Salário mínimo não tem ganho real desde quando?

Economia em Pílula, uma dose de economia no seu dia | por Caio Augusto

Tem sido propagado em diversos meios que o último reajuste do salário mínimo não apresentou ganhos reais aos trabalhadores. Porém, estes mesmos meios esquecem-se de um ponto essencial nesta análise: o referencial temporal.

Explicando brevemente: a ideia de ganho real é aquela em que o aumento supera a perda inflacionária. No caso, fora aplicada entre 2011 e 2015 uma regra definida em lei [1] (“PIB de dois anos atrás + INPC do ano anterior”) capaz de garantir estes ganhos reais, mas anteriormente a este período, os ganhos reais ainda ocorriam.

Neste ano ocorreu um reajuste, mas que não seguiu tal regra completamente e ofereceu um ganho real zero (e nominal 6,5%). A lógica de dizer que o ganho real não ocorreu de um ano para outro é basicamente encarar que observa-se apenas o período de 12 meses nesta conta. Porém, como o próprio gráfico contido em uma dessas reportagens mostra claramente, os ganhos reais existem acumulados de reajustes anteriores:


ganho-real
[2]

Fazendo uma conta rápida, há um ganho real de 59,21% de 2003 até o último reajuste, 14,58% desde o início da década e 2,82% desde 2015 (ano em que a atual crise brasileira iniciou sua trajetória declinante mais voraz). Estes ganhos – que, como já afirmado, estão acima dos índices inflacionários – devem ser desconsiderados totalmente e devemos mesmo encarar que não existe reajuste com ganhos reais no país? Tudo depende do referencial que se preferir adotar. Mas os dados mostram que o salário mínimo vence a inflação ao longo do tempo, então não há real motivo para alarde neste momento.

Um adendo importante: este artigo não é de modo algum uma defesa do fim do processo de valorização real do salário mínimo – só objetiva mostrar que os referenciais utilizados para mostrar valorização ou não fazem muita diferença, e realmente é muito difícil sinalizar que o país estagnou em ganhos reais de salário mínimo olhando os dados.

 

Notas:

[1]          http://www.ebc.com.br/cidadania/2013/07/saiba-como-e-calculado-o-reajuste-do-salario-minimo-no-brasil

[2]          http://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/salario-minimo-nao-tem-aumento-acima-da-inflacao-pela-1-vez-em-13-anos.ghtml

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em janeiro de 2017:

– Terraço Econômico (04/01/2017): http://terracoeconomico.com.br/salario-minimo-nao-tem-ganho-real-desde-quando

O que esperar da economia brasileira em 2017?

O que esperar da economia brasileira em 2017? Nossa equipe discute vários temas centrais que vão dar o que falar em 2017, na economia e política nacional. Confira esse “olhar do terraço” e participe comentando o que você acredita que irá acontecer esse ano, aqui na Terra Brasilis.

ARTHUR LULA MOTA

Política Fiscal:

Por ora, não houve ajuste fiscal. A retórica conhecida e amplamente desmentida é que o ajuste fiscal levou o país para a recessão desde 2015. O argumento é falacioso por dois simples motivos: a recessão começou em 2014 e não houve corte de gastos desde então, muito pelo contrário, as despesas do governo estão crescendo. Em 2017 não será diferente.

Mesmo com a aprovação da PEC do teto dos gatos, a despesa pública continuará crescendo, pressionando o déficit primário. É importante elencar os motivos: i) o teto é baseado na inflação do ano passado, que no caso de 2017 será a inflação de 2016. A inflação de 2016 será algo em torno de 6,40% ao passo que 2017 apresentará inflação na meta (4,50%). Apenas nessa brincadeira já ouve aumento real (6,40% em cima de um crescimento dos preços de 4,50%); ii) Mais do que isto, os gatos com Saúde e Educação terão uma evolução especifica ano que vem, onde o piso do primeiro ficou estabelecido como 15% da Receita Corrente Líquida de 2017 e o segundo com piso de 18% da receita de impostos de 2017. Desta forma, teremos forte aumento reais nestas duas rubricas.

Isso quer dizer que a PEC é ruim? Não, apenas que ela promove um ajuste muito mais gradual e menos agressivo, o que fará com a relação Dívida Bruta/PIB ainda tenha uma trajetória crescente nesses primeiros anos, invertendo apenas lá na frente. A situação fiscal brasileira ainda é crítica, e a Reforma da Previdência é mais um passo dessa batalha.

 

LEONARDO PALHUCA

Política Monetária:

Parece que a inflação arrefeceu. A retomada da credibilidade na autoridade monetária, aliada a uma desinflação de preços de alimentos e de serviços (este último muito fortemente influenciado pela brutal crise económica pela qual o país passa) fizeram com que a inflação de 2016 esteja projetada já dentro da meta do BC, após um 2015 em 10,7%. E o melhor ainda: a inflação para os próximos anos – 2017 e 2018 – já está estimada na meta. Assim, com a atividade ainda se retraindo e com ociosidade e com o Banco Central nas mãos de quem sabe fazer, há um bom espaço para a queda de juros no Brasil em 2017.

Uma continha básica: se a inflação continuar sua trajetória de queda, o Banco Central deverá perseguir uma taxa real muito próxima da nossa média no passado recente, algo em torno de 5% – 6%. Inflação em 4,5% e taxa real em 6% equivalem a uma taxa Selic nominal de 10,5%. Justamente a previsão mediana de mercado. Com a Selic nos atuais 13,75%, devemos ter uma queda mais acelerada dos juros. Não que isso vá reavivar a economia brasileira. Mas desta vez, a queda de juros não será na marretada e a inflação parece que ficará controlada.

CAIO AUGUSTO

Política Interna:

Três temas devem ser centrais na política brasileira em 2017: 1) A possível cassação da chapa Dilma-Temer pelo TSE: denúncias sobre doações irregulares para a campanha da chapa vencedora em 2014 estão sendo analisadas e há possibilidade de que Temer deixe a presidência caso ocorra a condenação. Há uma tentativa da defesa de Temer de desvincular suas contribuições às de Dilma, mas tal justificativa é tida como juridicamente fraca; 2) Com a possível saída de Temer: eleições para o novo presidente. Segundo a constituição, caso um presidente sofra impeachment ou se ausente por qualquer motivo, as eleições são diretas se o ocorrido for nos primeiros dois anos de mandato e indiretas se forem nos dois últimos. Porém, após a mini-reforma eleitoral de 2015, ficou decidido que eleições indiretas só ocorrem se a saída acontecer nos últimos seis meses do mandato. Com isso, podemos ter eleições diretas em 2017; 3) Por último e não menos importante, a delação da Odebrecht e os rumos da Lava Jato: a famigerada “delação do fim do mundo” tem indicado o envolvimento de dezenas – se não centenas – de parlamentares em esquemas de corrupção, e os efeitos disso serão sentidos fortemente em 2017. Qualquer tentativa de encerramento abrupto das investigações, como se temia após o processo de impeachment, deve ser contida – uma vez que aqueles que teriam interesse nisso estão (ou logo estarão) no alvo da mídia, da pressão popular e das investigações. Eduardo Cunha também deve delatar, mas é pouco provável que sua delação cause mais danos que a da Odebrecht.

Em suma: na política, 2017 tende a ser mais agitado que o ano que está se encerrando. Talvez pela previsibilidade cada vez menor deste cenário: quando do impeachment de Dilma, imaginava-se que a entrada de Temer iria colocar um rumo na situação econômica; algo já se iniciou – como a PEC do Teto, que foi aprovada -, mas o muito que faltaria – reformas previdenciária e trabalhista, por exemplo – dependem de um fator político que pode deixar de existir, apesar da atual equipe econômica ser muito boa. Isso sem falar no vácuo de lideranças políticas ocorrido agora: dificilmente quem assumir as rédeas com uma eventual saída de Temer vai querer ter alguma relação com a situação atual – e, com isso, as reformas devem cessar seu andamento.

 

RACHEL DE SÁ

Economia Internacional:

Enquanto isso, no cenário internacional, a eleição de Donald Trump nos EUA e a decisão do Reino Unido de abandonar o projeto político-econômico da União Europeia (o famoso Brexit) contaminaram o até então interregno benigno vindo de além mar. No curto prazo, o novo ambiente político eleva o grau de incerteza e aversão ao risco nos mercados internacionais, impactando negativamente países considerados mais arriscados – principalmente emergentes, como o Brasil. No médio prazo, a normalização da política monetária norte-americana, acelerada por uma provável política fiscal expansionista conduzida pelo Presidente recém eleito, torna-se importante fator para decisões de política monetária de países como o Brasil, ao atrair investidores estrangeiros de volta aos juros não mais tão baixos assim na terra do Tio Sam e impactando moedas (e, consequentemente, índices de inflação) em terras Tupiniquins. Por outro lado, ainda é incerto o impacto de uma política protecionista norte-americana e de uma União Europeia enfraquecida pela saída dos britânicos. Enquanto políticas contra o livre comércio nos EUA impactarão negativamente o volume do comércio global, a baixa inserção do Brasil em cadeiras globais de valor o protegerá de maiores impactos; ao mesmo tempo, países antes fora do radar europeu, como o Brasil, passarão a ser vistos como opção para aproximação comercial para um Reino Unido obrigado a negociar sua vida do zero. Em suma, incerteza e cautela serão as principais palavras no cenário internacional de 2017.

 

PEDRO LULA MOTA

Investimentos:

A perspectiva para 2017, do ponto de vista do mercado de investimentos, especialmente para a bolsa de valores é construtiva. A inflação retornando a meta e cada vez mais ancorada irá proporcionar um ciclo de corte de juros mais consistente, e por sua vez, terá um efeito positivo sobre as empresas e seus múltiplos. Causando um alvo ao custo de dívida, impulsionado pela melhora do ambiente econômico, com o crescimento das receitas e resultados mais fortes do que os anos anteriores.

Em uma análise rápida da matriz de Preço/Luro alinhada ao percentual de Crescimento dos Lucros, podemos elaborar uma análise de sensibilidade da cotação do Ibovespa. O valor de preço justo entre as variáveis corresponde aproximadamente 73 mil pontos, correspondente a up-side de 24% para o próximo ano, evidentemente que esta é uma projeção do valor justo dos papéis e trabalha com o cenário benigno de nenhum grande choque exógeno ou evento que possa depreciar o mercado. Fato é que, mesmo após a recuperação do índice em 2016 em torno de 40%, tal recuperação esteve mais ligada a euforia política e diminuição do risco-pais, agora a valorização tende a ser mais consistente e alinhada aos fundamentos macroeconômicos e microeconômicos de cada setor ou empresa.

Ademais, outra novidade – após de ano de ostracismo –  é a volta dos IPOs (oferta pública de ações). Como o mercado financeiro vive de boatos, estima-se que 20 operações estão no pipeline do próximo ano, número um pouco excessivo em nosso ponto de vista. Compõe o hall de nomes: Unidas, Movidas, Carrefour, XP Investimentos, Bio Ritmo, IRB, etc. A questão que estas operações costumam ser ótimas oportunidades de investimentos, pois o mercado normalmente não precifica de forma perfeita tais ativos, gerando oportunidades de arbitragem e/ou de alocar em empresas com ótimos fundamentos para um cenário de longo prazo.

Para aqueles mais conservadores e que não queiram se arriscar em fortes emoções da bolsa de valores, a renda fixa ainda assim é uma alternativa rentável. Apesar do ciclo de corte de juros, ele ainda é elevado, atualmente estamos falando de um cenário de taxas de juros real em torno de 8%, o que gera oportunidades de investimentos em títulos pré-fixados (travando a sua taxa de juros atual). Títulos atrelados à inflação começam a perder atratividade, especialmente após o grande boom ocorrido em anos anteriores (o investidor que teve sangue frio nesse período, obteve taxas nunca antes vistas como 16%a.a. durante 5 anos, sem risco, coisas de Brasil.

No mundo de investimentos as premissas são dinâmicas e os movimentos são rápidos. Então, estejamos em alerta para um novo horizonte que vem se abrindo.

 

LEONARDO SILVÉRIO

Reformas Microeconômicas:

Pacote para sair da crise, pacote para incentivar a economia, Conselhão de empresários. O Brasil, em especial os dois últimos governos do PT, adora esse tipo de saída para os problemas. A questão é que estas não são saídas.

Demora-se em média 83 dias para abrir uma empresa no Brasil. Nossos vizinhos chilenos demoram apenas três. Se abrir o próprio negócio já é uma tortura, ao tocá-lo no dia a dia percebe-se que aquele foi apenas o primeiro obstáculo. Empreendedores brasileiros levam em média 2,6 mil horas por ano só preenchendo a papelada. Os bolivianos, em segundo lugar, levam menos da metade do tempo: 1.025 horas. Não há pacote ou Conselhão que resolva isso a não ser boas reformas.

O governo de Dilma Rousseff incentivou a desvalorização da moeda e forçou as taxas de juros para baixo mesmo com a inflação em trajetória de alta. Com isso, o governo ignorou as reformas microeconômicas necessárias. Felizmente, eu acredito que o governo Temer colocou estas reformas microeconômicas em pauta. Posso estar sendo otimista demais, mas o final de 2016 me dá esta brecha. Com isso, a equipe econômica pode tornar o país mais competitivo e saber que nem tudo é câmbio desvalorizado ou medidas macroeconômicas. Os empresários precisam fazer negócios de maneira simples, não muito mais que isso. E não ser um herói forçado.

 

VICTOR CÂNDIDO

Reforma da Previdência:

Intertemporal, essa é a palavra que tem guiado as reformas fiscais do governo Temer. Equilíbrio intertemporal das contas públicas, com a já aprovada PEC55 e agora com a PEC da reforma da previdência, tudo isso para um ajustamento fiscal que dure décadas e não alguns poucos anos. A confiança de longo prazo do país depende dessa confiança intertemporal.

A reforma não é dura, é necessária. Hoje para se aposentar com 100% do benefício o indivíduo deve trabalhar algo em torno de 41 anos. Então para se aposentar com o teto, segundo as regras antigas, um sujeito de 23 anos se aposentaria aos 64 anos. Com o mesmo tempo de contribuição e com as novas regras, ele se aposentaria com 92% do benefício, ou seja, 8% de taxa de sacrifício, se ele quiser os 100% vai ter que trabalhar mais 8 anos. O exemplo mostra que a reforma não é tão dura quanto se pensa e que ninguém vai precisar trabalhar até morrer para ter o teto.

Importante notar também que mais de 90% dos benefícios pagos pelo INSS são de até 5 salários mínimos, e quase 70% do total é salário mínimo. A reforma a ainda mantém os benefícios atrelados ao salário mínimo, ponto negativo, que deveria ser revisto, porém, uma batalha de cada vez.

ARTHUR SOLOW

Privatizações:

Com mais força no início do Governo Temer, o assunto das Privatizações/Concessões cairam de volume após as pautas políticas ganharem espaço nos noticiários. Temer chegou a dizer que queria privatizar “tudo o que for possível”, em diversas áreas como aeroportos, saneamento, energia e rodovias.
Mais do que as concessões, temos que pensar na lógica por trás disso tudo. Assim como no caso da PEC dos Gastos, que trouxe uma discussão sobre o orçamento do Governo e a alocação dos recursos, a possível “onda” de privatizações nos leva a refletir: quais são os setores que o Governo deve ser dono de empresas? Faz sentido usar recursos públicos para isso, ou seria melhor utiliza-los de outra forma? Há algum setor absolutamente estratégico para o país? Se há alguma área que a iniciativa privada seja mais eficiente e capaz de entregar o mesmo resultado, vamos em frente.

 

– Post colaborativo publicado no Terraço Econômico em 02/01/2017: http://terracoeconomico.com.br/o-que-esperar-da-economia-brasileira-em-2017

– Post colaborativo publicado em Investing Brasil em 04/01/2017: https://br.investing.com/analysis/o-que-esperar-da-economia-brasileira-em-2017-200171445

 

O que a equipe do Terraço leu de bom em 2016?

As férias chegaram, finalmente. É hora de digerir esse 2016, um ano de muitos acontecimentos. E quem disse que as férias de fim de ano são só pra comer (ou pavê), piadas ruins a parte, é momento de por a leitura em dia! E para te ajudar a escolher o que levar pra ler nas férias, fizemos a lista dos livros que a nossa equipe mais gostou em 2016.

Ps: todas a recomendações foram escritas pelos próprios membros e expressam as opiniões dos mesmos.

VICTOR CÂNDIDO

  • The Courage to Act – Ben Bernanke O homem que guiou o FED, o Banco Central americano, durante a crise de 2007/08, discute suas memórias e analisa todos passos tomados para conter a maior crise financeira desde 1929. O livro é bem interessante, pois é um exercício de reconhecimento dos limites de um policymaker e também de como a política monetária precisou ser rediscutida de forma bastante ampla para a solução da crise. Bernanke desenhou os programas de afrouxamento quantitativo, ou quantitativing easing, que foram decisivos para a recuperação da economia americana. Se você quiser ler apenas um livro sobre economia nas férias, recomendo esse catatal de 600 páginas.
  • The Wright Brothers – David McMcullough Automaticamente todos vão dizer: que mané irmãos Wright, aqui é Santos Dumont. Esse livro tira o mito dos irmãos e os analisa de uma forma ímpar. E infelizmente, sim, eles voaram antes do nosso Santos Dumont. Inclusive no ano que St. Dumont voou o 14 bis, os irmãos Wright já tinham um avião que decolava normalmente. O interessante da história deles, é a vontade de criar uma máquina que imitasse os pássaros. Wilbur e Orville Wright estudaram até o ensino médio, eram modestos, aprenderam tudo sozinhos. Possuiam um pequeno negócio de produção de bicicletas, onde aprenderam as habilidades mecânicas necessárias para construir seu primeiro avião, o histórico Flyer. Uma passagem interessante é quando eles precisam comprar um motor para o avião e nenhuma fabricante se habilita a vender, os próprios decidem produzir seu motor, mais leve e de alumínio, uma inovação para época, tudo isso sem nunca antes terem colocado as mãos em um motor. Leitura mais que recomendada. 

CAIO AUGUSTO

  • Os números (não) mentem – Charles Seife. A profissão de economista demanda que sempre tenhamos à mente provas do que estamos falando – e, na maioria dos casos, coloca-se como preferencialmente que estes dados sejam numéricos. Contra o senso comum, este livro mostra que existem diversos truques matemáticos que moldam mensagens. No fundo, o livro é um lembrete importante: é sempre sadio manter o ceticismo e procurar entender as razões dos eventos econômicos, porque ter os dados sozinhos – ou montar correlações espúrias, como alguns economistas costumam fazer – não irá fazer sua explicação ser mais convincente.
  • Cartas a um jovem economista – Gustavo H. B. Franco. Um livro que discute temáticas quase atemporais dentro da economia, servindo para orientar quem pretende se encaminhar por esta área no ensino superior e levantar questionamentos diretos a quem já está na área há algum tempo. O autor dispensa maiores apresentações e viveu o que narra, o que torna a leitura ainda mais interessante. Se você gosta da discussão econômica mas tem dúvidas sobre se encaixar ou não neste campo, o segundo capítulo é um excelente tira-teima.

PEDRO LULA MOTA

  • A alquimia das finanças, Lendo a mente do mercado – Georges Soros. O livro é uma especie de diário do grande especulador e filantropo George Soros, escrito após o episódio em que ficou mundialmente famoso ao apostar contra o banco central britânico (e a libra), acertar e quase quebrar a instituição. A linguagem é simples e didática, em que Soros demonstra o dia a dia de suas posições em seu hedge fund, desenvolve a teoria que batiza de “teoria de reflexividade”, evidencias as limitações das premissas de mercado e faz duras criticas ao sistema – apesar de ser um dos seus maiores expoentes. 
  • Sociedade com custo marginal zero – Jeremy Rifkin. O autor elenca uma grande quantidade de dados e exemplos para sustentar sua tese de que: as novas tecnologias estão quebrando paradigmas e patrocinando o florescer de uma novo sistema econômico, que pode ser considerado um novo capitalismo ou um rompimento com o mesmo. Rifkin explica como a Internet das Coisas em conjunto com as tecnologias de energia e transportes estão alcançando grau gigantesco de interconexão, elevando a produtividade dos processos, solapando o custo marginal e compartilhando os benefícios entre todos os usuários dessa grande rede. Como resultado, o lucro passa a ter um papel secundário. Leitura obrigatória para compreender as mudanças recentes em nossa sociedade.

ARTHUR LULA MOTA

  • Central banking in theory and practice – Alan S. Blinder. O livro é uma compilação de palestras na LSE (London School of Economics) cujo objetivo é contar como é a “vida” de um banqueiro central. Une a experiência acadêmica e prática de um homem que foi vice chairman do Fed (Banco Central Americano) na Era Greenspan. Trata da variedade de complicações que um dirigente de banco central precisa enfrentar na tentativa de implementar, na pratica, a abordagem clássica de metas e instrumentos. Descreve como foi o início da utilização dos modelos para a política monetária, algo que hoje é básico para nós. Na época, ele os defendia como guia, mas com um certo ceticismo. Outro debate importante do livro, e que recentemente nos visitou, é a importância do Banco Central independente.
  • O desafio brasileiro – Ensaios sobre desenvolvimento, globalização e moeda – Gustavo H. B. Franco.Um clássico, escrito por uma lenda. Um dos heróis do Plano Real, Gustavo Franco descreve com maestria o debate em relação as diversas visões de como se estabelece o desenvolvimento, abertura comercial e o combate a busca pela moeda sadia (fim da hiperinflação). Seu sarcasmo já muito conhecido tomou a melhor forma neste livro, sobretudo ao tratar da escola Inflacionista do espectro do pensamento econômico

LEONARDO PALHUCA

  • Economic Facts and Fallacies – Thomas Sowell. Basicamente sobre como alguns fatos podem ser mais bem explicados com rigor econômico mais apurado e como políticas podem ser enganosas a priori, mesmo que com boas intenções. Exemplo clássico do livro: problema de moradia em cidades americanas que tentaram resolver com regulação errada. Resultado: maior déficit habitacional e maior preço de aluguel.
  • Ludwig Erhard: a biography – Alfred C. Mierzejewski. Biografia do ministro das finanças da Alemanha no pós-guerra, durante o governo Adenauer. Foi o responsável pela liberalização dos mercados na Alemanha, tnato de bens quanto de fatores, indo contra as recomendações dos Aliados de ter uma economia mais controlada, como na França. Co-responsável pelo milagre alemão, foi primeiro-ministro por um breve período depois do Adenauer, mas não era muito político. Era bem técnico e as ideias e políticas dele foram responsáveis por colocar a Alemanha onde está hoje. E ele ainda fumava durante entrevistas.

RACHEL DE SÁ

  • Trópicos utópicos – Eduardo Giannetti. Uma espécie de apanhado de divagações do cientista social e economista, o livro trata desde questões de cunho histórico-filosófico como a proximidade de política e religião ao longo dos séculos, quanto de tecnicalidades do debate econômico atual como padrões de desenvolvimento e sustentabilidade. De leitura leve apesar da densidade dos assuntos, o livro traz um olhar diferente ao indagar o que devemos desejar e esperar do Brasil como economia e país de incrível multiplicidade étnica e cultural.
  • Temos extremos – Míriam LeitãoRomance de estréia da jornalista econômica Míriam Leitão. A história se passa em uma fazenda mineira, na verdade duas histórias, que se conectam por essa fazenda. A primeira é sobre uma família que sofreu muito com a ditadura militar e vai para a fazenda comemorar o aniversário da matriarca. Enquanto a segunda história é sobre dois irmãos, escravos, que viviam na fazenda e que lutavam contra a escrivadão. Como as histórias se conectam? Não vou falar, leia o livro, vale a pena. 

LEONARDO SIQUEIRA

  • A Riqueza das nações no século XXI – Bernardo Guimarães. O livro aborda questões econômica de uma maneira racional e sem se deixar tentar por apelos políticos. Questões como deveria o BNDES emprestar tanto como empresta a juros subsidiados, lei do conteúdo local de fato impulsiona uma economia,entre outras são respondidas. Bernardo, faz um livro muito simples e didática, capaz de ser lido em 15 dias. A leitura é prazerosa e enriquecedora de como raciocinar economicamente.
  • O fator Churchill – Boris JohnsonQuando Boris escreveu este livro era apenas um Jornalista entusiasmado. Hoje ele é ex-prefeito de Londres e chanceler das relações exteriores britânicas. Gosto do Livro por mostrar – ao contrário do que muitos pensam – que Churchill foi um desacreditado a vida inteira. Seu próprio pai foi um dos que acharam que ele não seria ninguém na vida. Não só desacreditado, Churchill em mais de uma vez na carreira foi colocado no Limbo, como quando comandou a operação de Galipoli e perdeu de maneira vergonhosa. Mas Churchill se reinventava, começou a se expor em rodas que as pessoas o ouviam e se tornou num dos maiores – senão o maior – líder da Inglaterra moderna.

ARTHUR SOLOW

  • Como matar a borboleta azul: Uma crônica da era Dilma – Monica B. de Bolle. O livro mostra a linha do tempo do governo Dilma, desde o início, no qual a Presidente usufruía de amplo apoio popular, aproveitando a carona de seu padrinho político (Lula), até o momento mais dramático de sua passagem na presidência com o afastamento e posterior confirmação do Impeachment. Uma crise política e econômica dessa magnitude não surge da noite pro dia; pelo contrário, como é mostrado no livro que mistura dados econômicos, literatura popular e uma dose de sarcasmo, as políticas adotadas foram as responsáveis pela situação que vivenciamos atualmente.
  • Sonho Grande – Cristiane Correa. A história de sucesso de Jorge Paulo Lehman, e seus fiéis escudeiros Marcel Telles e Beto Sicupira é interessante do início ao fim. De uma promissora carreira no tênis até a formação da maior cervejaria do mundo, Lehman soube como poucos delegar funções e responsabilidades para aumentar seu próprio patrimônio. Seu trabalho, na maioria das vezes, foi resgatar empresas que não apresentavam bons resultados e transformá-las em exemplo de gestão e lucratividade. E, claro, com uma pitada de sorte no meio do caminho; embora, no todo, o esforço e a dedicação dessas três figuras do empreendedorismo tenham contado muito mais.

TALITHA SPERANZA

  • Condições de Liberdade – Ernest Gellner. Neste livro denso e original, Ernest Gellner demonstra que a grande diferença entre as ideologias totalitárias e o liberalismo ocidental é a existência da sociedade civil – idéia que nos ajuda a entender como uma determinada sociedade funciona de fato, e como difere das formas alternativas de organização social. Além disso, mostra a influência do islamismo no mundo contemporâneo, sustentando que o fracasso do marxismo foi um dos fatores que propiciou o fortalecimento progressivo do Islã.
  • Por que as nações fracassam – Daron Acemoglu e James RobinsonPor meio de um texto instigante, Por que as nações fracassam responde à pergunta que há séculos instiga diversos estudiosos: por que algumas nações são ricas e outras são pobres, divididas por riqueza e pobreza, saúde e doença, comida e fome? Neste livro, Daron Acemoglu e James Robinson tratam das diferenças abissais de receita e padrão de vida que separam os países ricos do mundo, como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, dos pobres, como os da África subsaariana, América Central e do Sul da Ásia; Os autores fazem uma demonstração cabal de que são as instituições políticas e econômicas que estão por trás do êxito econômico (ou da falta dele). Trata-se de uma leitura que oferece um vastíssimo leque de exemplos históricos para demonstrar como mudanças podem contribuir para instituições favoráveis, inovações progressistas e êxito econômico ou, ao contrário, para instituições repressoras e, em última instância, decadência ou estagnação.

 

 – Post colaborativo publicado no Terraço Econômico em 15/12/2016: http://terracoeconomico.com.br/o-que-equipe-do-terraco-leu-de-bom-em-2016

Sobre a quase-alteração do BC que poderia acabar com o Nubank

Um dos momentos mais tensos como economista pra mim até agora foi o de avaliar o possível saldo da decisão do BC de mudar o prazo máximo de repasse das operadoras de cartão de crédito de 30 para dois dias. Por um lado, uma inovação muito interessante – o Nubank Brasil – poderia deixar de existir; por outro, ganhariam os agentes prestadores de serviços menores, que poderiam aumentar suas possibilidades de pagamento sem ter problemas graves no fluxo de caixa (afinal, como ontem ouvi e concordei, “o taxista tem que abastecer o carro amanhã, não daqui 30 dias”). De qualquer modo, acredito que toda decisão que ocorra sem um estudo prévio de custo-benefício, avaliando o que se perde e o que se ganha quando de uma mudança legal, traz consigo uma insatisfação daqueles que se surpreendem com tal decisão.

Felizmente, o Banco Central do Brasil mostrou que veio não para fornecer choques, mas para evitá-los: a decisão foi de avaliar as possíveis mudanças junto aos operadores de cartão de crédito e não encurtar o prazo simplesmente sem uma consulta de como funcionaria este processo na prática. Decisão que fica, a meu ver, mais acertada do que simplesmente acertar uma mudança legal e esperar que as coisas todas se resolvam magicamente.

O que espero que venha por aí: uma adaptação dos operadores de cartão de crédito para que este meio de pagamento encurte seus prazos – quem sabe daí surjam inovações como o desconto por antecipação de pagamento, tal qual o Nubank faz atualmente – e um encurtamento real dos mesmos – para beneficiar os agentes da economia.

O diálogo entre as partes tende a resolver melhor as situações porque, via de regra, a ideia de que as leis podem por si só e automaticamente moverem o comportamento econômico não tem tanta aplicabilidade real quanto se imagina.

Por Caio Augusto | Editor do Terraço Econômico

 – Escrito e publicado na página do Terraço Econômico em 20/12/2016: https://www.facebook.com/terracoeconomico/posts/1400030463381093?pnref=story

Não existem economistas bonzinhos ou malvados: a diferença está no método

Ultimamente, no Fla-Flu político e econômico, muita gente tem a impressão que existem duas castas de economistas. A primeira é formada pelos economistas “malvados”, aqueles que defendem a contenção de gastos do governo – e consequentemente a PEC do Teto dos Gastos, aprovada no Senado, assim como também defendem a Reforma de Previdência. A segunda seria caracterizada pelos chamados economistas “bonzinhos”, que criticam o controle dos gastos públicos assim como bradam sem rodeios que a Reforma da Previdência é inconstitucional e os direitos adquiridos pela sociedade não merecem ser debatidos e alvos de reforma neste momento – por mais que a proposta enviada pelo governo recentemente não inclua nenhuma alteração dos direitos adquiridos, se seguirmos a letra da lei sobre o que estes significam.

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Encontre os bonzinhos e os malvados na foto acima.

Notem, leitores, que essa visão não auxilia em nada o debate do presente momento. Quando falamos em economia (obviamente sem restringir suas sinergias com a política), não devemos acreditar na retórica segundo a qual existem aqueles que são “os malvados da história”, simplesmente pelo fato de mostrarem a verdade dos fatos. Sim, porque a verdade é dura demais. Mas, então, o que vale mais: mostrar a real situação das contas públicas e ser rotulado de neoliberal, rentista e elitista ou esconder o jogo e fingir que está tudo bem?

O ponto é inequívoco: os dados mostram como os gastos públicos seguem uma trajetória ascendente – tendo inclusive superado as receitas recentemente – e, quando as receitas caíram devido à crise econômica, essas despesas do governo não caíram na mesma velocidade () [1]. Na mesma toada, como a previdência social corresponde a boa parte do gasto total do governo brasileiro [2], uma reforma também seria necessária, haja vista a limitação do gasto real aprovada pela PEC. Você pode encontrar muitos desses artigos aqui no ou em outros blogs/sites de economia.

Algo que precisa ficar claro é que, independente da visão que você tenha, é sempre salutar acompanhar o que ocorre do outro lado do debate – por motivos claros: para verificar se o que lhe parece óbvio realmente o é e também para provocar em sua própria mente a reflexão que uma ciência social como a economia demanda.

Esse costuma ser outro divisor de águas entre os economistas ditos bonzinhos e os malvados: o método de análise. Há economistas que utilizam métodos científicos para averiguar se uma premissa é verdadeira, enquanto outras preferem a análise histórica do problema. É exatamente neste ponto que vale a pena uma reflexão importante: é mais válido ficar apenas com os dados ou somente com as suposições? A ideia de acompanhar o debate econômico é justamente poder formar alguma opinião observando os dois – quando não múltiplos – lados.

Outro ponto importante a se pensar é que, mesmo ao tratar-se de um debate direto entre ideias bastante diferentes podemos encontrar algumas razoáveis e outras que parecem não ter nenhuma conexão com a realidade; afinal, todos os economistas sérios apresentam suas ideias visando o melhor para a economia e a sociedade. Podem ser desde ideias de restrição dos gastos públicos até outras de ampliação destes, mas o objetivo é o mesmo: de melhorar a economia. É muito difícil encontrar um economista sério que diga “e penso em tais medidas porque elas complicam a vida de todos e pioram a economia”.

Algo que pode ajudar nessa formação de opinião sobre o andamento da economia é uma análise histórica do que já ocorreu dentro de um país. Por exemplo: nos anos 1980 tivemos no Brasil uma quantidade considerável de experimentos econômicos heterodoxos que buscavam encontrar uma solução aos problemas, dentre eles, o congelamento de preços – que resultou em menor acesso a produtos e, em vez de resolver o problema, apenas o aumentou. Por algum motivo, decidiu-se nos últimos anos repetir a experiência com os preços dos combustíveis e da energia elétrica e, adivinhem? Os resultados foram análogos: preços maiores e outras jabuticabas.

Toda dicotomia direta – bem e mal, ótimo ou péssimo, heterodoxia pura ou ortodoxia ao máximo – mostra extremos que não necessariamente são saudáveis. Lembremo-nos, por exemplo, que o Programa Bolsa Família foi modelado por um economista tido como liberal e de formação conhecida como ortodoxa (Ricardo Paes de Barros). De maneira análoga, as medidas de ampliação do crédito no pós-crise de 2008 realmente fizeram o Brasil sofrer menos com a crise do que muitos outros países do mundo (ao menos naquela ) – isso sem falar em outras medidas como a lei de falências e a criação do crédito consignado, também desenvolvidos por economistas tidos como liberais durante o governo Lula.

Por fim, é preciso estar atento e manter o ceticismo sobre economistas que tenham muito mais certezas do que dúvidas, pois a economia é uma ciência social sem respostas fechadas. Ou melhor, como diria o gênio Millôr Fernandes:

“Se você não tem dúvidas, é porque está mal informado…”

Arthur Solow – Editor Terraço Econômico

Caio Augusto – Editor Terraço Econômico

Notas

[1] https://www.nexojornal.com.br/grafico/2016/10/26/As-receitas-e-despesas-do-governo-federal-desde-1997

[2] http://www.valor.com.br/brasil/mosaico-orcamentario

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em dezembro de 2016:

– Terraço Econômico (20/12/2016): http://terracoeconomico.com.br/nao-existem-economistas-bonzinhos-ou-malvados-diferenca-esta-no-metodo 

– ADVFN Brasil (20/12/2016): http://br.advfn.com/jornal/2016/12/nao-existem-economistas-bonzinhos-ou-malvados-a-diferenca-esta-no-metodo

– Money Times (04/01/2017): https://www.moneytimes.com.br/nao-existem-economistas-bonzinhos-ou-malvados-diferenca-esta-no-metodo

Não podemos confundir o “fora Temer” com o fim das reformas que estão ocorrendo

Recentemente começaram a ser divulgados trechos da delação mais aguardada – e recheada – de nomes: a de executivos da Odebrecht. Mostrando que não há preconceito algum com sigla partidária, temos lá demonstrados valores a praticamente todos os partidos existentes. Um nome também aparece associado ao recebimento de alguns milhões (e algumas dezenas de vezes): o de Michel Temer. Naturalmente, o efeito disso é um aumento sensível de sua impopularidade perante a sociedade.

Junto com este aumento de impopularidade há algo curioso: muitas pessoas estão associando a imagem de Temer às propostas levantadas por sua equipe econômica para o encaminhamento da crise fiscal brasileira – como a reforma previdenciária e a limitação real de gastos públicos nos próximos 20 anos. Precisamos dissociar as coisas, por um simples motivo: com Temer ou sem ele, a crise brasileira continua e a não discussão de possíveis soluções (no caso, envolvendo a redução de gastos pra fazer o orçamento caber nas receitas) é incapaz de resolver os problemas, por motivos óbvios.

Temer está conseguindo unir cada vez mais o Brasil – contra ele mesmo.

Mas não se engane: comprar a ideia de que “se ele sair tem de levar as reformas junto” não faz muito sentido, uma vez que os problemas seguirão existindo. Se o erro é político, deve ser resolvido com meios políticos – aliás, é justamente por isso que as expectativas econômicas deram uma aliviada após o impeachment de Dilma Rousseff: a possibilidade de realizar reformas que aliviem o problema fiscal brasileiro aumentou. Independente de ficar Temer ou não, as reformas econômicas devem seguir adiante.

Por Caio Augusto | Editor do Terraço Econômico

 

 – Escrito e publicado na página do Terraço Econômico em 11/12/2016: https://www.facebook.com/terracoeconomico/posts/1388369221213884 

Sejamos sinceros: é melhor nem pensar mais em aposentadoria

A bola da vez em nosso país é a famigerada reforma da previdência. Muito se fala sobre ela, sobre sua potencialidade de aliviar as questões fiscais brasileiras no longo prazo e também sobre os efeitos perversos de prolongar o momento de aposentadoria – diversos debates podem ser encontrados [1]. De fato, 65 anos como idade mínima parece ser uma grande injustiça com quem trabalha durante toda uma vida. Porém, será que já paramos para pensar sobre o tamanho de injustiça que se comete no sistema atual com as gerações que estão por vir?

A idade média de idade de aposentadoria no Brasil fica abaixo da média dos países da OCDE, enquanto o tempo médio em anos que um indivíduo fica aposentado está entre os maiores:

idades-de-aposentadoria

Com o aumento da expectativa de vida, é lógico imaginar que a proporção de tempo que vai se passar dependendo do sistema previdenciário é cada vez maior, caso a idade de aposentadoria não se altere. É exatamente isso que tem ocorrido nos dias atuais.

Como o sistema pay as you go – o meio em que a previdência funciona atualmente: os indivíduos que estão trabalhando transferem recursos aos que já se aposentaram – apresenta cada vez menos sustentabilidade, a alternativa se dá pelo aumento de receitas (aumentando impostos) ou pelo aumento de endividamento público. Nossa carga tributária já impõe consideráveis obstáculos ao setor produtivo – mesmo sem oferecer em contrapartida serviços públicos que sejam considerados adequados por grande parte da população [2] – e o endividamento está todos os dias em ascensão, o que também não passa como novidade aos olhos atentos de quem acompanha o noticiário econômico.

Três perguntas com respostas diretas sobre esta questão: qual o efeito disso, no fim das contas? Como as pessoas são afetadas? Por que fazer uma reforma que afeta o oferecimento de um direito fundamental e constitucionalmente estabelecido?

  • O efeito de se alcançar o esgotamento das possibilidades de orçamento e endividamento está sendo sentido neste momento por alguns estados que declararam calamidade financeira recentemente. Para ser um pouco mais direto: o Rio de Janeiro declarou que está parcelando salários de quase 40% dos servidores públicos [3];
  • As pessoas são afetadas diretamente por meio da redução do oferecimento de serviços [4]: em prol do pagamento de salários e aposentadorias – que, por serem gastos sustentados, têm prioridade e não podem simplesmente deixar de ocorrer – menos recursos podem ser destinados para a manutenção de hospitais e de escolas;
  • Porque não há a possibilidade – nem agora, muito menos no tempo futuro – de que os recursos sejam sustentáveis para que todas as estruturas de gastos coexistam (ao menos não do modo que ocorrem, em aumentos constantes e independentes da demanda social), dado que, com a diminuição de novos entrantes no mercado de trabalho, a continuidade do sistema atual é cada vez menos possível.

Com base nestes aspectos levantados e na triste constatação de que mesmo reformas altamente impopulares – como o teto dos gastos [5] e a reforma previdenciária [6] – sejam necessárias e ainda assim não suficientes por si só para resolver a delicada questão fiscal brasileira, a recomendação para quem ainda não está nas proximidades de se aposentar (pelo regime atual ou mesmo pelos 65 anos mínimos) e nem na regra de transição anunciada na proposta do governo [7] é a de que comece imediatamente a procurar outras maneiras de prover para seu futuro.

Parece brusco demais apresentar este fato, e simplista em demasia. Mas, apesar de inconveniente, é uma verdade: se em pleno ano de 2016, antes da inversão demográfica que se aproxima – ou, melhor dizendo, a diminuição e consequente reversão de nosso bônus demográfico [8] – já se espera que a situação fiscal comece a melhorar (mesmo com as reformas ocorrendo e o cenário econômico melhorando) nos próximos cinco anos, imagine qual será a situação caso elas não sejam aprovadas e o cenário seja o mais provável, como estaremos daqui a dez anos?

A sinceridade sobre esta sugestão que faço pode assustar algumas pessoas, que irão ler e bradar que este que escreve agora não sabe do que fala e defende o fim de alguns direitos. Curiosamente, me posiciono do outro lado da mesa: no grupo de pessoas que, diferentemente dos demagogos que afirmam que “todo gasto é prioridade” (“saúde é prioridade”, “educação é prioridade”, “emprego é prioridade”…), acredita que os gastos públicos devem ser concentrados na porção social que mais precisa deles – nas classes sociais mais desfavorecidas, com programas como o Bolsa Família [9], e não ajudando a manter ricos aqueles que já o são [10] – e que sua aplicação deve sim levar em conta a racionalidade de recursos. Entretanto, como observamos na prática que a luta por recursos se concentra em setores que justamente afastam a boa intenção da boa execução – leia-se: em nome da manutenção de altos cargos e da manutenção de uma cara (e geralmente ineficiente) burocracia, brada-se o aumento dos gastos como sendo sempre uma boa ideia, enquanto quem precisaria mais destes recursos costuma ficar sem ajuda –, é mais recomendável que as pessoas busquem realocar seus gastos ao longo do tempo separando ao menos uma pequena parte para seu “eu de amanhã” do que esperar que qualquer reforma que venha a seguir possa resolver a situação. Os mais jovens já estão pagando a conta da ausência de seriedade com o aspecto fiscal.

Este artigo não é um apelo para que você deixe sua rotina de lado, largue o trabalho e vá empreender para tentar transformar sua vida repentinamente – e nem algo parecido com isso. A ideia aqui é: racionalize desde já seu orçamento familiar porque, é triste te contar, mas esperar que o país possa te sustentar em sua famigerada “terceira idade” é cada vez mais ilusório – ao menos do modo como as coisas funcionam hoje em dia, principalmente se você estiver entre os 20 e os 40. Compensa mais observar seu orçamento doméstico e separar parte dele para o futuro do que imaginar que a situação melhore – reitero, mesmo em um cenário positivo em que todas as reformas passem.

Ah, um detalhe importante: aos que possam interpretar o texto acima como “então não é preciso que passemos por reformas, ufa!”, utilizo-me de uma frase de Armínio Fraga para explicitar meu pensamento:

“A ideia de que a opção se dá entre fazer ajustes ou ser feliz não existe. Ou o governo faz os ajustes necessários ou o país entra num buraco ainda mais profundo.”

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

 

Notas

[1]          http://www1.folha.uol.com.br/tv/fla-flu/2016/08/1804805-fla-flu-sindicalista-e-economistas-divergem-sobre-reforma-da-previdencia.shtml

[2]          Só na saúde, em pesquisa recente (de 2014) tem-se o registro de uma desaprovação que supera 80%: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,pesquisa-mostra-que-93-desaprovam-os-servicos-de-saude,1546392

[3]          http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/11/quase-40-dos-servidores-do-rj-receberao-o-salario-em-7-parcelas.html

[4]          http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/10/receio-um-colapso-nos-servicos-nos-governos-estaduais-diz-marcos-lisboa.html

[5]          Eis o texto integral da PEC do teto de gastos (241 na Câmara e 55 no Senado): http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra;jsessionid=8720E5E3ACC73564A7B10582BDF40639.proposicoesWebExterno2?codteor=1468431&filename=PEC+241/2016

[6]          Eis o texto integral da PEC da reforma previdenciária (287 na Câmara): http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1514097&filename=PEC+287/2016

[7]          http://www.valor.com.br/brasil/4797241/previdencia-transicao-sera-de-15-anos-para-homem-e-de-20-para-mulher

[8]          http://ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/TDs_Ipea_Cepal/tdcepal_010.pdf

[9]          http://www.valor.com.br/brasil/4047038/fmi-programas-como-bolsa-familia-reduziram-pobreza-nivel-historico

[10]        http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,elite-estatal-ocupa6-das-10-profissoes-mais-bem-pagas,10000081214

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em dezembro de 2016:

– Terraço Econômico (07/12/2016): http://terracoeconomico.com.br/sejamos-sinceros-e-melhor-nem-pensar-mais-em-aposentadoria

– Money Times (07/12/2016): http://www.moneytimes.com.br/sejamos-sinceros-e-melhor-nem-pensar-mais-em-aposentadoria

– ADVFN Brasil (07/12/2016): http://br.advfn.com/jornal/2016/12/sejamos-sinceros-e-melhor-nem-pensar-mais-em-aposentadoria

– Investing.com Brasil (08/12/2016): http://br.investing.com/analysis/sejamos-sinceros:-%C3%89-melhor-nem-pensar-mais-em-aposentadoria-200168849?preview_fp_admin_1234=this_is_1234

RJ, RS e a calamidade fiscal: tragédia anunciada não acaba aqui

A situação de crise fiscal em que se encontra o país já não é mais novidade e sua existência é unanimemente observada. Calamidade fiscal é a situação de absoluta insustentabilidade das contas de um ente público – discutem-se apenas os motivos, se seria uma questão de queda de arrecadação ou de aumento sustentado de gastos, mas é notório que há um desequilíbrio imenso pela frente.

Tal situação começou com a declaração do Rio de Janeiro, a pouco menos de dois meses dos Jogos Olímpicos que lá ocorreram [1]. Por algum motivo, fez-se parecer para alguns grupos que “era tudo culpa das Olimpíadas” e que, pagas essas contas, tudo estaria resolvido. Pois bem: mesmo recebendo novos aportes após esta declaração [2] – para “pagar as contas faltantes” –, a situação continuou bastante grave e assim segue até hoje. Recentemente, medidas anunciadas pelo estado foram tidas como austeras e, mesmo com aprovação das mesmas, o cenário ainda será negativo para toda a próxima década [3]:

grafico-1

Fonte: Governo do Rio de Janeiro.

Nesta semana foi a vez do Rio Grande do Sul de declarar a mesma situação de incapacidade fiscal, já tendo sido apresentadas também certas medidas que aliviariam a situação das contas públicas [4].

Surpresa? Ninguém poderia prever? Não é bem assim: se a situação fiscal dos estados já vinha se encaminhando como complicada nos últimos anos – com sinais como a utilização de subterfúgios para o aumento de gastos com pessoal além do previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal e a recusa de avaliar a eficácia de programas conduzidos com dinheiro público [5] –, mais recentemente os avisos foram só aumentando de tamanho, como com a divulgação, pelo Ministério da Fazenda, de um relatório que apontava crescimento real nas despesas com pessoal entre 2009 e 2015 e no aumento do engessamento do orçamento dos estados [6].

grafico-2
Fonte: Ministério da Fazenda.

A má notícia é que a situação tende a piorar, uma vez que mais estados estão em dificuldade crescente – e ao menos seis deles (Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Goiás e os já citados Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul) tem despesas de pessoal acima do limite da LRF [7]. Pior ainda: caso a situação não seja resolvida com ou sem ajuda do governo federal existem estados que estudam até o parcelamento de salários de seus servidores públicos – e, caso o seja, o efeito da dívida será sentido em todo o país, em um momento de já delicada situação das contas públicas.

O que podemos aprender com essa situação? Primeiramente, que viver além das possibilidades – ou, trazendo para a situação atual, contar com recursos temporários (ou ao menos dos quais não se tem certeza da continuidade em determinado montante) para expandir desembolsos permanentes (salários, aposentadorias, etc) – apresenta um risco. Este risco é a restrição do orçamento e do endividamento e, quando alcançado, faz com que medidas drásticas (como a redução em até 30% dos salários, ideia levantada no RJ) comecem a ser tratadas a toque de caixa para tentar resolver a situação. Em segundo lugar, que avaliar a eficácia de qualquer tipo de gasto público faz diferença mesmo quando as receitas estão subindo a ponto de gerar a ilusão de comportarem qualquer tipo de gasto, pois quando há uma queda da arrecadação, perdem por exemplo os institutos de pesquisa e restaurantes populares – que podem ser reduzidos ou extinguidos, independente do benefício que oferecem – em prol do pagamento de salários de servidores – que, em diversos casos, dada a típica negação de avaliação de desempenho no setor público, existem em quantidade superior às demandas que poderiam atender (no RS é essa troca que está sendo proposta para ocorrer).

O problema é cada vez maior e não parece dar sinais de arrefecimento. Mais estados devem anunciar situação análoga ao RJ e ao RS nos próximos meses – talvez os outros quatro que estão acima dos limites com as despesas de pessoal, talvez outros, mas certamente mais alguns, independente da ajuda ou não do governo federal a estes entes.

Em momentos como estes resta a reflexão: viver além das possibilidades, deixando de considerar reais demandas e focando em cenários idealizados em que “nada pode dar errado” é uma ideia que custa muito caro – e, afinal de contas, a responsabilidade fiscal não é algo a ser deixado de lado ou para o futuro, precisa ter atenção ao longo do tempo. Se John Maynard Keynes afirmava que “no longo prazo todos estaremos mortos” para justificar o aumento de gastos por parte do Estado, é bom que os estados comecem a pensar sobre os danosos efeitos deste longo prazo que chegou.

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

 

Notas

[1] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36566996

[2] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/06/rj-deve-receber-cerca-de-r-3-bilhoes-apos-decretar-calamidade.html

[3] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/11/governo-do-rj-apresenta-pacote-de-medidas-para-combater-crise.html

[4] http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/11/confira-as-medidas-que-integram-o-pacote-de-sartori-8423234.html

[5] https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2016/A-crise-fiscal-dos-Estados

[6] http://www.fazenda.gov.br/noticias/2016/maio/200brelatorio-de-analise-dos-gastos-publicos-federais-revela-rigidez-orcamentaria-e-peso-da-previdencia

[7] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-05/seis-estados-estao-acima-do-limite-de-gastos-com-pessoal

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em novembro de 2016:

– Terraço Econômico (25/11/2016): http://terracoeconomico.com.br/rj-rs-e-calamidade-fiscal-tragedia-anunciada-nao-acaba-aqui

– Repost: Página Terraço Econômico (05/12/2016): https://www.facebook.com/terracoeconomico/posts/1380396178677855 

O correto é “a economia e as pessoas”, não “a economia ou as pessoas”

A economia e seus caminhos compõem grande parte das discussões quando as coisas para ela não vão bem – como ocorre nos dias atuais. Perguntas análogas a “como está a economia?”, “para onde ela vai?” e “já paramos de piorar?” são tópicos quase que diários de conversas de milhões de brasileiros. Mas um ponto relativamente pouco falado – e que poderia ter mais atenção – é: por que as pessoas costumam acreditar que a economia é dissociada da sociedade? O ponto é: separar economia e sociedade não faz sentido, pois a economia é o acompanhar das relações sociais sob a ótica produtiva.

Desde a origem do termo, economia e sociedade estão intimamente ligadas: economia vem do grego oikonomia, que significa nada mais do que “gerenciar a casa” (oikos: “casa”, nomein: “gerenciar”). Porém, por algum motivo, quase sempre que podemos observar discursos que evocam a necessidade de mudanças sobre a economia – ajuste fiscal, reforma da previdência, discussão dos direitos trabalhistas, dentre outros tópicos – surgem frases como: “precisamos colocar a economia nos trilhos, pois ela é uma prioridade” ou “e as pessoas, como ficam?”; como se fosse possível uma separação entre ambas.

Dentro da academia existe uma corrente econômica recente chamada de Sociologia Econômica (SE) [1]. Ela busca ir além das visões majoritariamente utilitaristas e individualistas, objetivando alcançar o entendimento do chamado homo economicus de modo a incluir seu ambiente social e os processos históricos vividos ao conjunto de interpretações que este venha a ter da realidade – o que significa que age de maneira complementar aos paradigmas anteriormente levantados em economia política por Adam Smith e Karl Marx. Parece que esta teoria distancia ainda mais as relações sociais e a economia, mas é justamente o contrário: ela é uma tentativa de entender com maior proximidade a influência dos fenômenos sociais na economia – como uma tentativa de amplificar a tangência existente entre as duas partes.

Neste momento o leitor pode pensar que “se é para falar da relação entre a sociedade e a economia, usar a linguagem acadêmica não funcionou”. Porém, é possível analisar diretamente aspectos que costumam ser considerados apenas econômicos e ver quão relacionados com a sociedade eles de fato estão – e como seria irracional imaginar que seria diferente disso. Vamos então a uma discussão mais direta de como os dois fenômenos se entrelaçam indissociavelmente, em três itens que costumam ser definidos como “essencialmente econômicos e distantes da sociedade” ou ao menos “apenas importantes para as classes mais altas”:

– Taxa de câmbio: é formada basicamente pela transação de moedas entre os agentes e países da economia como um todo – existem outros componentes dentro deste conceito como as expectativas sobre os países, a ação dos Bancos Centrais e a possibilidade de ataques especulativos, mas aqui o foco é sobre o efeito das movimentações desta variável; em um momento de instabilidade política ou perda de confiança sob a economia de um país as taxas de câmbio tendem a se desvalorizar (a moeda passa a valer menos perante as outras). O dólar, moeda utilizada como meio comum de transações internacionais, é uma variável que aparece bastante nos noticiários quando há uma variação significante. Neste ponto surge a turma do “e eu com isso?”, e aqui há uma resposta que ao menos deveria fazer pensar: não é só o bem de luxo que vem de fora e varia seus preços pela taxa de câmbio – como alguns sugerem –, varia também o preço do pão, item que está na mesa de café da manhã de boa parte dos brasileiros, em função do trigo (que é majoritariamente importado), e de uma parte do que se consome no país (pouco mais de um quinto [2]) – um estudo mais detalhado sobre os efeitos desse pass through cambial sinaliza que uma parte considerável dos produtos da cesta do IPC (Índice de Preços ao Consumidor, medido pela FGV) sofre influência com a variação do câmbio [3]. Uma melhoria das condições econômicas tende a atrair mais investimentos a um país e possibilita uma valorização da moeda: o que vem junto disso é um barateamento de diversos produtos importados, a melhoria da concorrência com os produtos nacionais – ao menos em tese, já que as altas taxas de importação e a carga tributária nos protegem de tais benesses – e uma melhoria na inflação;

– Preços de commodities – e também os demais produtos de baixo valor agregado que podem ser replicados internacionalmente de algum modo (commodity significa mercadoria); em alguns casos ouve-se dizer que estes importam apenas para aqueles que as transacionam, porém, a influência para a sociedade é maior do que isso: dentre outros motivos como uma boa condução econômica no primeiro mandato de Lula (que acompanhou o tripé macroeconômico vindo do final dos anos 1990 com FHC), um aumento da formalização do mercado de trabalho e a boa execução de políticas distributivas como o Bolsa Família, temos no boom dos preços das commodities ocorrido na última década (puxado pela demanda chinesa em alta) uma contribuição notável para o aumento da renda do país – mesmo que haja também uma discussão sobre este aumento de participação em nossa pauta exportadora gere certa queda de competitividade [4];

– PIB: soma de todos os valores monetários agregados por um país em um determinado período de tempo – conceito criado pelo Nobel de Economia em 1971, Simon Kuznets [5]; esta medida tem sido questionada por sua materialidade ou importância prática) [6], mas atualmente é utilizada para medir o avanço de produção dos países, sendo utilizada como base para outras análises de bem-estar; por meio desta variável analisamos como a economia se desenvolve: seu crescimento indica que mais transações estão ocorrendo e mais renda está sendo gerada, e o caso oposto também é verdadeiro. Aliás, graças a esta medida é que podemos compreender e fazer previsões sobre o andamento de uma economia, afirmando se ela se encontra em crescimento ou recessão e quais suas tendências possíveis para o futuro, por exemplo – é considerada recessão técnica a situação em que o país tem seu PIB contraído em dois trimestres seguidos.

Os discursos “não como taxa de câmbio”, “não como petróleo” e “não como PIB” costumam ser utilizados à exaustão por movimentos sociais que buscam de alguma maneira justificar que a sociedade e a economia possam ser movimentos separados. É possível claramente observar que o único efeito real de tais discursos é a geração de desinformação aos que os encaram como sendo verdadeiros, uma vez que, economia e sociedade são fenômenos indissociáveis, como discutido neste artigo.

Reitera-se que não são variáveis que descrevem com perfeição o andamento da sociedade – inclusive o PIB sofre críticas, como também foi apontado –, mas a influência delas é notável o suficiente para que possamos apontar uma reflexão: quando a economia vai bem, a sociedade vai bem e, ao negar princípios econômicos em prol de supostas “verdades sociais”, os efeitos podem ser extremamente negativos para todos.

O Brasil dos anos 1980 com suas desastrosas experiências econômicas e a Venezuela dos dias de hoje são apenas dois exemplos do que renegar políticas econômicas a um segundo plano pode fazer com toda a sociedade. Em suma: sociedade que se importa com a economia sai beneficiada, assim como economia que se importa com a sociedade.

 

Caio Augusto – Editor Terraço Econômico

 

Notas:

[1] Esta corrente econômica encontra-se explicitada no texto As pessoas e a economia: algumas possibilidades deste encontro, de Andréia Leite Vargas http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-75902010000300010

[2] http://www.valor.com.br/brasil/4049886/participacao-dos-importados-no-consumo-brasileiro-e-recorde-nota-cni

[3] http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/1612/043202010_Dissertacao_Luiz_Felipe_Maciel.pdf?sequence=1

[4] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2016-08/saldo-recorde-da-balanca-deve-se-queda-de-importacoes-e-commodities

[5] http://www.nber.org/chapters/c2258.pdf

[6] http://www.economist.com/news/leaders/21697834-gdp-bad-gauge-material-well-being-time-fresh-approach-how-measure-prosperity

 

Publicações deste artigo, que foi escrito entre outubro e novembro de 2016:

– Terraço Econômico (16/11/2016): http://terracoeconomico.com.br/o-correto-e-economia-e-as-pessoas-nao-economia-ou-as-pessoas 

Dilma, Trump e a aceitação da democracia

No dia de ontem o mundo passou a conhecer, após apuração das eleições nos EUA, quem comandará a maior economia do mundo a partir do ano que vem: o magnata do mundo dos negócios Donald Trump [1]. Muito se especula sobre quão danoso isso pode ser – ou até, eventualmente, quais as benesses possíveis advindas deste resultado. Porém, algo que não faz sentido é questionar a legitimidade da escolha social.

Tal como em 2014 no Brasil, a eleição dos EUA em 2016 teve uma troca de farpas intensa entre os candidatos dos dois partidos majoritários, a polarização tomou conta das discussões sociais e o mercado havia precificado que um dos lados sairia vencedor (ao menos essa foi a impressão inicial) [2] – o que, é claro, não ratifica quem seria a melhor escolha para a economia norte-americana hoje e nem brasileira àquela época e, por consequente, para os mercados financeiros globais. Por aqui dois anos atrás tivemos uma imensa quantidade de críticas ao processo, a argumentação de que houve uma doutrinação de boa parte da população (utilizando-se inclusive da acusação de que o “Bolsa Família compra votos”) e até o descrédito de parte da sociedade a aceitar o resultado do pleito. Se há algo a não duvidar neste momento é que tudo isso deve ocorrer nos EUA nos próximos meses também, dada a polarização alcançada – e, como proxy, temos que o resultado foi apertado em quase todos os 50 estados [3].

Winston Churchill citou – ou ao menos é atribuída a ele esta frase – que “a democracia é o pior dos sistemas de representação, com exceção de todos os outros”. A menção a esta célebre citação faz muito sentido no dia de hoje, em que muitos discursos de “o povo não sabe o que está fazendo” ou “essa escolha social está errada” estão sendo proferidos mundo a fora.

A constatação é direta: as escolhas sociais na democracia resultam da opção da maioria e é exatamente isso que este termo representa em sua concepção linguística. É esse o tal poder que emana do povo. Ou seria apenas quando o seu lado de predileção sai vitorioso?

Seria intelectualmente desonesto não considerar fatores como o populismo e a demagogia em épocas eleitorais. Apesar da diferença entre o papel do Estado no Brasil e nos EUA ser notável – nesse ponto, é importante ressaltar que por aqui as decisões em todas as esferas costumam passar muito mais pelo poder público do que por lá – esse resultado eleitoral sinaliza que discursos como “vamos salvar nosso país exclusivamente ampliando a participação do conteúdo nacional em nossa produção” e “vamos ao futuro, só dependemos de nós” rendem muitos votos. Nesse contexto, apesar de o passado recente de países que optaram pela via protecionista e isolacionista sob o manto de um líder populista (como nós aqui na terra tupiniquim) sinalizar para o fracasso econômico, é ainda mais desonesto intelectualmente fazer afirmações sobre como estes fatores tornam inválido o resultado de um pleito. Repito: só é democracia quando o seu lado de predileção vence?

Os mercados globais no dia de hoje reagem com perdas e aumento de aversão ao risco diante de contraditórios discursos emitidos pelo agora representante eleito da maior economia do mundo, como o aumento da nacionalização, a revisão de acordos comerciais já assinados (de acordo com critérios que variam bastante a cada novo pronunciamento) e a redução da relação diplomática com países de economia considerável, como a China e o México. Por outro lado, ao medo da concretização de tais medidas soma-se a incerteza, uma vez que ainda não é claro qual a real capacidade de Trump em colocar suas ideias vendidas para eleitores em prática. Boa parte de suas propostas precisará de aprovação do congresso norte-americano para ser efetivada. Além disso, as mesmas deverão ser validadas considerando-se importantes tratados e alianças internacionais com força de lei federal (no caso de “self executing treaties”) [4]. Isso possivelmente será um fator para acalmar os que pensam que o “fim do mundo será decretado nos próximos dias” – pois, mesmo que a maioria das casas legislativas tenha sido garantida pelo partido Republicano [5], ainda existem discordâncias internas sobre o modelo de Trump (se é que podemos defini-lo como clareza).

De qualquer modo, parece extremamente prematuro prever de um lado “o melhor governo da história dos Estados Unidos” e de outro “o fim do mundo”. É preciso ressaltar que uma das características mais marcantes de Trump é justamente sua inconsistência; deste modo, podemos esperar tanto que suas ideias se traduzam em agressividade quanto em um surpreendente soft approach. O que deve ficar como aprendizado deste evento – assim como deveria ter ficado das eleições de 2014 – é que a escolha da maioria, quando requisitada, deve ser respeitada. A democracia precisa sair do “enquanto meu lado é vencedor estarei concordando” e caminhar em direção ao “hoje podemos perder, mas amanhã tornaremos a ganhar”. Honestamente: qualquer coisa fora disso é ou um péssimo discurso de quem não sabe perder ou um apreço sutil pelo fim da democracia – ou, como diria Millôr Fernandes: “democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.

 

Caio Augusto – Editor Terraço Econômico

 

Notas:

[1] http://www.valor.com.br/internacional/4770803/trump-e-eleito-presidente-dos-eua

[2] Em 2014: http://oglobo.globo.com/economia/negocios/reeleicao-de-dilma-faz-petrobras-ter-maior-queda-da-bolsa-com-perda-de-12-dolar-sobe-r-252-14372103 ; em 2016: http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/5727142/mercados-mundiais-tem-dia-panico-apos-vitoria-trump-etf-brasileiro

[3] http://edition.cnn.com/election

[4] https://www.asil.org/insights/volume/2/issue/5/international-agreements-and-us-law

[5] http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/republicanos-mantem-controle-do-congresso-dos-estados-unidoss.html