Dicas financeiras: não é força, é jeito!

Este artigo começa fazendo uma mea culpa. Se em algum momento a coluna Dinheiro no Terraço deu a entender que a tarefa de mudar os rumos financeiros de sua vida era “para qualquer um” ou “sem dificuldades”, pedimos nossas sinceras desculpas.

Em um post recente de nosso editor Arthur Solow, a temática do “apenas os incapacitados não conseguem acertar a vida financeira e virar um sucesso” foi colocada em xeque. Recebemos, nesta postagem (que foi feita em nosso Instagram), um comentário que nos chamou bastante atenção e motivou o presente artigo. Eis o comentário:

Um fator não havia sido abordado até então nesta coluna: a adaptabilidade à regras de bolso do mundo das finanças pessoais dependem muito do momento em que você está vivendo. Na prática, isso não permite que todo mundo seja um sucesso financeiro apenas seguindo simples passos, como alguns gostam de falar.

É absolutamente normal que você esteja numa situação fora dos parâmetros ideais e descritos por diversos desses manuais. Você pode estar no meio de uma pós-graduação (o que consome mais de seu orçamento, mas por um bom motivo), talvez esteja momentaneamente desempregado (consumindo reservas caso as tenha formado nos anos anteriores), acabou de se mudar para um novo emprego e está se adaptando. São incontáveis as situações que mostram como o “qualquer um consegue” é de pouca sustentabilidade.

Para além de formar reserva financeira e garantir um futuro mais confortável para você e seus familiares, é preciso sempre parar para refletir e aproveitar os momentos da vida, algo que passa tão rapidamente.

Percentuais e dicas fechadas são um conjunto de ideias, mas o que vale mesmo é a essência básica das finanças pessoais: ao longo do tempo, verificar como o dinheiro lhe tem sido útil para todas as suas atividades. Extremos de “não ligo para o futuro então me endivido o máximo possível” e “poupo tanto que não faço nada com meus amigos e familiares” são perigosos. Aliás, como dizem os mais antigos, “tudo em excesso é prejudicial”.

Com nossa coluna e nosso conjunto de dicas não esperamos que você mude seus hábitos a ponto de um dia se arrepender. Nossa ideia aqui não é servir como aquele esquema de dieta em que, como diria Tim Maia, após passadas duas semanas você apenas percebe ter perdido 14 dias. O ponto aqui é gerar uma reflexão a respeito do que fazemos com nossos recursos financeiros e onde nossas ações de hoje poderão nos levar amanhã.

Pensar a vida em perspectiva é o ideal. Não há mágica curto-prazista que te leve até um futuro encantado de independência financeira e está longe de ser correta a afirmação de que “se você não faz como eu faço, está logicamente errado”. Mas, novamente, o importante é conseguir ter clareza sobre as atitudes tomadas a respeito de algo que, paradoxalmente, muito nos tira o sono quanto menos tempo nos dedicamos com seriedade a ele.

Viva a sua vida hoje. Pense no futuro, mas viva o hoje. Ninguém está sentado na sua cadeira — e é tão responsável — por seu futuro financeiro, familiar e social quanto você mesmo.

Caio Augusto e Arthur Solow, editores do Terraço Econômico, assinam este artigo

 

Artigo publicado no Terraço Econômico em 12/08/2019

FGTS: O último a sair apague a luz – e use-o com responsabilidade

Assim como no governo Temer com a equipe capitaneada por Henrique Meirelles, o atual Ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes, está para anunciar uma liberação de recursos do FGTS para saque em possibilidades além das atuais. Independente do valor que será liberado no fim das contas, há uma reflexão que deve ser feita por quem tiver recursos disponíveis: não faz sentido deixá-los como estão atualmente.

O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, famoso FGTS, faz parte do famigerado grupo de ditos direitos inalienáveis do trabalhador. Em teoria, seu objetivo principal é o de fornecer uma salvaguarda ao trabalhador em tempos difíceis (como na ocasião de demissão), de auxílio para a realização de um sonho (como o de comprar a casa própria), ou então para a aposentadoria. Na prática, o FGTS é uma poupança realizada compulsória e mensalmente direto do salário de todo trabalhador registrado sob regime da CLT (no montante de 8% de seu salário), tendo como premissa que o Estado deve garantir que o trabalhador poupe uma parte de sua renda, que então ficará sob a tutela não própria, mas do Estado em si.

Como esperado, há grupos que apoiam de maneira ferrenha a existência do FGTS e outros que o encaram como apenas mais uma obrigatoriedade imposta ao trabalhador brasileiro, e ao próprio empregador – contribuindo assim para o aumento do chamado “custo Brasil”. Enquanto os primeiros defendem o fundo por sua contribuição à investimentos em habitação, saneamento básico e infraestrutura, críticos ao FGTS argumentam ser escolha do trabalhador o que fazer com seu salário, não havendo a necessidade da tutela do estado.

Para aqueles que vos falam, acreditamos ser muitas vezes do equilíbrio entre extremos que se encontra o segredo para boas políticas públicas. De acordo com uma pesquisa recente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima), um total de 58% dos brasileiros não possuía nenhum investimento financeiro em agosto de 2018, dentre os quais apenas 9% tinham feito algum aporte financeiro ao longo do ano anterior. Dos 42% que não poupavam, 10% o faziam por escolha, declarando preferir viver o presente e se preocupar mais tarde com o futuro, enquanto 25% dizia poupar apenas quando sobra no final do mês.

É claro que há diversas famílias vivem no limite, sem conseguir poupar nem uma parcela mínima do orçamento mensal. Porém, a realidade é que o brasileiro poupa pouco, o que todos sabemos não ser positivo nem para a economia como um todo (que possui então uma baixa taxa para investimentos produtivos), nem para o próprio trabalhador, que deve ter uma reserva para cobrir potenciais emergências, e, claro, para quando não puder mais trabalhar.

E é essa realidade que ilustra o benefício de políticas públicas que estabeleçam uma forma de poupança compulsória em países como o Brasil, onde educação financeira ainda é infelizmente privilégio de poucos.

Porém, é importante destacar o outro lado da moeda guardada a sete chaves no FGTS – seu baixíssimo rendimento. Nos últimos anos, o rendimento das aplicações no FGTS tem sido superado não somente pela inflação, mas por investimentos dos mais simples, como a poupança. Mesmo sob as novas regras estabelecidas no ano passado, um trabalhador com o salário de R$1.500 ao mês teria um rendimento de apenas R$98 em um ano (com base no resultado do FGTS de 2015), valor superável por diversos investimentos de complexidade não tão elevada.

Desta forma, julgamos acertada a decisão do governo da liberação de parcela do FGTS ao trabalhador brasileiro, dado o momento de alta inadimplência, baixa atividade e reduzido consumo – e diante de regras de gerenciamento que levam a rendimentos particularmente baixos.

Porém, do ponto de vista do trabalhador (e leitor do Terraço Econômico), o que então fazer com esse dinheiro?

O que se indica a fazer dependerá do estágio em que você se encontra, dentre os que serão apresentados a seguir: endividado, sem dívidas e sem reserva de emergência, e, por último, com reserva e já presente no mundo dos investimentos.

Se você estiver endividado e, considerando que mesmo na mais baixa taxa básica de juros nominal (a famosa Selic, que está em 6,5% com tendência de cair ainda mais) ainda temos um custo de dívida de curto prazo (como a do cartão de crédito) em níveis astronômicos, quite ou abata o máximo de suas dívidas caras com esse recurso. Garanta suas noites mais tranquilas de sono com essa atitude responsável.

Caso você não tenha dívidas mas viva na situação de não ter reservas – e, assim, não ter de onde tirar recursos para o caso de alguma emergência –, a dica é começar a construir uma reserva de emergência. Segundo os especialistas em finanças pessoais, essa reserva deve ser capaz de suprir algum período entre três e seis meses de suas despesas, para o caso por exemplo de uma demissão ou, por qualquer outro motivo, apareça uma forte indisponibilidade financeira. O ideal é que os recursos dessa reserva estejam disponíveis a curto prazo. Em uma ordem de “melhor ideia”, temos a poupança, o CDB de um banco tradicional, o CDB/LCI/LCA de um banco menor ou mesmo o Tesouro Selic.

Não tendo dívidas, tendo uma reserva de emergências e já estando no mundo dos investimentos, dado que a taxa de juros está em baixa e com tendência de assim se manter ou até mesmo se reduzir, pesquise sobre meios alheios à renda fixa para conseguir ganhos mais robustos ao longo do tempo. Fundos de ações, carteiras de alocação inteligente, fundos imobiliários, fundos multimercado. Utilize esses recursos inesperados para reforçar o montante de dinheiro que trabalha para você.

Se tem uma única ideia que não é de fato produtiva para seus recursos passíveis de saque do FGTS é mantê-los onde estão. Seguimos no mesmo pensamento de nossoartigo anterior, que dá base a este: o último a sair apague a luz, faça bom proveito do dinheiro que pertence a você, certamente será mais adequado do que o que o governo faz por você com ele; ou, em outras palavras: você consegue fazer melhor do que os 3% anuais de “rendimento” que seu dinheiro tem parado neste clássico direito adquirido.

 

Rachel Borges de Sá e Caio Augusto, editores Terraço Econômico, assinam este artigo.

 

Artigo publicado no Terraço Econômico em 18/07/2019

REFORMA DA PREVIDÊNCIA: GOLAÇO, MAS O INFERNO ESTÁ NOS DESTAQUES

Uma vitória incontestável. Houve quem enumerasse 330 votos a favor da Reforma da Previdência, outros apontavam para números ao redor disso. A previsão era que ia passar, mas nem o mais otimista imaginaria o número de 379 votos favoráveis na primeira votação. Vitória tão emocionante que, logo após ela, fez chorar Rodrigo Maia, o presidente da Câmara dos Deputados.

Em termos gerais, teremos uma redução na despesa previdenciária mesmo após os destaques que deve ser superior ao que inicialmente se propunha no projeto de Temer. Na proposta do ex-presidente, inicialmente seriam cerca de 700 bilhões de reais de economia em dez anos que, após discussões e lapidamentos em comissões, se tornou algo pouco superior à metade disso. Com o atual presidente, o inicial era de R$ 1,27 trilhão e, após discussões, espera-se que tenhamos uma economia de pelo menos R$ 750 bilhões em uma década.

Com isso, o custo de financiamento do governo se reduz, ganhamos o chamado “fôlego fiscal”, que é na prática um tempo a mais para equalizarmos as contas e tentar fazer o setor público e suas atribuições caberem dentro do PIB. O termo “potência fiscal”, tão utilizado pelo Ministro Paulo Guedes, estava muito vinculado à economia de R$ 1 trilhão, que ficou mais difícil a partir da votação na Câmara.

Os destaques – que compõem o “inferno” do título do artigo – envolvem a manutenção de normas atualmente existentes ou a imposição de custos menores de transição. Os famosos “especiais” (grupos que têm força para se manifestar e, na maioria das vezes, dizem estar defendendo o interesse de quem não está ali) que reivindicam aposentadoria antecipada ou com maiores benefícios seguem presentes. De professores a policiais, grupos de interesse fazem suas pressões.

Dois detalhes ficaram fora do projeto e preocupam: a não possibilidade de discussão de capitalização no futuro e a não inclusão dos Estados e Municípios nesta Reforma.

Quanto ao primeiro ponto, a questão é simples e direta: vamos reduzir o gasto, mas o sistema é o mesmo (repartição) e, com toda certeza, precisaremos discutir essa áspera questão no futuro novamente. Podíamos ter aproveitado o apoio popular (e legislativo) agora para isso.

Já em relação ao segundo, trata-se de um adiamento de problema. O motivo: benevolentes como são, Estados e Municípios seguirão com seus planos de expansão de gastos (afinal, não terão que reformar previdência, que é a despesa gargalo na grande maioria dos entes subnacionais) e, quando a conta não fechar de novo, recorrerão à União. São mais de dois mil regimes próprios de previdência. Será um socorro imenso quando ocorrer.

Apesar dos pesares, um golaço. Nada de aguardar uma decisão “em cima da risca”, torcer pra nenhum Kandir não votar errado e nem Joesley Batista com áudio vazado quebrando o clima. Vitória acachapante que deve servir de pavimentação para as próximas reformas – e, quem sabe, para adequações à própria Nova Previdência com mais facilidade que outrora.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 12/07/2019

Não confunda mudar o futuro financeiro com se sufocar no caminho

Nesta coluna que trata de assuntos correlatos a finanças pessoais e como você pode se beneficiar se colocar em prática, até então abordamos que deve ser feito um esforço para que o futuro financeiro seja mais confortável e, na prática, isso significa que escolhas deverão ser feitas no caminho para que isso seja de fato possível. Porém, assim como os antigos sábios diziam, “tudo que é demais é prejudicial” e, poupar o presente deixando para utilizar no futuro, em demasia, também é prejudicial. Sempre busque o equilíbrio.

Dentro das estatísticas que levantamos aqui em outros artigos você já sabe que boa parte do Brasil se encontra alocado nos grupos interseccionados de pessoas que estão com crédito negativado e indivíduos que não possuem reserva financeira alguma. No grupo menor de pessoas que têm reservas financeiras, temos um subgrupo pequeno – mas que você certamente conhece alguém que se encaixa -, que é o de pessoas que deixam oportunidades passarem adiante basicamente porque elas afetariam sua renda ou seu nível de gastos.

O primeiro dos casos desse grupo é mais complicado. Aquela pessoa que detesta o trabalho em que está atualmente mas, pelas necessidades do dia a dia (e também pelos planos financeiros que deseja executar), não busca mudar de emprego basicamente porque isso alteraria sua renda mensal. Em um momento como o atual, em que o mercado de trabalho está bem complicado, é mais compreensível que isso ocorra. Mas mesmo em momentos de economia em alta e uma mobilidade maior como possibilidade, ainda assim vemos esse cidadão presente. Resultados disso, ao longo do tempo, envolvem o desgaste físico e mental da pessoa – e, nunca se esqueça disso, sem saúde não adianta nada ter um belo patrimônio. Muitas pessoas tornam-se reféns de suas dívidas ou do estilo de vida que vivem, colocando a flexibilidade na tomada de decisões da vida em xeque.

O segundo caso é mais presente e paradoxal na nossa sociedade brasileira. Sempre se ouve por aí que o brasileiro é um povo empreendedor, que tem ideias inovadoras e coloca em prática planos que “até a NASA devia vir estudar”. Mas, piadas à parte, uma verdade é que cavalos selados costumam passar diante de nossos olhos e, para não aumentar os desembolsos (mesmo que temporariamente), decidimos que outra pessoa aproveitará a viagem. Esse é o caso de ver aquela oportunidade, aquela demanda não cumprida que você sem muito esforço (mas com algum gasto/investimento) supriria, mas “desse jeito não vou conseguir poupar o que planejei”. Uma recente medida do governo pode ajudar nessa tomada de decisão: caso seja aprovada, a MP da Liberdade Econômica reduzirá a burocracia dos pequenos negócios – e facilitará a execução de várias ideias que hoje estão nas mentes.

Parafraseando Leandro Karnal em uma de suas palestras, “não é porque estou falando que casamento é complicado que você deve se divorciar”. Não leve ao pé da letra o que você lê neste artigo, chegando em casa hoje e dizendo “vou largar meu emprego para finalmente tentar trabalhar naquela empresa que sempre amei” ou “agora é hora de colocar todas as minhas reservas para fazer aquela pousada em Trancoso que sempre pensei em fazer”. Tudo depende do momento em que você se encontra e da viabilidade de colocar em prática esses projetos.

Porém, fica a reflexão, que muitas vezes é realizada em relação a aspectos mais gerais da vida, mas que perfeitamente consegue se encaixar se o assunto for dinheiro: com que frequência deixa de aproveitar oportunidades mesmo tendo dinheiro para isso? É justo consigo mesmo poupar todo seu presente em prol do futuro? Qual é o limite entre melhorar o futuro e desgastar o presente?

Todas essas perguntas têm respostas abertas e particulares, longe de ser um consenso. Procure sempre adaptar as suas finanças para que você consiga ter segurança para tomar decisões que realmente sejam positivas na sua vida. Ter um estilo de vida coerente com a renda, poupar e estar preparado para conseguir abraçar as oportunidades são pontos que minimizam riscos nas tomadas de decisão e criam alicerces para dar passos para frente.

Ter liberdade de poder escrever o seu futuro com aquilo que realmente gosta tende a trazer mais valor a sua vida do que viver em um marasmo de secar gelo todos os dias e reclamar dia sim e dia sim.

Cada escolha gera uma renúncia. Levante os pontos positivos e negativos de cada escolha, pense nos riscos e pergunte a si mesmo se você tem disposição  de assumi-lo.

O que se tem de recomendação média dentre os especialistas em finanças pessoais é que você reserve cerca de 10% de seu orçamento para seu eu de amanhã. Ainda assim, é válido sempre reavaliar o que você abre mão pelo seu futuro financeiro.

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

Douglas Albuquerque – Editor do Terraço Econômico

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em maio de 2019:

– Terraço Econômico (03/05/2019): https://terracoeconomico.com.br/nao-confunda-mudar-o-futuro-financeiro-com-se-sufocar-no-caminho/?fbclid=IwAR0lokUW0eqyA647453t_mmcNjJjku2Ly_kRX8jza2fu3AFev0W1ByqaMUo

– Investing.com Brasil (07/05/2019): https://br.investing.com/analysis/nao-confunda-mudar-o-futuro-financeiro-com-se-sufocar-no-caminho-200226035?preview_fp_admin_1234=this_is_1234

Reforma previdenciária: necessária, mas não suficiente

No foco das discussões legislativas recentes, como em outros momentos, está a discussão da reforma previdenciária. Argumentos embasados em dados, alguns embasados em ilusões e outros em pura politicagem estão por todo lugar, tanto para justificar que é preciso tomar alguma atitude quanto para sugerir que nada precisa ser feito quanto a isso.

Um ponto pouco discutido, ou, melhor dizendo, apenas passado adiante como sendo verdadeiro, é que o país verá verdadeira decolagem rumo a um futuro glorioso imediatamente após a aprovação da reforma previdenciária. Duas visões complementares baseiam isso: primeiramente, uma imensa quantidade de investimentos produtivos estaria no gatilho, apenas aguardando tal aprovação, para entrar de imediato no Brasil; em segundo lugar, o fôlego dado ao lado fiscal seria tamanho que diversas questões brasileiras poderiam finalmente ser atacadas – investimentos seriam majorados em saúde, educação e saneamento básico, por exemplo.

Sobre o primeiro ponto: investe quem vê perspectiva de aumento de demanda em seu mercado, não porque “o governo está gastando menos”. A economia como um todo se deteriora ou avança em um agregado (e uma melhoria na renda do país é um incentivo claro a investir), é verdade, mas, setorialmente, o que sempre vai ditar as regras do como são feitos os novos projetos de investimento é qual a perspectiva de seu retorno. Outro fator importante que não deve ser esquecido é o fato de ainda termos péssimas condições para empreender no Brasil – basta olhar o Doing Business– e uma mudança na política fiscal, por si só, não irá mudar isso. E, cá pra nós, é bem fácil tirar uma quantia financeira imensa da cartola do que vê-la sendo colocada em prática.

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O segundo ponto trata do que ocorrerá com o “dinheiro excedente”. E aqui está uma das más notícias: a reforma da previdência é necessária mas não suficiente porque, mesmo se aprovada em sua integralidade (o que não deve acontecer), permitiria que saíssemos do vermelho nas contas públicas só no início do próximo mandato presidencial. Anualmente, temos tido déficits na faixa entre 100 e 200 bilhões de reais e, mesmo se a reforma fosse aprovada no instante em que você lê este artigo, não seria suficiente para equalizar a situação – não no curto prazo, como tem sido vendido.

Na dúvida, basta olhar os dados levantados pela Instituição Fiscal Independente do Senado Federal em sua edição de abril/2019:

Sobre os constantes déficits nas contas do governo, o gráfico abaixo é bastante ilustrativo.

Publicado em: https://blog.guide.com.br/textos/missao-impossivel-2019-deficit-fiscal-zero/

Antes que você vá compartilhar este artigo com seu grupo ideológico contrário a aprovação da reforma previdenciária comemorando – ou o vá fazer em seu grupo ideológico a favor, dizendo que nós do Terraço Econômico somos uns “comunistas” ou algo que o valha -, é muito importante notar uma coisa importantíssima: a reforma é sim necessária, disso não se deve ter muita dúvida, dado que ela ataca privilégios e dá sim fôlego fiscal ao país ao longo dos anos; porém, não se iluda que ela será uma panaceia, salvação da lavoura ou resolução de todos os problemas do país, principalmente se sua ideia for de que, imediatamente após ela, teremos dias dourados novamente. Isso simplesmente não irá acontecer.

Vender o longo prazo como sendo curto prazo é, ao contrário da série de acertos da equipe econômica atual, seu segundo enorme erro. O primeiro foi o de dizer que iríamos zerar o déficit fiscal em 2019 – o que, a não ser que algo bastante relevante, fora do radar e não recorrente ocorra, está longe de ser uma realidade.

 

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

Arthur Solow – Editor do Terraço Econômico

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em abril de 2019:

– Terraço Econômico (01/05/2019): https://terracoeconomico.com.br/reforma-previdenciaria-necessaria-mas-nao-suficiente/

– Investing.com Brasil (02/05/2019): https://br.investing.com/analysis/reforma-previdenciaria-necessaria-mas-nao-suficiente-200225983?preview_fp_admin_1234=this_is_1234

– Money Times (02/05/2019): https://moneytimes.com.br/reforma-previdenciaria-necessaria-mas-nao-suficiente/

 

5 anos de Terraço Econômico. O que vem pela frente?

Quase sem perceber, imersos em pensamentos cotidianos e rotineiros, chegamos a 5 anos de Terraço Econômico no ar. São mais de 1.800 dias em que tentamos falar de forma descomplicada sobre assuntos delicados, sejam econômicos, políticos ou sociais, que afetam a nossa vida aqui no Brasil e no resto do mundo. A jornada não foi fácil.

Começamos pequenos, com muita vontade de fazer, mas sem muita direção para onde queríamos ir. Uma ideia movimentava as iniciativas: a de ser referência em boa informação e análise. Estávamos cansados de viver em um mundo repleto de informações, mas que ao mesmo tempo nos sentíamos sugados por análises rasas e sem muita fundamentação.

Avaliações realizadas nos últimos anos na página do Facebook

Não se trata de nadar contra a corrente ou ser “do contra”, mas sim de evitar o “vamos aplaudir só porque estão aplaudindo” ou “vamos vaiar só porque estão vaiando”. O que é boa medida, você vê aqui sendo elogiado por ser boa medida. O que é ideia de jerico, você também vê aqui, sob um olhar diretamente crítico. Independente de quem seja o(a) mentor(a) intelectual da ideia. Estamos ligados muito mais às ideias do que a pessoas.

Esta missão é interminável. É um trabalho de formiguinha. Somos alvos de incontáveis críticas mordazes à esquerda e à direita; ouvimos com certa frequência que talvez estamos falando para poucos apesar do alcance crescente que temos ao longo destes anos. Porém, se tem algo que no dia a dia seguimos aprendendo é que ser pedra é muito mais fácil, mas são poucos os que se arriscam ao papel das vidraças.

E erramos no meio do caminho, isso é fato.Por incrível que pareça, manter um site de economia e política por 5 anos no ar é uma tarefa que demanda esforço, organização e muita conversa. Discussões acaloradas ocorreram ao longo do caminho, mas as diferenças não superaram o nosso objetivo final, que é o de criar e manter o Terraço Econômico aberto e disponível para todos vocês.

Somos um dos espaços mais democráticos no país em termos de abertura ao leitor. Por aqui, temos duas seções reservadas ao envio de artigos: Você no Terraço, para leitores que nos acompanham poderem expor suas opiniões e Convidados Especiais, para especialistas e grandes nomes que chamamos para contribuir conosco – você vê não apenas nossa opinião editorial, mas também a opinião de quem nos ajuda a crescer e avaliar criticamente nossa própria atuação.

Começamos aqui, neste espaço. Expandimos ao Facebook, ao Twitter, ao Instagram, ao YouTube e em diversas plataformas de áudio com nosso podcast (Spotify, SoundCloud, Apple Podcasts, etc). Em 2018, até em documentário você nos acompanhou. Temos ainda três cursos disponíveis na Hotmart, com mais de 90 alunos que assistiram as aulas de Micro, Macro ou Estatística.

De vez em quando você nos ouve por aí em participações como no UOL, na Rádio Globo e até mesmo na Jovem Pan. Tudo isso ocorreu e segue ocorrendo porque você acredita no conteúdo que produzimos, dia a dia, sob um esforço imenso e, não tenha dúvidas disso, extremamente recompensador.

A pergunta do título deste artigo é altamente questionadora. De modo algum pode ser respondida com facilidade. Mas é esse mesmo o espírito que nos move: o de perseguir quais são as novas perguntas e, assim, evoluir e apresentar sempre da forma mais descomplicada e interessante – simples, mas não simplista – conteúdos a respeito de economia e política que façam diferença na sua vida.

Não é sempre que você concordará conosco – e, cá pra nós, realmente toda unanimidade é burra, nem nós concordamos sempre uns com os outros como equipe, como foi mencionado. Mas se neste período todo já fizemos alguma vez você pensar “nossa, não tinha visto por esse ponto de vista”, é porque de alguma maneira estamos cumprindo nossa missão.

Um brinde aos terraceiros de hoje e sempre. Vida longa do Terraço Econômico!

Arthur Solow e Caio Augusto assinam este artigo em nome da Equipe Terraço Econômico (fundadores, agregados e colaboradores)

Para quem quiser conhecer um pouco mais dos números atingidos pelo Terraço, ver a apresentação institucional disponível em:

https://drive.google.com/file/d/1LdwLm26lfMLc0hrvV8o0Yq8lqBPhyf-c/view

Ou na página:

SOBRE

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Terraço Econômico (23/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/5-anos-de-terraco-economico-o-que-vem-pela-frente/

Missão Bettina: a mais nova ninja dos investimentos

Podemos assumir que você clicou neste artigo por já saber de toda a polêmica recenteda campanha publicitária da Empiricus a respeito de, com mil e quinhentos reais de capital inicial, ser capaz de alcançar mais de um milhão de reais de patrimônio basicamente utilizando-se do mercado de ações.

Porém, você já parou pra pensar em quanto seria preciso, em uma média mensal de aportes e rendimentos, para fazer seu capital de R$1500,00 ser multiplicado por quase 700 em apenas 36 meses? A Bettina não fez essa conta, mas por aqui fizemos:

O valor anunciado pela personagem principal dessa história é de R$1.042.000,00. Na prática, segundo nossos cálculos apresentados acima, no mínimo ela obteve um rendimento de cinco vezes o que teve o IBOVESPA e fez aportes de R$3.500,00 todos os meses.

Um adendo importante a ser feito é que, de fato, o índice representa apenas o humor do mercado como um todo considerando as empresas nele listadas. Observando investimentos individuais em ações, podemos verificar casos de rendimentos extraordinariamente superiores à média que o índice representa: as ações do Magazine Luiza, nestes mesmos 36 meses, tiveram valorização superior a 4.700%.

Considerando também o mercado de derivativos, outras possibilidades ainda mais impressionantes ocorreram. Quando da tragédia em Brumadinho, as opções de venda de ações da Vale se beneficiaram da queda do valor acionário e se beneficiaram quase 21.000%.

Ainda assim, mesmo considerando esses eventos bastante superiores ao crescimento médio observado no índice, é difícil saber qual a realidade dos fatos sem uma abertura real aos dados de como isso ocorreu ao longo do tempo. Não que ela seja realmente obrigada a fazer isso, mas, em termos de apresentar um programa que “mudará sua vida financeira”, seria muito mais honesto que isso fosse feito. Ou então, que a empresa acostumada a críticas mordazes siga recebendo-as (assim como novos clientes que vêm pela curiosidade com o tal programa).

Deste modo, o que se pode inferir sobre essa questão como um todo é que realmente pode ter ocorrido esse ganho e, na atualidade, Bettina deve mesmo ser detentora de um patrimônio investido superior a R$1.042.000,00. Porém, nada disso é “simples assim”, como anunciado por ela mesma na peça publicitária. Não acredite no conto da riqueza rápido e fácil: assinar o conteúdo de investimentos pode te ajudar, mas não será a salvação da lavoura para te transformar no(a) novo(a) milionário(a) da praça. É prudente sempre desconfiar do conto do hipster que fez algo que ninguém pensava e tenta te vender como sua salvação essa mesma técnica.

Talvez o único dinheiro fácil, rápido e de baixo risco tenha ido mesmo para a Empiricus, que deve ter ampliado sua base de clientes – esta que já supera hoje a marca de 330 mil assinantes. Para se ter ideia do que isso significa, imaginando um ticket médio de R$12,00, temos então um faturamento de R$3,96 milhões por mês.

No fim das contas, até este merchan grátis que estamos fazendo contribui para isso. Se Bettina cumpriu ou não a missão ninja que declarou, não sabemos. Mas a Empiricus, com toda certeza, já cumpriu.

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

Vladimir Damiani Caridá – Graduado em Economia Empresarial e Controladoria pela FEARP/USP. Atualmente, cursa mestrado em Economia no Insper e trabalha em banco

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em março de 2019:

– Terraço Econômico (19/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/missao-bettina-a-mais-nova-ninja-dos-investimentos/

A responsabilidade por sua aposentadoria é sua

Em tempos da tão discutida – e até então nunca aprovada – reforma previdenciária, o desespero bate à porta de muitos, que passam então a bradar: se as regras mudarem, como vou me aposentar?

Para começar, se você tem menos de 30 anos, a resposta é dura, mas real: esqueça a sonhada “aposentadoria do governo” que seus pais e avós já te falaram ou recebem. Ela é, literalmente, uma pirâmide de cabeça pra baixo.

Por funcionar em sistema de repartição, no qual em termos práticos quem está trabalhando contribui para quem já está aposentado, observamos uma viabilidade cada vez menor do sistema à medida que a quantidade de pessoas trabalhando se estabiliza e reduz e a quantidade de aposentados aumenta.

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Você que já contribuiu uns bons 25-30 anos, fique tranquilo: o máximo que vai acontecer é você ter de trabalhar um pouco a mais do que faltava – esse é o tal “pedágio” que estão comentando em todos os lugares. Como se diz no juridiquês, esse já é um “direito adquirido” seu.

No fim das contas, quem sairá mais prejudicado é quem senta no banquinho dos que estão no meio da carreira, já tendo contribuído uns quinze anos e que vão pegar as maiores mudanças. Quem mais arcará diretamente com essa reforma são esses indivíduos.

Por mais difícil que seja ler isso, já parou para pensar que a responsabilidade por sua aposentadoria é totalmente sua? Não se trata de egoísmo, nem de uma tentativa de eximir o governo de sua responsabilidade social, principalmente com os mais necessitados. Mas apenas de uma reflexão que, quando mais jovem você for, mais deveria ter em sua mente para mudar hábitos a partir de agora.

Como já apresentado acima, você leitor(a) está ou nas proximidades de se aposentar (tendo de cumprir no máximo um pedágio a mais) ou distante de se aposentar (já tendo contribuído em parte ou mesmo tendo começado agora). Quanto mais distante você estiver, melhor será a notícia a seguir: o tempo está sempre a favor de quem poupa.

Duvida?

Vamos dizer que “João” nunca pensou em poupar. Ele curtiu a vida, financiou o seu carro, sofreu alguns perrengues e aos 35 anos, já casado e com o primeiro filho, ele achou que era importante pensar no futuro…então, fazendo as contas, viu que iria conseguir poupar R$ 500,00 por mês.

Considerando uma taxa de juros de 6% a.a.:

Aos 65, teria investido $186,000.00 e você teria agregado a isso $353,403.62 de juros. Ou seja, o seu saldo será $539,403.62.

Considere o seguinte cenário:

João, 20, menino serelepe pipão, cheio de sonhos, começa o seu estágio no banco com uma bolsa de R$ 2000,00.

Vamos dizer que ele comece a poupar 10% da bolsa voltado para o seu futuro a longo prazo.

10% não é um problema para alguém que não tinha renda antes….

Bom…vamos aos cálculos!

Se João poupar esses R$ 200,00 todo mês independente onde for: poupança, previdência, etc, sem falhar – não fazendo igual as suas dietas – teremos o seguinte cenário:

Considerando uma taxa de juros de 6% a.a.:

Aos 65, terá investido $110,400.00 e terá agregado a isso $477,262.59 de juros. Ou seja, o saldo será $587,662.59.

Observe:

  • O João com R$ 200,00/mês, por 45 anos, teve mais juros ganhos do que o João com R$ 500/mês por 30 anos. Ou seja, é a magia dos juros compostos a favor.

  • Mesmo investindo 2,5 vezes o valor mensal em um prazo menor e na soma do valor investido sendo 68% maior do que o caso anterior, o saldo final acabou sendo menor.

Emendando a isso, vamos fazer outra simulação com a primeira situação. Vamos simular agora com uma taxa de juros a 7%:

Aos 65, terá investido $110,400.00 e você terá agregado a isso $623.404,23 de juros. Ou seja, o seu saldo será $733.804,23.

Observe a diferença com um pequeno aumento na taxa de juros no investimento. Em um mês não traz grandes diferenças, mas no longo prazo o bolo fica maior.

Faça os seus cálculos: https://aprevidenciaprivada.com.br/calculadoravalorfinal/

Você não precisa parar de comer e viver de fotossíntese para poder poupar e ter uma vida estável financeiramente. Basta fazer a estratégia correta para o seu futuro: “Não pague juros. Receba juros”.

Não precisa ser muito, mas o importante é ser constante.

Se você não consegue poupar, use a dica do texto anterior: poupe primeiro e depois gaste. Faça um “débito automático” transferindo um valor fixo no mesmo dia que você receber o seu dinheiro para algum investimento. Você nem vai ver e quando se der conta, vai ver que já está com um valor que nunca imaginou estar.

As decisões que são tomadas hoje, quando você ainda possui força de trabalho e disposição para trabalhar definirão como será o seu futuro. Use o tempo a seu favor.

Caio Augusto – Editor do Terraço Econômico

Douglas Albuquerque – Editor do Terraço Econômico

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em fevereiro de 2019:

– Terraço Econômico (01/03/2019): https://terracoeconomico.com.br/a-responsabilidade-por-sua-aposentadoria-e-sua/

– Money Times (02/03/2019): https://moneytimes.com.br/a-responsabilidade-por-sua-aposentadoria-e-sua/

– Investing.com Brasil (12/03/2019): https://br.investing.com/analysis/a-responsabilidade-por-sua-aposentadoria-e-sua-200225288?preview_fp_admin_1234=this_is_1234

Reforma da Previdência: corrigindo distorções e o desafio da aprovação

Foi anunciado de forma oficial o projeto de reforma previdenciária do governo Bolsonaro em 20/02/2019. Aumento de alíquota de contribuição para o setor público, aumento de tempo de contribuição, maior equilíbrio no dispêndio (quem ganha menos pagará menos) e algumas outras injustiças do sistema serão enfrentadas.

Evitando distorções e comentários imaginativos, sugiro que você confira a íntegra da proposta para verificar se notícias que estão sendo ventiladas tem relação real com o que está sendo proposto, como supostos “direitos que serão tirados dos mais pobres” ou qualquer outra coisa que você tenha recebido pelo WhatsApp cuja origem do conteúdo tem altas chances de ser ligado a alguma das associações dos que realmente irão perder com a reforma  – aqueles do alto funcionalismo público que se aposentam com a inexplicavelmente bondosa integralidade.

Independente do regime em que se encontre, os números são negativos hoje e, se não o são, caminham para isso pela óbvia razão de que, por funcionar em regime de repartição (os que estão trabalhando transferem recursos aos que estão aposentados), há a dependência lógica e matemática de que existam mais pessoas contribuindo do que recebendo – e essa relação tem se invertido cada vez mais. Segundo o IBGE: em 1980 eram 9,2 indivíduos trabalhando para cada aposentado, hoje há proximidade com 5 e em poucas décadas serão menos de dois. Há que se alterar urgentemente o rumo disso – e, nisso, a proposta acerta em cheio.

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Injustiças entre o setor público e o setor privado também sinalizam ser corrigidas. A alíquota de contribuição do setor público deve subir para os salários maiores (chegando a 22% caso seja superior a R$39.000,00) e diminuir para os menores salários da iniciativa privada (caindo de 8% para 7,5% em faixas inferiores). Outro ponto positivo, já que proporcionalmente o setor público é o que apresenta maior déficit – porque recebe em integralidade (e não em média de salários), enquanto contribui apenas com o máximo proporcional atual, de 11%.

A capitalização aparece também na reforma, como sugestão futura. Explica-se: com ela, cada indivíduo em vez de contribuir para a aposentadoria de quem já se aposentou acumularia recursos em uma conta própria e exclusiva. Uma excelente ideia, mas que precisa ser estudada com calma em termos de transição – já que, a cada novo aderente a um regime de capitalização, temos uma pessoa a menos auxiliando no sistema atual de transferências. Uma transição deste porte deve levar um bom tempo, mas é muito positivo que se comece o mais rápido possível (novamente dada a inversão da pirâmide etária que está em curso).

Um ponto que com reforma ou sem ainda é preocupação é a informalidade. Este sistema atende a quem preenche o requisito básico do sistema, que é ter contribuição formal através de carteira de trabalho ou contribuição autônoma. Por mais que seja cheio de problemas – e pelo menos uma vez você já leu aqui que é melhor pensar em alternativas a ele desde já -, ainda tem a utilidade de fazer uma cobertura razoável no envelhecer dos brasileiros.

É preciso que se pense, juntamente a essa reforma, em dois passos importantes: a ampliação da agenda iniciada pelo Banco Central que busca deixar mais claros aspectos de educação financeira (para que a população possa se preparar melhor com essas alternativas) e a flexibilização dos termos que permitam a inclusão nesse sistema, para reduzir a informalidade e poder fornecer tal benefício a mais brasileiros. Deste modo, a reforma terá efeitos muito mais positivos em termos práticos.

Outras dois fatores devem ser ponderados: o efeito positivo da reforma, caso aprovada do modo em que está sendo enviada (e sabemos que as casas legislativas buscarão suavizar a proposta com emendas, o que faz parte do processo), se dá pelos próximos dez anos. É um prazo bom, mas nem de longe passa a mensagem de que após essa reforma tudo estará resolvido. Ela é um passo importante, necessário, mas não único.

Esforços adicionais serão necessários para revertermos a situação e gerarmos real e sustentável crescimento e melhoria das condições do país. O segundo: aqui é o Brasil, equipe boa com ideias boas não basta, é preciso que ocorram as ações – ou alguém duvidava das capacidades técnicas da equipe de Joaquim Levy ou mesmo de Henrique Meirelles?

Em suma: reforma boa, ampla, que abarca praticamente tudo que seria necessário (ainda que deixe os militares para um segundo momento), mas que não pode ser “colocada no preço” porque ainda enfrentará enormes batalhas e, no cenário aguardado por tantos em que acaba por ser aprovada, ainda assim não representará a solução de todos os problemas brasileiros.

Nem só de expectativas positivas se fazem os avanços econômicos e a correção de injustiças que o Brasil precisa. Um dos autores deste artigo sabe muito bem disso.

Boa sorte ao governo em suas batalhas – e, principalmente, na essencial e não realizada por Temer, que é a de informar a real necessidade dessa grande mudança (indo muito além do distante “para melhorar a economia” e de encontro ao indispensável “o governo pode ficar incapaz de realizar qualquer atividade em pouco tempo caso ela não seja realizada”). O rito de aprovação começa agora, e a jornada será longa.

Caio Augusto  – Editor do Terraço Econômico

Arthur Solow – Editor do Terraço Econômico

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em fevereiro de 2019:

– Terraço Econômico (22/02/2019): https://www.terracoeconomico.com.br/reforma-da-previdencia-corrigindo-distorcoes-e-o-desafio-da-aprovacao/

– Investing.com Brasil (22/02/2019): https://br.investing.com/analysis/reforma-da-previdencia-corrigindo-distorcoes-e-o-desafio-da-aprovacao-200225106?preview_fp_admin_1234=this_is_1234

MISSÃO IMPOSSÍVEL 2019: DÉFICIT FISCAL ZERO

Nas edições multibilionárias do filme Missão Impossível, Tom Cruise tem tarefas muito difíceis de serem solucionadas (entrar sem ser visto, impedir a explosão de algum local, etc.), mas no final acaba conseguindo lograr êxito na sua missão. Apesar do nome ‘impossível’ da franquia, as tarefas são resolvidas de um jeito ou de outro, talvez não com o planejamento e ferramentas inicialmente planejadas, mas com algumas adaptações no caminho.

Esse parece ser o caminho para a difícil promessa de campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro e sua equipe econômica, encabeçada pelo Ministro da Economia Paulo Guedes, na árdua missão de reduzir o déficit fiscal primário a zero. Isso mesmo. Ainda na campanha e mesmo depois de eleito, o governo (por meio de Guedes) tem sinalizado sua intenção de zerar o déficit primário fiscal – sem incluir a conta de juros da dívida – já no primeiro ano de mandato. Como se vê no gráfico abaixo, a missão é [quase] impossível.

De 2008 até 2014, houve superávit primário, que foi uma herança positiva do governo Lula, mas que começou a mostrar reversão já no governo Dilma I. De 2014 até hoje, o déficit acumulado passa de R$600 bi e a projeção para 2019 (conforme LOA) considera um déficit de R$ 139 bi. Importante ressaltar que sondagens mais recentes do mercado – Prisma Fiscal -, tem projetado um déficit menor do que a LOA, de R$ 102,4 bi; mesmo assim, prosseguimos muito longe do sonhado déficit fiscal zero.

O ministro Paulo Cruis… Guedes declarou em entrevista metade dos recursos para zerar o déficit orçamentário viria da reforma da Previdência. A outra metade viria das concessões de petróleo, principalmente da camada pré-sal, e de privatizações de estatais, como é o caso da Eletrobras.

Em termos fiscais, o principal desafio é a reforma da previdência. Seu déficit anual, sozinho, é de quase o dobro do número negativo observado – e isso demonstra como encaminhar uma solução para este departamento é crucial para que todo o caminho fiscal a médio e longo prazo torne-se mais sustentável. Um assunto delicado, estabelecido há muitas décadas e que deve dar trabalho – mas é indispensável para a missão anunciada de zerar o déficit primário.

Quanto a outra ponta anunciada, de privatizações, talvez tenhamos um cenário um pouco mais tranquilo em termos de operacionalização, mas ainda assim a questão é complexa. Durante o período eleitoral, Paulo Guedes chegou a afirmar que todas as estatais somariam um trilhão de reais, número que depois virou um quinto disso – e, para 2019, tem como meta R$ 20 bilhões. O compromisso em privatizar amplamente pode ser visível com a criação da Secretaria Geral de Desestatização, mas isso não reduz as dificuldades do processo.

Como já afirmado acima, mesmo um déficit esperado de R$102,4 bilhões ainda representa uma distância considerável do zero que se busca. A intenção é nobre, mas o caminho parece muito mais tortuoso do que se tem sinalizado. Uma coisa é apontar os objetivos, outra é passar a mensagem de que o jogo está ganho antes mesmo do time entrar em campo.

Com tudo isso que foi exposto, se o ministro Tom …Paulo Guedes conseguir essa façanha, é para se aplaudir de pé. As sessões legislativas se iniciam neste começo de fevereiro de 2019. A Missão Impossível do Ministro da Economia (e do governo Bolsonaro) começa agora.

 

Publicações deste artigo, que foi escrito em fevereiro de 2019:

– Blog da Guide Investimentos (04/02/2019): https://blog.guide.com.br/textos/missao-impossivel-2019-deficit-fiscal-zero/