FALTAM FISCALIZAÇÃO E RESPONSABILIZAÇÃO, SOBRAM TRAGÉDIAS

Nesta última sexta-feira mais uma tragédia evitável ocorreu no Brasil: uma barragem de rejeitos da Vale em Brumadinho-MG estourou. Não é a primeira vez que uma catástrofe dessa ocorre, muito provavelmente não será a última. Por que será que esse tipo de situação segue ocorrendo?

Temos em nosso país uma atmosfera que atrai esse tipo de ocorrência por basicamente duas razões: ausência de responsabilização e fiscalização altamente deficiente. Para piorar, a culpa é sempre atribuída de maneira cruzada: setor público culpa as empresas por não cuidarem de suas estruturas e as empresas apontam que o problema é a ausência de fiscalização. Os dois lados estão corretos em apontar o erro e errados na postura.

Nossa fiscalização para questões ambientais é realmente deficiente. Especificamente quanto a barragens, apenas 3% de todas as existentes no país foram fiscalizadas no ano de 2017. Porém, a responsabilização por aqui também não é das melhores, para usar um eufemismo imenso. Você já parou para pensar no que ocorreu após o incidente análogo em Mariana-MG? Segundo o prefeito da cidade, estão sendo “enrolados” há três anos.

Faltam fiscalização e responsabilização. Para fiscalização, está claro que não avançamos em nada após o incidente em Mariana. Por responsabilização, dados os efeitos até hoje aguardados em termos de punição, também não.

Fato é que esse tipo de ocorrência por si só repercute mundialmente de maneira muito negativa. Primeiramente pelo descaso que levam a sua ocorrência e, logo em seguida, pelo jogo de empurra-empurra que ocorre para acharmos culpados e deixarmos a impressão, logo após isso, que tudo está tudo bem novamente.

Além da punição de mercado – as ações desabaram na sexta-feira, feriado em São Paulo, e devem cair consideravelmente ainda dados os efeitos jurídicos até então colocados contra a Vale -, a empresa e os responsáveis diretos por esse desleixo catastrófico devem ser punidos exemplarmente. Não é aceitável que duas tragédias ocorram, em menos de cinco anos entre uma e outra, pelo mesmo motivo e, ainda assim, nada venha a ocorrer.

É preciso melhorar a gestão dos órgãos fiscalizadores. Também é preciso reforçar ainda mais a importância de medidas preventivas eficazes. Enquanto a fiscalização for o único motivo de fazer reparos e, exceto em sua presença, continuarmos com essa amálgama de perigosos “jeitinhos”, não se poderá deixar de crer que mais e mais eventos como esse virão a ocorrer.

Não podemos esquecer, para além de todos os efeitos negativos de mais uma tragédia dessas, que institucionalmente isso representa que nosso poder público não é crível em suas punições no tocante a crimes ambientais. Se por um lado isso pode parecer o paraíso para quem pretende vir abrir um negócio à base de “gambiarras” por aqui, para quem vê a importância real das instituições – a imensa maioria, no caso -, a sensação é de que vivemos em um país que não é sério e não parece nem estar próximo disso. Fiscalização, assuma seu papel com gestão mais eficiente e cumpra suas funções. Empresas, prestem ainda mais atenção nos resíduos gerados por seus processos produtivos. Se por aqui nem o que parece óbvio está fácil de entender, será sempre salutar relembrar isso.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em janeiro de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (29/01/2019): https://blog.guide.com.br/textos/faltam-fiscalizacao-e-responsabilizacao-sobram-tragedias/

BOLSONARO EM DAVOS: MAIS ECONOMIA, MENOS IDEOLOGIA

Durante sua primeira viagem internacional como presidente do Brasil, Bolsonarocompareceu com uma equipe de ministros ao Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. A ausência de outras figuras bastante importantes como Theresa May, Donald Trump e Xi Jinping e o otimismo espalhado com sua eleição o colocam em posição de destaque nessa conferência.

Seu aguardado discurso foi breve, durou menos de dez minutos, e fartou-se de afirmar que o Brasil está em plena transformação. O foco foi o de dizer que estamos abertos ao mundo que quiser investir em terras tupiniquins e que, diferentemente do que se havia (ao menos de impressão) anteriormente, não olharemos mais parceiros de investimentos apenas sob a ótica da ideologia ou das supostas “nações amigas”. Foram apresentadas também, no breve discurso de Bolsonaro, os compromissos de reformar a previdência e abrir mercados.

Não que de um discurso esperássemos as soluções todas do Brasil – ainda mais pelo fato de que tais ideias ainda estão sendo apresentadas por aqui e só começarão a ser discutidas após o recesso das casas legislativas e a posse dos novos representantes. Mas a falta de profundidade no como chegar a esses fins desejados deixou uma sensação de que falta algo.

Se por aqui o estilo “solta a notícia e depois vê, a depender das opiniões, se confirmamos ou se desmentimos” tem razoável sucesso entre seus apoiadores, para o resto do mundo que investe a ideia central é a da confiança na palavra. Sendo o Brasil um país com um enorme mercado e atualmente posicionado em um pré-ciclo econômico positivo (dado o fato de ter saído de sua maior crise econômica e ter considerável capacidade ociosa a ocupar), agora faltará colocar na prática o discurso anunciado, ou aguentar o efeito negativo existente de não se manter a palavra.

Como já falamos que o Bolsonaro venceu e o que o mercado tem com isso, uma batalha importante a ser vencida para colocar a pauta liberal em prática é contra o corporativismo do congresso eleito. O presidente conta mesmo com vários apoiadores, mas de grupos de interesses diferentes que podem fazer valer suas opiniões. Um deles, para citar, é o dos militares: alguns deles já se manifestam contra a presença deste grupo na reforma previdenciária – o que talvez a tornaria mais uma reforma meia-sola como as que já vimos em outros tempos.

Apesar de já discutido diversas vezes desde o final do segundo turno das eleições presidenciais de 2018, Bolsonaro representa por um lado a continuidade de mudanças iniciadas no governo Temer e por outro a guinada em assuntos que por este último permaneceram iguais. Há real expectativa de que, como o próprio presidente afirmou tantas vezes, seja possível “mudar isso daí”.

Por ora, assim como no discurso em Davos, o que se aguarda é que a “batalha contra a ideologia” seja superada pela deliberação real de avanços econômicos. Ou então, como alguns críticos ferozmente indicaram após este discurso, o resultado será “um fracasso”.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em janeiro de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (23/01/2019): https://blog.guide.com.br/textos/bolsonaro-em-davos-mais-economia-menos-ideologia/

Política monetária e ciclo econômico: EUA e Brasil nos anos recentes

A crise de 2007/2008 teve grande impacto sobre a política monetária em todo o mundo, mas essencialmente sobre a maior economia do planeta. Os Estados Unidos, como meio de incentivar a atividade econômica, levaram suas taxas de juros a patamares virtualmente iguais a zero, situação que permaneceu assim até bem recentemente. Ao final de junho de 2006, a taxa era de 5,25% ao ano. A partir de dezembro de 2008 passou a ser de 0,25% ao ano e ficou entre isso e 0,75% até dezembro de 2016, quando retornou a subir. O patamar atual é de 2,5% ao ano.

Desde o final de 2017,  várias apostas têm sido feitas quanto ao número de vezes que o FOMC aumentaria a taxa de juros básica americana. No entanto, o que se tem perguntado é sobre o motivo de tal política e como esta decisão impacta o mundo, principalmente nos países em desenvolvimento.

A política monetária do FED é feita por meio de três instrumentos: taxa de juros básica da economia (Federal Funds Rate), treasures (compra e venda de ativos) e comunicação, com o comprometimento de maximizar o emprego, ou seja, atingir o pleno emprego, estabilização de preços e controle da taxa de juros de longo prazo.

Dessa forma, desde a crise de 2008, a autoridade monetária americana adotou a política do Quantitative Easing, que tinha como principal objetivo aquecer a economia americana mediante a queda da taxa de juros de curto prazo. Para o Brasil, o QE provocou uma apreciação da moeda nacional, aumento do consumo de crédito e diminuição da taxa de juros impulsionada pela queda da inflação.

Com esta política, a economia americana conseguiu retomar o crescimento, mas a preocupação se voltou para o controle da inflação, pois em tempos de aquecimento econômico, o aumento dos preços deve ser monitorado impreterivelmente. Por esta razão, a partir de 2015 o FED começou sinalizar que o momento seria de graduais elevações na taxa de juros americana (política conhecida como tapering) e, desde então foram realizados oito aumentos nesta taxa, chegando a 2,00%-2,25% em setembro de 2018.

No Brasil, estas elevações da FED Funds trouxeram volatilidades expressivas na taxa de câmbio, principalmente no ano de 2018, em que já se tinha um cenário interno de bastante incerteza política. Assim sendo, antes de entender o motivo do impacto do aperto monetário norte-americano sobre a economia brasileira, é preciso saber que o BCB, diferentemente do FED, gere a política monetária por intermédio do regime de metas de inflação, que por meio das expectativas dos agentes em relação a inflação brasileira, se estabelece uma meta de inflação para o controle do nível de preços.

O instrumento de polîtica monetária utilizado pela autoridade monetária neste caso é a taxa de juros de curto prazo (Selic), que em reuniões do COPOM define-se uma meta para esta taxa, com o objetivo de ajustar as expectativas dos agentes a meta de inflação pré definida.

Com isso, depois que o FED começou a subir a taxa de juros, os investimentos americanos ficaram mais rentáveis devido ao retorno maior e risco mais baixo se comparado ao Brasil (no mesmo período com a estabilidade da inflação, o BCB começou a reduzir a Selic), ou seja, ocorreu fuga de capital no Brasil que se intensificou devido a incerteza sobre os rumos da economia brasileira com as eleições, colaborando ainda mais para a volatilidade cambial no país.

No cenário atual, as autoridades americanas voltaram a se debruçar sobre a questão da trajetória das taxas de juros por lá. Enquanto no mês de novembro não foram criados o número de empregos nos EUA que se tinha projetado – sinalizando o que o FED já tinha dito há alguns dias de que a quantidade de aumentos na taxa de juros se reduziria – para o mês de dezembro a criação de empregos superou as projeções. Isso, na prática, mostra que o caminho não será tão simples daqui em diante, pois o equilíbrio entre aumento da taxa de juros e continuidade do crescimento econômico é bastante difícil de ser previsto.

Para o Brasil, esta notícia é positiva, pois com a inflação em expectativas ancoradas em proximidade da meta, o mercado não enxerga aumento da Selic pelo Bacen e a taxa de juros americana estabilizada, os investimentos no Brasil tendem a aumentar (isso levando em consideração que o ajuste fiscal será feito). Atualmente temos o menor patamar nominal de juros de toda a série histórica: desde março de 2018 estamos em 6,5%, sendo que menos de dois anos antes (setembro de 2016) passamos a observar redução do arranha-céus de 14,25%, nível no qual nossa taxa básica de juros permaneceu por pouco mais de um ano seguido.

Em termos práticos, os rumos econômicos da maior economia do mundo sempre impactará os outros países, principalmente se forem emergentes, como é o caso do Brasil. Ainda assim, não se podem deixar de lado características específicas de cada país a respeito, por exemplo, do ponto do ciclo econômico em que cada um se encontra.

Quanto ao ponto do ciclo econômico, Brasil e Estados Unidos encontram-se, segundo analistas, em posições opostas. Por aqui, saímos engatinhando da maior crise de nossa história (2015-2016) e, portanto, devemos estar próximos a um novo ciclo de crescimento (que pode ser reforçado por políticas liberais até então propostas). Na terra do Tio Sam, analistas preveem que no máximo entre o final de 2019 e o início de 2020 deve se iniciar a próxima crise.

Isso coloca o Brasil como sendo uma grande oportunidade de investimento neste ano e no próximo. Mas, é sempre importante frisar, tudo dependerá por aqui do quanto reformas estruturantes gerarão de impacto real e, por lá, de quando a próxima crise virá.

Quando a próxima grande crise vier, é claro que seremos afetados. Mas nossa capacidade de resistir – e sair dela, esperamos todos, de forma sustentada -, será definida pelo intervalo compreendido entre o agora e o início do tsunami que está sendo previsto.

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

Jéssica Martins – Graduada em Economia Empresarial e Controladoria pela FEA-RP/USP

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em outubro de 2018:

– Terraço Econômico (18/01/2019): https://www.terracoeconomico.com.br/politica-monetaria-e-ciclo-economico-eua-e-brasil-nos-anos-recentes/?fbclid=IwAR1Kr4Si_7hqgedcOTyAHbtXINuh8agJw0qTWNh6uRZBDdmFKpkIxYBN9Kw

– Investing.com Brasil (18/01/2019): https://br.investing.com/analysis/politica-monetaria-e-ciclo-economico-eua-e-brasil-nos-anos-recentes-200224612?preview_fp_admin_1234=this_is_1234

BOEING E EMBRAER: VALOR ESTRATÉGICO OU SINERGIA?

O mercado da aviação mundial recebeu uma notícia importante no meio de 2018: Boeing e Embraer anunciaram que estariam para formar uma Joint Venture. Dois destaques logo vieram à tona, pela opinião de especialistas: a depender dos resultados da negociação, a empresa brasileira perderia valor estratégico ou ocorreria uma sinergia que a colocaria de vez no mercado global.

Embraer já é conhecida mundialmente por seus jatos executivos econômicos, elegantes e com uso elogiado pela interação amigável com o usuário. Também é conhecida em todos os cantos pela ilha de excelência que representa em termos de mão-de-obra técnica, pesquisa e desenvolvimento de produtos na área em que atua, gerando produtos comercialmente viáveis e também soluções de segurança militar ao Brasil. São estes os dois fatores que, simultaneamente, geraram preocupação e animação com essa união.

O fato de ser eficiente no processo de colocar seus jatinhos executivos no mundo representa uma possibilidade bastante positiva com essa fusão. Atualmente, um dos mercados que poderiam passar a ter mais aeronaves da Embraer é o dos EUA, no qual atualmente temos a Bombardier (principal concorrente da Boeing) como presença – e, segundo a própria Boeing, isso ocorre devido a incentivos canadenses e ingleses que permitem que a empresa venda seus aviões abaixo do preço de custo.

A alta capacidade de geração tecnológica e estratégica em termos militares é uma preocupação com essa operação entre a brasileira e a norte-americana. Existe inclusive uma cláusula, a chamada Golden Share, que permite que o governo brasileiro vete operações que prejudiquem a soberania nacional em qualquer circunstância. O governo Bolsonaro já sinalizou que não vetará a operação porque não observa que haverá danos desta natureza.

Ainda está sendo discutido como funcionará na prática o acordo entre as duas empresas. Mas, pelo que se tem até então, será criada uma nova companhia na qual 80% das ações serão da Boeing e 20% da Embraer, tendo a norte-americana responsabilidades comerciais e a brasileira mantendo suas atividades para aeronaves de segurança nacional e jatos executivos.

Colocando de lado a discussão clássica no Brasil do que seria ou não “estratégico ao nosso futuro como nação”, não podemos nos esquecer que a Embraer não é uma empresa que deve fazer qualquer negócio por fazer. Caso a negociação em curso seja bem-sucedida, a empresa brasileira verá suas atividades se reduzirem (ficarão apenas em jatos executivos e defesa) em relação ao leque que possuem atualmente e, na prática, ficarão mais dependentes das ações da norte-americana, o que tem incomodado os acionistas.

A situação atual é de que o conselho de administração deu aval à operação e o governo afirma não se opor (ou seja, não usará a golden share). Ainda falta a aprovação por parte dos acionistas. Vencerá o pensamento da sinergia positiva ou do risco de perder valor estratégico nacional? Acompanhemos os próximos capítulos.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em janeiro de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (14/01/2019): https://blog.guide.com.br/textos/boeing-e-embraer-valor-estrategico-perdido-ou-sinergia-positiva/

BolsoGuedes confusos, Trump em apuros e Reino Unido apreensivo! Terraço em Quinze Minutos #64

Nesta edição, Lucas Goldstein acompanha Caio Augusto, Daniele Chiavenato, Douglas Albuquerque e Renata Kotscho Velloso com os seguintes temas:

BolsoGuedes se estranham, Onyx desfaz a bagunça e todos seguem fazendo as pazes
Brexit: Theresa May segue perdendo
O eterno vai e volta da reforma da previdência
Trump em apuros: democratas assumem a presidência da câmara
Presidente do Banco Mundial renuncia ao cargo
Guedes oficializa presidente da Caixa e faz discurso polêmico

APPLE PERDE UM FACEBOOK EM VALOR: DEPENDER DE INOVAÇÃO CUSTA CARO

Em 2018 observamos um fenômeno surreal: pela primeira vez na história uma empresa superava US$1 trilhão em valor de mercado. Essa empresa era a Apple – pouco tempo depois a Amazon também superou essa marca.

Após um dezembro turbulento no mercado de ações norte-americano, com perdas históricas em praticamente todos os setores – as maiores desde os anos de 1930 e 1931, impactados pela recessão de 1929, para este mês -, vimos a empresa da cobiçada maçã entrar em 2019 tendo registrado uma perda impressionante: mais de US$450 bilhões foram embora desde o pico alcançado em 3 de outubro de 2018.

Para se ter uma ideia, essa perda supera, em valor, 496 empresas do índice S&P500 (apenas Microsoft, Alphabet, Amazon e Berkshire Hathaway têm valores superiores). A perda supera o valor de mercado do Facebook e é o triplo do valor do McDonald’s.

Se por um lado essa perda foi reflexo de uma desvalorização imensa nos ativos de renda variável como um todo nos Estados Unidos, outro fator também é determinante para a variabilidade do valor da Apple. Este fator é a dependência da inovação, como falamos em: Apple e Amazon: Quem fica acima do trilhão?

Brevemente apresentada, essa dependência é o necessitar da Apple em ter produtos realmente inovadores que consigam manter as receitas, as margens e a subida de valor. Provavelmente o leitor vai pensar que esse é o desafio de qualquer empresa, porém, se para o mercado como um todo é preciso que essa corrida competitiva ocorra para conquista de mais marketshare, temos a Apple como sendo dependente disso para manter o que conhece atualmente como patamar de valor.

A justificativa apresentada por Tim Cook, em uma carta surpreendentemente negativa aos investidores, baseia-se em dois aspectos: as receitas do mais recente iPhone estão diminuindo e a China, em desaceleração de sua economia, estaria contribuindo fortemente para tal perda de valor.

Seria o fim da Apple? O começo do apocalipse? Não. A empresa segue sendo impressionantemente valiosa, próxima de US$700 bilhões atualmente. Porém, soa um sinal de alerta: até quando a empresa dependerá exclusivamente de inovações disruptivas para manter seu crescimento? É sustentável, pensando em longo prazo, que uma empresa cresça desta maneira?

Essa empresa revolucionou o mercado da música com o iPod. O mercado dos smartphones com o iPhone. Chacoalhou o mercado com as possibilidades quase infinitas do iPad. Surpreendeu boa parte com o inovador Apple Watch. Tais inovações, com as comparações devidamente proporcionalizadas, levaram a empresa a patamares nunca antes vistos em termos de valor de mercado.

Um dos maiores especialistas em valuation corporativo do mundo, Aswath Damodaran, disse às vésperas do pico de valor alcançado que a Apple era “a maior máquina de dinheiro da história”  Ainda que neste exato momento uma nova e surpreendente tecnologia esteja sendo desenvolvida e o valor quebre novos recordes em breve, é sadio questionar: este crescimento totalmente dependente de inovação disruptiva é sustentável a longo prazo?

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em janeiro de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (09/01/2019): https://blog.guide.com.br/textos/apple-perde-um-facebook-em-valor-depender-de-inovacao-custa-caro/

POSSE DE BOLSONARO: UM POUCO MAIS PRESIDENTE DO QUE CANDIDATO

Neste dia primeiro de janeiro de 2019 tivemos a posse de Jair Messias Bolsonaro como presidente do Brasil. Um cerimonial com esquema de segurança nunca antes visto – justificado pelo atentado ocorrido ao então candidato – e um público considerável presente – segundo o Gabinete de Segurança Institucional, 115 mil pessoas.

Os discursos para o Congresso Nacional e ao povo após a passagem da faixa são sinalizações do que deve ocorrer nos anos de mandato. Seguindo o que anunciou em campanha, as pautas principais serão a da ética, do combate à corrupção, de uma guinada em pautas morais que, segundo Bolsonaro, estariam uivadas de ideologia de esquerda, e, por último, mas não menos importante, de uma mudança econômica no tocante a maior competitividade e redução do peso do Estado.

Diferentemente do modo como vinha se portando até as últimas semanas, quando já era eleito, Bolsonaro demonstrou um pouco mais de direcionamento ao que irá fazer como presidente e menos como o impressionante chamador de votos para si mesmo que demonstrou ser no pleito de 2018.

Demonstração disso é o fato – bastante positivo, é preciso ressaltar – de que os discursos abandonaram a toada do “nós contra eles” e abraçaram o tom do “vamos todos juntos rumo a um novo país”. Sim, com os direcionamentos que majoritariamente o presidente e seus eleitores concordam, mas saindo da retórica de nomear grupos que deveriam ser “varridos do país” ou algo do tipo.

Especificamente quanto ao campo econômico, reforçou como pontos principais a confiança, a abertura de mercados, o compromisso do governo em não gastar mais do que arrecada e a redução de regulamentação e burocracia sobre o setor produtivo. Elencou ainda o setor do agronegócio como sendo aquele que continuará desempenhando papel decisivo neste momento de retomada do crescimento.

O aceno ao setor produtivo é importante e tal mudança tem forte potencial positivo ao permitir, talvez finalmente, um choque de capitalismo ao Brasil. Em terras tupiniquins somos absolutamente acostumados a protecionismo, ao Estado sendo uma presença notável em toda e qualquer etapa de nossas vidas. Ao menos em discurso, caso não haja um novo estelionato eleitoral, veremos uma mudança sensível em relação a este fato sempre presente.

Provavelmente o leitor deve lembrar agora de algo importante: em quase 30 anos como congressista, Bolsonaro votou quase sempre em pautas estatizantes; seria possível uma mudança tão grande agora?

Pois é, o benefício da dúvida foi democraticamente concedido ao trigésimo oitavo presidente brasileiro acreditando nesta hipótese de mudança. Se atribuem “esqueçam o que eu escrevi” a Fernando Henrique Cardoso, denominado príncipe da sociologia que após seu governo passou a ser considerado um “monstro do neoliberalismo” dadas as mudanças promovidas, talvez este cometa raro de mudanças passe por aqui novamente. Nos resta torcer por um bom governo e para encontrar um Brasil realmente mudado daqui a quatro anos.

Feliz 2019 a todos!

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em janeiro de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (02/01/2019): https://blog.guide.com.br/textos/posse-de-bolsonaro-um-pouco-mais-presidente-do-que-candidato/

INDICAÇÕES: O QUE LEMOS EM 2018

Nossa equipe se juntou para copilar indicações do que lemos em 2018. Veja abaixo:

THE SECRET OF OUR SUCESS – JOSEPH HENRICH

Victor Cândido

Nós, seres-humanos, somos uma espécie animal intrigante. Se fôssemos abandonados na natureza, muito provavelmente não iríamos conseguir superar até os desafios mais básicos, como obter comida, construir abrigos ou evitar predadores e morreríamos rapidamente. Sem falar que nossos “filhotes” possuem mobilidade quase nula e cabeças enormes que nem terminaram de se fechar quando nascem. E mesmo com todos esses fatores jogando contra, nós vencemos a natureza no jogo evolutivo e dominamos o mundo.

Como? A resposta óbvia que vem na cabeça de todos é: com a nossa inteligência singular no mundo animal. Mas não foi, nossa inteligência nem é tão singular assim, mas sim a nossa cultura, ela é a grande responsável pelo nosso sucesso estrondoso como espécie. Humanos são a única espécie com uma cultura exorbitante.

Nas mais de 460 páginas de The Secret of Our Success (Princeton University Press – R$89,90 ), o antropólogo formado em engenharia, Joseph Henrich, nos leva num divertido e cuidadoso ensaio, cheio de evidências empíricas que confirmam sua tese principal: Humanos não deram certo pela inteligência individual, e nem são a espécie mais inteligente, porém, foram capazes de criarem um super cérebro coletivo, denominado de cultura, que se perpetua de geração em geração. Se não fosse a cultura altamente desenvolvida dos humanos, nós não teríamos vencido os neandertais e produzido tecnologias engenhosas, linguagens sofisticadas e instituições complexas que nos permitiram e permite nos expandir com sucesso em uma ampla gama de ambientes diversos.

Apenas para ilustrar a questão da limitada inteligência individual dos humanos, o próximo experimento foi extraído do livro, mostra uma comparação interessante, onde macacos e humanos foram colocados para jogar um teste, que consegue medir alguns tipos de inteligência, como memória de curto prazo, memória de trabalho e a inteligência social (que mede a nossa capacidade de aprender com a experiência de nossos pares). O resultado é incrível, os chimpanzés e o orangotangos tiveram desempenho similar aos humanos em todos os testes, exceto em um, o de inteligência social, onde ganhamos de lavada.

Logo fica claro que o sucesso estrondoso dos humanos não é fruto de nossa cabeça gigante, mas sim de uma enorme cabeçona coletiva, que pensa sem parar a milhares de anos.

STRUCTURAL REFORM PRIORITIES FOR BRAZIL – IMF WORKING PAPER, NINA BILJANOVSKA E DAMIANO SANDRI

Rachel Borges

Sob o contexto de décadas de baixo crescimento econômico e produtividade estagnada, os pesquisadores do FMI conduzem um estudo empírico partindo da necessidade urgente de reformas estruturantes para acelerar a produtividade no Brasil. Desenvolvem então uma análise empírica para definir as reformas de maior prioridade a serem conduzidas pelo governo brasileiro de modo aumentar a produtividade e, portanto, retomar o crescimento econômico sustentável.

Para tanto, estimam primeiro o impacto de diferentes reformas na produtividade do país (incluindo à estrutura jurídico-legal, leis trabalhistas e abertura comercial) com base em dados históricos e de outras economias com estruturas semelhantes. Depois, usam dados empíricos sobre a opinião pública em relação a cada uma destas reformas – pois, afinal, políticos precisarão aderir a causa e defender no Congresso reformas muitas vezes com impactos em grupos de interesse específicos, pensando sempre em se manter no poder via seus eleitores, não é mesmo?

O estudo traz então uma interessante conclusão: reformar o setor bancário terá o maior impacto na produtividade total dos fatores na economia brasileira, além de levar consigo o maior apoio popular, além de não requererem grandes mudanças legislativas. Na linha de recentes esforços liderados pelo Banco Central e o Ministério da Fazenda, os pesquisadores apontam para reformas que visem a melhora da alocação de recursos via redução de crédito subsidiado, diminuição da participação do Estado e fomento à competição no setor financeiro (como Fintechs). Importantes primeiros passos foram dados nos últimos dois anos, esperemos que o novo governo valorize também essa ótima leitura.

PRINCÍPOS – RAY DALIO

Pedro Lula

“Princípios: Vida e Trabalho” é um daqueles livros marcantes. Ray Dalio, um dos maiores investidores do mundo, é fundador da Bridgewater Associates, a quinta empresa privada mais importante dos Estados Unidos e a mais eficaz gestora de hedge funds do mundo, teria então todos os motivos para viver no conforto de sua vida e ciclo social, com tudo, desde os anos 90 Ray vem nutrindo junto a seus investidores uma série de cartas e recomendações sobre investimentos e sobre a vida pessoal-profissional, que após longos anos decidiu transformá-las em um magnífico livro.

O autor tem o cuidado de transformar o livro numa espécie de conversa, uma bate-papo inicialmente sobre a sua jornada de vida, usando de exemplo as diversas situações que passou, quando quebrou sua primeira empresa, seu filho especial, quando errou sua tese de investimento e custou muito milhões, quando desenvolveu sua nova metodologia de investimentos, como tratou e selecionou seus funcionários, enfim, o que Dalio chama de jornada do aventureiro, para depois, na segunda parte do livro abrir para a sua série de Princípios.

Nesse sentido, o autor escreve uma espécie de guia, com uma série de situações hipotéticas e conselhos, para conseguir alcançar sucesso pessoal e profissional, de uma forma muito autêntica. Conceitos como mente aberta, radicalmente transparente, radicalmente sincero, evolução pessoal, não tolerar problemas, definição de objetivos, discordância construtiva, reputação e pessoas extraordinárias são vistos ao longo da diversas páginas de leitura.

O próprio Ray comenta que sua atual fase de vida é de transmitir conhecimento, promover um mundo melhor e apoiar as pessoas, com certeza a leitura desse livro é uma viagem a cabeça de uma pessoa genial, que deixa um legado de vida incrível.

100 DIAS ENTRE O CÉU E O MAR – AMYR KLINK

Eduardo Scovino

Essa eu dedico para todos que, assim como eu, são amantes do remo. Amyr Klink é um sujeito deveras ousado. Nesse relato, ele conta a vez que saiu do porto da cidade de Lüderitz, no sul da África, e remou até Salvador durante 100 dias.

Isso mesmo, amigos. Remando. A bordo do Paraty, Klink nos fala de sua intensa (bota intensa nisso) relação com o mar, da vida marinha que o acompanhou durante a travessia e também alguns dramas por estar completamente sozinho em alto mar.

O que me chamou muita atenção no livro foi que, antes de qualquer coisa, era um desafio de logística. Tudo havia sido muito bem calculado, levando em consideração o lugar da partida – preste bem atenção quando ele fala das correntes de Benguela – e da alimentação balanceada e do estoque de comida e água a bordo.

A cereja do bolo: Amyr Klink é economista de formação. Nunca pensei que economia e remo fossem dar uma mistura tão rica e intensa como “100 dias entre o Céu e o Mar”.

JOB MARKET SIGNALING – MICHAEL SPENCE (1973)

Arthur Lula

Você já parou para pensar que se as pessoas não tivessem diplomas ou certificados, e não tentassem construir um bom currículo, as empresas simplesmente não conseguiriam diferenciar os trabalhadores? Pois é, Spence ilustra nesse elegante paper, que é um resumo de sua tese de doutorado e foi publicado no The Quarterly Journal of Economics, como funcionam as sinalizações de mercado, sobretudo no mercado de trabalho. Claro, utilizando modelos teóricos. Essa dica de leitura vai para aqueles que desejam um pouco de abstração, mas lidando com um tema muito interessante e que aborda situações de informação imperfeita nos mercados.

O problema todo começa do fato de que os empregadores não conseguem apenas “no olhar” saber quão produtivo é um trabalhador, num clássico caso de assimetria de informação. Há um tempo de aprendizagem logo quando se contrata alguém, e esse tempo varia de trabalhador para trabalhador, logo escolher o trabalhador que minimize esse tempo é certamente uma decisão de investimento – uma decisão sob incerteza, quase uma loteria, para ser mais claro. Essa decisão pode ser baseada em probabilidades condicionais e experiência passadas.

Se existem o mesmo número de pessoas com alta produtividade e outras de baixa produtividade, você tem chances iguais de contratar cada tipo, caso não tenha informações sobre elas. Se você pretende remunerar o trabalho pela produtividade, mas não tem conhecimento desta, acaba oferecendo uma remuneração esperada (algo como a média dos dois grupos). Essa situação pode gerar um caso extremo em que não há incentivos para pessoas de alta produtividade participarem do mercado, pois estariam recebendo remuneração abaixo da sua produtividade, sobrando um mercado de apenas pessoas de baixo desempenho – o caso da seleção adversa (que não é tratada pelo paper, mas vale a pena ler sobre).

Resumindo de forma bem grosseira, o autor propõe alguns modelos, mas destaco o de sinalização via educação (ainda que custosa) como forma de aumentar a informação, diferenciação e identificar produtividade. Dado a estrutura de mercado e a avaliação dos empregadores de qual é a escolaridade média (por exemplo) que pretendem contratar, os indivíduos vão ajustar o seu próprio nível de escolaridade mediante ao custo de fazê-lo. Alguns podem achar muito custoso e não o fazer, por exemplo. Em algum equilíbrio desse mercado, o empregador poderá fazer previsões da produtividade esperada para qualquer indivíduo desse mercado teórico, observando seu nível educacional.

O problema é que esse equilíbrio teórico pode não indicar um aumento de bem-estar, dado o custo de adquirir escolaridade para sinalizar a produtividade. De certa forma, só será vantajoso adquirir mais educação se os custos de sinalização estiverem negativamente correlacionados com a produtividade.  Você já parou para pensar que educação pode ter retorno social negativo, mas um retorno privado positivo? É um caso particular e se ficou curioso, leia o paper.

Em suma, esse é um dos trabalhos iniciais bem interessantes que há no ramo da economia da informação, de cunho bem teórico, mas que pode aguçar sua vontade de estudar essa área.

A LOJA DE TUDO – JEFF BEZOS E A ERA DA AMAZON

Caio Augusto

Provavelmente você leitor já fez ou conhece quem fez alguma compra na Amazon. Deve saber também da revolução tecnológica e varejista que ela representa – e que faz dela, não surpreendentemente, uma das maiores e mais valiosas empresas do mundo atual.

O que você não sabe sobre a Amazon pode encontrar neste livro. Divido em três partes, apresenta um dos empreendimentos mais bem sucedidos da história juntamente a seu representante maior, Jeff Bezos.

Superdotado, versátil e sempre buscando pesquisar empreendedores de sucesso – tendo em Frank Meeks, franqueador da Domino’s Pizza de Virgínia que enriquecera -, Bezos foi um dos tantos que apostou na internet na virada do milênio (e um dos poucos que conseguiu provar que seu modelo de negócios era robusto o suficiente para seguir em frente).

Com nome inspirado no maior rio do mundo e logo que dá a entender que lá você encontrará tudo “de A a Z”, a atual loja de tudo começou com o objetivo de superar o serviço de livrarias virtuais existente à época, meados dos anos 1990. Desde o início o plano era de ser imenso – primeiro como “a maior livraria do mundo” e, com o passar do tempo, “a maior seleção da Terra”.

A ambição traduziu-se em prática a partir do foco maior sobre dois aspectos fundamentais: o atendimento ao cliente e a eliminação de inconformidades na cadeia de fornecedores objetivando oferecer produtos aos menores preços possíveis. Hoje, a percepção sobre a empresa é exatamente essa.

A obra apresenta, em suma, como a Amazon e seu criador estão umbilicalmente ligadas e, assim sendo, como o avanço da empresa tem conexão com o pensamento ambicioso de Bezos em oferecer de tudo a todas as pessoas.

SAPIENS: UMA BREVE HISTÓRIA DA HUMANIDADE – YUVAL HARARI

Arthur Solow

A história dos humanos no planeta Terra é bem mais interessante do que você imagina. Se antes os Sapiens – a espécie humana que prevaleceu e resiste até hoje – disputava comida e bens de sobrevivência com outros animais, em condição de igualdade, hoje subjuga completamente fauna e flora ao seu bel-prazer, em nome do desenvolvimento econômico.

Misturando história, biologia, filosofia e sociologia, Harari descreve momentos históricos da evolução humana em detalhes, como a Revolução Cognitiva, da Agricultura, a Industrial e finalmente a Revolução Científica. Essa última, inclusive, é aos olhos do autor uma das mais perigosas, pois não sabemos muito bem as implicações de seus estudos e experimentos. ‘Realidades Imaginadas’, nos termos do autor, foram determinantes para a evolução humana, como a formação dos impérios e posteriormente dos estados nacionais, adoção do sistema capitalista e a influência das religiões.

A evolução não foi nada linear, e muitas escolhas foram tomadas para chegar onde estamos atualmente. Destruímos florestas e extinguimos espécies inteiras de plantas e animais (e inclusive outras espécies de humanos) em nome do progresso.

Será que depois de tudo isso e com toda a tecnologia atual e a oferta abundante de bens de consumo, que até pouco tempo era inimaginável, nos tornou mais felizes que antigos caçadores-coletores de 15 mil anos atrás? Perguntas como essa rondam a cabeça do autor, e nos fazem refletir sobre o nosso próprio modo de vida.

DEVELOPMENT AS FREEDOM – AMARTYA SEN

Lucas Adriano

Quando o objetivo é analisar os efeitos da pobreza e a sua intensidade sobre diferentes grupos sociais, o livro “Development as Freedom”, do Nobel Amartya Sen, é simplesmente in-dis-pen-sá-vel.

Nessa obra, Sen analisa a pobreza de uma maneira pioneira, considerando a sua incidência em diferentes dimensões. É dado destaque para certos fatores, como: educação, saúde, regionalismo e empoderamento feminino. Tais fatores são considerados como responsáveis pelo agravamento de uma situação de pobreza.

“Development as Freedom” possui um quê de filosofia, algo devido ao próprio entendimento da pobreza, como algo que limita a liberdade dos indivíduos, mas também pela crítica profunda realizada ao libertarianismo. Mas esse “quê de filosofia” de modo algum torna a obra abstrata e distante da realidade, muito pelo contrário! A discussão filosófica apenas eleva o nível de entendimento acerca de exemplos econômicos reais, que são apresentados ao longo do texto.

A obra de Sen ultrapassa o estudo da pobreza e de suas causas, percorrendo um caminho mais abrangente, que é o de entender o real significado do que seria liberdade humana.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em dezembro de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (26/12/2018): https://blog.guide.com.br/textos/indicacoes-o-que-lemos-em-2018/

O que a Equipe do Terraço leu em 2018?

Há certas coisas que, via de regra, fazem parte da tradição de todo fim de ano. Vão desde o especial do Roberto Carlos e a piada do pavê, até a ceia de Natal e os fogos de Reveillon. Mas claro, além disso, o que não pode faltar, são as indicações dos melhores livros/artigos lidos pela equipe do Terraço durante o ano que passou!

Para 2018, as leituras foram bem diversificadas, algo que junto com a tradição de final de ano, também não é nenhuma novidade. Dado que mesmo sendo um espaço de discussão predominantemente econômica – o que por si só já oferece um leque quase inesgotável para ser explorado – o Terraço vai MUITO além disso, abrangendo temas mais entrelaçados a política, a história do Brasil e as relações internacionais.

Sendo assim, sem mais delongas vamos para as indicações.

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Observação: as recomendações foram escritas pelos próprios membros e, deste modo, expressam as opiniões dos mesmos.

Eduardo Scovino

Gene: uma história íntima – Siddhartha Mukherjee

Vamos começar com o início de tudo: os genes!

Vencedor do badalado Prêmio Pulitzer de não-ficção de 2011, este livro consegue conectar a evolução dos estudos a respeito do Gene, com marcos da história da humanidade – coisas que a  princípio – não possuem muita ligação. Mukherjee consegue explicar, com extrema clareza e didática, os primeiros passos de cada teoria, as frustrações dos cientistas de cada época, as descobertas acidentais e, claro, sobre o que provavelmente nos aguarda em poucos anos.

É incrível a ligação entre o avanço dos estudos sobre mutação genética e os sucessos de bilheteria de Hollywood. É impressionante as ligações que Mukherjee faz com histórias aclamadas, como Quarteto Fantástico, Homem Aranha, Hulk e tantos outros.

Também é surpreendente quando Mukherjee explica acontecimentos notórios do século XX como o Nazismo e a União Soviética sob a ótica dos genes. Depois que passei por esse capítulo, passei a entender que as aulas de Nazismo e Segunda Guerra devessem ser dadas com um professor de História e um de Biologia na mesma sala.

Recomendo a todos que gostam de ciência e procuram entender um pouco sobre como o estudo de estruturas tão pequenas podem saltar à nossa realidade com tanta frequência.

Victor Candido

A Man on the Moon – Andrew Chaikin

Da descoberta dos genes e todas as suas implicações, vamos diretamente para o espaço.

É bem provável que você saiba, que o primeiro homem a pousar na lua disse, assim que pisou em solo lunar: “Este é um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”. Mas provavelmente não deve ser do seu conhecimento, que o terceiro homem a pisar na lua, na missão Apollo 12, disse: “whoooopie” ao pular do último degrau do módulo lunar em direção ao solo lunar. Ou que na missão Apollo 15, levaram um carro para lua.

Todos fatos incríveis que fizeram parte do maior esforço científico da história: a viagem do homem da Terra até à Lua. O verdadeiro surrealismo que se tornou realidade. Pouco se conhece das demais missões lunares e da epopéia que foi o esforço de se dominar a tecnologia para ir e voltar em segurança ao nosso astro vizinho. Nos limitamos a saber que nós (humanidade) já fomos até lá.

O livro A Man on The Moon, de Andrew Chaikin. E para quem não curte livros, o seriado da HBO, de 1998, From the Earth to the Moon, que é baseado no livro e produzido por Tom Hanks, que viveu o protagonista Jim Lovell no filme Apollo 13. Essas obras se conectam e contam a história de como a humanidade, com seu espírito explorador, pode fazer coisas incríveis.

Ao contrário de Neil Armstrong, que virou símbolo do programa espacial americano, existiram 400.000 pessoas envolvidas no esforço de colocar um homem até o final da década de 60 na lua. Em 1962, em um discurso na Universidade de Rice, o então Presidente John Kennedy, disse: we choose to go to the moon, e colocou a meta de fazerem isso antes do final da década, ou seja, a NASA tinha 8 anos para alcançar a ambiciosa meta. Naquele momento a NASA tinha 15 minutos de voo espacial tripulado. Para ir à Lua precisaria de centenas da horas a mais, de tecnologia e materiais que ainda nem existiam e que teriam que ser inventados.

Entre 1967 e 1969, missões tão importantes quanto o próprio pouso lunar aconteceram: como o voo incrível da Apollo 8 que foi até a órbita lunar e circulou algumas vezes a lua, mostrando que era possível ir até lá e voltar com segurança, no natal de 1968 a Apollo 8 transmitiu ao vivo da Lua, para o mundo todo, via televisão. Com a figura cinza da lua no centro da imagem, os três astronautas: Frank Borman, Jim Lovell e William Anders leram o livro gênesis da bíblia. A missão foi um sucesso retumbante, o próximo passo era pousar na lua.

O livro de Chaikin é uma janela para uma história surreal, um surrealismo real. E nos faz lembrar que a humanidade pode sim fazer o que quiser, basta ter um objetivo claro e mobilização para tal.

Arthur Solow

Um homem, um rabino – Henry Sobel

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A partir da mobilização de vários indivíduos com um objetivo bem definido, é possível fazer coisas incríveis. Mas alguns homens em especial, conseguem obter grande destaque de maneira individual, mesmo aqueles que possuem uma trajetória marcada por imperfeições e que estejam longe da unanimidade.

Em relação a esses homens, sempre há uma história oculta, mas que gostamos de julgar antes mesmo de conhecê-la com detalhes. É o caso do Rabino Henry Sobel, por muitas vezes lembrado apenas pelo fatídico episódio do furto das gravatas em Miami, ocorrido em março/2007. Mas sua história pela democracia e pelo povo judeu no Brasil se sobrepõe com sobras sobre o episódio das gravatas e se misturam com a própria história política brasileira.

Sobel é reconhecido pelo seu sotaque forte, pelas frases curtas e pelo seu trabalho de décadas à frente da Congregação Israelita Paulista (CIP), sediada no Bairro da Bela Cintra, São Paulo. Mas uma história chama a atenção: após a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, Sobel duvidou publicamente da versão dos militares, que argumentavam que Herzog havia tirado a própria vida. Com isso, determinou o enterro do jornalista em região comum do cemitério, e não em localidade afastada, devido às leis específicas do judaísmo. Além disso, desafiou o regime ao celebrar um culto ecumênico na Praça da Sé dias depois, juntamente com o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Mas sua dedicação ao judaísmo e a CIP trouxe marcas duradouras em sua vida privada: a própria família (esposa e filha) reclamavam constantemente de sua ausência em casa. Henry Sobel sequer é unanimidade – longe disso – dentro da comunidade judaica, por suas posições tidas como reformistas, mas sua história é importante para lembrarmos que nossos erros e decisões moldam quem nós somos e que nossa atuação ativa pode mudar a vida de muitas pessoas e do país que vivemos.

Caio Augusto

Ah, como era boa a ditadura… A história dos últimos anos da ditadura militar nas charges da Folha de São Paulo – Luiz Gê

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Se a história de pessoas guarda diversos pontos conflitantes, com a história de eventos políticos e sociais, não é diferente. Como teria dito o economista Pedro Malan, “no Brasil até o passado é incerto”.

Um dos momentos que mais marcaram a história brasileira – e ainda marcam – foi o período militar. Após os movimentos de rua de 2013 e todas as repercussões políticas deles advindos, pudemos observar alguns grupos conclamando a volta dos militares do poder, tal qual ocorria na ditadura.

Assustado e inconformado com esse tipo de manifestação pela volta da ditadura militar, Luiz Gê, chargista que observou e externou em seus trabalhos os anos finais do regime, decidiu reunir em um livro muito do que produziu entre 1981 e 1984.

Diferentemente de muitas obras que focam em aspectos como a supressão de liberdades políticas e de discurso, essa obra se direciona essencialmente ao que acontecia nos campos da economia e da política naquela época. Inflação em níveis altíssimos, desabastecimento, o início de uma série de planos econômicos mal-sucedidos e angústias relacionadas com os últimos anos do período militar estão todas presentes.

Talvez as impressões mais marcantes da obra sejam duas: primeiramente, para quem viveu e acompanhou a economia nos anos finais da ditadura brasileira, a impressão era de que diuturnamente o país iria acabar; em segundo lugar, para quem não teve essa vivência, mesmo a atual situação complexa do Brasil (com uma situação fiscal grave a ser encaminhada) parece absolutamente tranquila e de fácil lida perto do que pudemos observar naquela época.

Lucas Adriano

The “São Paulo Mystery”: The role of the criminal organization PCC in reducing the homicide in 2000s – Marcelo Justus, Daniel Ricardo de Castro Cerqueira, Tulio Kahn e Gustavo Carvalho Moreira


Bem incerto são determinados efeitos acarretados em toda sociedade, supostamente atribuídos a certos grupos.

Assim, o artigo aborda o aparente “mistério” que permeia o sucesso na redução da taxa de homicídios no estado de São Paulo, a partir dos anos 2000. Como possível fator determinante para essa redução, foi analisada a atuação do PCC, organização criminosa que se fortaleceu justamente nesse período, de diminuição no número de homicídios em São Paulo.

Será que o crescimento do PCC, teria de alguma forma monopolizado o crime, impondo um maior regramento nas ações criminosas? Ou terá havido algum acordo implícito entre a organização e as forças de segurança do estado? Questões como essas são levantadas no artigo, que faz relações acerca da possibilidade de um grupo à margem da lei, ter a abrangência e a organização suficientes para poder impactar o estado mais rico do Brasil.

Mesmo com todo o poder e sofisticação operacional do PCC, este não teria sido responsável direto pela redução dos homicídios em São Paulo. Apesar de ter sido constatado pelo trabalho, que a atuação da organização teria ligação dentre outras coisas, com a diminuição de certos crimes, como o de abuso sexual, dentro das penitenciárias paulistas.

O artigo é extremamente interessante, seja devido a robustez dos métodos econométricos que são empregados, como pela seriedade e pelo extremo conhecimento técnico de seus autores, acerca do tema criminalidade. Fora que, a proxy utilizada, a atuação de uma organização criminosa como fator relacionado com a redução da taxa de homicídios, raramente é discutida, de maneira séria e embasada pelo menos.

Rachel de Sá

O Inverno do Mundo, Kenn Follett

Em relação a incertezas, poder se dedicar ao estudo de um grande livro, também é uma delas.

Mas promessa é dívida, e nesse caso felizmente. Como prometido ao final de 2017, dediquei grande parte de meu 2018 imersa nas 910 páginas do segundo livro da trilogia do filósofo e escritor Britânico, Kenn Follett.

Seguindo a segunda geração de famílias distintas, mas entrelaçadas pelo emaranhado histórico europeu de meados do século XX, o livro se inicia na Segunda Guerra Mundial e avança às negociações da Liga das Nações e novelas diplomáticas daquilo que será a base da economia e política globais que antecedem o longo período da Guerra Fria. A riqueza de detalhes históricos continua a impressionar o leitor, construindo personagens que vão de jovens alemães frustrados com as mentiras de uma Guerra que já perdeu o sentido, à cabos do exército norte-americano em Pearl Harbor e marinheiros da histórica batalha de Midway, e ingênuos pesquisadores russos na construção do que viria a ser a bomba atômica.

Ao terminar o livro, a única dúvida que fica é: a Guerra Fria será tão interessante assim para meu 2019?

Arthur Lula Mota

Autoregressive Neural Network Processes – Sebastian Dietz (2010)

Diferente dos meus colegas do Terraço, vou optar por indicar uma leitura técnica: uma tese de doutorado. Esse trabalho é bastante interessante por apresentar novas metodologias para trabalhar com séries de tempo e fazer projeções. Sebastian, ao longo das 194 paginas nos introduz ao mundo das redes neurais e como estabelecer relações com os modelos clássicos autorregressivos, colapsando nos modelos conhecidos como AR-NN (Autoregressive Neural Newtork).

Esses modelos podem apresentam performance melhor do que os tradicionais ARIMA por trabalhar com maior desempenho em situações de processos não lineares, saindo daquele mundo bem-comportado que estudantes de econometria (por exemplo) são inseridos no início de sua formação. Outro ponto positivo dessa tese é nos acostumar ainda mais com aplicações de redes neurais e suas funções chamadas de neurônios, um ferramental que tem crescido nos últimos anos, acompanhando o potencial computacional e a facilidade de aprendizagem.

A elegante apresentação de modelos univariados e multivariados nos abre novos caminhos para estudar fenômenos interessantes, sobretudo na economia, com modelos que envolvem cointegração (os NN-VEC), combinando relações lineares de longo prazo e ajuste não lineares. Por fim, encerra com aplicação dessas metodologias para a predição de algumas variáveis que envolvem a indústria automobilística alemã e sua relação com a demanda no mercado americano, e a taxa de câmbio USD/EUR – sobretudo avaliando o período da crise mundial.

Em suma, é um livro técnico para aqueles que desejam trabalhar com projeções, por exemplo, e gostam de conhecer novas metodologias.

Pedro Lula Mota

Os Mercadores da Noite – Ivan Sant’anna

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O céu vai anoitecendo, e já vamos rumo a última indicação de livro.

Ivan Sant’anna é uma daquelas figuras únicas do mercado financeiro brasileiro. Formado em mercado de capitais pela New York University, foi operador de mercado durante 40 longo anos, tanto na Bolsa do Rio, Nova Iorque como Chicago, além sócio de um banco. Foram anos de navegação nos revoltosos mares dos mercado, enfrentados os mais variados tipos de situações: como crises, especulações, quebra de países, mudança de regimes, mercado em alta, ganhando e perdendo muito dinheiro, isso em uma época onde a tecnologia e digitalização ainda eram muito incipientes.

Pois bem, Ivan decide então mudar de carreira e se dedicar a um antigo sonho, o de ser escritor.  Se tornou autor de diversos livros desde os anos 90, sendo o Os Mercadores da Noite um de seus maiores clássicos. O livro é um ficção, uma novela do mercado financeiro em forma de thriller eletrizante, ao melhor estilo frenético das mesas de operações. A história versa sobre os mercadores da noite, operadores que estudavam os mercados na calada da noite de domingo, planejando suas megaoperações, analisando variáveis econômicas como moedas, grãos, juros, ações e etc.

O livro conta a história de dois grandes especuladores dos mercados globais, Julius Clarence, megaespeculador de Wall Street, e seu rival, Clive Maugh, administrador de grandes fortunas do Banco Centro Europeu de Lausanne, o temível Sindicato. O conflito entre esses gigantes dá origem a um colapso do mercado financeiro mundial.

Dicas de Livros da anos anteriores:

O QUE A EQUIPE DO TERRAÇO LEU DE BOM EM 2017?

https://www.terracoeconomico.com.br/o-que-equipe-do-terraco-leu-de-bom-em-2017/embed/#?secret=yn82W4Uhu3

O QUE A EQUIPE DO TERRAÇO LEU DE BOM EM 2016?