Para além de todas as notícias que vão e vem do mundo da economia e política brasileira, uma bem positiva ocorreu na semana passada: a B3 decidiu tirar a taxa de custódia de 0,25%. O que isso muda para você como investidor?
Primeiramente é importante lembrar do nosso Guia sobre Tesouro Direto, que apresenta todas as informações necessárias para que você comece a ter esse tipo de investimento em sua carteira.
Mudou, mas não pra todo mundo
A taxa de custódia existe porque, no passado, a B3 tinha um custo para cuidar dos literais papéis que representavam a dívida pública. Embora hoje pareça um pouco antiquado, as dívidas pública e privada tinham literais comprovações físicas em papel que precisavam ter sua custódia realizada e, no caso, esse custo cobre isso.
A mudança sobre a taxa de custódia do Tesouro Direto se deu da seguinte maneira: para até R$10.000,00 investidos em Tesouro Selic, ela passará a ser zero e, para a diferença superior a isso, continuará sendo de 0,25% a. a.
Com isso, que fique claro: apesar da notícia ser boa (já que beneficia 53% dos investidores do Tesouro Direto), poderia ser ainda melhor se abarcasse a todos, levando em conta todos os valores investidos (não apenas com limite de R$10.000,00) e todos os títulos (não somente o Tesouro Selic).
Em números, como fica a diferença?
Seguindo os dados atualizados para a data de publicação deste artigo, em que a Selic está em 2,25%, imaginemos três montantes investidos em Tesouro Selic: R$6.000,00, R$14.000,00 e R$22.000,00.
O primeiro montante, a partir de 01/08/2020, que é quando se inicia a mudança, deixará de ter incidência da taxa de custódia do B3. Portanto, incidirão sobre ele apenas o Imposto de Renda (decrescente conforme o tempo aplicado aumentar) e IOF (presente nos primeiros 30 dias).
Em relação ao segundo, a incidência da taxa de custódia ocorrerá apenas sobre a diferença entre o volume aplicado e R$10.000,00, ou seja: sobre o montante total estarão o Imposto de Renda decrescente e o IOF nos primeiros dias, mas sobre R$4.000,00 seguirão existindo os 0,25% anuais de taxa de custódia.
Tal qual o segundo, no terceiro caso teremos a mesma coisa: sobre a diferença entre o volume aplicado e R$10.000,00, o que neste caso representa o valor de R$12.000,00, teremos a taxa de custódia de 0,25% ao ano – e sobre o volume total aplicado teremos apenas o IR e o IOF.
Recomendamos novamente que você veja o Guia sobre Tesouro Direto para entender com maior precisão como funcionam essas taxas. E, afirmamos novamente: com a recente mudança, o que haverá de diferente será somente a taxa de custódia sobre valores no Tesouro Selic até R$10.000,00 – todos os outros apontamentos seguem verdadeiros.
O que isso muda para você?
Na prática, essa notícia é positiva para quem mantém total ou parcialmente sua Reserva de Emergência nos títulos do Tesouro Selic. Isso porque, com essa mudança, eles terão um custo menor e, consequentemente, um rendimento líquido maior.
Sempre válido lembrar que a reserva de emergência deve estar em recursos líquidos e de fácil acesso, priorizando mais isso do que necessariamente um retorno vigoroso, já que tais recursos, como bem diz o nome, devem estar ali para serem usados em emergências – e nessas situações não faz sentido que você tenha de acessar recursos não tão fáceis de transformar em dinheiro.
Fica a dica, B3!
Enquanto alguns dizem que “a renda fixa morreu”, fazemos aqui um apelo para um fato importante: a renda fixa segue tendo importância na carteira de todo investidor, basicamente porque ela fornece os mecanismos de amortecimento de impactos em períodos de forte volatilidade e, no fim das contas, acaba por reduzir assim o risco da carteira como um todo. Quando os mercados vão muito bem alguns se esquecem que correções podem ocorrer e, em termos de patrimônio, você pode se prejudicar se não tiver esse cuidado de manter parte dos seus investimentos em ambiente mais seguro.
Jamais saberemos se este artigo chegará a ser lido por alguém que possa tomar esse tipo de decisão na B3, mas, fica aí a dica: um meio muito interessante de atrair mais investidores no Tesouro Direto seria se livrar dessa taxa de custódia para sempre ou adaptar a uma nova realidade de juros.
Uma sugestão seria, tal qual ocorre com os rendimentos da poupança, que estão sujeitos a se alterarem conforme a Selic se reduz, colocar como condição que essa taxa deixe de existir em determinado patamar da taxa básica de juros e retorne em outro. Afinal de contas, uma coisa é ter 0,25% ao ano descontado de um investimento que esteja em dois dígitos (como tínhamos poucos anos atrás) e outra bem diferente é o ter num nível de juros reais (juros menos a inflação) próximos a zero.
Fica aí a sugestão para você que tem recursos em sua reserva de emergência nas proximidades deste nível: em tempos de Selic baixinha (e aproveitando a benesse até então apresentada), o Tesouro Selic volta a ser uma opção bastante viável.
Publicado no Blog da Guide Investimentos em 27/07/2020