguma reclamação sobre esta necessidade de colocar condições sobre os empréstimos ou alívio de dívidas – também porque uma das inspirações deste programa é o meio como o FMI costuma auxiliar países em crise. Mas, dado o histórico desse tipo de programa da recuperação, em que os estados aproveitam a brecha em suas obrigações com a União simplesmente para seguir expandindo seus gastos, temos aqui um meio bastante interessante de encaminhar de maneira saudável e em um prazo razoável de tempo uma questão que caminha a passos largos para a insustentabilidade.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (13/03/2019): https://blog.guide.com.br/textos/plano-de-equilibrio-fiscal-uma-grande-ideia/

ENFIM COMEÇOU A CAMPANHA PELA NOVA PREVIDÊNCIA

Dois meses de transição, outros dois meses de governo, discussões diversas nos bastidores e na mídia a respeito do que sairia como proposta oficial da nova previdência. O diagnóstico virou plano, que entra em discussão nas casas legislativas agora que entramos em 2019.

Embora seja claro aos especialistas e a quem quiser entender mais profundamente que a previdência precisa de mudanças, ainda há um mar de notícias falsas a respeito da necessidade de alterações nesse sistema. E é exatamente aí que o governo que se elegeu justamente por uma conexão bastante direta com o povo por meios digitais poderá fazer o que não se fez anteriormente.

O que os governos de FHC, Lula, Dilma e Temer têm em comum quando se lembra da questão previdenciária é o fato de, embora terem tentado reformas mais audaciosas, terem alcançado apenas algumas mudanças menores (ou ao menos de impacto em prazos maiores, não aliviando muito o tempo presente) e, no final das contas, não terem tido êxito em um reformar mais amplo basicamente porque a narrativa vigente de que “alterar as regra prejudicaria os mais pobres” (colocada por grupos de interesse que temem fortemente mudanças para si) venceu em todas essas vezes.

Com FHC, o governo mais “neoliberal, privatizador e vendido ao consenso de Washington” que existiu, a narrativa de que seria a reforma da previdência mais uma “armadilha contra o mais pobre” pegou. Por apenas um voto de diferença, a idade mínima (naquela época, de 60 anos para homens e 55 para mulheres) para aposentadoria não foi aprovada.

Com Lula, a ameaça de “estragar o sonho da aposentadoria” fez com que surgisse um partido com dissidentes do PT – o PSOL. O fogo amigo de quem virou “oposição” não permitiu que muitas mudanças pudessem ser aprovadas em 2003.

Dilma foi eleita pela primeira vez com o ideário de continuar os avanços sociais dos governos de seu padrinho político e acertar as contas públicas que sinalizavam precisar de ajustes – apesar da situação boa que o país apresentava. Não surpreendentemente, o diagnóstico de arrumação das contas públicas envolvia ela, a sempre falada reforma previdenciária. Entre idas e vindas da política e um ‘cavalo de pau’ após a vitória apertada em 2014 para seu segundo mandato, Dilma não conseguiu avançar nesse quesito.

Já Temer elevou as expectativas por mudanças na economia antes mesmo de entrar com o plano de seu partido intitulado “Uma Ponte Para o Futuro”. Avanços foram realizados e, de fato, o país foi entregue a Bolsonaro melhor do que Temer havia assumido no pós-Dilma. Mas, uma outra vez, não vimos a previdência ser reformada. Conversas nada republicanas em uma garagem de Brasília praticamente travaram as iniciativas econômicas.

O desafio de Bolsonaro não é de mostrar que a previdência precisa de reformas. Essa parte já é sabida. O obstáculo que separa o grande projeto da equipe capitaneada por Guedes e a efetiva mudança está no modo como será comunicada essas mudanças tão importantes ao povo brasileiro.

Com uma campanha estruturada de comunicação – análoga a que fez Bolsonaro chegar onde chegou no campo político -, poderemos ver finalmente a reforma da previdência (agora chamada de Nova Previdência) aprovada. O retrospecto aqui levantado mostra com certa facilidade o que acontece quando não se importa tanto assim com a apresentação dessa necessidade de mudança.

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (08/03/2019): https://blog.guide.com.br/textos/enfim-comecou-a-campanha-pela-nova-previdencia/

Faça como o Bruce Lee, pense no longo prazo

A disciplina das artes marciais e o modo como você deveria lidar com seu dinheiro tem uma semelhança maior do que diz o senso comum. A indisciplina comum em dietas alimentares (o famoso “vou emagrecer o que engordei nos últimos dez anos nos próximos seis meses”) também.

Bruce Lee foi um ator, lutador de artes marciais e roteirista sino-americano. Apesar de sua breve vida de 33 anos, deixou uma obra e uma coleção de frases que nos fazem pensar bastante.

Em termos de lidar com dinheiro, uma das mais destacadas é:

“Consistência de longo prazo supera a intensidade do curto prazo.”

Se você já acompanha esta coluna, provavelmente já viu como o poder dos juros compostos funciona. Aqui, a discussão vai um pouco além disso, entra no campo na disciplina envolvida para fazer do tempo um real aliado (e como faz diferença manter o hábito).

Atire a primeira pedra quem nunca ouviu ou mesmo falou a frase: “começo na próxima segunda-feira”. O pecado da preguiça já acometeu a todos nós, ao menos em algum momento da vida. Pode ser que você tenha já tomado alguma atitude em termos de mudar sua saúde física e esteja hoje melhor que nos últimos anos. E se você também tomar uma atitude hoje que pode melhorar seu longo prazo financeiro?

Tal qual o encarar de uma dieta, a medida a ser tomada parece meio amarga e mostra seus resultados apenas com real esforço. Apesar dos pesares, é mais tranquila do que “puxar ferro”, mais simples e mais direta: olhe para o dinheiro que entra em sua conta todos os meses de maneira razoavelmente garantido (seu salário líquido, renda de algum aluguel) e para todas as saídas (todo tipo de despesa que você tenha). Logo a seguir, verifique em todas as suas despesas aquilo que você poderia abrir mão e o que você não poderia.

Não é algo trivial, talvez leve um tempo para anotar tudo e possivelmente a conclusão seja assustadora (do tanto que você compromete a renda que entra todos os meses ou ainda da quantidade de gastos que poderiam ser evitados e você não evitou).

Tendo feito estas duas etapas (olhar entradas e saídas e ver quais saídas poderiam não ocorrer sem prejudicar sua vida), veja o quanto, em termos percentuais, pode sobrar ao final do mês.

Aqui está o famigerado “pulo do gato”: exceto em meses de gastos imprevistos (e não chame os que estão lá todos os anos de imprevistos, como IPVA e matrícula escolar, estes você precisa se preparar porque já sabe da existência), você vai ver que em quase todos os meses um certo percentual de resíduo estará lá. O destino a esse resíduo você já dá mesmo sem saber e, provavelmente, faz parte do susto tomado na hora de olhar suas contas.

Pegue uma parte deste resíduo e chame de “Bruce Lee do(a) INSIRA SEU NOME AQUI”. A partir de agora, o que era “sobra do fim do mês” passará a ser um pagamento para você mesmo no futuro – e seu compromisso será arcar com esse pagamento no mesmo momento em que paga suas despesas, não mais esperando para ver se há algum resíduo.

Todos os meses você passará a ter um compromisso com essa nova despesa, que é o seu aliviar financeiro para a próxima geração. “Mas e se forem só 5% do meu salário?”. Siga em frente na missão. Sendo estes 5% equivalentes a R$50,00, mesmo em uma aplicação bastante conservadora (para não dizer “aplicação que te faz perder dinheiro”) como a poupança, os juros estarão ao seu lado, não contra você.

“Mas eu devo destinar todo esse resíduo? Fazer disso uma obrigação que consuma outros hábitos que gosto?”. Aqui entra a sabedoria oriental de nosso ator aqui citado tantas vezes: use a consistência colocando este percentual mínimo todos os meses e sinta ao longo dos anos a diferença que faz – não caia na arapuca de colocar, digamos, 50% de seu salário em um mês, se arrepender de oportunidades perdidas e desistir no terceiro mês. Transforme consistentemente o resíduo em despesa, considerando-o como um “dever a si mesmo”.

Quanto ao que os juros podem te fazer de positivo, basta revisitar o artigo anterior ou mesmo fazer algumas estimações usando a carteira de juros compostos.

Como você verá muito ainda nesta coluna: seu eu de amanhã te agradecerá bastante pela mudança feita hoje, independente de quando você iniciar essa mudança.

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Terraço Econômico (08/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/faca-como-o-bruce-lee-pense-no-longo-prazo/

– Investing.com Brasil (13/03/2019): https://br.investing.com/analysis/faca-como-o-bruce-lee-pense-no-longo-prazo-200225309

BRASIL: FELIZ 2019! FOCO NO QUE VEM POR AÍ

A expressão “no Brasil o ano só começa após o carnaval” parece batida, mas é sabido que em muitos setores acaba sendo encarada como verdade. Algo acontece em terra brasilisentre o natal e o carnaval que nos faz acreditar em um verdadeiro “período de limbo” em que as coisas não estão acontecendo, mas também não estão paradas.

Esse compasso de espera contagiou, não surpreendentemente, até o governo.

Recém-eleito (embora estes primeiros meses já tenham sido de tantas emoções), o governo Bolsonaro suscita fortes expectativas a respeito de mudanças nos rumos econômicos, principalmente no tocante aos gastos do governo. Mais diretamente: a reforma da previdência é o assunto principal da pauta.

Com o pé atrás em virtude do murchar de expectativas que vimos em 2018, muitos agentes econômicos, mesmo quando otimistas, estão em compasso de “vou pagar pra ver”. Não é para menos: o PIB, que começou o ano passado com louvores de “no mínimo 3% esse ano”, ao cair do dia acabou encerrando em 1,1%. A máquina do tempo que foi essa crise nos trouxe a 2012.

As condições agora são novas. A equipe econômica reconhece os problemas e indica fortemente que sabe quais devem ser os caminhos adotados, e o governo dá sinais de que irá apoiar tais mudanças, independentemente do quão impopulares eles são. Mas, sem jogar água no chopp: tirando o fato do governo agora apoiar, o mesmo “agora vai” aconteceu com o início do segundo mandato de Dilma Rousseff.

A precificação atual dos ativos está focada no fato de que alguma reforma irá ocorrer – não se sabe qual, nem seus efeitos, mas algo será feito em relação ao perigoso trajeto elevatório que têm percorrido a dívida pública brasileira.

Dado que o diagnóstico é razoavelmente claro e as soluções já estão sendo encaminhadas, é possível imaginar que a batalha dessa reforma seja essencialmente de comunicação para apresentar os reais benefícios (a tentativa de estabilizar o sistema e não virarmos um país meramente pagador de aposentadorias) e as injustiças a serem corrigidas (equiparando o tempo de aposentadoria entre os mais ricos, que se aposentam antes, e os mais pobres, que já se aposentam nas proximidades do que se propõe como idade mínima hoje).

É claro que para muitos de nós – e provavelmente, você que está lendo este artigo faz parte disso – o ano já começou muito tempo atrás. Talvez dia dois, três de janeiro, no máximo dia sete. Mas, aproveitemos a empolgação do “começo do ano brasileiro” para aguardar com mais proximidade que avanços ocorram no que se foi prometido durante a campanha eleitoral, a transição de governo e estes primeiros longos dois meses que se passaram.

Feliz ano novo! E que as promessas feitas passem do nível “amor de carnaval” – para o bem do Brasil que tanto espera sair desta pista de patinação que tem sido o pós-crise do duênio 2015-2016.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (07/03/2019): https://blog.guide.com.br/textos/brasil-feliz-2019-foco-no-que-vem-por-ai/