NÃO TEMOS GASOLINA, Zeus nos ajude! | Terraço em Quinze Minutos #30

https://soundcloud.com/terracoeconomico/nao-temos-gasolina-zeus-nos-ajude-terraco-em-quinze-minutos-30 – Problemas na incorporação, mas está neste link

No podcast de hoje, Victor Candido, Rachel de Sá, Caio Augusto e Eduardo Scovino batem um papo sobre A GREVE DOS CAMINHONEIROS QUE TÁ PROVOCANDO O CAOS NESTA NAÇÃO. Afinal, a culpa é de quem?

Também falamos sobre a crise de comunicação na última ata do Conselho de Política Monetária, o Copom.

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Cadastro Positivo (e o resto em baixa)! Terraço em Quinze Minutos #29

No podcast de hoje, Lucas Goldstein, Rachel de Sá, Caio Augusto, Eduardo Scovino e a estreante Talitha Speranza batem um papo sobre:

Alta dos juros de títulos americanos joga dólar perto dos R$3,70
Argentina em crise: o que aconteceu?
Cadastro Positivo é aprovado na câmara dos deputados
Serviços em baixa desanimam projeções do PIB para 2018.

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GASOLINA: O COMBUSTÍVEL DO POPULISMO FISCAL

Uma das notáveis mudanças ocorridas após a troca entre Dilma e Temer foi a mudança de postura em relação à política de preços da Petrobras. Após a descoberta do pré-sal, em meados do segundo governo Lula, praticou-se no Brasil uma política de “congelamento” dos preços dos combustíveis derivados de petróleo. A ideia apresentada pelos governantes era de que, como tínhamos descoberto uma das maiores reservas do mundo, compensaria aguardar os frutos desta exploração mantendo o preço em um mesmo patamar. Usaram a gasolina (diesel também) como combustível para uma política populista e irresponsável.

Para fazer com que esse tipo de congelamento de preços ocorresse, ou o governo tinha de manter um preço mais alto quando o petróleo (que dá a base de preços gasolina e diesel) estava baixo ou tinha de comprar mais caro lá fora para vender mais barato aos brasileiros. Tal política resultou em um custo imenso para a empresa estatal, que viu sua dívida aumentar sensivelmente. 

Isso gerou uma consequência bizarra: quando o preço do petróleo subia, a empresa tinha prejuízos com sua atividade principal. 

OS PREÇOS NACIONAIS E INTERNACIONAIS

Com a entrada de Pedro Parente na presidência da Petrobras, tivemos a equiparação entre os preços nacionais e os internacionais. Tal política de preços passa a considerar como regra a seguinte situação: caso os preços internacionais subam, os nacionais serão reajustados para cima e, caso o contrário ocorra, os preços serão reduzidos. Essa nova política de preços ajuda bastante na redução da dívida da empresa, uma vez que reduz a zero os subsídios anteriormente praticados. Para qualquer comerciante, de qualquer produto, essa é a lógica básica de qualquer negócio.

Nos últimos 12 meses pudemos observar um aumento considerável no valor internacionaldo petróleo: saindo dos arredores de US$50 em junho de 2017, aproximando-se a US$80 nos dias atuais. 60% de aumento em um ano. Como não poderia deixar de ser, os preços dos combustíveis acompanharam esta subida vertiginosa. Se por um lado isso ajudou nos resultados da Petrobras, se fez sentir no bolso dos brasileiros.

Mais recentemente, o governo Temer tem sinalizado que está ciente dessa grande mudança nos preços dos combustíveis e estuda maneiras de torná-la mais suave. Como é notável que o governo brasileiro não é capaz de controlar os preços internacionais do petróleo, temos que essa “suavização” só pode ocorrer de duas maneiras: controlando a política de preços da Petrobras diretamente – o que é, basicamente, repetir o que vimos nos governos Lula e Dilma – ou reduzindo a carga tributária sobre os combustíveis.

Segundo a FECOMBUSTÍVEIS, a participação dos impostos sobre o preço dos combustíveis é imensa: 43% no preço final da gasolina, 27% sobre o diesel e 26% sobre o etanol. Os impostos são três: ICMS, PIS/COFINS e CIDE (sendo o primeiro estadual e os últimos dois federais). No caso dos dois impostos federais, CIDE tem incidência de R$0,10 por litro de gasolina, R$0,05 por litro de diesel e não tem efeito sobre o álcool; PIS/COFINS envolvem R$0,79 por litro de gasolina, R$0,46 por litro de diesel e entre R$0,11 e R$0,13 por litro de álcool.

Uma visão inicial mostra que há um belo espaço para redução do valor dos combustíveis apenas diminuindo a participação de impostos federais sobre eles, certo? É aí que vem a surpresa: estamos há alguns anos não fechando as contas públicas (e a previsão é de que voltemos a fazer isso, em um bom cenário, apenas na próxima década), o que significa que toda e qualquer mudança realizada para reduzir arrecadação federal de algum ponto necessariamente envolverá aumento por outro lado. Podemos chamar isso de algo que já vimos muito no Brasil: populismo fiscal. 

A decisão do governo Temer sobre reduzir o preço dos combustíveis ocorrerá, impreterivelmente, através de mudança direta na política de preços dos combustíveis ou por redução da carga tributária. No primeiro caso, incorrerá em perdas de gestão e autonomia da Petrobras e, no segundo, em perda de arrecadação pública. Qualquer que seja o caso, será uma medida popular porque aliviará o peso desta despesa no bolso do brasileiro – o que talvez não mude o fato dele ser o presidente mais impopular da história do Brasil, mas é mais um dos fatos que entra para a lista de “foi um péssimo presidente, mas pelo menos fez…”

Infelizmente, qualquer que seja o caso, a conta chegará justamente aos brasileiros. Seja por meio de um endividamento maior da Petrobras que, como empresa estatal, cobrará a conta de todos nós, ou mesmo pelo aumento de tributos em outras áreas. Não há almoço grátis, principalmente quando se trata do já velho conhecido e curiosamente adorado populismo brasileiro.

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Publicações deste artigo, que foi escrito em maio de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (25/05/2018): https://blog.guideinvestimentos.com.br/textos/gasolina-o-combustivel-populismo-fiscal/

Previsões erradas, expectativas frustradas

Um breve retrospecto: de Dilma a Temer, esperávamos que a tempestade fosse embora

Início de 2016. Expectativas negativas sobre a economia nos colocavam no pior dos mundos em muito tempo: estávamos no auge da pior crise econômica, perspectivas políticas eram péssimas, o trio dólar-inflação-juros nas alturas. Diversos eram os motivos para se ter desesperança com o Brasil e isso se refletiu diretamente nas expectativas econômicas da época.

O processo político e jurídico do impeachment tirou Dilma Rousseff da jogada. Tínhamos então seu vice, Michel Temer, que logo em seu primeiro discurso já afirmava que, embora mantendo programas sociais diversos, iria oferecer ao país uma guinada econômica. Preceitos intervencionistas seriam aos poucos abandonados, a iniciativa privada teria mais liberdade de ação e, enfim, o notável problema fiscal (as contas públicas que não fechavam) teria um encaminhamento real de solução.

O “mercado” comprou a ideia de que as melhorias viriam. As expectativas passaram a melhorar a partir desta mudança de mentalidade. Ainda em 2016, retração econômica, mas já com uma mudança considerável no tocante a inflação: saímos dos dois dígitos para ficarmos abaixo do teto da meta (à época, 6,5% ao ano), uma notável conquista do que fora amplamente chamado de Dream Team da economia, com Ilan Goldfajn no Banco Central e Henrique Meirelles no Ministério da Fazenda .

2017 se iniciou com um encaminhamento sensível de queda para a inflação e, consequentemente, para os juros. O banqueiro central brasileiro afirma que foi possível quebrar a espinha dorsal da inflação no país no meio do ano e, após o balanço dos 12 meses deste período, tivemos uma das menores inflações de nossa história, que ficou abaixo do piso da meta. Junto com a inflação os juros também despencaram.

Uma completa lua de mel entre dados positivos e expectativas de um país de crescimento mais vigoroso e consistente. Previsões para 2018 indicavam que, se 2017 representou o início de uma recuperação econômica, este próximo ano significaria uma elevada marcha de avanço na economia.

Quadro recente: ressaca “inesperada”: 2018Hora da expectativa virar realidade – vermos o crescimento tão falado nos períodos anteriores – ao menos era o que o cenário indicava. O que de fato tem acontecido?

Já estamos próximos do meio do anoe os resultados da recuperação estão aquém do esperado. No próximo dia 30 de maio conheceremos os resultados do PIB do primeiro trimestre de 2018 e a maioria dos indicadores antecedentes e aqueles que servem de proxy apontam para um fraco resultado, gravitando em torno de zero.

Tal resultado mata praticamente a possibilidade do PIB crescer 3,0% este ano, como muito foi ventilado. A única forma seria uma revisão dos resultados verificado no ano passado, ou seja, uma revisão altista do PIB de 2017 poderia aumentar o carrego estatístico (carry-over) positivo para esse ano – este é o efeito de crescimento ou queda no PIB que um ano faz impactar no ano seguinte. Mas não contem com isso, não é comum revisões tão volumosas assim.

O leitor atento e atualizado certamente verificou pipocar aqui e acolá números como crescimento de 3,5% a 4,0% do PIB para este ano. O Focus, por ser a mediana, também captou essa euforia exacerbada, embora em menor intensidade. A projeção saiu de cerca de 2,0% em meados de setembro para quase 3,0% em março deste ano.

Mas como você diz que foi superestimada? Quem poderia saber que a recuperação seria mais fraca que isso? Falando agora fica parecendo engenheiro de obra pronta. Bom, nós tínhamos alguns sinais desde aquela época que talvez esses números estivessem exagerados.

Primeiro ponto, para atingir 3,0% ou mais, a economia brasileira teria que crescer em média praticamente 1,0% em todos os trimestres até o final deste ano, desempenho que só foi verificado no último boom que o país passou. Era bastante improvável um desempenho dessa magnitude numa saída de recessão tão intensa como a que passamos, com forte queda da produtividade, elevado desemprego e incerteza.

A recuperação econômica de um país como o nosso, no qual o setor de serviços representa ⅔ de tudo que é produzido, depende de pessoas com renda, crédito e emprego para se concretizar – e, certamente, desemprego ainda alto e endividamento também, contribuem negativamente para isso.

O segundo ponto foi justamente a elevada incerteza em torno da aprovação da reforma da previdência, peça fundamental do início da consolidação fiscal e condição sine qua non para uma retomada consistente. Em termos práticos, por mais que muitas medidas importantes tenham sido tomadas (mais como sinalizações), o lado fiscal ainda tem problemas de grande magnitude a serem resolvidos.

O terceiro ponto, que parece estar sendo notado apenas mais recentemente: estamos neste ano diante de uma eleição altamente imprevisível. Tal qual 1989, existe uma miríade de candidatos com propostas diferentes entre si, não tendo até então candidatos com fortes intenções de voto. Ter diversos candidatos e propostas por si só não é problemático, mas a questão delicada é que, como em eleições deste tipo, o candidato vencedor pode ter muito menos apoio popular e no Congresso do que seria necessário para aprovar reformas importantes e urgentes como a da previdência, o que prolonga a dificuldade de resolução de diversos problemas.

Um último, mas não menos importante, ponto é a mudança do cenário internacional, com o processo de encerramento dos estímulos monetários na europa e a tendência ascendente dos juros internacionais (sobretudo nos EUA), que reduzem a rentabilidade relativa do Brasil e atraem recursos para fora do país, elevando a taxa de câmbio.

Tão logo os resultados de conjuntura começaram a sair, como varejo, indústria, serviços e etc, logo se viu um resultado fraco para os primeiros meses do ano. Enquanto as vendas no varejo cresceram apenas 0,3% no primeiro trimestre e a produção industrial mostrou estabilidade (0,0%), o volume de serviços recuou 0,2% nos primeiros três meses do ano, frente os últimos três do ano passado (todos resultados com ajuste sazonal).

Com isso, o Banco Central mostrou em seu Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que tenta ser uma proxy para o PIB (ainda que com defeitos no curto prazo), uma queda de 0,13% da atividade econômica no primeiro trimestre. Ainda tentando antecipar o PIB, o Monitor do PIB do Ibre/FGV mostrou alta de 0,3% em igual trimestre.

A retomada do mercado de trabalho tem se mostrada fraca, com o desemprego ainda superando os 12,0% (na série ajustada sazonalmente). Assim, após os resultados já conhecidos e a frustração com a reforma da previdência, começou-se a revisão das projeções com esta chegando a próximo de 2,50% nas últimas leituras do boletim Focus.

Devagar com o andor, que o santo é de barro: muita calma na hora de prever!

O diagnóstico desta ressaca é uma mistura de otimismo exacerbado e mudanças que não aconteceram sendo contabilizadas no tempo presente, além de uma boa dose de “esquecimento” sobre dados da economia real que não dão respaldo a essa magnífica recuperação que era esperada.

A economia real talvez seja bem menos empolgante do que indicam os ritmos propalados pelo mercado, seja para momentos de desespero ou para outros de euforia. O “mercado” é uma importante instituição e guia para os agentes e em geral possuem uma racionalidade um pouco acima do que a média dos agentes, mas nós sabemos que ele não é perfeito. Nesse caso, a assimetria de informação e talvez até algum problema de Moral Hazard, tenha influenciado no comportamento eufórico exacerbado.

Não estamos negando os diversos avanços ocorridos e que ainda ocorrem, por vezes com aprovações de projetos menores e menos midiáticos, mas o ritmo reformista deste governo já foi, se perdeu (coisas que o calendário eleitoral faz).

Por fim, devemos ressaltar um máximo cuidado na avaliação das projeções que pipocam no mercado, sempre avaliando a factibilidade delas (sobretudo pela própria série de tempo da variável), bem como as condicionantes que sustentam as previsões, que no caso atual pareceram claramente subestimar os reais problemas que 2018 trariam para a nossa porta.

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

Arthur Lula Mota – Editor do Terraço Econômico

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em maio de 2018:

– Terraço Econômico (24/05/2018): http://terracoeconomico.com.br/previsoes-erradas-expectativas-frustradas

TEMER RETOMA O POPULISMO | Controle dos Preços dos Combustíveis

TEMER RETOMA O POPULISMO | Controle dos Preços dos Combustíveis

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, disse hoje por meio de seu Twitter que já está combinado com presidente do Senado Federal sobre o destino dos recursos da reoneração sobre folha salarial que está em discussão: reduzir os impactos do aumento do diesel. Disse também que com esse mesmo objetivo será zerada a CIDE (imposto federal que incide sobre os combustíveis).

Tal medida, caso ocorra de fato, em um cenário de déficits anuais seguidos nas contas públicas, demonstra que Temer não diz a verdade quando menciona que não tem preocupação com a popularidade. Tal decisão toma o caminho contrário a diversas reformas trazidas nos últimos dois anos e confirma uma continuidade da evolução do quadro fiscal negativo – uma vez que os recursos da reoneração poderiam ser utilizados para reduzir a dívida pública, mas apenas compensarão um subsídio.

O canto da sereia do populismo é atraente. Mas já vimos esse filme anteriormente: a chance de se afogar é real.

Arthur Solowiejczyk e Caio Augusto | Editores do Terraço Econômico

 

Nota publicada na página do Terraço Econômico no Facebook em 22/05/2018 – https://www.facebook.com/terracoeconomico/posts/1954581427925991 

FORO PRIVILEGIADO (quase) CAIU! Terraço em Quinze Minutos #28

No episódio de hoje, Lucas Goldstein, Renata Kotscho Velloso, Arthur Solow, Caio Augusto e Eduardo Scovino analisam, tintim por tintim, os temas:

Restrição do foro privilegiado a parlamentares
Caso Marielle: O Globo aponta suspeitos do assassinato
Banco Neon é liquidado pelo Banco Central
Lista da Forbes dos líderes mais poderosos
Trump quer abandonar acordo nuclear com o Irã
38 países querem que os EUA e a China terminem guerra comercial

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Trilha: bensound.com

BANCOS COMUNITÁRIOS – UMA BOA (PORÉM CONCENTRADA) IDEIA

Uma das maiores favelas do Brasil, a Paraisópolis, vai ganhar em breve um banco (um mini banco central) que emite moeda para uso exclusivo na própria comunidade. Essa ideia não é nova no Brasil: o primeiro projeto data de 1998, com o chamado Banco Palmas, da favela de Palmeiras, em Fortaleza; tampouco a ideia é nova no mundo: o prêmio Nobel de Economia de 2006 foi para Mudammad Yunus, criador de um banco de microcrédito na Índia que se utiliza deste modelo de ter a sua própria moeda.

A ideia é positiva e possui uma lógica econômica atrelada a ela, mas tem seus prós e contras. Pelo lado positivo, vemos que se cria um incentivo positivo ao desenvolvimentointerno das regiões que se utilizam deste modelo. Além do fato da moeda criada ser de circulação válida apenas no território pré-determinado, geralmente o foco de atuação é o de emprestar recursos aos moradores e, como contrapartida dos pagamentos dos empréstimos, muitos projetos da região tendem a ser beneficiados. Um verdadeiro ciclo virtuoso pode ser iniciar.

Diante dessa regionalização, a promoção de um desenvolvimento mais focalizado pode fazer com que a região fique mais resistente a problemas socioeconômicos que a cerquem em comunidades próximas. O acompanhamento mais direto que se tem com a proximidade da tomada de decisões dos bancos – sabe-se mais diretamente a quem se vai emprestar, sua capacidade de pagamento e o quanto essa pessoa pode contribuir para a comunidade – é um fator de fortalecimento do sistema.

Por último, mas não menos importante, temos a ampliação dos meios de pagamentos dos negócios da comunidade. Saindo do papel moeda e entrando em meios diretos de financiamento, ou mesmo de pagamentos em si (esses bancos comunitários costumam ter seus próprios cartões de crédito interno), a própria violência se reduz: no caso da pequena cidade de São João do Arraial, no Piauí, registra-se um nível consideravelmente inferior de violência em comparação aos municípios da mesma região. 

Como nem tudo são flores, temos também o lado negativo. Justamente devido a essa centralização, temos que o desenvolvimento possível alcança um limite dentro das possibilidades daquela região. O retorno existe e é crescente, mas, num limite em que esgotam-se todas as possibilidades de melhoria, o contínuo desenvolvimento cessa. Na prática, isso pode significar que os ganhos obtidos com essa prática sirvam para, no longo prazo, manterem as pessoas em situação econômica e social melhor do que seria sem tal estrutura, mas pior do que poderia ser, caso tivesse a possibilidade de crescer e se desenvolver ainda mais amplamente.

Outro problema, também derivado da focalização na região, é o fato de que assim deixa-se de aproveitar uma gama de oportunidades advindas do mercado fora da comunidade. Com isso, das duas, uma: ou o crescimento e desenvolvimento estarão fadados a um limite que uma hora irá desestimular a continuidade do sistema, ou aos poucos a integração das benesses internas com o “mundo fora da comunidade” acabará por assim dissolver o sistema montado internamente.

E emergem problemas práticos da utilização de dinheiro próprio, como a segurança contra falsificações, o problema de a moeda não ser digital e poder ser roubada facilmente, além, claro, do fato de que se o processo não for bem coordenado e houver emissão de dinheiro demais, a inflação irá acontecer nessa moeda, e, com isso, as pessoas irão naturalmente abandoná-la e retornar para a moeda forte – no caso, o próprio real do nosso dia-a-dia.

Na prática é difícil afirmar que o lado negativo supere o positivo, dadas as experiências bem sucedidas e duradouras que podemos observar no Brasil. Hoje, com apoio do BNDES para a gestão dos fundos e amparo legal da Secretaria de Economia Solidária do Ministério do Trabalho, tais iniciativas oferecem uma estruturação maior em termos financeiros por onde passam e se instalam.

Entretanto, seria ainda melhor se as comunidades pudessem, entre si, realizar uma troca de ganhos através do mercado. A complexidade disso envolveria, por exemplo, a necessidade de se avaliarem os câmbios paralelos entre as moedas criadas. Se os bancos centrais do mundo todo já temem a descentralização através das criptomoedas, imagine através de diferentes e pequenas unidades regionais de “bancos centrais”.

Em suma: trata-se de uma elogiável ideia, porém esta que é limitada regionalmente e em ganhos.

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Publicações deste artigo, que foi escrito em maio de 2018:

– Blog da Guide Investimentos (17/05/2018): https://blog.guideinvestimentos.com.br/textos/bancos-comunitarios-uma-boa-porem-concentrada-ideia/

TRUMP PACIFISTA!?!? Terraço em Quinze Minutos #27

No episódio de hoje, Lucas Goldstein, Caio Augusto, Eduardo Scovino e Renata Kotscho Velloso analisam, tintim ou tintim, os temas:

Guerra da Coreia: após mais de 60 anos, o fim está próximo
Papel de Trump na aproximação coreana
Israel acusa Irã de manter programa nuclear

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Aécio, Síria e Terraço em apuros! Terraço em Quinze Minutos #25

Confira nesta edição, Lucas Goldstein, Renata Kotscho Velloso, Caio Augusto e Rachel de Sá abordam os temas:

Aécio Neves vira réu no STF
Eleições: Joaquim Barbosa pode entrar na disputa
Síria: EUA, Inglaterra e França lançam pequenos ataques
Após meio século, Coreias podem assinar acordo de paz
Prévia do PIB próxima de zero desanima geral
Sobre fake news, Terraço escapa fake news sobre MBL e pede desgurpas
Fundador do PT, Paul Singer morre aos 86 anos

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DE CRISE EM CRISE: O CHORO HERMANO

Recentemente vimos algo surreal ocorrer em nosso vizinho latino-americano: em uma semana, a Argentina aumentou sua taxa de juros três vezes e agora a colocou em 40% ao ano. Mas a história nos diz que isso é normal por lá, por mais surrealista que pareça. Os hermanos estão presos em um ciclo de calmaria e choro econômico, a décadas.

Mas o que está havendo ao sul? Basicamente o que tem atingido todo país em desenvolvimento: a recuperação da economia norte-americana que gera inflação e, por consequência, a necessidade de aumento de juros por lá, o que acaba resultando em uma atração de investimento financeiro para a terra de Trump (uma vez que o título do tesouro dos EUA é o mais seguro do mundo e, com o aumento dos juros, paga cada vez mais aos seus credores).

Olhando pelo retrovisor da história, há um problema que nós também estamos acostumados: o estabelecimento de gastos obrigatórios que não cabem na constituição. Observemos a seguir o histórico do país em relação a este assunto.

A virada entre os séculos XIX e XX foi bastante positiva para a Argentina. No cenário político emergiu liberalismo – logo após a ditadura de Juan Manuel Rosas -, havia crescimento econômico e o país se aproveitou de uma crise europeia para ampliar seu parque industrial. Essa ampliação permitiu que o controle político passasse a ser um objetivo de trabalhadores que melhoraram sua condição socioeconômica durante esse avanço a partir da urbanização. O país passou a ser a quinta maior renda per capita do mundo durante esta época. A Argentina era uma verdadeira potência e um exemplo a ser seguido ao sul da linha do equador.

Tensões políticas entre a elite estabelecida e os grupos trabalhadores deram origem ao que se chamou de União Cívica Nacional. Esta União conseguiu eleger um representante na década de 1920, mas foi derrotada por forças opositoras na década seguinte. Em 1943, as forças estabelecidas impuseram o mandato de Ramon Castilho, cujo Ministro do Trabalho era Juan Domingo Perón. O apelo populista deste último o fez eleito em 1946 e reeleito nas eleições seguintes.

Durante seus dois mandatos, Perón ampliou direitos trabalhistas, centralizou o poder, nacionalizou diversos setores e ampliou sensivelmente a dívida pública, o que, logicamente, levou o país à bancarrota. Após ele, tivemos três períodos militares (1955-1958, 1966-1971 e 1981-1983), sendo intercalados por representantes do Partido Justicialista (de Perón) e da União Cívica Radical (a que já havia eleito representante na década de 1920).

Após todos estes períodos, tivemos também o revezamento de poder entre estes dois partidos. Ao longo de 60 anos, o país observou a manutenção e ampliação de tudo que já havia sido estabelecido décadas atrás, mesmo que isso resultasse em aumento da dívida pública e um super calote em 2001.

O ano de 2001 representa a mais traumática crise já enfrentada pela Argentina, tanto política quanto economicamente.

Pelo lado econômico, o país sentiu fortemente neste ano os efeitos da década de 1990, em que houve uma dolarização da economia (o peso argentino teve sua cotação atrelada ao dólar norte-americano entre 1991 e 2001) e pelo menos duas crises internacionais (México em 1994 e Ásia em 1997) que reduziram a liquidez internacional. Se no começo da década os juros dos EUA eram baixos e permitiam investimentos feitos ao redor do globo, no final dela a instabilidade internacional era imensa e a possibilidade de seguir em frente tendia a zero. Foi em 2001 que a Argentina declarou moratória a sua dívida externa, à época, de US$100 bilhões. Isso afastou investidores externos e deixou o país em um completo caos econômico.

Deve estar na lembrança do leitor a imagem dos argentinos batendo panelas em diversos protestos daquela época. Mas não era para menos: sem meios de resolver as questões econômicas e com uma desconfiança popular imensa, a “solução” encontrada para a corrida aos bancos foi a repressão policial. O efeito político resultante impressiona: em apenas doze dias, o país chegou a ter cinco presidentes diferentes.

Após toda essa comoção social, Néstor Kirchner foi eleito em 2003 com 22% dos votos e saiu com expressiva aprovação em 2007, quando passa o poder para sua esposa, Cristina. Ambos seguiram com o impulso populista observado outrora, embora com tentativas do primeiro de renegociação da dívida externa.

Como fim da dinastia Kirchner e a eleição de Maurício Macri em 2015, o país parecia dar sinais de mudar este cenário caótico que vivia desde a eclosão de 2001. Ele vem do partido Proposta Republicana, de centro-direita, com a proposta de colocar nos trilhos a economia argentina, sem usar medidas tresloucadas como as de governo populistas que o antecederam.

Realmente algumas mudanças foram alcançadas: uma guinada no mercado internacional (foi reaberto o diálogo com os chamados “fundos abutres”, permitindo a retomada de negociações com credores internacionais) e uma mudança no cenário externo (com um olhar menos focado no Mercosul e mais focado em mercados “imperialistas” como os Estados Unidos) foram observadas.

O que não pôde, até então, ser observado, é uma mudança no tocante aos grupos de interesse existentes no país e, portanto, em relação ao caminhar das despesas públicas. O resultado, como bem conhecemos por aqui, é que as contas públicas não fecham, a inflação caminha para cima, a pressão sobre o aumento nos juros aumenta e a desconfiança sobre o pagamento da dívida pública também. Esta, segundo dados recentes, teve aumento de 35% desde a chegada de Macri ao poder.

O movimento observado nos juros na semana anterior é uma demonstração de que o país hermano pode até ter mudado em alguns aspectos com Macri, mas, caso não reveja seu posicionamento em relação ao que não pode publicamente arcar, seguirá na mesma trajetória conturbada sobre a qual o mundo já se acostumou quando pensa naquele país. Outro indício de que o pensamento estabelecido não mudou tanto assim é o fato de que, também recentemente, o governo argentino passou a adotar medidas de incentivo ao consumo.

Não se trata de uma batalha fácil, dado o histórico que se tem. Macri não é o culpado de boa parte das mazelas econômicas que enfrenta: de Perón aos Kirchner, o populismo reinou na Argentina, que não parou para avaliar o avanço de suas políticas sociais e apoio a grupos de interesse, nem o fato da conta não fechar ano a ano em razão disso. Mas certamente o atual presidente argentino entrará para a história econômica como responsável pela continuidade das mesmas, caso não lute contra a raiz do problema, que são os gastos insustentáveis do governo.

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Publicações deste artigo, que foi escrito em maio de 2018:

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