Qual o resultado de 2019?

Desde 2016, após a entrada de Michel Temer, vivemos uma guinada reformista no Brasil. Não necessariamente as reformas ocorrem, mas o clima tornou-se mais propício para que venham a ocorrer. No primeiro ano de Jair Bolsonaro, tivemos uma continuidade dessa visão.

Sem dúvidas, a grande missão de 2019 em termos da articulação política foi a reforma previdenciária. Desde os tempos da transição de governos (os últimos dois meses de 2018), o assunto já se dava como prioridade para o ano seguinte. Entre idas e vindas, em novembro houve a promulgação da mais ampla reforma sobre este tema. Poderia ter sido mais robusta, por exemplo permitindo alteração futura de transferência solidária para capitalização e deixando para trás benefícios setoriais que permaneceram – e, em virtude disso, o sistema segue o mesmo, rumo ao colapso. Ainda assim, o impacto de alívio fiscal não é desprezível. Não é digno de comemoração, mas é possível respirar aliviado por uns instantes.

A conjuntura nacional de uma expectativa por uma breve aprovação desta reforma se transformou, ao longo do ano, em frustração do crescimento. No fim das contas, o lado fiscal do governo estando mais controlado permite que as expectativas dos agentes econômicos fiquem mais positivas e, disso, pode vir o crescimento. O atraso em demasia – e a preocupação por vezes incessante com temas pouco relevantes a essa vontade de reformar – ajudou a permitir que, pelo terceiro ano seguido, iniciássemos com previsões de crescimento muito superiores ao que acabou ocorrendo. Em 2019 iniciamos com previsões no entorno de 2,5% e, passado o ano, teremos visualizado crescimento nas proximidades de 1,0%.

Desemprego segue elevado. A recuperação deste aspecto ocorre, é verdade, mas ainda demonstra como a batalha será longa. Há geração de empregos a cada novo CAGED divulgado, mas ainda há uma quantidade imensa de brasileiros sem emprego. Com o crescimento ocorrendo nesta medida, é possível que em 2020 não tenhamos muitas novidades. Passamos o ano ao redor de 12% e, para o próximo ano, ainda devemos nos manter nos dois dígitos.

Inflação dá sinais de ter realmente ancorado, o que permitiu que a Selic se reduzisse ainda mais durante este ano. Para o primeiro item, as previsões indicam que fecharemos o ano na faixa entre 3,4 e 3,5% (um dos menores números da história). Em relação ao segundo, após a reunião do COPOM no início de novembro tivemos a redução da taxa Selic para 5% e esse ciclo de redução, espera-se, culminará numa taxa entre 4 e 4,25%, segundo condições atualmente observadas – o que é a menor taxa nominal de juros da história do país.

O cenário pós-reforma da previdência inclui discussões sobre tributos, o tamanho do Estado e também a respeito do desenvolvimento do país em aspectos do ambiente de negócios.

Contas públicas, como previsto no primeiro artigo desta coluna no ano, seguem no vermelho. Fizemos o que foi possível – podia ter sido melhor, mas isso fica para o ano que vem. 

Feliz 2020!

 

Artigo publicado na Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF-Franca)

SELIC A 4,5%: HORA DE ABANDONAR A POUPANÇA?

Durante essa semana tivemos mais uma queda na taxa básica de juros, a Selic. O Comitê de Política Monetária (COPOM) aplicou um novo corte de 50bps, fazendo com que ela esteja hoje em um patamar nominal nunca antes visto: 4,5% ao ano. Para se ter uma ideia do que isso significa, dois pontos são importantes: em primeiro lugar, há pouco mais de três anos nossa taxa Selic era de 14,25% (ficou nesse patamar entre 30/07/2015 e 19/10/2016); e segundo, a economia apenas com o pagamento de juros da dívida pública em 2020 será próxima de R$100 bilhões, segundo a equipe econômica.

Para além dos diversos aspectos positivos que ter uma taxa de juros mais próxima do que o mundo pratica nos traz, há um ponto que, caso você não esteja pensando ou se protegendo, certamente está perdendo dinheiro. Esse ponto é a alocação de seus recursos em reservas financeiras ou mesmo investimentos.

Com a Selic em 4,5%, a Poupança, que rende 70% dela, apresenta rendimento anual de 3,15% (o que é menor do que a inflação anual, que deve fechar 2019 entre 3,60~3,80%), um investimento que renda 100% do CDI e tenha desconto de imposto de renda terá rendimento aproximado a 3,71% e mesmo aquele bastante vantajoso 120% do CDI não dará nem 4,5% anualmente (encostará em 4,46%).

De posse das informações acima, é muito provável que o leitor já tenha lido em alguns lugares que “a atitude mais urgente a ser tomada é a de tirar todo seu dinheiro da poupança urgentemente”. A questão é de fato urgente, mas é preciso agir com sabedoria. No fim das contas, não é toda quantidade de recursos que deve ser tirada da poupança – pois há maior vantagem em manter nela os recursos de curto prazo do que buscar algo mais rentável, mesmo que tão conservador quanto.

O item mais falado quando o assunto é “o que existe de tão seguro quanto a poupança, mas renda mais do que ela” é o Tesouro Selic. Esse título da dívida pública brasileira lhe paga, como bem diz o nome, a Selic acumulada do período que você mantiver o título. Juntando o fato da Selic ser 4,5% e a Poupança agora render 3,15%, é lógico que você tire todos os seus recursos da velha conhecida Poupança e parta para a dívida pública nacional, certo? É aí que você precisa lembrar de dois detalhes importantíssimos: os impostos incidentes na operação e a necessidade de liquidez.

Tal qual a Poupança, o Tesouro Selic também apresenta liquidez diária, o que significa que você pode literalmente comprar ou vender em qualquer dia útil. Porém, o grande diferencial entre os dois meios de alocar seu dinheiro guardado, é que o primeiro apresenta rendimentos a cada mês e não incidem sobre esses rendimentos impostos (IOF ou IR) e o segundo apresenta rendimentos diários, mas sob a incidência desses impostos.

Partindo do pressuposto que você não conheça esses impostos, o mais importante a saber sobre eles é como eles incidem. O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incide sobre os primeiros trinta dias de uma aplicação (de maneira decrescente a cada dia, 96% no primeiro dia, 3% no 29º e depois zero) e o Imposto de Renda (IR) incide de maneira decrescente ao longo do tempo, mas sempre incide (22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 721 dias). Existem outras peculiaridades a depender do fundo que você aplique também que valem ser observadas, como no caso dos Fundos de Ações em que o IR é sempre de 15%.

POIS BEM, ENTÃO COMO SABER O QUANTO DE RECURSOS FAZ SENTIDO AINDA DEIXAR NA POUPANÇA E O QUANTO DEVO ENVIAR PARA OUTROS TIPOS DE ALOCAÇÃO (CONSERVADORA OU NÃO)?

Imagine que suas entradas líquidas (salário, retiradas societárias, aluguéis,etc) totalizem R$5000,00 por mês e seus gastos mensais estejam nas proximidades de R$3500,00 (mas com variação possível de R$500,00 para mais, em determinados meses, podendo ocorrer ou não). Neste caso, seu fluxo de caixa livre está na faixa entre R$1000,00 e 1500,00. Levando em consideração que esses R$500,00 podem sair em qualquer um dos meses, é recomendável que esse valor fique em sua Poupança, enquanto os outros R$1000,00 podem ser alocados, por exemplo, no Tesouro Selic. Isso é o recomendável porque, no fim das contas, os R$500,00 colocados em um mês e retirados dentro desse mesmo mês praticamente empatarão em rendimentos na comparação entre Tesouro Selic e Poupança, dados os impostos pagos. Porém, há de se verificar uma diferença notável entre ambos conforme o tempo avança – e, assim sendo, os recursos que você não precisar mesmo usar no curto prazo ficarão melhor alocados no Tesouro Selic ou em alguma aplicação mais arrojada.

No fim das contas, tudo se relacionará com o controle que você exerce sobre suas próprias contas. É realmente assustador que a Poupança esteja literalmente te fazendo perder poder de compra (já que hoje rende menos do que a inflação), mas de nada adianta, nem em tempo, nem em esforço e muito menos em rendimentos, decidir que não se deve deixar nenhum centavo na Poupança simplesmente por existirem investimentos com rendimentos maiores – basicamente pela questão dos impostos incidentes.

Outra recomendação bastante importante e essencial em tempos de alarde sobre a urgência de tomar alguma atitude em relação a seu dinheiro guardado é a de conhecer seu próprio perfil de investidor (existem diversos testes online, é interessante pesquisar sobre para se conhecer). É tentador imaginar que com a bolsa decolando e a Selic em sua mínima histórica a melhor pedida seja migrar de uma vez para a renda variável – mas os riscos envolvidos precisam ser conhecidos (e sua reação a eles precisa ser estimada, para que um possível arrependimento não venha a ocorrer).

Dados de novembro de 2019 apontam que, hoje, R$825 bilhões estão depositados em contas de Poupança em nosso país. Certamente esse estoque vai se reduzir quanto mais o brasileiro médio se informar sobre o rendimento dessa velha conhecida – mas, como apresentado neste artigo, não é necessariamente a melhor medida que você transfira 100% de seus recursos ali disponíveis, a não ser que queira ter um esforço a mais para praticamente nenhum benefício adicional.

PRAGMATISMO COMERCIAL: COM A CHINA SIM, COM A ARGENTINA NÃO

Desde sua eleição, Jair Bolsonaro anunciou que o Brasil mudaria os rumos de sua política externa. Parafraseando-o, deixaríamos de nos alinhar com os países “esquerdistas” para enfim voltarmos a ter alinhamento com o mundo desenvolvido. Logo de cara houve um receio: isso significaria, então, que grandes parceiros comerciais seriam deixados de lado, como Argentina (caso voltasse aos tempos Kirchneristas, como de fato veio a ocorrer) e China (por seu sistema político)? Muitos industriais e interessados nas atuais parcerias tremeram por aguardar qual seria o desfecho.

No começo deste trimestre, o presidente realizou uma viagem ao oriente para tratar de, entre outros aspectos, as relações comerciais entre o Brasil e os países de lá. Era o momento de testar se o discurso de “vamos mudar isso daí” entraria em prática. Para surpresa de muitos, o que veio a acontecer foi algo bastante diverso: apesar de não ter assinado grandes acordos, a postura foi de aproximação e amizade, especialmente com a China. Para quem depende direta ou indiretamente dessas relações – e também para quem acredita mais em mercados do que em ideologias -, um resultado positivo. O pragmatismo com o país que nos permite ter um superávit comercial de quase US$25 bilhões apenas em 2019 é importante.

“Ufa, então nosso presidente entendeu a importância de estar alinhado com nossos parceiros comerciais! ”. É, muita calma nessa hora.

Nesta semana há a posse do novo presidente argentino, Alberto Fernández, e, devido a um encontro realizado na semana anterior desse recém-eleito presidente com o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (e também alguns parlamentares de partidos de esquerda), houve certa irritação gerada ao presidente brasileiro que, se desde a eleição já afirmava que não estaria presente na posse, agora desiste de ter qualquer presença no evento, deixando de enviar sequer um ministro para acompanhar o evento como representante do Brasil.

Ainda é muito cedo para afirmar que as relações estejam todas arranhadas e que seja impossível verificar avanços mais adiante. Porém, dois pontos são notáveis sobre essa atitude: em primeiro lugar, a Argentina é um importante parceiro comercial brasileiro – convém relembrar que o Mercosul foi iniciativa dos governos brasileiro e argentino da época; e, em segundo lugar, o recente acordo entre Mercosul e União Europeia, que ficou vinte anos em discussão, pode vir a ser desatado em virtude de discordâncias dentro do nosso próprio bloco, o que seria um retrocesso imenso.

As discussões sobre apoiar ou não os direcionamentos políticos de outros países são longa e não cabem em um curto artigo como este. Porém, algo que precisa estar em mente é que o impacto de “apoiar nações amigas” (como se fez em demasia nos governos anteriores a 2016) ou “apenas fazer alinhamento com quem é desenvolvido, mas não necessariamente é parceiro comercial” (como se tem feito ultimamente em aproximação quase sempre unilateral com os EUA) é praticamente o mesmo: perdemos tempo que poderia estar sendo dispensado em nutrir melhores relações com quem realmente nos faz avançar em termos comerciais.

Não se trata de deixar de lado quaisquer práticas que estejam sendo realizadas dentro dos respectivos países – como a repressão a movimentos que pedem por democracia (a China está fazendo isso com Hong Kong nesse exato momento) ou a retomada de medidas econômicas heterodoxas que já se provaram absolutamente ineficientes (a Argentina já anunciou que tomará esse caminho) -, mas sim de, em termos comerciais, não “desandar o caldo”, principalmente em um momento de, como se anuncia desde o momento da eleição, procurar encaixar nosso país nas cadeias globais de integração e geração de valor.

Em suma: é muito mais válido que procuremos como país o estabelecimento e manutenção de boas relações comerciais que nos sejam capazes de trazer divisas e gerar novos negócios do que perder tempo discutindo ideologias – porque, dessa maneira, a única coisa a se observar de mudança real é o espectro político apoiado.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 09/12/2019

Lições de Kyiosaki-Lechter: viva dos rendimentos, esqueça o capital (parte 3)

Continuo apresentando as quatro breves lições a respeito do livro Pai Rico, Pai Pobre, de Robert T. Kyiosaki e Sharon Lechter. Isso é, aquelas que este que vos escreve considera serem mais importantes no best seller de finanças pessoais. Neste chega a seu terceiro capítulo, após falar sobre ativos (e não passivos) e eficiência no uso do orçamento pessoal, falemos sobre os rendimentos! Esqueça o capital!

Construindo patrimônio

Esse ensinamento pode estar no topo de prioridades de quem já investe altos montantes e pensa até em parar de trabalhar, mas se engana quem pensa que este artigo dialoga apenas com este perfil. Na verdade, o alvo aqui são todas as pessoas que pensam sobre dinheiro e na construção de um patrimônio para se resguardar seu futuro.

Há uma ilusão acerca daqueles que têm dinheiro, supostamente fazem uma retroalimentação entre seu estilo de vida (possivelmente mais caro em termos de consumo) e os bens acumulados ao longo do tempo: “a pessoa é rica porque tem como gastar”. É justamente nesse ponto que muita gente se engana, as pessoas acumulam bem porque conseguem viver um degrau abaixo do que ganham, não porque gastam mais do que ganham.

Há uma pergunta que incita muitas respostas em termos de consumo e quase nenhuma em termos de investimento: o que você faria se ganhasse alguns milhões no próximo sorteio da Mega Sena? A resposta média se aproxima bastante da clássica cena do Pica Pau: “iates, mansões, automóvel…”

É claro que, a depender do quanto você ganhe, vai querer ajudar seus familiares e realizar sonhos que antes não eram possíveis. Contudo, o pecado está em não acreditar que há dia seguinte. Inclusive, alguns casos práticos que mostram como isso pode mesmo ocorrer.

O cenário de vencedor na Mega Sena é pouco provável, então vamos à realidade dos fatos. Considerando que você consiga juntar um alto montante durante décadas de sua vida. Ótimo, chegou ao tão sonhado milhão de reais acumulados, após muitos anos de investimento (erros e acertos) e alocação do dinheiro que foi sobrando período a período. Se você chegou a este ponto ou mesmo almeja chegar, pense no seguinte: não basta chegar, mas é preciso permanecer (ou melhorar) nessa situação. Por esse motivo, o máximo que você pode gastar desse montante são seus rendimentos.

Vamos aos números, considerando este montante de R$1.000.000,00 (que, reforço, você juntou durante muitos anos e com muitos investimentos diferentes, pois essa missão realmente está longe de ser fácil), se você conseguir um investimento que te dê um retorno de 7% ao ano (já líquido de impostos), são R$70.000,00 anuais e cerca de R$5833,33 a mais a cada mês.

Levando em conta que você começou a trabalhar com 25 anos e demorou 30 anos para juntar esse montante (juntando R$500,00 por mês, a uma taxa mensal de 0,80% de rendimento), pode passar a contar com um salário razoável e extra que, a depender de sua situação aos 55, vai te permitir inclusive deixar de trabalhar.

Não existe caminho fácil

Convém dizer por uma terceira vez, para que realmente não exista enganos por aqui: não se trata de uma missão fácil, envolve ter um compromisso consigo mesmo ao longo do tempo. Trata-se de guardar recursos para seu eu do futuro e ouvir muito durante o caminho que “isso é besteira, pois você nunca sabe o dia de amanhã”. A parte paradoxal é que, no fim das contas, não saber como será o dia de amanhã deveria ser o maior estímulo possível para que você se prepare hoje, financeiramente, fisicamente e emocionalmente.

Essa lição, de todas as que o livro apresenta, é uma das mais difíceis de seguir. Porque você, se ainda não tem patrimônio, tende a acreditar que nunca acumulará tal montante inimaginável. Pode ter certeza, basta consultar alguém que acumulou patrimônio por toda a vida para descobrir como vale a pena dar valor àquilo que se construiu. Uma grande crítica sobre a educação financeira recai justamente sobre esse ponto: os educadores financeiros estariam imaginando um mundo colorido em que todos seriam racionais e capazes de seguir normas e mudar suas realidades.

Realmente, não são todos os indivíduos que decidirão por poupar recursos para o futuro, nem serão todos que optarão por pensar sobre o futuro. Na verdade, pouquíssimos entre os que acompanham o Terraço Econômico tomarão alguma decisão mesmo. Porém, se você que estiver lendo fizer parte do grupo dos que tomarão alguma decisão, independente do ponto que você estiver em termos de patrimônio agora: começando ou já finalizando seu planejamento, lembre-se que viver dos rendimentos é muito mais adequado do que reduzir o capital acumulado após chegar onde você desejava. Subir a enorme escada dos investimentos pode ser complicado, mas descer dela pode ser muito mais rápido e certamente uma decepção.

 

Publicado no Terraço Econômico em 20/11/2019

Ambiente de negócios: de onde virá o real crescimento sustentável

Nos últimos anos temos caminhado rumo a mudanças econômicas consideráveis, as maiores desde a redemocratização. Discutimos um limite aos gastos do Estado, uma adequação ao sistema previdenciário e estamos prestes a discutir mudanças sobre o ambiente de negócios. Este último aspecto pode, sem exageros, mudar a cara da economia brasileira para as próximas gerações.

Segundo o Doing Business, que é uma pesquisa realizada pelo Banco Mundial em cerca de 200 países para levantar as facilidades e dificuldades do ambiente de negócios, não estamos na segunda centena de países. Em alguns aspectos, como o que envolve o pagamento de impostos, estamos entre os últimos dez colocados. Em outras palavras: realmente o ambiente de negócios no Brasil é inóspito.

Existem atualmente duas possibilidades bastante positivas para mudar esse cenário e permitir uma melhoria considerável desta situação: uma reforma tributária e a chamada medida provisória da liberdade econômica.

A primeira possibilidade atualmente se divide em dois modelos diferentes: termos um imposto único a ser cobrado a cada transação bancária efetuada (proposta encabeçada por Marcos Cintra, secretário da Receita Federal) ou então um imposto sobre valor agregado (há pelo menos duas propostas, sendo uma delas capitaneada pelo economista do Centro de Cidadania Fiscal, Bernard Appy). Na visão deste que vos escreve, embora os dois modelos promovam uma facilitação no processo de pagar impostos, os impostos únicos são soluções simples para problemas complexos – e têm efeitos adversos que fazem a ideia não ser positiva no final das contas – e, enquanto isso, impostos sobre valor agregado podem adequar o país às melhores práticas internacionais.

Já a segunda está mais disponível e sua aprovação está sendo discutida. Tal medida provisória reduz uma quantidade de burocracias atualmente existente a empresas de pequeno porte – que representam, na prática, 99% de todas as empresas, segundo o Sebrae. Exigência de alvará para pequenos negócios e startups que não ofereçam perigo à saúde ou à segurança pública, por exemplo, deixará de existir. Para quem empreende, não há dificuldade de se entender o quanto reduzir burocracia no dia a dia é benéfico para a produtividade – dado que, dessa forma, tempo que seria perdido em processos não produtivos agora poderá ser utilizado em novas formas de otimizar o negócio.

Segundo o mais recente Doing Business, no Brasil as empresas passam cerca de 2000 horas e aproximadamente R$60 bilhões por ano lidando com burocracias. Reduzir esse tempo e essa imensa quantidade de recursos gastos tem um enorme potencial de crescimento para nossa economia. E, diferentemente do que vimos nos últimos ciclos de impulsionamento econômico, seria agora com sustentabilidade ao longo do tempo.

Publicado na Revista da ACIF Franca, edição especial de 75 anos da entidade, página 94

DECISÃO NÃO INTUITIVA: SACAR OU NÃO O FGTS?

Temos, a partir de determinação do atual Ministério da Economia, a possibilidade de sacar recursos do FGTS novamente. Da vez mais recente em que isso ocorreu, no governo Temer, era possível sacar todo o valor contido em contas inativas. Agora são duas as possibilidades: de realizar o saque de R$500,00 por conta inativa ou ativa – há possibilidade, por Medida Provisória, que o valor passe a ser de R$998,00 -, que é o chamado saque imediato, ou fazer um saque proporcional ao saldo uma vez ao ano mas com certos condicionantes, que é o chamado saque aniversário. Na outra vez, a escolha estava entre sacar os recursos ou deixá-los com o rendimento pífio fornecido pelo gestor do mesmo (o governo). Agora, há condições que tornam não tão óbvia a escolha.

Causa de uma certa desilusão neste ano, o FGTS agora se põe no centro de uma dúvida. Vale a pena ou não sacá-lo? É importante observar as novas regras para então decidir. Dentre elas, a que mais deve impactar nessa decisão é: caso opte por fazer o chamado saque imediato (nos próximos períodos, com valor máximo por conta inativa ou ativa), o valor limite de R$500,00 (ou R$998,00 com a MP) só pode ser retirado nesta vez e, se a opção for pelo saque aniversário (fazendo isso nos meses próximos ao mês de seu aniversário), embora um valor proporcional possa ser sacado todos os anos, em caso de demissão apenas a multa de 40% poderá ser sacada, não mais o saldo todo como anteriormente – sendo que este valor restante só poderá ser sacado em condições específicas.

SACAR OU NÃO SACAR?

No fundo, vai depender da sua disponibilidade de dinheiro em curto prazo ao longo do tempo.

Parece confuso, mas não é tanto assim. De olho em seu saldo de FGTS acumulado – aquele que você recebe de tempos em tempos pelos correios – e em seus rendimentos mensais, se faça a seguinte pergunta: caso eu seja demitido hoje, precisarei de todo esse recurso disponível ou é mais razoável que eu o tenha disponível em parcelas a cada ano?

Numericamente, pense em dois exemplos para tentar encaixar sua realidade. Imagine que seus rendimentos sejam, líquidos, de R$2.500,00 por mês e que seu saldo de FGTS seja de R$6.000,00. Caso você opte pelo saque aniversário, em um dos meses seu rendimento passará a ser de R$3.100,00 líquidos (pois, segundo a tabela da Caixa, nessa faixa de saldo residual é possível que sejam sacados 20% dele, R$600,00, no caso, 24% acima do que você costuma receber), mas, em caso de demissão com o saldo nesse mesmo montante, no lugar de receber R$8.400,00 (o saldo somado a multa de 40% do mesmo), receberá apenas R$2.400,00.

Agora imagine que seus rendimentos líquidos sejam de R$6.500,00, com um saldo de R$10.000,00, que você opte pelo saque imediato e tenha apenas essa conta disponível, ainda ativa. Neste caso, no mês do saque (que se limita a R$500,00 por conta), seus rendimentos líquidos serão de R$7000,00 (7,7% a mais) e, apesar de manter as condições anteriores para o saldo que lá restar (em caso de demissão você recebe o estoque somado a multa de 40%), não haverá outra oportunidade para fazer esse saque, a não ser que você preencha os requisitos das outras condições para isso.

No fim das contas, tudo se resume a colocar na balança os dois lados dessa questão: com seus rendimentos líquidos atuais, seria mais interessante ter um acréscimo de valor todos os anos em algum dos meses e em caso de demissão poder sacar apenas o valor da multa, pegar os recursos uma vez só ou deixá-los lá e ter um saldo maior a ser sacado em caso de ser demitido?

Apesar dos exemplos numéricos e da “balança”, se ainda assim a escolha ainda estiver pouco intuitiva, aqui vai uma sugestão: caso você tenha rendimentos líquidos mensais que lhe permitam ter uma vida razoavelmente confortável e, na atual situação, você possuir uma reserva de emergências e eventualmente investimentos que lhe auxiliem nesse aspecto, aproveite para sacar estes recursos e complementar seu bem estar ou seus investimentos; porém, caso sua situação seja de ter esses rendimentos apenas capazes de cobrir suas despesas mensais com pouca ou nenhuma sobra de caixa todos os meses (e não exista reserva de emergência ou outros recursos que possam ampliar sua liquidez em casos extraordinários), deixe para ter acesso a esses recursos apenas nas situações específicas em que a Caixa determina.

A sugestão acima se baseia na seguinte observação: se você já tem outros recursos em certa disponibilidade, conseguirá aproveitar os saques anuais para complementá-los e, em caso de demissão, terá certo montante que poderá absorver a situação de curto prazo. Já na situação em que você não tem outros recursos além dos rendimentos mensais para suprir eventuais momentos de desequilíbrio financeiro (como uma demissão), farão mais falta os recursos advindos do FGTS, seja ele com a multa de 40% ou apenas a multa.

Situação ideal que gostaríamos de ver nossos leitores é justamente a de estarem em possibilidade de sacar seus recursos disponíveis no FGTS a cada período, sem necessária preocupação com valores a serem recebidos em caso de demissão. Mas, caso você ainda não tenha disponibilidade suficiente para custear pelo menos alguns meses de seus gastos em caso de demissão (a famigerada reserva de emergências), pense bem antes de abraçar a supostamente óbvia escolha de sacar os recursos – ainda que, como no exemplo numérico deste artigo, eles possam significar um considerável aumento de rendimentos líquidos em um dos meses do ano.

É possível que você, leitor, discorde dos apontamentos numéricos levantados neste artigo. Não há problema nisso, afinal, os recursos lá disponíveis são seus, não deste que aqui está escrevendo. Ainda assim, fazemos um apelo: reflita, mesmo que rapidamente, sobre a balança que apresentamos aqui. Não deixe que a disponibilidade de recursos no curto prazo possa te prejudicar em caso de uma inesperada demissão – ou, caso estiver na situação mais confortável, não deixe de aproveitar para ter um recurso adicional para contribuir em seu bem estar ou em sua árdua caminhada rumo à independência financeira.

Cada caso é um caso, há sempre o que analisar. Que todos os nossos leitores tomem a melhor decisão para seus respectivos saldos de FGTS!

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 18/11/2019

DÓLAR: O “NOVO NORMAL” É R$4,00?

A data de descobrimento do Brasil é o ano de 1500 (mais corretamente, 1492). Porém, temos algumas datas que representam mudanças de paradigmas quase análogas ao momento em que “nascemos” como país. Em termos de economia, da possibilidade real que se passou a ter de planejar o valor do dinheiro, essa data é o ano de 1994. O Plano Real, sem exageros, representou uma guinada sobre o problema que se pensava ser eterno em nosso país: a inflação.

Logo de sua criação, dentre outros mecanismos utilizados para demonstrar que agora o plano ia mesmo dar certo, surgiu a equiparação ao valor do dólar. Durante um tempo considerável, (entre 1994 e 1999) nossa recente moeda valia um dólar ou até menos, sendo que a ideia era a de manter a estabilização do que acabava de ser criado sem efeitos inflacionários.

Como em economia nunca há almoço grátis, temos que esse paraíso do dólar custou em juros. Os dois mecanismos, apesar de diferentes, podem se interligar quando o câmbio é fixo: o fluxo de entrada e saída é estimulado ou contraído não apenas com base na compra e venda de dólares, mas também da atratividade gerada ao capital advinda das altas taxas de juros nominais (e dos juros reais altos). No fim das contas, chegamos a ter, em março de 1999, taxa Selic de 45% ao ano.

Vendo não ser possível mais segurar as variações do câmbio, e diante de um processo complexo de crise em países emergentes no final dos anos 1990, decidimos que o câmbio por aqui poderia variar. Inicialmente havia sério temor de que o efeito inflacionário faria a moeda desabar (afinal, menos de cinco anos antes a situação era abarrotada de planos malsucedidos justamente por não fazerem sua parte contra a inflação). Ainda que aos solavancos, não foi o que aconteceu, felizmente.

Porém, nessa virada de século se estabeleceu algo importante. Em 04 de maio de 2000, outro marco importante: a Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/2000) surge para determinar que há limite de endividamento para a máquina pública. Com essa mudança, junto vem uma discussão que se formulava desde poucos anos antes: era preciso que o país respeitasse o chamado Tripé Macroeconômico.

Expressão muito falada principalmente em tempos de instabilidade – quando se pensa que deixará de existir -, o Tripé Macroeconômico se baseia no seguinte: o câmbio deve ser livre, a inflação deve ter metas e deve haver superávit primário para demonstrar que o lado fiscal está comportado. Não é uma mágica, mas essa estrutura permite de vez que a economia deixe de se preocupar com sua própria estabilidade e passe a focar em desenvolver-se e crescer.

Não muito tempo após esse “tratado de estabilidade”, veio o ano de 2002 e o “efeito Lula”. Alguém que, dizia-se, tinha real capacidade de implodir tudo aquilo que havia sido conquistado com sangue, suor e lágrimas, estava para sentar na cadeira mais poderosa do país. Sorte a nossa, como país, que ele se comprometeu a não fazer isso (na famigerada Carta ao Povo Brasileiro). Foi eleito, cumpriu sua palavra neste aspecto e a economia apresentou evolução interessante. Importante notar que, quando de sua eleição, o dólar superou a temida barreira dos R$4,00.

Políticas econômicas acertadas – ao menos durante a Era Palocci no Ministério da Fazenda – fizeram a dívida pública se reduzir (afinal, havia superávit fiscal considerável todo ano), a inflação não se descontrolar mais e, juntamente ao fluxo imenso de capital que vinha do crescimento superlativo da China (do qual somos até hoje grande fornecedor), vinha um dólar que sinalizava que tínhamos chegado no pote de ouro no fim do arco-íris. Durante muitos anos era possível imaginar que nossa cotação da moeda yankee não superaria os R$2,00.

Lula sai com popularidade e com um histórico razoavelmente positivo de políticas econômicas executadas; teve de “virar a mão” em 2008, como muitos países do mundo, para absorver o choque forte da crise internacional e, supostamente, Dilma, que entraria em 2011, seria a responsável por parar a máquina de gastos em que se transformou o país.

Avançamos um pouco no tempo, estamos em 2014. Ano eleitoral. Vendia-se um país “sem problemas” pelo governo que lá estava e “com necessidade de reformas estruturais” por quem queria chegar a ele pela via eleitoral. Aqui, falamos do dólar, então é impossível não lembrar da bravata de Guido Mantega sobre a cotação: “Vai quebrar a cara quem apostar na alta do dólar”. Parece que foi a senha para que a moeda fizesse uma escalada impressionante. A moeda, que há tempos não superava R$2,50, rompeu a barreira dos R$3,00 e parecia não parar mais de subir. Entre janeiro e fevereiro de 2016, no auge das movimentações do impeachment, que se consumou mais adiante, o dólar novamente supera a barreira dos R$4,00.

Durante o período de Temer, mesmo enquanto as expectativas eram positivas e seu governo não lutava diuturnamente para não cair, o dólar jamais esteve abaixo de R$3,00 – e, em decorrência da turbulência eleitoral, em seu último ano, entre agosto e setembro, viu novamente a marca temida de R$4,00 ser superada.

Agora, com Bolsonaro, no câmbio tivemos um recorde. Todos os 51 fechamentos diários entre 16/08/2019 e 28/10/2019 ficaram acima de R$4,00 (apenas o deste último dia fixou abaixo, em R$3,99). E, mesmo após ter fechado essa sequência, não deixou de abraçar essa faixa ou mesmo superá-la diariamente. Seria então a anteriormente temida marca de R$4,00 o “novo normal” para o câmbio do dólar?

PARA ONDE VAI O DÓLAR?

A pergunta “para onde vai o dólar” é perigosa e induz a erro, principalmente quando falamos de previsões que vão até as quatro casas após a vírgula. Porém, no contexto geral, é possível que temos de lidar com esse “novo normal”. Isso acontece em decorrência de um contexto novo que o Brasil passa, em que a taxa de juros consegue ser reduzida com mais sustentabilidade (enquanto você lê este texto estamos com Selic meta de 5% e ela deve encerrar o ano em 4,5%, algo inédito em termos nominais), se foca em ajustar o lado fiscal (previdência já aprovada e outros direcionamentos em constante discussão) e, aparentemente, esse dólar nas alturas não oferece o mesmo perigo inflacionário de antigamente.

Outro ponto que coloca panos quentes sobre a preocupação com o valor da moeda do Tio Sam é a expectativa – por vezes ilusória, dado que ocorre desde 2017 – de que haverá uma grande entrada de capitais externos no país quando algum grande evento de ajuste ocorrer. Dizia-se que esse grande evento era a saída de Dilma Rousseff, depois a aprovação da reforma da previdência ou mesmo uma grande reestruturação do Estado brasileiro.

De fato há um conjunto robusto de reformas em discussão, mas é preciso notar que nosso lado fiscal segue bastante insustentável – ainda neste ano discutimos se a Regra de Ouro (emissão de títulos de dívida para pagamento de despesas correntes) precisaria continuar a valer, ou se o Teto de Gastos não poderia ser flexibilizado – e que, aos que estão se esquecendo, a dificuldade de articulação política para aprovação de medidas segue sendo “Nível Brasil”, não há nada de “jogo ganho” neste país que ainda é o paraíso dos grupos de interesse estabelecidos há décadas.

Parece que superar a marca temida de R$4,00 já não é mais tão assustador assim. Em todo caso, é no mínimo curioso que a marca que significava até muito pouco tempo atrás “liguem todos os alertas porque agora a coisa complicou” tenha virado, possivelmente, o “novo normal”. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 11/11/2019

BLACK NOVEMBER, WEEK OU FRIDAY: CUIDADO!

Entramos em um mês que, de alguns anos pra cá, se tornou a época de uma oportunidade a mais de descontos no comércio. A data de Black Friday, iniciada nos anos 1990 nos EUA e popularizada nos anos 2000, chegou no Brasil no início dos anos 2010, já virou mania por aqui.

Dentre as diferenças entre a versão do Tio Sam e a que temos por aqui, a primeira é que nos EUA essa data constitui-se em um dos principais eventos do comércio, enquanto que por aqui tem aumentado em importância, mas ainda estando distante de datas como dia das mães, dia dos namorados e natal. Outra diferença é o que nos motiva a escrever esse artigo.

Nos EUA, a data é única. Trata-se de um dia em que o objetivo é de esvaziar os estoques acumulados no ano para que as lojas passem a se preparar, com produtos novos, para as compras de natal. Por aqui, também começou com um dia, em algumas lojas (físicas e eletrônicas) tornaram-se a ser uma semana e, em alguns casos, até o mês todo.

A data brasileira que se estica a cada ano mostra a tentativa, que coincide com a atual lenta recuperação econômica observada, de movimentar o comércio por aqui. Não parece ser coincidência que essa data virou semana e depois mês de 2016 até agora. O comércio faz um esforço intenso para sair do marasmo – e, às vezes, isso ocorre com incentivo do governo (como na Semana do Brasil, nas proximidades do 7 de Setembro, iniciada em 2019).

Na prática, o que ocorre com o esticar desse período especial de promoções não é difícil de entender: a chuva de comerciais que tentam te mostrar que é hora de trocar basicamente tudo que você tem é ainda mais intensa. Se a Black Friday, sendo um dia, já é um belo incentivo para que você adquira algo que não precisa, imagine o que ocorre quando um mês todo passa a ser dedicado a essa causa comercial.

COMPRAR OU NÃO NA BLACK FRIDAY?

Primeiramente, a dica que pode ser dada é: pense sobre as necessidades (ou não) de fazer aquisições, independente da época. É possível que você realmente esteja precisando (ou mesmo desejando) adquirir algo e, na prática, essa pode ser mesmo uma boa oportunidade para fazer tal aquisição. Acompanhe os preços por plataformas de comparações ao longo do tempo para ver se as oportunidades são reais.

Em segundo lugar, não se deixe seduzir por grandes oportunidades que surgem “do nada”. Não há almoço grátis, como já se sabe da clássica frase dos economistas: uma grande oportunidade pode virar um item desnecessário a mais em sua casa (e dinheiro a menos em seu bolso).

Por último, mas não menos importante: além de realizar desembolsos, busque também oportunidades de investimentos nessa época. Explicamos: assim como muitas lojas te oferecem oportunidades para gastar, temos hoje muitas casas de investimento abaixando os valores de entrada para investir. Com a Selic nos níveis atuais, trata-se de um nobre “unir o útil ao agradável”; aproveite tais oportunidades. Na Guide, durante todo o mês de novembro, por exemplo, todos os fundos de previdência da Icatu (cerca de 60) estão com os mínimos a R$1.000,00 ou aportes mensais de R$100,00. E ainda tem mais oportunidade para aparecer.

Em suma, esteja consciente do que lhe é oferecido e não caia em oportunidades boas apenas para quem oferece. Dado que era apenas um dia, virou semana e agora mês, quanto mais consciente você estiver, menos agora e nos próximos anos você cairá em armadilhas.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 04/11/2019

ENFIM, TEMOS UMA NOVA PREVIDÊNCIA!

Projetos para reformar a previdência são apresentados desde os anos 1990. Sempre com oposição ferrenha e discussão sobre as perdas que envolveria – apesar dos dados mostrarem uma necessidade cada vez maior. Fernando Henrique Cardoso tentou, mas não conseguiu por um voto contrário (o clássico erro de Kandir). Luiz Inácio Lula da Silva avançou na parte dos servidores públicos, mas não alcançou idade mínima. Dilma Vana Rousseff tentou, mas seu próprio partido a impediu. Michel Miguel Elias Temer Lulia teve uma pedra no meio do caminho (ou, para quem preferir, só chamar de Joesley Batista mesmo). Jair Messias Bolsonaro chegou lá.

Não se trata de um processo fácil e, com o perdão da repetição, não é difícil entender o motivo. Há muitas décadas, faz parte do ideário do brasileiro médio o ciclo “estudar, começar a trabalhar e em seguida se aposentar”. Atire a primeira pedra quem nunca pensou dentro deste esquema ou ouviu recomendação de proceder justamente desta maneira. Possivelmente este aspecto é cultural também em outros países, mas, no Brasil, parece estar ainda mais arraigado.

A necessidade de se fazer uma reforma deste sistema se dá, para além de todo e qualquer dado que possa ser apresentado, por um fator fundamental: ele funciona com base em transferências solidárias (quem está trabalhando contribui para quem já se aposentou) e, fato demograficamente comprovável, temos o número de contribuintes se reduzindo ao mesmo tempo em que aqueles que recebem o benefício aumentam em quantidade. Analogamente à pirâmide demográfica brasileira, podemos comparar nosso sistema previdenciário também a uma pirâmide que se inverte a cada ano.

Há uma má notícia referente a esta reforma recentemente aprovada: o sistema de pirâmide a caminho do colapso segue adiante. Não tivemos, apesar do esforço hercúleo envolvido nestes dez meses de governo, a chance de colocar nesta emenda constitucional sequer a possibilidade de discutir a capitalização (regime em que cada pessoa contribui para a própria aposentadoria), independente de como ela pudesse funcionar (apenas com contribuições próprias, com complemento do governo, com participação das empresas, etc).

Outra má notícia envolve um grupo delas, na verdade. Algumas das diferenciações que existiam anteriormente permanecerão. Professores, policiais federais e legislativos estão em grupos que poderão se aposentar mais cedo. Possivelmente não porque seriam mais afetados por essa reforma, mas porque têm grupos de interesse organizados que conseguiram manter esses benefícios.

Para além dessas duas grandes más notícias, temos uma regular e outras duas boas.

A notícia regular é que, por enquanto (boa parte dos próximos dez anos), haverá certo alívio fiscal ao governo. Sim, é isso mesmo, essa reforma apesar de necessária, não será suficiente. Trata-se de um passo importante e relevante, mas sinaliza apenas que o governo não quebrará agora, está longe de ser a salvação da lavoura. Precisamos seguir reformando, principalmente o lado fiscal e o ambiente de negócios.

As duas notícias boas: em primeiro lugar, a redução de gastos se dá em uma base de R$800 bilhões para os próximos dez anos (e esses R$800 bilhões por ano farão diferença neste fôlego fiscal); em segundo e, pode-se observar, ainda mais relevante, temos que finalmente foi possível aprovar uma idade mínima para a aposentadoria no país, igualando (exceto pelas profissões que conseguiram fazer valer seus lobbies) os servidores públicos e privados. A partir de agora, caso você não se encaixe em nenhuma das regras de transição, poderá se aposentar a partir dos 65 anos de idade se for homem e 62 anos se for mulher.

Economia de R$800 bilhões (que na realidade, como Marcos Lisboa apresenta nesta palestra, é uma redução de gastos nesse montante) é fator relevante porque, em comparação com todos os outros projetos, é o que mais tem efeito de alívio fiscal. O projeto de Temer, por exemplo não chegaria a R$600 bilhões de redução de desembolsos para uma década – e, não é preciso nem lembrar já que não teve sua aprovação realizada.

Em relação a idade mínima, o grande ponto importante é que, se por um lado o sistema continua como está, por outro, finalmente foi possível inserir uma barreira mínima à entrada de maneira menos desigual. Por “menos desigual”, entenda que, até agora, quem se aposentava por tempo de contribuição o fazia muito antes de quem alcançava o benefício por idade – e, para inverter ainda mais a conta, geralmente os que se aposentam por tempo de contribuição têm benefícios superiores aos que se aposentam por idade. Na prática, isso significa que, até essa mudança que acaba de ser aprovada, os ⅔ de brasileiros que se aposentam com o salário mínimo e nas proximidades dos 65 anos contribuem ativamente para o ⅓ que se aposenta até dez anos antes. Segundo dados de 2018, os mais pobres no Brasil se aposentam seis anos mais tarde e recebem 50% a menos do que os mais ricos.

Apesar dos pesares, a aprovação da reforma da previdência que vemos agora é um fato histórico. Sim, ainda há muito a se corrigir e direcionar para que o país de fato melhore, mas o caminho pavimentado pelas reformas fica mais suave para que tenhamos um futuro mais sustentável.

Ganha, enfim, o Brasil. Sigamos no esforço das reformas que virão mas, no dia de hoje, comemoremos que este caminho positivo definitivamente está iniciado.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 24/10/2019

Deve o presidente do Banco Central ceder a pressões de curto prazo?

Junho de 2018. Situação externa sinalizando que não iria ser um caminho fácil para os emergentes, com delicados pontos de instabilidade especialmente na Argentina e na Turquia. Questões internas embaralhando os cenários, já que não se sabia quem teria cacife para levar a cadeira presidencial brasileira, por mais que talvez se previsse ser alguém da centro-direita que tivesse possibilidade de tocar reformas necessárias desde o início da década.

Eis então que, diante de uma relevante disparada no dólar, subiam as pressões de diversos lados do mercado para que se o juro fosse elevado para de conter tal disparada.

Neste momento, Ilan Goldfajn deu seu maior demonstrativo de que sabia exatamente o que estava fazendo. Em pronunciamento logo no dia 07 daquele mês, deixou claro que não iria se utilizar de mecanismos como o juro para tratar de uma questão cambial. Não adiantava tentar frear aquela tendência com essa ferramenta, pois a fonte do risco era outra.

Dentre outros mecanismos, a política monetária se utiliza da movimentação dos juros, em reuniões a cada 45 dias no Comitê de Política Monetária (COPOM); já a política cambial se baseia em mecanismos de utilização de reservas e realização de swaps. O juro afeta sim o fluxo de investimento estrangeiro na economia, que tem impacto determinante no dólar, mas não é o único determinante e pode não ser o mais relevante.

Cabe lembrar que no Brasil, a função do Banco Central é a de vigiar a estrutura financeira objetivando a estabilidade dos rumos da moeda (e não outros aspectos como o crescimento da economia ou o desemprego, mas que obviamente não passam despercebido por influenciar a inflação). Ou, mais diretamente, focar suas observações em relação a mudanças na taxa de juros sobre as mudanças nos níveis de preços – vindo a agir preventivamente em relação a esses. Na prática, isso significa que o objetivo do nosso Bacen é de um prazo muito mais longo do que “até o final deste ano” ou mesmo “próximos dois ou três anos”. Ainda assim, o curto prazo se faz presente como pressão.

Chegamos então a 2019. Reforma da previdência está praticamente aprovada (a mais robusta de nossa história), inflação muito bem ancorada ante as expectativas para este e também para os próximos anos, sinal positivo para uma redução dos juros, conforme vem inclusive ocorrendo. Ainda que essa reforma não seja suficiente para resolver todos os problemas do lado fiscal, já promove um alívio que se verifica na redução dos juros mais longos da curva.

O Boletim Focus, que colhe as opiniões de agentes de diferentes instituições do mercado a respeito das expectativas sobre PIB, câmbio, juros e outros aspectos, mostrou dois movimentos notáveis do começo de 2019 (boletim de 11/01/2019) até agora (boletim de 14/10/2019). Em primeiro lugar, uma redução considerável nas expectativas para o crescimento do PIB neste ano: os atuais 0,87% (presentes nas últimas quatro semanas seguidas) começaram como 2,57%; em segundo, os juros começaram previstos para encerrar 2019 em 7% e agora estão em 4,75% pela segunda semana seguida. A inflação permaneceu em patamares baixos: 3,28% no relatório mais recente contra 4,01% do início deste ano.

Crescimento em baixa, inflação em níveis historicamente reduzidos. Seria o caminho para queda dos juros como nunca antes visto?

A “permissão” para que os juros possam ceder está na ancoragem de expectativas inflacionárias. Entretanto, um dos grandes aspectos que resvalam na inflação é a situação da esfera de gastos do governo. Sim, é verdade que há um certo alívio dada a aprovação da reforma previdenciária, mas não se pode esquecer que essa será capaz apenas de permitir que o governo não quebre, não que ele passe a ter fôlego. Sob essa perspectiva, ainda não há o que se comemorar em uma queda de juros dessa magnitude porque, no fim das contas, caso o fiscal não seja efetivamente direcionado, terá sido apenas uma boa miragem e não a garantia de um futuro mais afável em termos de juros no Brasil. Será necessária uma reforma administrativa (para aliviar o lado fiscal) e outra tributária – a primeira pouco se fala e a segunda tem adiamentos quase que diariamente anunciados.

Outro aspecto que tem de ser observado é o juro real: em nossa história recente não tivemos juro real tão baixo. Nas previsões atuais da Selic, é possível que o juro real fique abaixo de 1% – o que pode resultar em um baixo incentivo para alocação de capital em nosso país.

Essa combinação entre baixa atratividade de capitais internacionais e um fiscal ainda capenga faz com que o Banco Central, caso seja prudente, recomende e reforce a necessidade de ajustes, para que essa nova realidade de juros baixos não se transforme em um mero sonho de uma noite de verão. No entanto, não é a atual imagem que nossa autoridade monetária está passando.

A estabilidade da moeda, do sistema financeiro como um todo, tem mero quarto de século em nosso país. Parece ser um longo período mas, aos olhos de nossa conturbada história, é quase um piscar de olhos. Em janeiro de 2016, menos de quatro anos atrás, haviam previsões para uma Selic consistentemente em dois dígitos e uma inflação que, a continuarem as estruturas daquela época, talvez não se conseguiria mais conter. Dólar então, em patamares inimagináveis. No entanto, cá estamos nós, em outubro de 2019, vendo uma situação absolutamente diferente.

Questionamento para quem coloca em cheque a atividade do Banco Central por “estar seguindo muito devagar o que pede o mercado”: não seria adequado que a autoridade monetária cumprisse seu papel de observar o longo prazo em detrimento do que acontece na virada de poucos meses? Ou será que toda e qualquer atitude de curto prazo pode ser corrigida, pela autoridade monetária, na mesma velocidade de curto prazo que o mercado posiciona suas mudanças de expectativas?

Não se tem neste artigo um pedido para que os juros parem de ceder. Ainda há muitas maravilhas não precificadas dessa queda nunca antes vista. O que se pede aqui é prudência. Ser curto-prazista por mero otimismo não condiz com a execução da política monetária de maneira séria e responsável.

Há bastante ciência que hiato do produto é grande e que há espaço para novos estímulos, leia-se juro real abaixo do juro neutro, por mais tempo. A inflação está abaixo da meta para este e para o próximo ano, mas parece que algumas casas estão “pesando a mão” em alguns números para juros, ventilando números tão baixos que realmente levanta a dúvida se estão modelando ou não.

Roberto Campos Neto, seja mais como Ilan Goldfajn e foque em sua função como líder da autoridade monetária brasileira. Ou então aguarde os rumos de uma “correção necessária”. A credibilidade demora anos para se ganhar (lembremo-nos do Tombini ano a ano dizendo que chegaríamos ao centro da meta de inflação com esta estando em seu teto), mas em poucas atitudes pode ser perdida.

 

Publicado no Terraço Econômico em 21/10/2019