BREXIT: AGORA VAI?

A trajetória do Brexit é cheia de idas e vindas, mas pode ser definida por alguns pontos altos. Referendo em junho de 2016 mostra a aprovação popular a esse movimento, então cai o primeiro-ministro David Cameron, conciliador que afirmou que o faria caso a resposta do povo fosse pela saída do Reino Unido. Entra Theresa May, obstinada com a questão – e sai três anos depois em discurso emocionado após não conseguir. A vez atual é de Boris Johnson, que também bastante focado na questão, conseguiu finalmente um acordo com a União Europeia.

Desde julho de 2016 até os dias atuais, a vontade popular expressada no plebiscito segue em suspensão. O desejo do Reino Unido de deixar a União Europeia reflete um mundo em que o pêndulo histórico está mais direcionado ao nacionalismo do que à globalização – possivelmente é o momento mais avesso a integração entre países desde 1989 com a queda do muro de Berlim.

O que se tem a apresentar em relação ao acordo de Boris e Juncker é que ele colocará Reino Unido e União Europeia em um período de transição em que as regras ainda valerão e que, logo após ele, o primeiro grupo poderá partir para acordos comerciais com outras nações. O que parece simples, no fundo envolve diversos acordos que ainda precisam ser feitos em um espaço curto de tempo.

O acordo recentemente alcançado tem um grande pró e um grande contra. Sua maior vantagem é ser, segundo as duas partes, positivo: foi chamado de “ótimo novo acordo” por Johnson e “justo e equilibrado” por Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia. No lado vazio do copo: ainda há a necessidade de aprovação pelos dois parlamentos e o prazo para isso, caso não venha a ser prorrogado, é o dia 31 de outubro deste ano (dez dias após a publicação deste texto).

Você que acompanha esta história quase sem fim deve ter pensado ao ler o parágrafo anterior que “não é possível que exista apenas esse ponto contrário”. E você está certo: outros dois complicados pontos são o chamado backstop da Irlanda do Norte e o possível “referendo confirmatório” que pode ser apoiado pelo Partido Trabalhista.

Sobre o primeiro ponto, o chamado backstop é uma legislação negociada por Theresa May que evita conflitos futuros e funciona da seguinte maneira: a Irlanda, diferentemente da Irlanda do Norte, não é considerada parte do Reino Unido apesar de fazer parte da União Europeia e, caso o Brexit se concretize, ela ficará de certa maneira isolada e terá barreiras físicas (comerciais e de movimentação) em suas divisas. A ideia desse backstop é impedir que essa barreira física entre as duas Irlandas ocorra – dado o histórico de divisão entre as duas e o conflito possível que isso poderia reacender.

Já o segundo ponto é mais sutil, mas, em se tratando dessa questão já em aberto desde o meio de 2016, não dá para ser descartado: o Partido Trabalhista tem ouvido eleitores sobre a necessidade de um segundo referendo, a fim de confirmar uma vez mais a vontade do povo do Reino Unido sobre a saída da União Europeia. Não é difícil imaginar que o imbróglio seria ampliado caso essa ideia passe a ser uma realidade – talvez não um “recomeçar do processo”, mas, certamente, mais um adiamento de decisão.

Como já comentamos, ainda que não venha a acontecer, o Brexit já mostra como situações complexas em termos de relações comerciais e migrações serão tratadas pelo mundo daqui em diante. A integração sonhada nos anos 1990 parece estar se dissipando em meio a interesses nacionalistas. O “vamos nos conectar uns com os outros” tem começado a perder espaço para o “precisamos defender os interesses dos que fazem suas vidas em nossa região”. Não se tratam de interesses ilegítimos – até porque são desejos confirmados em pleitos ao redor do globo -, mas certamente vão mudar a cara do mundo como o conhecemos.

recomendação tanto da União Europeia quanto do Reino Unido é de que os parlamentares das duas partes aprovem o acordo alcançado. E, considerando o cenário nebuloso, desconhecido e arriscado de um Brexit sem acordo, é salutar que as partes se entendam mesmo, a fim de evitar o prolongamento dessa cicatriz que, cá pra nós, não voltará ao estado anterior mesmo que se desista de vez do processo todo.

Mas não se engane: tal qual todo o imbróglio observado até agora, não teremos uma saída que envolva menos do que um complexo jogo de xadrez. Enxadristas diferentes já estão jogando há mais de três anos. Seria agora o momento de finalmente declarar que o jogo está próximo do fim?

 

Artigo publicado no Blog da Guide Investimentos em 21/10/2019

Corte na multa do FGTS: uma boa ideia!

Em 2017 tivemos uma bela notícia a respeito do FGTS durante o governo Temer: os saldos de contas inativas ficariam disponíveis para saque, o que poderia aliviar as dívidas dos brasileiros em um momento difícil. Nossa sugestão foi que todo esse estoque fosse sacado.

Poucos meses atrás, em 2019, uma inicialmente animadora e no final das contas meio decepcionante notícia envolveu o FGTS novamente: uma nova possibilidade para saques de contas inativas, agora com o limite de R$500,00 por cada uma. Mais uma vez, agora com algumas ideias a mais, sugerimos tirar todo o recurso possível de lá.

Agora, uma nova medida anima em relação ao FGTS: o governo colocará em pauta uma Medida Provisória para excluir a necessidade do pagamento de 10% da multa sobre o saldo do FGTS em caso de demissão sem justa causa – os mesmos 10% que ficavam “de graça” para ele.

Hoje, na prática, funciona da seguinte maneira: quando há uma demissão sem justa causa, dentro dos valores a serem pagos ao funcionário que está sendo demitido, há uma multa de 50% sobre o saldo acumulado de FGTS deste na conta daquele emprego. Porém, a parte curiosa disso é que apenas 40% dessa multa chegam ao trabalhador, porque os outros 10% ficam para o governo – vão para a conta única do Tesouro Nacional e então remetidas ao FGTS.

Essa medida é positiva porque reduzindo o custo de demitir, acaba por reduzir-se indiretamente o custo de contratação, o que servirá, no fim das contas, de incentivo maior a contratação. Repare que não se fala aqui em “mudança que vai reduzir drasticamente o desemprego”, mas sim de um incentivo positivo a novas contratações.

Em termos numéricos, imagine a seguinte situação: o funcionário trabalhou na empresa por dez anos mas agora já não é mais possível tê-lo como colaborador por qualquer que seja o motivo, então a empresa decide mandá-lo embora; fazendo uma conta baixa, caso o salário médio de registro dele fosse de R$2.000,00 em todo esse período, a cada mês ele acumulou R$160,00 e, com os 3% de rendimento anuais do FGTS, terá acumulado um saldo de R$22.357,78; sobre esse saldo, hoje são adicionados 50% (R$11.178,89), dos quais 10% (R$2.235,78) ficam para o governo em uma conta que ele nem utiliza (apenas serve para aumentar o limite de gastos discricionários).

Aqui utilizamos o exemplo de uma demissão. Imagine empresas que têm uma rotatividade maior de funcionários, ou mesmo que estão passando por um momento de grande saída por contenção de custos ou mesmo troca por novos colaboradores. Esses 10% – que, não custa lembrar, nem vão ao trabalhador – fazem diferença para as empresas.

O efeito fiscal da medida está sendo em R$6,1 bilhões de reais. Isso pressiona o teto de gastos em uma época em que se estudam maneiras para sairmos sustentavelmente de uma sequência de déficits. Porém, dado o efeito positivo que será gerado ao reduzir um custo das empresas e ainda incentivar, mesmo que indiretamente, que sejam contratadas mais pessoas, não se pode dizer que a ideia de abrir mão dessa receita nesse formato seja má ideia.

Afinal de contas, é melhor abrir mão de uma parte do orçamento que basicamente não se usa sem que isso prejudique o trabalhador ou as empresas do que, como feito outrora, conceder enormes isenções sobre a folha de pagamentos a alguns setores, ver com isso uma vertiginosa queda de receita e não observar um aumento sensível do emprego desta forma. Ou, mais diretamente: podemos arcar mais facilmente com R$6,1 bilhões do que com as centenas de bilhões de subsídios que serviram apenas como transferência de renda dos mais pobres aos mais ricos.

 

Publicado no Terraço Econômico em 16/10/2019

QUEM QUER SER PROFESSOR NO BRASIL?

Professor é daqueles profissionais cuja responsabilidade transcende muito o cargo. Eles participam da formação humana e profissional de todas as pessoas – afinal, mesmo no homeschooling há a figura do professor. Ainda assim, apesar de sua notável importância, temos nessa profissão um atual desprestígio.

Dois dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2019 mostram a realidade complicada em que nos encontramos: 37,8% dos professores dos últimos anos do ensino fundamental não têm formação na área (29,2% dos docentes do ensino médio repetem a marca) e, em relação a salários, professores da educação básica recebem um salário que corresponde a menos de 70% daqueles do ensino superior (e cerca de 50% em relação aos profissionais das áreas de exatas e da saúde).

Tal desincentivo tem um resultado prático: segundo pesquisa da OCDE divulgada no ano passado, apenas 2,4% dos jovens brasileiros pretendem ser professores; pesquisa também do ano passado do Movimento Todos Pela Educação mostra ainda que 49% dos professores não recomendam a profissão devido aos baixos salários e a falta de atenção da área no país.

Assim como em qualquer campo profissional, a questão não se resume meramente ao salário. Se assim o fosse, bastaria aumentar sensivelmente os salários e teríamos uma educação em níveis muito mais adequados. O todo mostra um quadro muito mais amplo de itens a serem melhorados.

Se há um lado positivo em estarmos em péssima colocação em algo é o fato de que há países que, opostos a isso, estão em condições muito satisfatórias. Um desses países é Singapura, país que saltou entre ter a maioria de habitantes analfabetos para o topo das avaliações mundiais quando o assunto é a educação. Em entrevista ao Roda Viva poucos anos atrás, um dos responsáveis por essa mudança no país asiático elencou as duas maiores características capazes de gerar mudanças reais: a qualidade dos professores e a qualidade do líder da escola.

Não se trata de um caminho fácil a reversão do cenário desanimador de educação no Brasil. Isso decorre de dois fatores ásperos, mas tristemente presentes: a terceirização do papel de educadores das famílias para as escolas e o curto-prazismo de grandes planos de mudança.

Sobre o primeiro ponto, temos que se a escola existe para a instrução e mal consegue lograr êxito nessa árdua missão, imagine quando passa a ser também demandada em termos de direcionamentos amplos que anteriormente eram apresentados em âmbito familiar – como o respeito a quem está liderando um grupo, por exemplo.

Em relação ao segundo, temos em nosso país uma miríade de “planos de futuro” que mudam no espaço de tempo de um governante para outro. Educação é algo que se discute em termos de uma geração – 20, 30 anos -, não de uma metade de década quando muito. A ausência de um plano real de avanço (que foque mais em aspectos que vão realmente impactar a vida das pessoas, não a caprichos políticos de quem quer que seja) impacta diretamente nos resultados lamentáveis que temos. O Pisa, que é referência mundial nessa avaliação e verifica a situação de 70 países, mostra que somos o 59º em leitura, o 63º em ciência e o 65º em matemática.

A pergunta do título deste artigo é um questionamento sério nesta véspera de dia dos professores. O diferencial entre uma população mais educada e outra menos educada é fundamental e explica, dentre outros aspectos, a capacidade de um país de enfrentar seus problemas mais profundos e de ser mais produtivo. Assuntos como a formação dos professores e o encaminhamento como um todo da educação deveriam estar mais sujeitos aos efeitos positivos no longo prazo do que a direcionamentos curto-prazistas diversos. Apesar dos pesares, todo professor sabe do impacto que gera e do diferencial que é capaz de gerar na vida de quem é ou já foi seu aluno.

Um grande e fraterno abraço a todos esses que executam missão hercúlea neste país que, cá pra nós, apesar de colocar a pauta da educação como prioridade (até orçamentária), poderia estar fazendo muito mais pelo sistema educacional como um todo – principalmente quando falamos do longo prazo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 14/10/2019

POR QUE É TÃO DIFÍCIL POUPAR?

Assunto dos mais ásperos, dinheiro costuma ser aquele tópico que cria rodas de conversas logo que se inicia. Talvez não quando o tópico é a faixa salarial (possível motivo de alegria), mas certamente quando tratamos dos gastos – e ainda mais quando falamos do quanto se consegue ou não poupar/investir.

Pesquisa recente do SPC Brasil em parceria com a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas aponta que 67% dos brasileiros não conseguem poupar. Entre as justificativas para isso, 40% alegam terem uma renda muito baixa, 18% terem sido surpreendidos por algum imprevisto financeiro, 15% citaram reformas em andamento e apenas 13% admitiram o descontrole das próprias contas.

Esse tipo de pesquisa tem como base as respostas das pessoas e, no fim das contas, são esses os dados registrados. Porém, a parte áspera e que não costuma ser tratada é o fato de que nós, brasileiros, não somos educados financeiramente. Você, leitor, terá sorte se teve alguma conversa sobre orçamento e educação financeira na escola em que estudou ou mesmo com seus pais – e notará com uma simples pesquisa de opinião entre os seus que, se for esse mesmo seu caso, trata-se de exceção à regra.

A educação financeira, que parece algo recente e para “gente que tem dinheiro” na verdade é algo que considera algo muito simples, direto, mas que muitos simplesmente torcem o nariz ao lembrarem: os recursos são escassos e, como o orçamento é um recurso financeiro, ele também tem limite. Assim, esses limites forçam escolhas que precisam ser feitas ao longo do tempo. A lógica é básica, mas o entendimento pleno desse conceito ainda está bem distante.

O primeiro passo para compreender qual a real situação financeira de uma pessoa é fazer um diagnóstico para tentar entender onde ela se encontra. Ela tem dívidas? Se não as tem, pelo menos gasta menos do que ganha? Se já faz isso, tem algum dinheiro separado como reserva de emergência? Caso já tenha essa cobertura extra, como investe o dinheiro excedente a cada período?

A parte mais polêmica dessa análise vem justamente em relação aos gastos. Aparentemente, em um primeiro olhar, todas as pessoas têm certeza de que todos os desembolsos que realiza em todos os períodos fazem parte da necessidade – mesmo em se tratando de itens que não use em sua totalidade e possam ser reduzidos. Não se trata aqui daquela “técnica milenar de cortar o cafezinho e ficar rico”, mas sim de realmente observar o caminho que seu dinheiro percorre após chegar até você. Quanto tempo você pensa na satisfação que um gasto te dará? Se não pensa, saiba que não tomar uma decisão quanto a isso é tomar a decisão de, eventualmente, estar desperdiçando dinheiro.

Um hábito positivo que pode ser nutrido é o de focar na compra de ativos em vez de passivos. Essa “técnica” é descrita na clássica obra de finanças pessoais de nome Pai Rico, Pai Pobre e trata justamente de um meio interessante de alocar seus recursos ao longo do tempo. Contraintuitivamente, adquirimos mais bens que nos dão gastos (passivos) do que bens que nos trazem receitas (ativos). E isso, ao longo da vida, faz muita diferença.

O hábito de poupança do brasileiro médio poderia ser muito reforçado com uma expansão real dos meios de educação financeira. Se é possível acreditar em revolução, essa seria uma delas.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 04/10/2019

Os sete erros de Paulo Guedes

“No início do ano, a projeção de crescimento da economia brasileira era de 2,5%, mas agora o Ministério da Economia estima apenas 0,8%, contrariando as próprias expectativas.

Fatores externos contribuíram para a deterioração deste quadro, como a guerra comercial entre China e Estados Unidos, a desaceleração da economia global e o provável retorno do Kirchnerismo na Argentina. Porém, é possível apontar erros internos da equipe econômica do governo Bolsonaro.

À frente do Ministério da Economia, Paulo Guedes protagonizou diversos acertos: embora muitas sejam apenas a conclusão de processos iniciados pela equipe de Michel Temer, foram listadas 68 ações concluídas até aqui. Entre elas, a elaboração de um projeto de reforma da previdência mais robusto do que o encaminhado pelo governo anterior, a Lei da Liberdade Econômica e planos ambiciosos de privatização de estatais.

Porém, há também muitos pontos a serem criticados em sua atuação: listamos 7 deles.

1) A promessa de zerar o déficit primário ainda em 2019
Desde a campanha eleitoral Guedes passou a vender uma promessa que já nasceu morta: a de que seria capaz de equilibrar as contas públicas da União já em 2019.

Desde 2014 o governo federal é incapaz de gastar menos do que arrecada, fechando 2018 com um déficit de R$ 120,3 bilhões. A previsão do rombo deste ano é de R$ 105,919 bilhões.

Para conseguir fechar no azul, seria preciso ter receitas extraordinárias, como privatizações. A despeito da venda da BR Distribuidora, que arrecadou R$ 8,6 bilhões e da divulgação da lista de estatais que o governo estuda vender até 2022, os valores não devem ser suficientes diante do problema fiscal brasileiro.

Outra receita extraordinária que pode ajudar a melhorar a situação fiscal é o megaleilão de petróleo do pré-sal, agendado para 6 de novembro: o valor estimado é de R$ 106,6 bilhões. Porém, ele será repartido com a Petrobras. Além disso, por se tratar de receitas extraordinárias, o resultado poderia ajudar no resultado fiscal em 2019, mas não resolve o rombo dos anos seguintes.

O próprio Secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida admite que as contas devem ficar no vermelho até 2023. Isso significa que, ao contrário do prometido por Guedes, o Governo Bolsonaro não apenas será incapaz de entregar um superávit primário em seu primeiro ano de mandato, mas não fechará com as contas no azul em nenhum dos outros quatro anos.

2) Vender “R$ 1 trilhão em imóveis”
Paulo Guedes afirmou em agosto de 2018 que conseguiria R$ 700 bilhões a partir da venda de cerca de 700 mil imóveis da união.

O discurso foi endossado por sua equipe. Segundo afirmou em fevereiro seu secretário de Desestatização Salim Mattar, o governo federal tem “cerca de R$ 1,1 trilhão em imóveis para serem vendidos”.

Atualmente a União tem cerca de 3,8 mil imóveis sem utilização efetiva, sendo que muitos estão em estado de abandono.

De acordo com o secretário de Coordenação e Governança do Patrimônio da União, Fernando Bispo, foram arrecadados apenas R$ 18,45 milhões até aqui em 2019. Foram feitas duas concorrências públicas, uma não contou com participantes e na outra vendeu-se apenas um dos três imóveis ofertados.

Ele projeta que ainda é possível arrecadar R$ 1 bilhão em 2019, e outros R$ 36 bilhões até o final de 2022. Se houver sucesso em seu plano, obterá R$ 37 bilhões em 4 anos de governo, 5% do número anunciado por Guedes.

3) Privatizar R$ 1 trilhão em estatais
No período da campanha, Guedes afirmou que conseguiria entre R$ 700 a 800 bilhões a partir da venda de participação do governo nas estatais.

Após assumir o Ministério da Economia, suas projeções aumentaram: R$ 1,25 trilhão para os cofres públicos.

A realidade, porém, é bastante diferente. Até aqui, foram privatizadas quatro empresas: a BR Distribuidora, a Stratura Asfaltos, a BB Turismo e a TAG. Todas elas tiveram o início de sua privatização no Governo Temer.

Na relação anunciada pelo governo federal, há 15 estatais que podem ser vendidas até o final do mandato. Enquanto isso, há outras 115 que ainda não estão nos planos.

Mesmo empresas deficitárias e dependentes de aportes do Tesouro Nacional não tiveram a venda cogitada.

É o caso de 8 estatais que anualmente dão prejuízo superior a R$ 12 bilhões: a Ebserh, que gerencia hospitais universitários; o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA); o Grupo Hospitalar Conceição (GHC); a Embrapa, empresa de pesquisa e desenvolvimento na área da agropecuária; a Amazul, que busca desenvolver tecnologias nucleares; a Emgepron, estatal de projetos navais; a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM); e a Imbel, que é fabricante de armas.

A Embrapa é reconhecida por excelência em pesquisas, e sua privatização tende a ser dificultada por seu modelo de negócios (pesquisa). Acaso fosse extinta, haveria falta de serviços que atualmente são prestadas pela empresa. No caso das demais, porém, a não privatização é controversa.

Há outros casos polêmicos que não estão na relação atual para serem privatizadas. A EBC, conhecida como a “TV do Lula”, cuja venda foi uma promessa de campanha, foi retirada da lista.

Mesmo estatais historicamente ineficientes, como a Valec, não devem ser privatizadas. A empresa pública demorou 26 anos para executar as obras da Ferrovia Norte-Sul, que liga Açailândia (MA) a Estrela d’Oeste (SP). Foram construídos 1.150 km no período, uma média inferior a 45 km por ano. Além disso, a Valec conseguiu operacionalizar apenas o trecho entre Açailândia (MA) e Porto Nacional (TO).

Antes de completar 100 dias de governo, o Secretário de Desestatização Salim Mattar declarou estar “frustrado” com o andamento dos trabalhos.

Para completar, mesmo uma empresa estatal criada no governo Temer teve dedo do governo Bolsonaro. Criada “foi criada uma nova estatal. Criada a partir de Medida Provisória a 11 dias ao final do governo Temer, a NAV Brasil surgiu de uma cisão da Infraero e será responsável pelo controle aéreo.

Porém, a base do governo Bolsonaro na Câmara trabalhou para a aprovação de sua criação. O líder do governo na Casa, deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), afirmou que o objetivo é evitar que haja um “apagão” na navegação aérea. Apesar disso, ele reafirmou que o governo Bolsonaro “é liberal e tem compromisso com a diminuição do Estado”.

A prática até aqui se mostra muito distante da promessa de trilhão em privatizações.

4) Não cortou subsídios
O Brasil é uma das economias mais fechadas comercialmente do mundo. Levantamento da Inter B Consultoria, com base em dados do Banco Mundial, mostrou que a média de participação do comércio exterior em relação ao PIB entre 2009 e 2015 foi de 24%, estando o país atrás somente de Myanmar, com 22%. A média global é superior ao dobro: 51,3%.

O isolacionismo comercial é considerado o principal fator para que o Brasil seja apenas o 61º colocado entre 63 países do ranking de competitividade global, pois inibe o aumento de produtividade.

Desde que assumiu a pasta da Economia, Guedes promoveu avanços, como o fim da taxação para 2.367 produtos e iniciar negociações para acordo de livre comércio com México.

Mas durante a participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o Ministro da Economia estimou que cortaria os subsídios e o protecionismo brasileiro em cerca de R$ 10 bilhões.

O anúncio gerou mal estar com a Ministra da Agricultura Teresa Cristina, e acabou não avançando até aqui.

5) Ausência de projeto de reforma tributária
No início do governo, Paulo Guedes afirmava que sua equipe econômica apresentaria proposta de reforma tributária na Câmara dos Deputados assim que a reforma da previdência fosse aprovada.

A aprovação em primeiro turno ocorreu em 12 de julho, e em segundo turno logo após o recesso parlamentar, em 7 de agosto. Apesar disso, nenhum projeto foi apresentado até o momento.

A última previsão dada por Guedes ocorreu na última segunda (23) em evento promovido pelo Instituto de Formação de Líderes de Belo Horizonte: “Semana que vem acho que a gente já começa a entrar com a nossa proposta tributária”.

Isso significa uma demora de 9 meses para a elaboração da proposta do governo.

Enquanto isso, tramitam propostas de reforma tributária tanto no Senado quanto na Câmara. O relator da comissão especial da Câmara Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) deve apresentar seu parecer em 8 de outubro.

6) Perda de tempo ao propor nova CPMF
Ironicamente, tal como Dilma Rousseff propôs no início de seu segundo mandato, Paulo Guedes defendeu a recriação de um imposto sobre transações financeiras, aos moldes da extinta CPMF.

O Ministro chegou a afirmar que um valor baixo na alíquota “não provocaria tantas distorções”. Porém, entre as alíquotas especuladas, chegou-se a falar em 0,6%, quase o dobro da CPMF.

Contudo, tributaristas enumeraram diversos riscos de um tributo sobre. O colunista da Gazeta do Povo Guido Orgis a definiu de “pior ideia da equipe econômica”.

O imposto sobre transações incidem em cascata, ou seja, em cada etapa do processo produtivo. Assim, ele criaria uma distorção na produção de bens mais sotisficados e com cadeias longas, o que desestimularia ganhos de produtividade.

Além disso, ele incentivaria a desbancarização de operações, ainda mais em um contexto de popularização de criptomoedas.

Por fim, é um imposto regressivo socialmente, com os mais ricos pagando os mesmos valores proporcionais que os brasileiros de menor renda.

A defesa pela “recriação da CPMF” fez cair o Secretário da Receita Federal Marcos Cintra a mando de Jair Bolsonaro, mas Guedes também a defendia e pode não ter desistido totalmente da ideia.

7) Insistência em desoneração da folha de pagamentos
Apesar do resultado positivo em mais de meio milhão de empregos formais desde o início do ano, segundo o IBGE o desemprego no Brasil ainda atinge 12,6 milhões de pessoas.

Para tentar acelerar a geração de empregos, Paulo Guedes tem uma ideia fixa: a de que desonerar a folha de pagamentos incentivará a criação de novas vagas no mercado uma vez que as contratações formais ficariam mais baratas.

Mas a relação entre desonerar a folha de pagamentos e gerar mais oportunidades não é tão simples.

Estudo feito pelo professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts Jonathan Gruber analisou os efeitos desta política no Chile: houve redução de tributos médios sobre a folha de 30% para 5% ao longo de seis anos. Com o corte drástico, os trabalhadores chilenos que já estavam empregados foram beneficiados com reajustes salariais, mas não houve aumento de empregos.

No primeiro governo de Dilma Rousseff houve desoneração da folha de pagamento também para alguns setores. Porém, segundo conclusão de estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), não houve efeitos da política sobre o volume de empregos.

Curiosamente, um dos pesquisadores hoje integra a equipe econômica de Paulo Guedes: o economista Adolfo Sachsida hoje é Secretário de Política Econômica.

Além das evidências indicarem não gerar empregos, a política de desoneração da folha salarial pode aumentar o déficit fiscal, aquele mesmo que Paulo Guedes prometeu resolver ainda em 2019, mas que não deve ser alcançado antes de 2023.

Especialistas elogiam preparo equipe econômica, mas com ressalvas
Para o economista e Editor do Terraço Econômico Caio Augusto, Paulo Guedes é capacitado, sabe do que fala, mas exagera em dados (“quando não tira alguns da cartola”, diz). “Nesse sentido, o Henrique Meirelles (Ministro da Fazenda do Governo Michel Temer) era muito mais articulado e capaz”, compara.

Já para o economista Gabriel Brasil, Guedes está sendo pressionado porque prometeu muito sem apresentar um plano. “O episódio da CPMF e a reforma tributária mostram bem isso: ele tem uma agenda relativamente clara (liberalização, privatizações, desburocratização), mas peca na materialização dela”, afirma.

Brasil analisa que há uma lentidão na execução da agenda de Guedes e também um “diagnóstico meio reativo”, isto é, que muda a todo instante: “Por exemplo, no meio do caminho decidiram que precisavam aquecer a demanda, então liberaram uma parte do valor das contas do FGTS. Então há um diagnóstico reativo e uma execução errática de um plano que nunca esteve pronto”, complementa.

Já Augusto critica o fato de Guedes, para ele, se exceder nos confrontos no debate público. “Serve em alguns aspectos para dar uma chacoalhada na opinião pública sobre temas relevantes, mas não pode ser a única estratégia. Seria muito mais útil que ele focasse seus esforços de articulação em explicar os porquês das reformas ao invés de brigar com quem discorda delas”, afirma.

Para o economista, o problema dessa estratégia é que as declarações polêmicas chamam mais atenção do que aquelas que “realmente interessam”. “A equipe é boa e capacitada, mas precisa ter maior foco nas ações do que nas ideias. Não podem se perder acreditando que tem as melhores ideias do mundo, principalmente porque, tal qual vimos com a Dilma, quando você acha que tem as melhores ideias do mundo talvez você comece a ficar surdo para a razão”, afirma. “Um Paulo Guedes mais Tarcísio de Freitas cairia muito bem: mais ações e menos discursos inflamados”, complementa.”

Opinião concedida a um artigo de Luan Sperandio na Gazeta do Povo, publicado em 01/10/2019

MERCADO MOBILE: COMPRAS, INVESTIMENTOS E O FUTURO NAS SUAS MÃOS

Não é uma boa prática apostar por apostar. Mas aposto que a primeira coisa que você leitor fez hoje foi desbloquear a tela do celular (nem que seja para apertar a função soneca). Os smartphones fazem parte de nosso dia a dia e, hoje em dia, a imensa maioria dos brasileiros – 90%, segundo pesquisa recente – literalmente passa o dia todo próximo ao seu celular. O reflexo disso? Estamos comprando cada vez mais com eles.

Temos desde os anos 1990 uma verdadeira revolução advinda da internet. As interligações geradas e as possibilidades levantadas, mostram que estamos em um novo mundo e, nesta nova realidade, o e-commerce é cada vez mais comum. Mais recentemente, nesta década em que estamos quase no final, vimos o surgimento e acompanhamos o crescimento de um novo nicho, o m-commerce, aquele realizado pelos smartphones (mobiles).

Este mercado apresenta números que enchem os olhos. Em 2018, dos R$53,2 bilhões de vendas realizadas pelo e-commerce, um terço (notáveis R$16,7 bilhões) ocorreram diretamente no m-commerce. Se o comércio eletrônico já é uma presença cada vez maior, o feito diretamente pelos smartphones também deve estar no alvo de quem oferece produtos e serviços.

Em se tratando de serviços, os direcionados a investimentos têm aumentado em nosso país. Dois motivos ajudam a explicar esse aumento: a busca por alternativas melhores para o rendimento em aplicações financeiras (em decorrência da taxa de juros cada vez mais baixa) e, justamente, a facilidade com a qual esse acesso à alternativas têm ocorrido.

Temos neste ponto uma grande oportunidade para as casas de investimento. Em um momento de incursão cada vez maior desse meio digital e prático na vida das pessoas, estar presente faz muita diferença.

Outra forte sinalização de oportunidade é a situação em que o Brasil se encontra atualmente. Soa paradoxal dizer isso já que estamos saindo da pior crise econômica de nossa história. Porém, é justamente aí que está o diferencial: estamos vivendo em um país em que, segundo dados de 2018, 58% dos brasileiros não tem nenhum investimento. O desemprego ainda assola, o endividamento ainda complica a vida de boa parte dos brasileiros, mas há sinais de que a economia se recupera. Novamente: estar presente, neste momento, é de suma importância.

Henry Ford, no início dos anos 1900 já dizia que “se tivesse perguntado às pessoas o que elas queriam, elas teriam dito cavalos mais rápidos”. Possivelmente, se perguntadas sobre oportunidades de investimentos, as pessoas inicialmente dirão que preferem a estabilidade dos grandes bancos em que já têm contas há gerações. Apresentar meios novos, digitais e mais práticos para fazer a mesma coisa – e ainda obter rendimentos superiores – é o caminho ideal para quem quer estar na vida daquele brasileiro que, hoje, encontrando-se em dificuldade e queimando reservas, com a recuperação (lenta, mas atualmente em curso) da economia pensará em alocar seu dinheiro com quem estiver mais perto e oferecer as melhores vantagens.

Dentre os aplicativos que você pode encontrar para fazer melhor pelo dinheiro que você consegue guardar ao longo do tempo, temos o da Guide Investimentos, cujo lançamento oficial ocorre nesta terça-feira, primeiro de outubro de 2019. O diferencial, neste caso, é que você que acompanha o conteúdo deste blog, os cenários que compartilhamos e a miríade de oportunidades que sinalizamos – e, se não o faz, pode começar a fazer hoje mesmo -, agora terá um meio ainda mais prático de colocar em operação esse conhecimento. Baixe O Guia Financeiro!

A demanda por serviços financeiros de investimentos deve crescer nos próximos anos. O encontro dessa demanda em ascensão com uma oferta de produtos adequados, próximos do usuário e mobile, fará muita diferença na vida das pessoas.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 01/10/2019

Lições de Kyiosaki-Lechter: como você gasta? (parte 2)

O livro Pai Rico, Pai Pobre, de Robert T. Kyiosaki e Sharon Lechter apresenta o confrontamento entre uma visão tradicional e outra mais inovadora sobre dinheiro. Confira hoje o segundo ponto que, na visão deste que vos escreve, representa outro grande ensinamento desta clássica obra: como gastamos o nosso dinheiro? O primeiro da série está aqui.

Quando perguntados sobre hábitos de consumo, praticamente todos os indivíduos apresentam três grupos diferentes: o de gastos dos quais não pode deixar de fazer (o aluguel da casa, o combustível para ir trabalhar), o de gastos com estilo de vida (jantar fora, ir ao estádio de futebol com seus filhos) e o da vida financeira futura (reserva ou mesmo investimentos). Segundo alguns indicam, a proporção 50-35-15 para essas alocações é saudável ao longo do tempo.

Porém, para além da categorização de onde vai parar seu dinheiro (de salário, alugueis ou quaisquer outros rendimentos que você tenha), é preciso pensar sobre as prioridades de cada gasto. E, para isso, é saudável que você conheça o conceito de utilidade.

Em resumo, utilidade é o quanto você atribui de valor a algo. Veja bem que aqui falamos em valor, não preço. A diferença entre valor e preço é que enquanto o primeiro reflete a utilidade dada a algo, o segundo reflete o que você efetivamente paga por aquilo.

Saindo do economês para o português: suponha que você goste muito do Metallica e tenha um conhecido que goste muito do Molejo; saber que um ingresso para o camarote do show está por R$50,00; você ficará muito feliz se souber que esse preço é para o show do Metallica (porque o valor que você atribui é muito superior a isso) e seu amigo ficará também feliz se souber que esse preço é do show do Molejo (pelo mesmo motivo). Já se o preço for de R$50.000,00 por ingresso, independente do show é bem provável que você e seu amigo digam que “está muito caro”, que significa, na prática, que o valor observado é inferior ao preço que deveria ser pago para estar em algum desses shows.

Conhecido o conceito de utilidade, voltemos ao questionamento: de todas as saídas do seu orçamento, quais são as que te trazem maior utilidade? E as que te trazem menor utilidade?

Vamos a uma nova suposição: todos os fins de semana do ano você abre sua casa para amigos e conhecidos em um churrasco, mas, se for parar para pensar, você acha que isso é de certa forma cansativo e não é algo que te chatearia se precisasse deixar de fazer. Já parou para pensar que, caso você deixe de fazer algo que não te traz tanta felicidade, sobrarão mais recursos para que você possa fazer o que realmente gosta?

Esse questionamento é árduo, talvez o mais árduo que o livro de Kyiosaki-Lechter apresenta. Envolve uma quantidade de escolhas que provavelmente o leitor dirá que prefere não enfrentar — talvez por gerar desafetos entre seus amigos, familiares e próximos. Veja que aqui não estamos tratando de desfazer amizades para ter uma vida financeira mais tranquila, mas de ser mais racional sobre o que pessoalmente se deseja fazer.

No final das contas, não tomar nenhuma atitude em relação a gastos feitos com frequência sem que se tenha retorno adequado em utilidade é, paradoxalmente, tomar uma atitude — a de não se importar com o destino de sua vida financeira. Mas, por outro lado, ao se atentar às decisões que são tomadas, sobrarão mais recursos para que você possa fazer o que lhe dá mais satisfação.

Aquele show do Metallica (ou do Molejo) que você tanto gosta, mas “nunca tem dinheiro para ir” talvez está mais próximo do que se imagina. Usar essa análise de custo-benefício pode te ajudar muito a não perder tais oportunidades.

 

Publicado no Terraço Econômico em 30/09/2019

OS MARES AINDA NÃO NAVEGADOS PELAS EMPRESAS DE DADOS

internet é um campo aberto. Desde sua difusão mais ampla, que ocorre dos anos 1990 até hoje, temos a impressão de que a imposição de regras do jogo nesse território seria algum tipo de cerceamento ou proibição.

Criada no final dos anos 1960 e com objetivos militares (chamada inicialmente de Arpanet), tivemos nesse meio novo de transmissão de todo tipo de dados – de mensagens a fotos e vídeos – um incremento espetacular em termos de comunicação nas últimas décadas. Não há dúvidas do quanto estar conectado pode melhorar a interligação entre as mais distantes regiões do mundo (e, claro, também a economia).

Entretanto, há duas questões cada vez mais em voga: o que é feito da massiva quantidade de dados que circula todos os dias? E, ainda mais amplamente: a quem pertencem os dados que eu e você, usuários, produzimos todos os dias?

Essas duas questões se colocam cada vez mais presentes devido a acontecimentos recentes envolvendo eleições e eventos políticos correlatos. As questões circundam o seguinte fato: através de um entendimento dos macrodados gerados diariamente por milhões de pessoas, é possível que se organizem grupos imensos em grupos menores (possivelmente bolhas ideológicas) e, a partir disso, que conteúdos sejam direcionados especificamente àqueles grupos. No fim das contas, há influência sobre o comportamento dessas bolhas.

O que parece o sonho de todo gestor de marketing (porque, afinal, coloca nas mãos de alguém que quer comprar algo a possibilidade de), pode se tornar altamente questionável quando se pensa na suscetibilidade envolvida de alguém que está indeciso diante de decisões eleitorais.

Três casos que envolvem decisões populares estiveram sob a lupa da opinião pública e das autoridades: a eleição de Donald Trump, o plebiscito pelo Brexit e a eleição de Jair Bolsonaro. Especificamente em relação ao primeiro caso, a situação pesou bastante para o Facebook que, segundo apontam investigações recentes, tinha consciência do uso direcionado de seus dados (ou melhor, dados de seus usuários) pela Cambridge Analytica, empresa especializada neste tipo de serviço.

Há um recente documentário na Netflix que trata sobre essa questão e busca conscientizar as pessoas a respeito da importância do que as empresas fazem com nossos dados. O nome dele é Privacidade Hackeada e envolve conversações diretas com quem trabalhava para a Cambridge Analytica e pode presenciar os planos da empresa sobre as eleições norte-americanas de 2016 e outros eventos mundiais que envolveram opinião popular.

Para além de usos de dados para gerar direcionamento, existe também uma questão a respeito da segurança dos dados. Você sabe exatamente quem acessa seus dados e quais dados? E quanto a sua empresa, você sabe se os dados estão seguros ou vulneráveis?

vulnerabilidade de dados pode se dar em dois aspectos: eles estarem disponíveis para quem não precisariam estar (podendo te causar algum problema) ou serem roubados de uma base de dados. A respeito deste primeiro ponto, temos hoje uma iniciativa no Brasil que busca estabelecer regras do jogo e um questionamento na Europa em relação a uma das maiores empresas do mundo.

Por aqui temos a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), lançada em 2018, e com previsão de implementação até o segundo semestre de 2020, que busca regular as obrigações às empresas que se utilizam de dados de brasileiros no tocante à como devem proceder para protegê-los. Há hoje um portal governamental exclusivo para sanar dúvidas a respeito do assunto, detalhando os direitos dos cidadãos, as obrigações das empresas e o papel do governo em mediação dessas relações. No fim das contas, esse marco legal busca fazer com que os dados de uma pessoa, caso sejam utilizados, tenham real consentimento da mesma e que, em toda a extensão, eles possam estar o mínimo possível sujeitos a vulnerabilidades.

Na Europa temos uma decisão inédita em tramitação: o chamado direito de ser esquecido tem colocado de um lado a Google (do grupo Alphabet) e, de outro, o órgão regulador de proteção de dados da França. A questão parece simples, mas envolve muitas mudanças potenciais: é de interesse público que todo dado publicado na internet permaneça lá ou é direito do cidadão retirar o que poderia desaboná-lo? Ou, mais diretamente: os dados de um cidadão pertencem a ele ou a plataforma em que ele as publica ou permite transmitir?

Temos nesses questionamentos uma imensa gama de possibilidades de discussão. Por ora, estão sendo ouvidos os especialistas de diversas áreas correlatas e, pelo mundo, normas estão sendo definidas. Em termos práticos, essa segurança adicional aos usuários imporá custos de adaptação às empresas, mas, como é sempre bom relembrar, não há almoço grátis de dados: ou eles ficam sem proteção e a “custo zero” viram um produto, ou passam a ter sobre si mais atenção e haverá custo a quem tiver interesse em utilizá-los.

Trata-se de um início de questionamento válido e que não deve parar por aí. Estes mares nunca antes navegados pelas empresas – todas, mas sobretudo as de tecnologia e que trabalham com imensa quantidade de dados dos usuários – agora parecem oferecer enjoo aos tripulantes devido ao tamanho das ondas que se aproximam. Mas, como diz aquela clássica máxima, mar calmo nunca fez bom marinheiro. Lidando com essas questões da melhor forma possível saem melhores os usuários, as empresas e o mercado como um todo.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 27/09/2019

BOLSONARO NA ONU: NADA FORA DA EXPECTATIVA

O discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas é, tradicionalmente (desde 1949), realizado por quem chefia o Executivo no Brasil. Desde a redemocratização, todos os nossos presidentes discursaram. O que aquele que prometeu “mudar isso daí” falou?

Em um discurso que não foge muito dos clichês sempre falados por ele, temos que a impressão deixada (agora globalmente) é a de que, em termos de política, nosso presidente regrediu ao status de candidato. Pode ser considerada uma regressão, por exemplo, em relação a postura na posse. Aliás, assim como naquele discurso, citou novamente que, sob seu comando, o Brasil deixava de estar “próximo do socialismo”.

A orientação do atual discurso é a de demonstrar que ações estão sendo tomadas em nosso país, em sentido ambiental e econômico, para que possamos nos destacar e seguir melhorando. Porém, há uma distância razoavelmente grande entre esse tipo de atuação que está sendo realizada e o discurso que foi feito.

Bolsonaro afirmou que a Amazônia está “praticamente intocada” e que, ao contrário do que sugeriu o presidente francês, pertence apenas ao nosso país. De fato, como já discutido em outro artigo aqui do blog, é preciso que não sejamos ingênuos em relação aos interesses econômicos envolvidos no espalhar de que a Amazônia está próxima de seu fim. Ainda assim, adotar um tom tão contrário não ajuda a passar essa mensagem também.

Sobre a economia, o presidente chamou de “irresponsáveis” as duas décadas que o precederam e procurou deixar claro que agora o ritmo econômico encontra-se em recuperação. Segue, desta maneira, o discurso do Ministro da Economia Paulo Guedes – apesar dos resultados práticos desta recuperação ainda estarem sensivelmente aquém do que tem sido falado pela equipe econômica desde os tempos de transição de governo até agora.

Quanto a geopolítica, Bolsonaro não poupou críticas à França (como já citado, em termos do debate ambiental que o país levantou), à Cuba (tendo chamado o programa Mais Médicos de “trabalho escravo”) e à Venezuela (citando os quatro milhões de venezuelanos que já deixaram o país rumo a outros países em decorrência da catástrofe político-social-econômica que por lá ocorre).

Aparentemente, tal qual teve sempre o costume de criticar em relação a posturas dos ocupantes anteriores da cadeira de presidente (especialmente os oriundos do PT), Bolsonaro aproveitou o discurso na ONU para demonstrar que, com sua chegada ao poder no Brasil, inaugurou-se uma nova era de prosperidade e crescimento que se diferencia em absolutamente tudo do que vinha ocorrendo até o dia 31 de dezembro de 2018 (ou mesmo 27 de agosto de 2018).

Diferentemente do que pode ser observado ao início do segundo mandato de Dilma Rousseff, agora estamos longe de ter um estelionato eleitoral. Todo o conjunto de posturas, ações e falas que estão ocorrendo hoje esteve presente na trajetória longilínea de Jair como membro do parlamento e mesmo durante a campanha presidencial do ano passado. Neste sentido, não há motivo para surpresa alguma em relação ao que foi dito. Não há espaço real para ficar chocado ou mesmo se perguntar os porquês de ter dito o que disse e do modo como o fez.

Porém, de uma coisa o presidente não poderá reclamar de agora em diante: sua imagem de ser mais beligerante do que agregador em termos internacionais (usando eufemismos enormes para não dizer “sua imagem de quem compra a briga e às vezes nem sabe o porquê”) acaba de ganhar um adendo importantíssimo, que envolve ele mesmo. O que até a manhã desta quarta-feira podia ser chamado de “perseguição internacional” ou “difusão de mentiras pela esquerda nacional” se transformou em uma confirmação, pelo menos no que se refere ao tom adotado.

É bastante questionável que uma postura diferente poderia ser adotada. Espera-se que um líder, aquele que ocupa o cargo máximo de representação de um país, saiba dialogar com outros líderes porque, no fim das contas, a integração pode gerar mais avanços (sociais, políticos e econômicos) do que o fechar-se em si.

Apesar dos acordos que têm sido assinados (nota-se que grande parte deles já era negociado muito tempo antes, como o celebrado Mercosul-UE, que ficou ironicamente os mesmos 20 anos “irresponsáveis” em discussão), a postura não sinaliza integração entre os países. Aliás, pequena correção: sinaliza, mas apenas com os países com os quais se têm predileção – outra grande crítica que era feita em relação aos governos petistas -, não necessariamente com quem seria possível ampliar a rede internacional de negócios de um país tão fechado quanto o nosso (e há muito tempo que é desse modo).

Em relação específica a este discurso, é possível depreender dois pontos. Em primeiro lugar, que haverá continuidade da política externa que se alinha especificamente a quem não representa o tal “socialismo” evocado a cada novo discurso. Em segundo, temos que os avanços sobre os meios de negociação real no país devem envolver outros membros da equipe (como os ministros) e não diretamente o presidente – não dá para descartar que isso sempre tenha sido a realidade, mas, tal qual como com a Dilma e suas frases sem muito nexo, trata-se de algo bastante explícito a quem queira ver.

Infelizmente a impressão internacional de Bolsonaro se confirma com uma fala dele mesmo. Tal qual na questão da Amazônia, discursos como esse reforçam a ideia de que ouviremos mais falar sobre questões alheias do que ao que realmente nos fará avançar em termos internacionais como país.

Entretanto, de novo, para que não haja dúvidas: não dá para reclamar de estelionato eleitoral – no máximo de ingenuidade de quem imaginou que o longamente parlamentar do baixo clero ganharia magicamente o decoro que nunca teve ao ser eleito presidente do país.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 24/09/2019

Lições de Kyiosaki-Lechter: compre ativos, não passivos (parte 1)

Há um livro no mundo das finanças pessoais que auxilia muitas pessoas ao redor do mundo a mudarem seus hábitos: trata-se do best seller Pai Rico, Pai Pobre, de Robert T. Kyiosaki e Sharon Lechter. O livro conta a história de uma pessoa que teve acesso a duas visões de mundos bem diferentes: de um lado, o tradicionalismo sobre dinheiro (que geralmente é não pensar nisso) e, de outro, a inovação de ser racional sobre esse assunto. São diversos os temas abordados pelo livro e, nesta breve série, abordarei os que, em minha visão, mais podem fazer diferença na sua vida financeira.

O que é ativo? O que é passivo?

Seguindo a lógica contábil, ativo é o conjunto de bens e direitos e, o passivo, a união das obrigações devidas. Porém, na lógica financeira, segundo os autores do livro, a ideia fica um pouco diferente. Ativo passa a ser tudo aquilo que irá te gerar receitas e, passivos, tudo aquilo que irá te gerar despesas.

Diretamente em casos reais, supomos que você tenha um carro, uma casa e uma conta de investimentos em um banco. Teoricamente todos esses seriam ativos, correto? Pela lógica contábil, sim. Mas você já parou para pensar que enquanto sua conta de investimentos lhe traz dinheiro a cada período o mesmo não ocorre com sua casa (você paga o IPTU, por segurança, manutenções, reformas) e nem com seu carro (seguro, troca de pneus, IPVA, revisões)?

A ótica deste livro é o longo prazo. Nenhuma decisão deve ser tomada agora imaginando-se um efeito real para daqui a uma semana, ou mesmo um mês. Porém, o conjunto de decisões tomadas na direção de comprar mais ativos do que passivos pode tornar sua vida financeira bem mais confortável ao longo da vida.

A questão é a seguinte: dada a renda que você tem hoje, advinda de sua profissão, o quanto dela se converte em ativos? E o quanto se converte em passivos?

Trata-se de uma constatação muitas vezes indigesta. Na maioria das vezes tendemos a acreditar que a compra de muitos passivos são, na verdade, ativos ou mesmo investimentos. De fato, não podemos confundir a segurança que algumas aquisições nos trazem com o fato de serem ativos ou passivos. Exemplo: você pode gostar bastante do seu carro e ele deve ser útil a você, assim como sua residência conquistada com tanto esmero; ainda assim, isso não muda o fato de que ambos geram despesas e, sob essa ótica, são passivos.

As mentalidades são divididas entre a pessoa de classe média e a pessoa rica. Note que aqui não se fala do montante financeiro que a pessoa tem, mas das atitudes que ela coloca em prática quando o assunto é dinheiro:

Veja que essa visão é bastante próxima da que já tivemos em outro artigo desta coluna. Mudando o meio como você lida com dinheiro, ao longo do tempo — porque os efeitos são observados assim e não instantaneamente — sua vida financeira fica realmente mais confortável. No fim das contas, trata-se de decidir qual a direção você busca seguir. Parece dura demais, mas uma expressão é bastante verdadeira: dinheiro não leva desaforo para casa.

 

Artigo publicado no Terraço Econômico em 23/09/2019