EUA, CHINA E A GUERRA COMERCIAL QUE PREJUDICA A TODOS

As duas maiores economias do planeta estão dando os maiores passos atrás em relação ao que conhecemos como globalização. Antes mesmo de sentar na cadeira presidencial dos EUA, Donald Trump já dava fortes sinais de que a “exploração gerada pela China” seria duramente atacada, com altas doses de protecionismo. Como por lá, até então, não há estelionato eleitoral, é justamente essa promessa que está virando realidade. A guerra comercial.

Guerras comerciais se iniciam quando a justificativa de proteção da economia nacional pesa mais na balança do governante do que permitir que quem consome tenha acesso a uma diversidade maior de bens e quem produz esteja em contato com uma competição que permita aprimorar suas técnicas e ser mais eficiente. Embora aos consumidores a escolha entre proteger ou não o mercado nacional seja óbvia (é preferível ter mais opções e competição do que menos), para o lado de quem produz a questão é bem mais delicada.

Durante sua campanha rumo à Casa Branca, Trump discursou em recantos dos EUA que tiveram seus empregos aos poucos reduzidos em função da desindustrialização das últimas décadas. Muitos destes empregos foram para a China, que passou a ser, com pouca dose de exagero na expressão, a “fábrica do mundo”. Este efeito de desindustrialização pode ser observado em diversos países do mundo, mas, sendo presidente da terra do Tio Sam, logicamente Trump direcionou seus esforços para dizer que os mais prejudicados eram, como em todos os filmes de apocalipse que existem, os Estados Unidos.

Tendo vencido em cima de plataformas como essa da proteção mercadológica dos EUA perante o mundo, Trump tem colocado em prática essa ideia insinuando a revisão de acordos comerciais previamente estabelecidos e aplicando tarifas de importação a diversos produtos e nações. Em especial, o alvo tem sido a China.

Na prática, o pedido tem sido pela redução do déficit comercial com a potência asiática – ou, saindo do economês, uma redução da diferença entre o que se exporta para a China e o que dela se recebe como importação.

O caminho tem sido um tanto tortuoso. As ameaças foram iniciadas pelos Estados Unidos ao início deste ano. Em maio, um acordo foi assinado entre os dois países para mitigar os riscos de continuidade das ameaças. Poucas semanas depois, as ameaças viraram imposição tributária sobre US$50 bilhões, que em julho passaram a ser US$100 bilhões e hoje as ameaças estão sobre quase todos os quase US$500 bilhões em bens exportados da China aos EUA. Do lado da China, retaliações também têm ocorrido.

Embora possamos realmente admitir que o protecionismo possa soar uma boa ideia por proteger setores e empregos dentro de países, temos que na maioria das vezes ele não ocorre com vias a permitir um maior desenvolvimento dos setores, mas sim com o objetivo de impedir a entrada de bens estrangeiros. A prova disso é que em praticamente nenhum caso existe um plano que explique quando a necessidade dessa proteção poderá ser encerrada. Na prática, tais barreiras prejudicam os consumidores por restringir seu acesso a novas opções (e às benesses da competição e queda de preços) e os produtores por não terem acesso a novas formas de produzir. Produtividade e bem-estar são reduzidas quando isso ocorre entre quaisquer países, imagine em se tratando das duas maiores economias do mundo.

guerra comercial entre EUA e China segue em vigor, com ameaças dos dois lados a respeito de elevação de tributação. Mas, mesmo sem chegar ao fim, já podemos ter uma certeza: o mundo sairá mais caro desta “defesa nacionalista”.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em outubro de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (18/10/2018): https://blog.guide.com.br/textos/eua-china-e-a-guerra-comercial-que-prejudica-a-todos/

A complexa missão do NOVO

Em termos de esfera pública, o portador de más notícias costuma quase sempre ser confundido com o responsável por ter deixado o cenário ruim. Não se pode descartar a possibilidade de realmente o porta-voz ter participado da deterioração que anuncia, mas é de costume que acabe ficando com toda a culpa.

Caso eleito em MG, Romeu Zema pode causar uma virada de mesa ou entrar para o time dos que avisam da péssima situação e passam a ser culpados por ela.

Dois casos práticos ajudam a ilustrar essa questão.

Michel Temer assumiu a presidência interinamente em maio de 2016 e de maneira direta no último dia de agosto do mesmo ano. Esteve ao lado de Dilma Rousseff antes disso e, portanto, não pode dizer que não sabia da situação complicada.

Entretanto, logo ao entrar, em vez de seguir com a estratégia até então vigente de fazer previsões que não se cumpririam em termos econômicos (dizer que o déficit era menor, que os juros deviam ser menores, que a inflação chegaria na meta mas nunca chegava), passou a adotar o realismo fiscal como meio. Resultado? “Esse Temer aí que acabou com o país, vejam só quantas más notícias ele tem trazido”.

Marco Antônio Zago recebeu o bastão de João Grandino Rodas como reitor da USP em 2015. Durante a gestão de Rodas, aumentos salariais expressivos foram concedidos e desembolsos (inclusive internacionais) foram executados. Não houve greve (o que é surpreendente em se tratando de uma universidade que em todos os anos tradicionalmente o faz). Ao entrar, Zago alertou: nossos gastos estão acima do que nosso orçamento permite (apenas com pessoal já superava 100% dele). Resultado? A maior greve da história da USP ocorreu em 2015, já que “o Zago destruiu a USP”.

Nos dois exemplos acima temos que, mesmo sendo o mensageiro não responsável inteiramente pela questão, ele tem muito a ver com ela e também acaba sendo culpado. Michel Temer foi vice de Dilma Rousseff, Marco Antonio Zago era da equipe que ajudava João Grandino Rodas a gerir a USP. Como diria uma máxima: são culpados, mas não responsáveis.


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Em relação a Romeu Zema, a missão complexa então é a seguinte: mostrar que o estado de MG tem atualmente muitas dificuldades em suas contas públicas sem permitir que ele se torne, subitamente, o culpado de toda a situação. No caso, parece mais fácil porque ele realmente não fez parte nenhuma dos governos que levaram a tal situação.

Porém, este diferencial de saber apresentar ao povo do estado essa questão de maneira a gerar um efeito positivo – um real “vamos fazer cortes, mas é para que todos saiam beneficiados” – pode ser a diferença entre um primeiro governo do Partido NOVO que marca positivamente e um retorno ao triste “esse partido aí é igual aos outros, não muda nada”.

A importância de, caso eleito, Zema conseguir fazer esse diálogo propositivo para melhoria da situação de MG, é dupla. Primeiramente, ao Partido NOVO, que pode apresentar-se como uma real novidade se conseguir levar esse discurso às vias de fato e deixar MG como um exemplo de que o diálogo é possível mesmo quando as notícias não são boas e envolvem restrições.

Em segundo lugar, àqueles que nunca ocuparam cargos públicos mas têm vontade, abre-se a esperança de que não será o raso “estou anunciando a má situação e me confundirão como gerador de tudo isso” – o que pode contribuir bastante com uma renovação da política ainda maior nos próximos anos.

As pesquisas eleitorais mais recentes indicam que Romeu Zema será eleito no segundo turno como governador de MG. Pode ser que não aconteça, mas caso acontecer, junto disso nos próximos anos podem ocorrer mudanças que, como dizem os economistas, gerarão uma cascata de externalidades sociais positivas dentro da política nacional.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em outubro de 2018:

– Terraço Econômico (17/10/2018): http://terracoeconomico.com.br/13228-2

50 episódios em 50 minutos! UM ANO de Terraço em Quinze Minutos #50

É tempo de festa no Terraço Econômico!

Comemorando 1 ano de Terraço em Quinze Minutos, Lucas Goldstein, Arthur Solow, Renata Kotscho Velloso, Caio Augusto, Pedro Lula Mota, Eduardo Scovino, Arthur Lula e Douglas Albuquerque (ufa…) resenham seus momentos prediletos neste ano que passou voando… mas valeu por 15.

DACIOLO 2%, Só faltam 98%! Terraço em Quinze Minutos #48

Nesta edição, Lucas Goldstein, Caio Augusto, Victor Candido e Arthur Solow abordam os temas:

Inédito: Gita Gopinath será a primeira mulher economista-chefe do FMI
Ibope e Datafolha apontam alta de Bolsonaro (e rejeição maior a Haddad)
Embalados pelas pesquisas, bolsa registra maior alta desde 2016

NOVIDADE! Terraço em Quinze Minutos às terças e quintas durante o segundo turno

ELEIÇÕES: VENCEM AS SURPRESAS E O CONSERVADORISMO

O primeiro turno das eleições de 2018 rendeu mudanças sensíveis em diversas esferas da política nacional. Quem aguardava uma continuidade dos que lá estavam – tal qual vimos em 2014, mesmo tendo sido um ano após uma onda imensa de protestos pelo país – acabou errando bastante o palpite.

Dividindo os resultados entre os que mais ganharam e os que mais perderam, temos que venceram surpresas e conservadorismo e perderam velhos participantes (o que, de certa forma, também é uma vitória surpreendente).

Dos vencedores que puderam ser observados no dia de ontem: PSL, o partido de Jair Bolsonaro, deixou de ser nanico (tinha apenas um deputado federal até então) e passou a ser a segunda maior bancada da câmara (contando com 52 deputados agora), perdendo apenas para o PT neste quesito; Zema em MG e Witzel no RJ representaram as maiores viradas: de “praticamente sem chance” para “quase uma vitória no primeiro turno”, com mais de 40% dos votos válidos cada. Parece que, enfim, podemos observar renovação na política brasileira. Outro dado importante que vai nesta direção: menos da metade dos eleitos em 2014 para deputados federais conseguiram se reeleger neste pleito.

Já observando os que mais perderam, temos surpreendentemente muitos dos que nem imaginavam entrar na lista dos que não conseguiriam renovar ou conseguir cargos. Dilma Rousseff, que concorria ao Senado em MG e estava prevista para conquistar a primeira vaga, ficou em quarto lugar e com isso não ficou nem perto de chegar lá. Lindbergh Farias, Eduardo Suplicy, César Maia, Edison Lobão, Eunício Oliveira, Jorge Viana, Roseana Sarney, Sarney Filho: todos fora. Alckmin e Marina, que já não indicavam ter votação substancial, acabaram decepcionando mais do que o previsto: o primeiro ficou com menos de 5% dos votos e a segunda a ficou inclusive atrás do pitoresco Cabo Daciolo.

Em termos gerais, esta primeira fase da eleição indicou uma caminhada maior ao pensamento conservador no país. Embora inicialmente pareça direta a relação entre isso e uma maior governabilidade em um eventual governo de Jair Bolsonaro, é importante notar que conservadores costumam agir em defesa de seus grupos interessados – o velho conhecido corporativismo brasileiro, dessa vez mais à direita do que à esquerda progressista.

Apesar da quase vitória em primeiro turno, os cenários seguem abertos para Bolsonaro e Haddad. Muitos acenos ao centro ainda podem ser feitos. A visão certamente parece ser mais positiva ao candidato do PSL do que ao petista, uma vez que o primeiro precisa de muito menos apoio adicional para conseguir a vitória no segundo turno do que o segundo precisaria para reverter a questão, mas muita água ainda vai rolar debaixo da ponte chamada Outubro de 2018 antes de chegarmos a alguma definição.

Em todo caso, a escolha por extremos foi feita pelo país. Os dois candidatos com maior rejeição chegaram ao segundo turno – e provavelmente o aceno àqueles que os rejeitam será o fator diferencial para definir quem será o próximo Presidente da República.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em outubro de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (09/10/2018): https://blog.guide.com.br/textos/eleicoes-vencem-as-surpresas-e-o-conservadorismo/

Maldição de Ulysses-Alckmin

O Brasil urgia por votar pra presidente após ficar sem fazer isso desde 1961, quando Jânio Quadros foi eleito. A quantidade de chapas em disputa não deixava margens para o tamanho dessa vontade: vinte e duas disputavam o pleito. Sim, já falamos sobre essa questão do comparativo entre as eleições de 1989 e 2018 anteriormente, mas nos ocorreu que outro paralelo surpreendente ocorre agora: a maldição de Ulysses se repete com Alckmin.

Afinal, qual seria essa maldição? E como Alckmin deu continuidade a ela?

Ulysses Guimarães, também conhecido como “Senhor Diretas” (pela ativa participação na campanha “Diretas Já”) e membro do congresso que liderou a constituinte que desembocou na nossa atual constituição, pavimentou seu caminho na política de modo que poucos duvidavam ser suficiente para ocupar o cargo máximo do poder executivo no Brasil. Não apenas esteve entre a vinte e duas chapas postulantes como também liderou o tempo de televisão (22 minutos do total de 68 da programação). Efeito de tudo isso na corrida eleitoral? Ficou em sétimo lugar, bem distante do segundo turno.

Geraldo Alckmin apresentou-se como opção reformista possível. Com um diagnóstico do que precisa ser feito e assessoramento político consideravelmente sólido – por exemplo com Persio Arida, um dos pais do Plano Real -, aproveitou para unir essa capacidade com uma ampla (muito, muito ampla) aliança eleitoral que lhe rendeu uma quantidade descomunal do tempo de TV e das inserções diárias de propaganda política. Tais inserções totalizaram 434 até o dia 03 de outubro. O segundo colocado, representando o PT, teve menos de metade disso, 189 inserções. Resultado prático disso? Ficou em quarto lugar, com menos de 5% dos votos totais e bem distante do segundo turno.

Vários motivos podem explicar essa colocação – que representa o retumbante fracasso da candidatura tucana – que vão desde a erros estratégicos dos marqueteiros, até ao grande impacto das redes sociais. Mas o motivo em especial, que se destaca em meio aos demais, é o do momento de ruptura por qual passa o Brasil.

Nas eleições de 1989, a ruptura foi marcada pelo retorno das eleições presidenciais (de forma direta). Agora, o processo não é tão evidente, mas começou a partir do impeachment de Dilma Rousseff e continuou com o fortalecimento da Operação Lava Jato, marcando o esgarçamento – ao menos virtual – do atual sistema político brasileiro.

O resultado disso é a formação de uma nova corrente que permeia o Brasil – mesmo que de modo um tanto confuso – que busca candidatos que criticam fortemente o sistema, se apresentando como uma “nova” alternativa, principalmente no sentido de realizar uma firme oposição contra o PT.


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Se Ulysses foi um opositor histórico a ditadura e passou pelo período de transição em que o candidato a presidente foi escolhido ainda de maneira indireta, Alckmin, que encarna uma tradicional oposição ao PT (através da polarização que vem se mostrando frequente desde os anos 1990), passou pelo período em que o MDB retira o poder petista (no que se refere a presidência).

É como se Ulysses e Alckmin, políticos com grande experiência, representantes de estabilidade e coalizão, fossem considerados como formas ultrapassadas e pouco eficientes em momentos de rupturas. Nesse período, são novos personagens que se beneficiam, com pouca experiência (ao menos no que tange a cargos no poder Executivo) e promessas de soluções rápidas e certeiras, como Collor e Bolsonaro.

Infelizmente para o caso de Ulysses, não há como reverter os efeitos da maldição, mas para Alckmin, isso talvez ainda seja possível, apesar de ser extremamente improvável. O desafio depende muito dos efeitos da ruptura, que perpassa pelo resultado do segundo turno eleitoral. E mesmo após a decisão do segundo turno, ainda haverá a avaliação dos resultados de um potencial governo Bolsonaro ou Haddad. Será que haverá a necessidade do retorno de um velho candidato moderado, que promova reformas a partir de uma grande coalizão nacional? Isso apenas o futuro poderá dizer.

Por ora, temos um segundo registro importante para comprovar que não necessariamente agregar a si o maior apoio político significa que alguma vitória ocorrerá. Ainda mais se isso representar que você não está seguindo o momento de ruptura, mas sim demonstrando que quer se agarrar ao que ficou para trás.

Caio Augusto
Editor do Terraço Econômico

Lucas Adriano
Editor do Terraço Econômico

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em outubro de 2018:

– Terraço Econômico (08/10/2018): http://terracoeconomico.com.br/maldicao-de-ulysses-alckmin

– Instituto Millenium (09/10/2018): https://www.institutomillenium.org.br/artigos/maldicao-de-ulysses-alckmin/

É preciso respeitar o resultado eleitoral

O leitor não está lendo errado. Este não é um texto que deveria ter saído após o segundo turno e acidentalmente foi publicado agora, antes mesmo do primeiro turno. Trata-se de um apelo ex ante pela racionalidade, aproveitando-se do fato de que muitos têm antecipado o voto útil do segundo para o primeiro turno.

Vamos conversar sobre um assunto importante à democracia: o pleito é realizado para colher de toda a população a opinião direta sobre quais representantes deveriam ocupar cargos nos poderes legislativo (deputados, senadores) e executivo (presidentes, governadores).

O processo para se chegar a isso passa pelas chamadas urnas eletrônicas, não há outro meio para votar. Aqueles com maior votação (ou que preenchem requisitos como os do quociente eleitoral) são eleitos, porque representam a maioria dos votantes.

No Brasil atual, de polarização política exacerbada, o fantasma do questionamento dos resultados eleitorais – ocorrido em 2014, por parte do PSDB, o primeiro desde 1989 – está de volta, e antes mesmo do resultado do pleito. Se uma vitória seria justa, uma derrota supostamente viria única e exclusivamente em virtude de fraude eleitoral.

Tal pensamento, de “eleições sob suspeição por fraude nas urnas” é no mínimo estranho. Se alguns candidatos não acreditam que as urnas refletem a realidade, qual seria o sentido de participar desse pleito? E, se a vitória for confirmada, de repente a fraude deixa de existir?

Isso lembra bastante duas coisas peculiares: Trump acusando as eleições de serem influenciadas pela Rússia (e depois negando veementemente que isso ocorreu, já que ele quem ganhou) e a defesa de Dilma afirmando que o processo de impeachment é inválido (mas tendo participado de todo o rito, inclusive colocado sob consulta no STF etapa a etapa).

Colocar o processo eleitoral à prova é grave e demandaria prática investigação da acusação. A prova de que não se fala sério quando se coloca esse assunto na mesa é a altíssima chance da resposta para a pergunta “mas e se você ganhar?” ser “nesse caso, justiça foi feita”.

Provavelmente o leitor está remetendo o teor do artigo a Jair Bolsonaro e suas diversas declarações. Porém, em uma polarização exacerbada na qual nos encontramos, não dá pra descartar que qualquer dos candidatos que perca no segundo turno, deixe de utilizar este frágil argumento como justificativa de uma derrota.

No caso de Fernando Haddad estiver lá e perder, não se descarta a possibilidade de alegar a mesma coisa. Ciro Gomes idem, Geraldo Alckmin (com o PSDB repetindo o vexatório episódio de 2014) também. Qualquer um. Em espaço de proliferação da polarização, tudo vira justificativa.

Winston Churchill afirmava que a democracia é o pior modelo de governo, com exceção a todos os outros. Enquanto não descobrirmos um “menos pior”, é com ele que seguiremos. Apenas subjugar a democracia em torno de uma derrota eleitoral é perigoso. Um perigo constitucional que abre brechas a autoritarismos dos quais o Brasil já presenciou.

“A Constituição certamente não é perfeita. Quanto a ela: discordar, sim; divergir, sim; descumprir, jamais; afrontá-la, nunca!” (Ulysses Guimarães).

Publicações deste artigo, que foi escrito em setembro de 2018:

– Terraço Econômico (01/10/2018): http://terracoeconomico.com.br/e-preciso-respeitar-o-resultado-eleitoral

ENTRE OS EXTREMOS, PADECE O BRASIL

Eleições compõem um período quase sempre conturbado no Brasil. Não é difícil de entender: com um Estado deste tamanho e uma Constituição que dita tantos caminhos, faz muita diferença por aqui quem ocupará o cargo máximo do poder Executivo.

Em algumas ocasiões, esse desarranjo acaba por resultar em múltiplas candidaturas – como foi em 1989 e ocorre agora em 2018 – e, na maioria dos casos, resulta em certa bipolarização – PT e PSDB ocuparam esta disputa direta basicamente desde 2002.

Neste ano, algo inédito e bastante surpreendente tem ocorrido: por um lado a desilusão com o quadro político abriu uma miríade de candidaturas (após o anúncio inicial de quase vinte, treze acabaram confirmadas) que deixou o cenário bastante incerto; por outro, mais recentemente, duas enormes rejeições acabam atraindo o voto útil aos extremos: Haddad, herdeiro direto de Lula (e do antipetismo) e Bolsonaro, autor de diversas frases altamente questionáveis e dono da atual maior rejeição do pleito.

Bolsonaro é o típico liberal de primeira viagem. Há quase 30 anos no Congresso, votou por pautas estatizantes com frequência e hoje indica que seguirá cartilha liberal, basicamente por ter se associado a Paulo Guedes, economista que tradicionalmente segue esta linha. Em termos econômicos, então, é um mistério: vencerá sua veia autoritária e estatizante ou sua recentíssima orientação liberal? A instabilidade é exatamente essa.

Haddad é aquele que assumiu o papel ingrato de dizer, explicitamente, que “já que Lula não pode disputar a eleição, cá estou”. Pessoalmente é figura moderada e razoavelmente racional – tão moderada que já chegou a ser chamado de “o mais tucano dos petistas”. Mas, pelo papel que está se admitindo prestar, pelo plano de governo que levanta a quebra de reformas promovidas por Temer e pela praticamente impossibilidade de executar um novo estelionato eleitoral (vide o péssimo resultado que tal tentativa teve para Dilma Rousseff), temos nele um grande ponto de interrogação também. Vencerá a racionalidade ou o radicalismo herdado?

O novo fenômeno que observamos neste ano é o afunilar de intenções de votos baseados no fato de que “o outro não poderia ganhar, porque faria um péssimo governo”. Um sinal do nível lamentável em que nossa política se encontra.

Este afunilar é tão rápido que, desta vez, parece que muitos têm se esquecido que temos dois turnos e há inclusive pregação de esquecer o chamado “voto do coração” (depositando a confiança, no primeiro turno, no candidato que mais se acha preparado, independentemente de suas chances reais de vencer) em prol de um “derrotar do péssimo outro lado”.

O país que tipicamente se dividia entre paixões com candidatos agora parece se dividir entre ojerizas. Até hoje – porque de nada podemos duvidar no Brasil -, esta é a eleição mais direcionada por rejeição que já tivemos no país. E, entre esses dois extremos, padece um país que já não aguenta mais aguardar por estabilidade.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em setembro de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (25/09/2018): https://blog.guide.com.br/textos/entre-os-extremos-padece-o-brasil/?_ga=2.197415919.1312209336.1538393511-2094246922.1536081422&_gac=1.95345006.1537878101.Cj0KCQjwuafdBRDmARIsAPpBmVXTgXfOCdVNiMcVdVG4QYty7zGtbeg2BbqcySl88IBQ2cM_3pegDXUaAgZYEALw_wcB

BolsoHaddad 2019: VEM METEORO! Terraço em Quinze Minutos #46

Nesta edição, Lucas Goldstein, Rachel de Sá, Renata Kotscho Velloso e Caio Augusto abordam os temas:

Ibope: Haddad sobe 11% em uma semana e aponta para segundo turno com Bolsonaro
EUA X China: a guerra comercial continua
Decisão do Copom sai na noite desta quarta-feira
Reconciliação… só entre as duas Coreias