LOCKDOWN: É POSSÍVEL FECHAR O BRASIL?

Uma doença que inicialmente surgiu na província chinesa de Wuhan, o Coronavírus, espalhou-se rapidamente por toda a região. De maneira igualmente rápida, o vírus da doença, que passou a ser intitulada como Covid-19, tornou-se internacional, chegando a outros países asiáticos, e, posteriormente, “desembarcando” também em países da Europa e da América do Sul e do Norte.

Covid-19que alcançou status de pandemia, também chegou ao Brasil, por enquanto não com a mesma intensidade que países como Coreia do Sul, Itália, Espanha e EUA, mas esse cenário tende a se alterar com a situação no Brasil agravando-se dentro de poucos meses, momento em que a transmissão da doença estará no pico por aqui. Assim, considerando essa previsão quase inevitável – realizada com base em fontes confiáveis -, o que fazer?

Infelizmente, não existe uma solução pronta e fácil para combater um problema com tamanha complexidade, – nesses casos, o remédio costuma ser tão amargo quanto a própria doença -, mas, por sorte, ainda há a opção de acompanhar práticas que já estão sendo adotadas – e com algum nível de sucesso – em outros países. O que vem sendo posto em prática por países como Itália, Espanha e França é um lockdown a nível nacional. Esses países se fecharam, sendo restringida a abertura de comércios e até mesmo a movimentação de pessoas pelas ruas. De maneira geral, e salvo algumas exceções, a regra é ficar em casa, evitando-se ao máximo qualquer tipo de aglomeração e contato social. Outros dois exemplos de considerável sucesso são Singapura e Coreia do Sul, que focaram em testar o máximo de pessoas possível para o coronavírus e também restringir fortemente eventos e aglomerações..

Em Terra Brasilis, a coisa parece ser diferente do resto do mundo: protestos neste domingo, dia 15/03, levaram até o Presidente da República a sair do isolamento em que se encontrava e cumprimentar alguns apoiadores. Nada contra os protestos, independente de qual natureza e orientação política sejam. Mas é no mínimo assustador e irresponsável que aquele que deveria representar o exemplo máximo do país faça o contrário do que se recomenda em tempos de pandemia, principalmente levando em conta o contato direto que teve com pessoas contaminadas com o vírus nos últimos dias.

Em um momento que demanda bastante cuidado, é preciso no mínimo se questionar: não seria correto partirmos para um lockdown no Brasil?

É bem claro que um lockdown nacional não é uma solução simples, trata-se de uma medida drástica com implicações bastante amplas, sobretudo para o campo da Economia. Para compreender melhor isso, basta que façamos um simples exercício mental, imaginando lojas fechadas, aeroportos com voos cancelados e hotéis vazios. Tudo isso se choca diretamente contra os princípios básicos da Economia, entre os quais estão a importância do livre comércio.

A ameaça de uma disseminação do Covid-19 no Brasil já foi o suficiente para derrubar a Ibovespa. Trata-se de um tombo histórico de 39%, resultado pantagruélico que pegou de surpresa analistas de mercado experientes, algo que mostrou a pujança de uma doença encarada inicialmente – de forma totalmente errônea – como um simples resfriado. No caso de uma epidemia, no sentido estrito do termo, os impactos são impossíveis de prever.

Para combater o Covid-19 algo drástico e rápido deve ser feito, muito diferente da letargia atual de grande parte dos governantes e da população em geral, que ainda continua negligenciando os efeitos dessa pandemia. Nesse contexto, um lockdown no Brasil parece ser algo inevitável, senão agora, mas num futuro muito próximo.

Ou então podemos aguardar. O que tem potencialmente um elevado custo econômico, social e de saúde. Em caso de dúvidas, veja a situação da saúde da Itália e se pergunte com sinceridade se vale a pena arriscarmos o mesmo por aqui.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 16/03/2020

DEMOCRACIA E TESOURO DIRETO

Apesar do significado de democracia ser majoritariamente associado a uma determinada forma de sistema político, é possível encaixar esse termo como sendo algo muito mais amplo, com relação a qualquer situação em que o indivíduo possui, pelo menos, mais do que uma alternativa (real) de escolha. Seguindo essa linha fora das fronteiras do mundo da política, podemos citar a opção de investimento no Tesouro Direto como um bom exemplo de democracia.

Para a esmagadora maioria de especialistas em finanças, a poupança  não é considerada como um investimento, mas apenas como uma forma de poupar dinheiro e formar alguma reserva ao longo do tempo. Não obstante a isso, e por motivos que vão da falta de informação até à comodidade, grande parte da população brasileira ainda insiste em enxergar na caderneta de poupança como uma forma de investimento. Em um contexto antidemocrático, que não ofereça outras escolhas minimamente viáveis – no sentido de serem populares e acessíveis – para investir, a poupança acabaria sendo a única escolha possível. A tradicional alocação brasileira fechou 2019 com um estoque de R$845 bilhões, ainda com captação positiva de R$ 13,3 bilhões.

Mas a opção de investimento no Tesouro Direto torna democrático esse contexto, dado que é uma alternativa (real) de investimento e que pode ser realizada por indivíduos dos mais diferentes perfis socioeconômicos, com acesso, segurança e rendimento que acabam por superar a poupança. Esse é um tipo de investimento que não fica restrito a mega investidores donos de portfólios milionários ou a especialistas em finanças, dado que investir no Tesouro Direto pode ser mais barato do que ir no cinema, podendo ser realizado passo a passo e sem burocracia.

Se pensarmos do ponto de vista de risco, quando pensamos no Tesouro Direto é quase impossível pensarmos numa situação de calote da dívida. Até porque os bancos tem boa parte de seus recursos alocados na dívida do governo e, em caso de não pagamento, todos os outros ativos seriam afetados, como é o caso da poupança. Lembrando que o governo tem a prerrogativa de emitir nova dívida para pagar os juros e principal de dívidas que estão vencendo. Em 2019, devido a queda dos juro básico da economia, o governo economizou quase R$ 100 bilhões com pagamento de juros devidos aos credores.

Dessa forma, o Tesouro Direto, além de outras formas de investimento, traz democracia para o ato de investir. Assim, o “investimento” na poupança é uma questão de escolha e não uma falta de opção. Aqui na Guide, há opção de investimento no Tesouro Direto, nos mais diversos papéis atrelados à dívida do governo (pós, pré e inflação). Em tempos de juros baixos, a renda fixa ainda pode balancear adequadamente a relação risco x retorno das carteiras de investimento.

Especialmente em uma semana como essa, que se encerra com uma das maiores baixas para a renda variável em um longo período de tempo, convém lembrar ainda que, nesta “democratização dos investimentos” que a Selic em 4,25% está nos permitindo, é válido sempre verificar seu perfil de investidor e estar diversificado em seus investimentos – ou, de maneira mais direta, não buscar estar presente apenas nos que “ganharam mais nos últimos tempos”, mas sim no que, em termos gerais, poderá lhe garantir uma segurança maior ao longo do tempo, uma liquidez financeira que lhe permita ter mais sossego ao longo dos anos.

Certamente o Tesouro Direto faz parte do tipo de alocação que te permite este sossego.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 28/02/2020

O “LEVANTADOR” GUEDES

Fora o esforço – imperfeito, é verdade – de aprovar reformas econômicas de suma importância, outra característica consensual acerca do governo Bolsonaro é a presença dos “levantadores”. Levantador, que no vôlei é uma posição de jogo, no jargão popular do mundo da política pode ser o indivíduo que propicia um “bom ataque” ao adversário.

Desde o início, o que não faltou no governo Bolsonaro foram bons levantadores – no sentido político do termo – que, com frases mal colocadas, “fora de contexto” e estapafúrdias tentaram de todas as formas municiar argumentações de crítica ao governo, vindas de adversários políticos e a até mesmo de “bolsonaristas raiz”. Para citar alguns exemplos, basta recorrer a algumas falas da Ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, e claro, também do próprio Presidente Jair Bolsonaro. Mas no dia 12/02/2020 um levantador diferente entrou em ação: o Ministro da Economia Paulo Guedes.

Em um evento, Guedes disparou que “o dólar mais alto é bom para todo mundo e que, com a moeda americana mais baixa, “todo mundo” estava indo para a Disney, inclusive empregada doméstica”. O dólar acabou valorizando, batendo R$4,35, resultado positivo – ao menos segundo a ótica do ministro. É que com a moeda brasileira mais desvalorizada em relação à moeda americana, alguns produtos brasileiros, em tese, acabariam ganhando em competitividade. A indústria brasileira também, em teoria, muito contraditória por sinal, também se beneficiaria. Por outro lado, quem perde são os consumidores brasileiros, uma perda que é geral, não ficando restrita aos que costumam ir a Disney. Perde com essa desvalorização quem consome qualquer tipo de importado. O trigo do pão de cada dia, por exemplo, é majoritariamente importado.

Mas muito além da questão técnica que envolva os potenciais benefícios e/ou malefícios de uma valorização do dólar, o grande erro de Guedes foi o de taxar uma determinada classe trabalhadora como não merecedora de algo, que nesse caso é a viagem para a Disney. Mesmo que o ministro não tenha tido essa intenção, o seu discurso foi elitista e retrógrado, carregado com o velho preconceito de quem “é pobre deve reconhecer o seu lugar”. Esse tipo de fala levanta a bola não apenas para a oposição, mas para qualquer cidadão brasileiro, bolsonarista ou não.

Essa política baseada em frases de “levantadores” geralmente é contraposta com uma opinião: “pelo menos a economia está indo bem”. Não entrando no mérito do que significa a economia ir bem (apenas lembrando que a recuperação segue bastante aquém do que muitos empolgados previram), é preciso lembrar que não precisaria haver necessariamente uma troca entre termos uma boa economia e um corpo de Ministros de Estado que saiba ter filtro no que fala publicamente. Ou, mais diretamente: onde foi que o Brasil escolheu que teria ou uma economia no rumo certo ou representantes máximos do Executivo que não falassem tanta bobagem?

Diferentemente do caso de Roberto Alvim, em que o absurdo foi tão alarmante que causou a sumária demissão em menos de 12 horas, as chances de que algo nessa direção ocorram com Paulo Guedes tendem a zero. Talvez porque “foi só uma fala” e “ao menos os planos da economia estão indo no caminho certo”. Mas fica o questionamento: até quando vai ser suficiente utilizar o caminho da economia como subterfúgio para tantas frases que não precisavam ter sido ditas?

Não sabemos se o Presidente da República pensa sobre isso e, cá pra nós, é possível que isso tudo seja estratégia. Ainda assim trata-se de estratégia perigosa, porque se nem o fio de confiança sustentar – leia-se: se a economia seguir em lenta recuperação e não alçar os voos mais agressivos que Guedes tanto fala e a baleia harpoada seguir quase imóvel -, é difícil imaginar o que sustentaria este governo.

Segue um encarecido pedido ao Ministro da Economia: foque nos planos das reformas (a administrativa já é “na semana que vem” desde pelo menos novembro do ano passado) e deixe a comunicação, institucionalmente falando, a quem o faz com o que importa para a população de verdade. Ou então apenas siga municiando a oposição ao governo com tais “levantamentos”. A escolha é do senhor.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 14/02/2020

BREXIT APROVADO: BRITÂNICOS JÁ PODEM COMEMORAR?

Com enredo de novela mexicana (cheio de nuances, idas e vindas, mas com final feliz), a saída do Reino Unido da União Europeia finalmente ocorreu na última semana, ironicamente no final de um mês que parecia não querer acabar em 2020. A vontade do povo – com 51,89% dos votos no plebiscito em 2016 – foi finalmente atendida neste ano, após adiamentos, derrotas políticas, troca de primeiro-ministro e discussões infindáveis no parlamento britânico. Até a rainha Elizabeth II declarou que o ano havia sido conturbado, e tratava o prazo final de 31 de janeiro como prioridade número um do governo (não se esqueça que o sistema britânico ainda é o de monarquia parlamentar, que apesar de simbólico, tem muita influência na política daquela região).

Apesar do atraso na definição do tema, finalmente o resultado das urnas chegou de fato a uma definição concreta: o Reino Unido não faz mais parte da União Europeia. E com isso, algumas questões permanecem sem respostas aparentes, mas que deverão ser solucionadas nos próximos 11 meses, no qual os termos do divórcio serão implementados, que envolvem acordos comerciais, segurança, a livre circulação de pessoas, entre outros assuntos.

Relativo ao comércio, com o Brexit valendo temos o Reino Unido com permissão de fazer acordos diretos com quem quiser – o Mercosul, por exemplo, já se movimenta na direção de um possível acordo futuro. Porém, importante ressaltar que apesar dessa liberdade maior de negociar com o resto do mundo, no curto prazo de onze meses deverão ser verificados todos os aspectos do comércio com o continente logo ao lado. Parece algo “já resolvido”, mas, observando com cuidado o enorme tempo tomado apenas para que a separação ocorresse, não deverá ser algo tão trivial negociar algo tão mais complexo.

Dois breves episódios – talvez meramente simbólicos, mas que podem significar algo – demonstram como a saída comemorada pelos britânicos talvez não seja tão fácil de lidar. Nigel Farage, um dos representantes do Reino Unido no Parlamento Europeu (e líder do partido que trabalhou pelo Brexit ativamente), quando do discurso final anunciando a partida teve a ideia de levantar bandeiras nacionais para dar adeus àquela entidade e, por esse motivo, teve seu microfone silenciado por Mairead McGuinness, que tocava a sessão; como se pouco fosse, ainda ouviu dela: “tirem essas bandeiras daqui e as levem com vocês já que estão indo embora”. Curioso que, por coincidência, o microfone de Farage foi cortado bem no momento em que ele anunciava o anseio de negociação comercial “como soberanos” entre o Reino Unido e a União Europeia.

Outro caso, dessa vez mais cômico, foi o do selo postal comemorativo da Áustria. Para celebrar a saída do Reino Unido da União Europeia, uma cutucada sutil: selos postais com a data do Brexit e o mapa do continente em azul (com exceção, é claro, dos que acabaram de sair do bloco). A parte mais curiosa deste caso é que os selos já estavam prontos para serem lançados em outra data, 29 de março de 2019 – mas como veio a ocorrer mesmo em 31 de janeiro de 2020, a outra data impressa aparece riscada. Um recado bastante sincero de que a saída já era mesmo dada como certa e só se aguardava a concretização para ser celebrada.

Por falar em celebração, por mais que em algumas partes houvesse quem tenha se desapontado com a decisão, muita comemoração pela saída pode ser vista na terra da rainha. A decisão democrática do povo é soberana e foi respeitada, mesmo que tenha demorado tanto tempo e custado tanto capital político – lembremos que, nesse meio do caminho, até queda de primeira ministra tivemos (Theresa May).

Outro aspecto notável de mudança com essa saída: agora a política de circulação de pessoas também será livre. Segundo o que se levantou até então, uma das medidas a serem tomadas pelo Reino Unido será a atração de imigrantes qualificados. Essa questão também não será fácil, porque alteraria o atual fluxo mais livre de entrada de imigrantes ao qual a União Europeia está acostumada.

Nesta coluna você deve ter verificado como acompanhamos a saga do Brexit em alguns momentos diferentes. Foram três artigos: um sobre as incertezas que esse evento acaba por gerar, um segundo apresentando que mesmo caso não se concretizasse já teria causado instabilidades irreversíveis e um terceiro, de outubro de 2019, questionando se finalmente a complicada saída seria enfim concretizada. De fato, como nos artigos que já tivemos aqui no Blog da Guide a respeito do assunto, há incertezas em jogo, o balançar de tabuleiro político faz com que algumas marcas não possam mais ser desfeitas e, agora, há um agravante: os onze meses para que as mudanças sejam acordadas realmente são o prazo final (uma vez que o Reino Unido já se encontra fora da União Europeia e, dessa vez, não há adiamento).

No final das contas, reforça-se, a vontade do povo foi soberanamente respeitada. Resta saber, nos próximos meses, o quanto a comemoração pelo alívio da saída terá valido a pena em melhorias reais quando se concretizar por completo a partir de 2021.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 03/02/2020

POR QUE É TÃO DIFÍCIL POUPAR?

Assunto dos mais ásperos, dinheiro costuma ser aquele tópico que cria rodas de conversas logo que se inicia. Talvez não quando o tópico é a faixa salarial (possível motivo de alegria), mas certamente quando tratamos dos gastos – e ainda mais quando falamos do quanto se consegue ou não poupar/investir.

Pesquisa recente do SPC Brasil em parceria com a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas aponta que 67% dos brasileiros não conseguem poupar. Entre as justificativas para isso, 40% alegam terem uma renda muito baixa, 18% terem sido surpreendidos por algum imprevisto financeiro, 15% citaram reformas em andamento e apenas 13% admitiram o descontrole das próprias contas.

Esse tipo de pesquisa tem como base as respostas das pessoas e, no fim das contas, são esses os dados registrados. Porém, a parte áspera e que não costuma ser tratada é o fato de que nós, brasileiros, não somos educados financeiramente. Você, leitor, terá sorte se teve alguma conversa sobre orçamento e educação financeira na escola em que estudou ou mesmo com seus pais – e notará com uma simples pesquisa de opinião entre os seus que, se for esse mesmo seu caso, trata-se de exceção à regra.

A educação financeira, que parece algo recente e para “gente que tem dinheiro” na verdade é algo que considera algo muito simples, direto, mas que muitos simplesmente torcem o nariz ao lembrarem: os recursos são escassos e, como o orçamento é um recurso financeiro, ele também tem limite. Assim, esses limites forçam escolhas que precisam ser feitas ao longo do tempo. A lógica é básica, mas o entendimento pleno desse conceito ainda está bem distante.

O primeiro passo para compreender qual a real situação financeira de uma pessoa é fazer um diagnóstico para tentar entender onde ela se encontra. Ela tem dívidas? Se não as tem, pelo menos gasta menos do que ganha? Se já faz isso, tem algum dinheiro separado como reserva de emergência? Caso já tenha essa cobertura extra, como investe o dinheiro excedente a cada período?

A parte mais polêmica dessa análise vem justamente em relação aos gastos. Aparentemente, em um primeiro olhar, todas as pessoas têm certeza de que todos os desembolsos que realiza em todos os períodos fazem parte da necessidade – mesmo em se tratando de itens que não use em sua totalidade e possam ser reduzidos. Não se trata aqui daquela “técnica milenar de cortar o cafezinho e ficar rico”, mas sim de realmente observar o caminho que seu dinheiro percorre após chegar até você. Quanto tempo você pensa na satisfação que um gasto te dará? Se não pensa, saiba que não tomar uma decisão quanto a isso é tomar a decisão de, eventualmente, estar desperdiçando dinheiro.

Um hábito positivo que pode ser nutrido é o de focar na compra de ativos em vez de passivos. Essa “técnica” é descrita na clássica obra de finanças pessoais de nome Pai Rico, Pai Pobre e trata justamente de um meio interessante de alocar seus recursos ao longo do tempo. Contraintuitivamente, adquirimos mais bens que nos dão gastos (passivos) do que bens que nos trazem receitas (ativos). E isso, ao longo da vida, faz muita diferença.

O hábito de poupança do brasileiro médio poderia ser muito reforçado com uma expansão real dos meios de educação financeira. Se é possível acreditar em revolução, essa seria uma delas.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 04/10/2019

Os sete erros de Paulo Guedes

“No início do ano, a projeção de crescimento da economia brasileira era de 2,5%, mas agora o Ministério da Economia estima apenas 0,8%, contrariando as próprias expectativas.

Fatores externos contribuíram para a deterioração deste quadro, como a guerra comercial entre China e Estados Unidos, a desaceleração da economia global e o provável retorno do Kirchnerismo na Argentina. Porém, é possível apontar erros internos da equipe econômica do governo Bolsonaro.

À frente do Ministério da Economia, Paulo Guedes protagonizou diversos acertos: embora muitas sejam apenas a conclusão de processos iniciados pela equipe de Michel Temer, foram listadas 68 ações concluídas até aqui. Entre elas, a elaboração de um projeto de reforma da previdência mais robusto do que o encaminhado pelo governo anterior, a Lei da Liberdade Econômica e planos ambiciosos de privatização de estatais.

Porém, há também muitos pontos a serem criticados em sua atuação: listamos 7 deles.

1) A promessa de zerar o déficit primário ainda em 2019
Desde a campanha eleitoral Guedes passou a vender uma promessa que já nasceu morta: a de que seria capaz de equilibrar as contas públicas da União já em 2019.

Desde 2014 o governo federal é incapaz de gastar menos do que arrecada, fechando 2018 com um déficit de R$ 120,3 bilhões. A previsão do rombo deste ano é de R$ 105,919 bilhões.

Para conseguir fechar no azul, seria preciso ter receitas extraordinárias, como privatizações. A despeito da venda da BR Distribuidora, que arrecadou R$ 8,6 bilhões e da divulgação da lista de estatais que o governo estuda vender até 2022, os valores não devem ser suficientes diante do problema fiscal brasileiro.

Outra receita extraordinária que pode ajudar a melhorar a situação fiscal é o megaleilão de petróleo do pré-sal, agendado para 6 de novembro: o valor estimado é de R$ 106,6 bilhões. Porém, ele será repartido com a Petrobras. Além disso, por se tratar de receitas extraordinárias, o resultado poderia ajudar no resultado fiscal em 2019, mas não resolve o rombo dos anos seguintes.

O próprio Secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida admite que as contas devem ficar no vermelho até 2023. Isso significa que, ao contrário do prometido por Guedes, o Governo Bolsonaro não apenas será incapaz de entregar um superávit primário em seu primeiro ano de mandato, mas não fechará com as contas no azul em nenhum dos outros quatro anos.

2) Vender “R$ 1 trilhão em imóveis”
Paulo Guedes afirmou em agosto de 2018 que conseguiria R$ 700 bilhões a partir da venda de cerca de 700 mil imóveis da união.

O discurso foi endossado por sua equipe. Segundo afirmou em fevereiro seu secretário de Desestatização Salim Mattar, o governo federal tem “cerca de R$ 1,1 trilhão em imóveis para serem vendidos”.

Atualmente a União tem cerca de 3,8 mil imóveis sem utilização efetiva, sendo que muitos estão em estado de abandono.

De acordo com o secretário de Coordenação e Governança do Patrimônio da União, Fernando Bispo, foram arrecadados apenas R$ 18,45 milhões até aqui em 2019. Foram feitas duas concorrências públicas, uma não contou com participantes e na outra vendeu-se apenas um dos três imóveis ofertados.

Ele projeta que ainda é possível arrecadar R$ 1 bilhão em 2019, e outros R$ 36 bilhões até o final de 2022. Se houver sucesso em seu plano, obterá R$ 37 bilhões em 4 anos de governo, 5% do número anunciado por Guedes.

3) Privatizar R$ 1 trilhão em estatais
No período da campanha, Guedes afirmou que conseguiria entre R$ 700 a 800 bilhões a partir da venda de participação do governo nas estatais.

Após assumir o Ministério da Economia, suas projeções aumentaram: R$ 1,25 trilhão para os cofres públicos.

A realidade, porém, é bastante diferente. Até aqui, foram privatizadas quatro empresas: a BR Distribuidora, a Stratura Asfaltos, a BB Turismo e a TAG. Todas elas tiveram o início de sua privatização no Governo Temer.

Na relação anunciada pelo governo federal, há 15 estatais que podem ser vendidas até o final do mandato. Enquanto isso, há outras 115 que ainda não estão nos planos.

Mesmo empresas deficitárias e dependentes de aportes do Tesouro Nacional não tiveram a venda cogitada.

É o caso de 8 estatais que anualmente dão prejuízo superior a R$ 12 bilhões: a Ebserh, que gerencia hospitais universitários; o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA); o Grupo Hospitalar Conceição (GHC); a Embrapa, empresa de pesquisa e desenvolvimento na área da agropecuária; a Amazul, que busca desenvolver tecnologias nucleares; a Emgepron, estatal de projetos navais; a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM); e a Imbel, que é fabricante de armas.

A Embrapa é reconhecida por excelência em pesquisas, e sua privatização tende a ser dificultada por seu modelo de negócios (pesquisa). Acaso fosse extinta, haveria falta de serviços que atualmente são prestadas pela empresa. No caso das demais, porém, a não privatização é controversa.

Há outros casos polêmicos que não estão na relação atual para serem privatizadas. A EBC, conhecida como a “TV do Lula”, cuja venda foi uma promessa de campanha, foi retirada da lista.

Mesmo estatais historicamente ineficientes, como a Valec, não devem ser privatizadas. A empresa pública demorou 26 anos para executar as obras da Ferrovia Norte-Sul, que liga Açailândia (MA) a Estrela d’Oeste (SP). Foram construídos 1.150 km no período, uma média inferior a 45 km por ano. Além disso, a Valec conseguiu operacionalizar apenas o trecho entre Açailândia (MA) e Porto Nacional (TO).

Antes de completar 100 dias de governo, o Secretário de Desestatização Salim Mattar declarou estar “frustrado” com o andamento dos trabalhos.

Para completar, mesmo uma empresa estatal criada no governo Temer teve dedo do governo Bolsonaro. Criada “foi criada uma nova estatal. Criada a partir de Medida Provisória a 11 dias ao final do governo Temer, a NAV Brasil surgiu de uma cisão da Infraero e será responsável pelo controle aéreo.

Porém, a base do governo Bolsonaro na Câmara trabalhou para a aprovação de sua criação. O líder do governo na Casa, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), afirmou que o objetivo é evitar que haja um “apagão” na navegação aérea. Apesar disso, ele reafirmou que o governo Bolsonaro “é liberal e tem compromisso com a diminuição do Estado”.

A prática até aqui se mostra muito distante da promessa de trilhão em privatizações.

4) Não cortou subsídios
O Brasil é uma das economias mais fechadas comercialmente do mundo. Levantamento da Inter B Consultoria, com base em dados do Banco Mundial, mostrou que a média de participação do comércio exterior em relação ao PIB entre 2009 e 2015 foi de 24%, estando o país atrás somente de Myanmar, com 22%. A média global é superior ao dobro: 51,3%.

O isolacionismo comercial é considerado o principal fator para que o Brasil seja apenas o 61º colocado entre 63 países do ranking de competitividade global, pois inibe o aumento de produtividade.

Desde que assumiu a pasta da Economia, Guedes promoveu avanços, como o fim da taxação para 2.367 produtos e iniciar negociações para acordo de livre comércio com México.

Mas durante a participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o Ministro da Economia estimou que cortaria os subsídios e o protecionismo brasileiro em cerca de R$ 10 bilhões.

O anúncio gerou mal estar com a Ministra da Agricultura Teresa Cristina, e acabou não avançando até aqui.

5) Ausência de projeto de reforma tributária
No início do governo, Paulo Guedes afirmava que sua equipe econômica apresentaria proposta de reforma tributária na Câmara dos Deputados assim que a reforma da previdência fosse aprovada.

A aprovação em primeiro turno ocorreu em 12 de julho, e em segundo turno logo após o recesso parlamentar, em 7 de agosto. Apesar disso, nenhum projeto foi apresentado até o momento.

A última previsão dada por Guedes ocorreu na última segunda (23) em evento promovido pelo Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte: “Semana que vem acho que a gente já começa a entrar com a nossa proposta tributária”.

Isso significa uma demora de 9 meses para a elaboração da proposta do governo.

Enquanto isso, tramitam propostas de reforma tributária tanto no Senado quanto na Câmara. O relator da comissão especial da Câmara Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) deve apresentar seu parecer em 8 de outubro.

6) Perda de tempo ao propor nova CPMF
Ironicamente, tal como Dilma Rousseff propôs no início de seu segundo mandato, Paulo Guedes defendeu a recriação de um imposto sobre transações financeiras, aos moldes da extinta CPMF.

O Ministro chegou a afirmar que um valor baixo na alíquota “não provocaria tantas distorções”. Porém, entre as alíquotas especuladas, chegou-se a falar em 0,6%, quase o dobro da CPMF.

Contudo, tributaristas enumeraram diversos riscos de um tributo sobre. O colunista da Gazeta do Povo Guido Orgis a definiu de “pior ideia da equipe econômica”.

O imposto sobre transações incidem em cascata, ou seja, em cada etapa do processo produtivo. Assim, ele criaria uma distorção na produção de bens mais sotisficados e com cadeias longas, o que desestimularia ganhos de produtividade.

Além disso, ele incentivaria a desbancarização de operações, ainda mais em um contexto de popularização de criptomoedas.

Por fim, é um imposto regressivo socialmente, com os mais ricos pagando os mesmos valores proporcionais que os brasileiros de menor renda.

A defesa pela “recriação da CPMF” fez cair o Secretário da Receita Federal Marcos Cintra a mando de Jair Bolsonaro, mas Guedes também a defendia e pode não ter desistido totalmente da ideia.

7) Insistência em desoneração da folha de pagamentos
Apesar do resultado positivo em mais de meio milhão de empregos formais desde o início do ano, segundo o IBGE o desemprego no Brasil ainda atinge 12,6 milhões de pessoas.

Para tentar acelerar a geração de empregos, Paulo Guedes tem uma ideia fixa: a de que desonerar a folha de pagamentos incentivará a criação de novas vagas no mercado uma vez que as contratações formais ficariam mais baratas.

Mas a relação entre desonerar a folha de pagamentos e gerar mais oportunidades não é tão simples.

Estudo feito pelo professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts Jonathan Gruber analisou os efeitos desta política no Chile: houve redução de tributos médios sobre a folha de 30% para 5% ao longo de seis anos. Com o corte drástico, os trabalhadores chilenos que já estavam empregados foram beneficiados com reajustes salariais, mas não houve aumento de empregos.

No primeiro governo de Dilma Rousseff houve desoneração da folha de pagamento também para alguns setores. Porém, segundo conclusão de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não houve efeitos da política sobre o volume de empregos.

Curiosamente, um dos pesquisadores hoje integra a equipe econômica de Paulo Guedes: o economista Adolfo Sachsida hoje é Secretário de Política Econômica.

Além das evidências indicarem não gerar empregos, a política de desoneração da folha salarial pode aumentar o déficit fiscal, aquele mesmo que Paulo Guedes prometeu resolver ainda em 2019, mas que não deve ser alcançado antes de 2023.

Especialistas elogiam preparo equipe econômica, mas com ressalvas
Para o economista e Editor do Terraço Econômico Caio Augusto, Paulo Guedes é capacitado, sabe do que fala, mas exagera em dados (“quando não tira alguns da cartola”, diz). “Nesse sentido, o Henrique Meirelles (Ministro da Fazenda do Governo Michel Temer) era muito mais articulado e capaz”, compara.

Já para o economista Gabriel Brasil, Guedes está sendo pressionado porque prometeu muito sem apresentar um plano. “O episódio da CPMF e a reforma tributária mostram bem isso: ele tem uma agenda relativamente clara (liberalização, privatizações, desburocratização), mas peca na materialização dela”, afirma.

Brasil analisa que há uma lentidão na execução da agenda de Guedes e também um “diagnóstico meio reativo”, isto é, que muda a todo instante: “Por exemplo, no meio do caminho decidiram que precisavam aquecer a demanda, então liberaram uma parte do valor das contas do FGTS. Então há um diagnóstico reativo e uma execução errática de um plano que nunca esteve pronto”, complementa.

Já Augusto critica o fato de Guedes, para ele, se exceder nos confrontos no debate público. “Serve em alguns aspectos para dar uma chacoalhada na opinião pública sobre temas relevantes, mas não pode ser a única estratégia. Seria muito mais útil que ele focasse seus esforços de articulação em explicar os porquês das reformas ao invés de brigar com quem discorda delas”, afirma.

Para o economista, o problema dessa estratégia é que as declarações polêmicas chamam mais atenção do que aquelas que “realmente interessam”. “A equipe é boa e capacitada, mas precisa ter maior foco nas ações do que nas ideias. Não podem se perder acreditando que tem as melhores ideias do mundo, principalmente porque, tal qual vimos com a Dilma, quando você acha que tem as melhores ideias do mundo talvez você comece a ficar surdo para a razão”, afirma. “Um Paulo Guedes mais Tarcísio de Freitas cairia muito bem: mais ações e menos discursos inflamados”, complementa.”

Opinião concedida a um artigo de Luan Sperandio na Gazeta do Povo, publicado em 01/10/2019

SEMANA DO BRASIL: A BLACK FRIDAY VERDE AMARELA

A Semana do Brasil, idealizada pelo governo via Secretaria Especial de Comunicação Social (SECOM) e com apoio de mais de 4.500 estabelecimentos comerciais em todo o território nacional, chegou ao fim no último domingo, dia 15/09. Ao longo de 10 dias, várias lojas e empresas deram descontos na compra de mercadorias, produtos, imóveis e até condições especiais em investimentos. A ideia era recriar o ambiente propício para compras, assim como ocorre na Black Friday americana, aproveitando-se de um feriado nacional (dia de ação de graças); no caso brasileiro, a comemoração do 7 de setembro.

Os resultados finais da Semana do Brasil, embora tímidos, mostram futuro promissor. Nos 5 primeiros dias (6 a 10 de setembro), as compras via e-commerce totalizaram R$ 1,1 bilhão, com um crescimento nominal de 37% se comparado com o mesmo período do ano passado. Se descontado o crescimento natural do canal digital, o aumento chega próximo a 10%. Quanto aos segmentos mais procurados, destacam-se os cosméticos (19,8%), móveis e eletrodomésticos (12,6%), supermercados (4,5%) e vestuário e artigo esportivo (6,1%).

Apesar dos números expressivos, os valores observados na primeira edição da Semana do Brasil ainda são uma fração bem pequena da própria Black Friday, que ocorre em novembro, e que movimentou R$ 2,9 bilhões de reais no comércio eletrônico em 2018. Ou seja, apenas um dia resultou em mais do que o dobro da soma dos 5 primeiros dias da Semana do Brasil, o que é um resultado absolutamente normal, tendo em vista a consolidação da data no calendário de compras. Nos EUA, para se ter uma ideia, tem vendas online na faixa de R$ 25 bilhões, mais de 8 vezes o observado em terra brasilis. Afinal, poucos sabem jogar o jogo do consumo como os amigos do Tio Sam.

BLACK FRIDAY X SEMANA DO BRASIL
Algo que deve ser observado é que existe no Brasil uma diferença notável entre o perfil de consumo em relação aos EUA. Embora nos dois países existam datas comemorativas que aumentem o consumo, temos por lá uma distribuição maior do consumo durante o ano, enquanto, por aqui, essas datas servem como estímulo a uma criação desta cultura. Sinal disso é que as datas comemorativas por aqui têm ficado mais próximas (repare que, além de dia das mães, namorados, pais, natal e crianças, apenas nos últimos anos tivemos o advento da Black Friday e agora da Semana do Brasil).

A própria Black Friday, aliás, é um momento em que os estoques precisam ser baixados para que cheguem os que terão foco de venda no natal norte-americano. Diferente do modelo brasileiro (ao menos no tocante aos anúncios sobre essa questão, que tratam o caso como sendo uma oportunidade valorosa como em qualquer outra época do ano).

O padrão de consumo do brasileiro é, historicamente, atraído pelo modelo dos americanos, possivelmente como um efeito que vem sendo carregado desde nosso primeiro alinhamento mais firme com o Tio Sam, durante a segunda guerra mundial. Àquela época, as chamadas “sobras de guerra” (materiais de todo tipo produzidos por lá) vinham parar aqui – algo que começou no Estado Novo de Vargas e foi fortemente impulsionado por Dutra (e que, por mais que tenha diminuído ou bastante atacado mais adiante, nunca deixou de ser inspiração).

Um esforço mais direcionado por parte do governo em direção às melhorias da economia que envolva a atitude da iniciativa privada é louvável. De acordo com a ótica da despesa do PIB, o crescimento pode vir de uma das seguintes formas: exportações líquidas (o agro sustenta a renda, mas não é capaz de expandi-la indefinidamente), gastos do governo (dívida alta, carga tributária sufocante e perigo inflacionário caso não controle o fiscal mostram que aqui não há fôlego), consumo das famílias (endividamento e desemprego ainda altos) e investimento (ganhos ocorrem de maneira não instantânea). Na parte dos investimentos, temos um trabalho produtivo ocorrendo por parte do Ministério da Infraestrutura de permitir que a iniciativa privada faça o que o Estado não tem mais dinheiro para fazer e, pelo lado do consumo, o governo tem dado esse apoio.

Importante notar que, dentre os itens que levam ao avanço do PIB, o que tem mais foco de desenvolvimento sustentável é o investimento, que acaba por pavimentar as condições básicas de se fazer negócios (modais de transporte mais eficientes farão maravilhas neste país em termos de integração, redução de custos e aumento de possibilidades empresariais). Porém, levando em consideração ser possível não envolver um necessário aumento da despesa do governo para tocar esse tipo de programa – veja que, nesse caso, não há liberação de crédito, corte de imposto e nem nada parecido -, temos aqui uma medida positiva.

Unindo esse tipo de iniciativa (a Semana do Brasil) ao fato de que o FGTS será liberado por esses tempos e também ao observado de que tivemos uma surpresa positiva no PIB do segundo trimestre de 2019 (com os investimentos em ascensão e o consumo também), é possível afirmar que a recuperação econômica já está em curso – de maneira consideravelmente mais lenta do que muitas previsões (e ainda teremos um crescimento abaixo de 1% neste ano), mas, sem dúvidas, já está em curso.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 17/09/2019

AMAZÔNIA EM CHAMAS: ATRITOS POLÍTICOS E IMPACTOS ECONÔMICOS

Amazônia queima: uma pauta recente e dominante na mídia nacional e internacional. Os dados sobre o desmatamento causado pelas queimadas foram amplamente discutidos e diversas vezes questionados. Os “pulmões do mundo” (uma analogia cientificamente incorreta) estavam em apuros, disse o presidente francês, Emmanuel Macron. Jair Bolsonaro, seu par em terras tupiniquins, falou de ONGs e polemizou, como é de costume. Apesar do ruído envolvido nesse debate, uma coisa é certa: política ambiental importa e afeta diplomacia, comércio e negócios.

Estamos tratando de um evento significativo. Em termos territoriais, o fogo se estendeu por parte do Amazonas, Acre, Rondônia e Mato Grosso do Sul. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), aproximadamente 10.000 novos focos de incêndio foram identificados desde 15 de agosto. Isso desencadeou uma série de debates foram travados a respeito desses dados, mas tivemos também os desdobramentos econômicos e políticos.

Falando sobre diplomacia e comércio internacional, duas das figuras mais vocais sobre o tema foram Emmanuel Macron e Leo Varadkar (este, primeiro-ministro da Irlanda). Segundo eles, a desastrosa condução da política ambiental brasileira pode até mesmo comprometer o acordo comercial Mercosul-União Europeia. As obrigações ambientais do Brasil estão estipuladas, dentre outros lugares, no Acordo de Paris, mais um motivo de atrito diplomático no passado recente do Executivo.

Para além dos efeitos ambientais negativos observados, temos também impactos econômicos já em tramitação. Boicote de empresas, pressão dos grupos agro para adequação às melhores práticas diante de ameaças ao acordo com UE – trabalho de imagem que já vem sendo realizado há um bom tempo e pode ficar arranhado com a postura atual do governo – e desgaste diplomático internacional já são observados. Se por um lado estamos buscando fazer a lição de casa com as reformas, parece que a cortina de fumaça que se cria com polêmicas desnecessárias praticamente todos os dias acaba abafando os lentos avanços observados.

Como se não bastasse todo esse desgaste econômico, Jair Bolsonaro acabou travando uma batalha particular com Emmanuel Macron através da mídia. O francês, inclusive, capitaneou um esforço explícito pelas florestas brasileiras: o G7 (grupo composto por Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia) se dispôs a fornecer £18 milhões para combater as queimadas. Contudo, o governo brasileiro rejeitou a oferta. O presidente Bolsonaro reafirmou sua posição diante do “rival” ao sinalizar que a proposta compromete a soberania nacional. Ao invés disso, preferiu enviar cerca de 40 mil soldados para as florestas, em busca dos criminosos responsáveis pelas queimadas.

Importante ressaltar que, como fato, há diversos ângulos. Não devem ser desconsiderados o fato de existir certa pressão na França por parte dos agricultores a respeito do recente acordo Mercosul-UE (e talvez essa causa seria um “empurrão a mais” para dizer que isso não seria boa ideia) e nem o ponto levantado por Macron sobre a internacionalização da Amazônia (o que, dentre muitos outros aspectos, feriria nossa soberania nacional de alguma maneira). Ah, e claro, como estamos falando de uma questão também política, há popularidade envolvida – e a impopularidade de Macron, que andava em alta, se reduziu após tal postura.

Se por um lado a aproximação do G7 foi rechaçada, os laços entre Brasil e alguns dos países latino americanos se estreitam: foi firmado um pacto pela proteção das florestas. Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname compõem a aliança com o Brasil e propõem medidas educacionais e uma maior participação das comunidades indígenas na preservação da floresta amazônica.

Em suma, a questão toda poderia ter sido tratada com maior rigor e menor negação dos dados. É realmente lamentável que em pleno 2019 tenhamos um rechaçamento à ciência neste nível – “já que não mostra o que eu quero, discordo quebrarei o termômetro, dane-se a febre”. Teria sido muito mais direto colocar em ação os recursos disponíveis assim que fosse descoberto o aumento nas queimadas. Entretanto, não podemos negar os diversos interesses internacionais existentes. No fim das contas, uma questão em que as polêmicas dominaram mais do que as ações concretas.

Que se foque na Amazônia com o respeito que ela merece – e que se foque menos nos egos exaltados ou feridos nesse “salvamento dos pulmões do mundo”.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 13/09/2019

PIB 2019: MENSAGENS DO SEGUNDO TRIMESTRE

Recentemente tivemos a divulgação do PIB do segundo trimestre de 2019: 0,4% de avanço em relação ao trimestre anterior. Grande avanço? Ritmo de parada? Há, na verdade, pontos a se comemorar e outros a se lamentar.

É sabido amplamente que, da virada entre 2018 e 2019 até hoje, as previsões para o PIB 2019 derreteram. Houve quem apontasse que neste ano cresceríamos pelo menos o dobro do que no ano anterior, 1%, e alguns diziam que poderia ser até o triplo. Essa reversão de expectativas trouxe, para as edições mais recentes do Boletim Focus, uma previsão de que nossa economia tenha acréscimo ao redor de 0,85% neste ano.

Porém, nem só de más notícias vive nossa recuperação econômica após a maior crise já registrada em terra brasilis. Esse resultado trimestral nos traz boas notícias, tais como: a décima alta trimestral seguida no consumo das famílias, formação bruta de capital fixo (investimentos) teve um aumento pela primeira vez após duas quedas seguidas e uma surpresa positiva pela indústria e pela construção civil. O setor de serviços continua a segurar o crescimento, enquanto o agro e a indústria pouco interferem.

Especificamente no tocante a construção civil, temos que seu crescimento é importante porque, em se tratando de um setor intensivo em mão-de-obra e em uma situação ainda muito complicada de desemprego em dois dígitos, a aceleração desse setor pode significar um arrefecimento mais intenso do desemprego no país.

Estamos saindo a passos lentos da maior crise econômica da história do Brasil. Mas, por mais que não seja o ritmo de retomada igual ao previsto por alguns economistas, não dá para negar que o fundo do poço está ficando cada vez mais para trás. Ainda bem.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 03/09/2019

OI: DO SONHO AO PESADELO

Oi é uma daquelas empresas cuja história se confunde com a do seu próprio país de origem. Idealizada para ser uma ‘supertele’, nasceu da fusão da Telemar e a Brasil Telecom, e contou com bastante recurso público, como foi o caso da participação societária do BNDESpar, linhas de financiamento a juros subsidiados oferecidos pelo BNDES e Banco do Brasil, além de participações financeiras consideráveis de fundos de pensão de empresas públicas, do Banco do Brasil (Previ), Caixa (Funcef) e Petrobrás (Petros). Eleita uma ‘campeã nacional’, nos moldes dos governos desenvolvimentistas de Lula II e Dilma I, a Oi conseguiu dinheiro barato e tempo para fazer frente aos seus competidores.

A Oi teimava em ficar apenas na quarta posição na telefonia móvel e o mercado de telefonia fixa minguava com um todo. A operação de fusão com a Portugal Telecom em meados de 2013 foi um total fiasco, tendo apenas adicionado acionistas que não viam o resultado melhorar. Além disso, operações de compra de empresas estrangeiras, como foi o caso da Unitel em Angola, regados à recurso público, adicionaram dívida para a companhia e diversos problemas judiciais, que queimavam caixa.

E os tão esperados resultados positivos não vieram. Desde 2014, conforme mostra o gráfico abaixo -, a Oi destrói valor a uma velocidade impressionante. Tirando o efeito positivo em 2018 provocado pela aprovação do processo de Recuperação Judicial, o resultado operacional dos outros anos é uma verdadeira catástrofe corporativa. As ações da empresa (OIBR3) anteciparam a derrocada financeira da companhia e já iniciaram queda livre a partir de 2013/2014, chegando aos incríveis (e impensáveis) R$ 1,00 da última segunda-feira (19/08/2019).

*Resultado dos últimos 4 trimestres. Fonte: ADVFN (https://bit.ly/2HfP91f)

Sobre a história da companhia, podemos dizer que a Oi faz parte de algo que podemos chamar de “processo de melhoria notável que poderia ter sido ainda melhor”. Esse processo é a privatização das telecomunicações no final dos anos 1990, durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Embora tenha aumentado enormemente a base telefônica do país (de cerca de 17 milhões de linhas fixas e menos de 5 milhões de móveispara atuais quase 230 milhões de linhas móveis), o desenho da desestatização deixou a desejar porque permitiu concentração de mercado posterior.

Em processos de desestatização, o Estado deixa de ser o provedor para ser o regulador dos mercados. Ideia positiva, dentre outros motivos, porque a competição permite benesses que o setor público, com seus monopólios, estava longe de conseguir. Porém, no momento da venda das empresas públicas para a iniciativa privada, permitiu-se a possibilidade de concentração de mercado em poucas empresas. Por mais que mercados que demandam economia de escala acabam tornando-se concentrados, um desenho que encaminhe uma maior pulverização poderia amenizar o efeito de perda de excedente dos consumidores aos produtores.

Analisando com olhar mais atento, muitos setores que fizeram essa transição do público ao privado nos anos 1990 passam pelo mesmo problema hoje. A expectativa é de que o desenhar das desestatizações do atual governo seja mais adequado e que possamos ver cada vez menos tais situações.

Na Oi, a união de más medidas de gestão com uma quase manutenção de status público – dada a participação de empréstimos e capital públicos, além da própria intenção de se ter uma tal Supertele, focando mais em “investimentos amigos” do que investimentos rentáveis – faz com que a empresa seja um notável exemplo de fracasso retumbante.

E os números mostram isso, sem nenhuma sombra de dúvida. Pobre dos acionis… credores da companhia.

 

Artigo publicado no Blog da Guide Investimentos em 20/08/2019