“A corrupção acabou”?

O ano de 2018 colocou em pauta duas propostas que pareciam ser bastante diferentes entre si. De um lado, algo que parecia querer resgatar o Brasil de tempos anteriores colocando na mesa a memória de governos petistas, reforçando o crescimento ocorrido nos anos 2000 e deixando um pouco de lado os anos 2010. De outro, a ideia era apresentar um novo modelo geral para o país, baseando-se em um conjunto de ideias fortemente amparado pela justiça e pela economia (que teriam dois super ministros) que iriam, nas palavras de quem representava essa mudança, “mudar isso daí” (o que quer que isso significasse). Essas propostas disputaram o segundo turno, sendo que a última venceu.

Estamos em outubro de 2020 e é pelo menos questionável analisar o quanto as coisas realmente mudaram em relação ao oferecido/prometido em 2018.

Aquele que representaria a isenção da justiça e sua retidão em todos os processos, Sergio Moro, saiu do governo no final de abril e a notícia reverberou mundialmente. O motivo apontado por ele teria sido uma mudança que o presidente pretendia fazer no comando da Polícia Federal que, “por um acaso do destino” envolvia alguém com certa proximidade com seus filhos – sendo um “mero detalhe” que um deles é investigado justamente pelo mesmo órgão… Mas, detalhe, e daí?

Mais recentemente, a questão foi de apresentar explicitamente e nas palavras do próprio presidente que agora não há mais necessidade de ter uma Lava Jato – e, portanto, ele havia literalmente acabado com ela – porque em teoria não existe mais corrupção no governo. De fato vice-líder no Senado não representa governo stricto sensu, porém, literalmente uma semana após tal declaração “de salvação”, o velho e tradicional dinheiro na cueca foi encontrado justamente com esse articulador do Congresso.

Aumenta-se a capacidade de aprovar reformas, mas…

Uma parte considerável das razões pelas quais Bolsonaro alterou sua ideia em relação a essas cruzadas contra a corrupção tem a ver com uma mudança na base política de apoio. O presidente, que quando eleito imaginava algo como “sou o representante do povo e não preciso de apoio nenhum” (apesar de ter passado quase trinta anos justamente do lado que toca os projetos, o legislativo), mais recentemente parece ter compreendido que precisa estar mais em paz com os outros poderes para conseguir alcançar o que seu governo almeja em torno de reformas econômicas.

Sob essa ótica e visualizando de uma maneira bem fria, de fato aumentam as possibilidades de que reformas econômicas possam ser colocadas na mesa e serem aprovadas.

A grande problemática aqui está em outro aspecto: pelo visto a outra perna de grande mudança, a econômica, parece não ter tantas ideias revolucionárias quanto se imaginava. Três simples aspectos diretamente relacionados a reformas ajudam a compreender isso. No começo de setembro, após mais de um ano de “semana que vem mandamos o projeto”, saiu a reforma administrativa que, em um panorama geral, pega uma questão imediata e apenas joga para o futuro.

Ao final de setembro, colocada na mesa uma parte da reforma tributária – e, sem surpresas, o restante viria na “semana que vem”, que ainda não chegou. E a recente cereja no bolo: questionado sobre soluções para a área tributária e o porquê de ser uma nova CPMF algo tão em voga, Paulo Guedes foi taxativo: “enquanto não vierem com ideia melhor prefiro esse imposto de merda”.

Aparentemente o Posto Ipiranga, com todas as soluções na cartola, descobriu ser menos útil do que o da memorável propaganda.

… não há almoço grátis

Apesar de ter prometido uma literal “voadora no pescoço” de quem se envolver em corrupção em seu governo, há, com essa movimento de “acabamos com a corrupção, então esqueçam isso aí” um certo aceno aos novos amigos conquistados – aquele Centrão que há poucos meses representava tudo de pior na política brasileira parece ter virado algo nem tão ruim assim.

Mais uma vez: de fato todo governo deve sim levar em consideração que não operacionaliza tudo sozinho, ele, no máximo, propõe as mudanças e as articula junto ao Congresso, que tem a missão de discutir e avalizar ou não para que se transforme na letra da lei e ao STF, que pode sempre apontar discordâncias daquele projeto em relação ao texto constitucional. Porém, o modo pelo qual isso vem acontecendo recentemente aponta que, junto dessa governabilidade (lembram-se dessa palavra tão popular até outros dias?) vem uma cegueira em relação a eventuais atos de corrupção.

Não é só pela Lava Jato!

A Operação Lava Jato praticamente se tornou um personagem do Brasil nos últimos anos. Desnudou esquemas que envolviam literalmente bilhões de reais em desvios e deixou visíveis esquemas que ocorriam há um bom tempo no país.

Ela tem seus méritos apesar de todas as críticas que possam ser feitas.

Aparentemente não se pode jamais falar em acabar com uma operação dessas, por se levar em conta que ela ainda não alcançou seu objetivo em “limpar a corrupção do país”. Mas, não se enganem: em primeiro lugar, a corrupção é inerente aos incentivos existentes e ao próprio ser humano (então é ilusório imaginar que ela simplesmente acabe); porém, é justamente por isso que órgãos de controle bem apurados e aparelhados devem estar sempre de olho. Não necessariamente em uma mesma operação “sem hora pra acabar”.

O mundo já tem olhado o Brasil com desconfiança em relação a essa nova trajetória do combate à corrupção. E não podemos nos esquecer que o conjunto de informações que faz com que se pense em nosso país como alternativa de investimento inclui também como funcionam essas regras.

Respondendo ao questionamento que dá título a este artigo: não, a corrupção não acabou, ela sempre estará por aí. Fazemos agora uma nova pergunta: será que está para acabar também o arcabouço que investiga onde ela acontece e a pune?

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 19/10/2020

O homem mais rico da Babilônia

“Uma parte de todos os seus ganhos pertence exclusivamente a você”

O que um livro de 1926 pode fazer para melhorar a sua relação com as finanças? Parece estranho, mas uma história escrita 100 anos atrás pode mudar a forma que você pensa sobre dinheiro.

Estamos falando do livro ‘O homem mais rico da Babilônia’, cuja última edição é de 2017. Em uma história envolvente, o autor George Clason escolhe contar seus ensinamentos justamente no local onde existia um mercado próspero e cheio de gente, ainda antes da Era Cristã.

Do mesmo jeito que havia milionários, donos dos mercados e produtos, havia também pessoas humildes e trabalhadoras, que compartilhavam um problema em comum: apesar de ganhar um dinheirinho no final do mês, não conseguiam poupar nada do que ganhavam.

É assim que começa a história…

O homem que desejava ouro

O autor nos apresenta Bansir, um humilde fabricante de carruagens e seu amigo Kobbi, um músico sem muito prestígio. Sem entender muito bem a relação entre seus ganhos mensais e a acumulação de riqueza ao longo do tempo, os dois conseguem um horário para conversar com Arkad, reconhecido por todos da redondeza como o homem mais rico da Babilônia.

Em uma conversa franca com os participantes (em torno de 15 pessoas), além de Kobbi e Bansir, Arkad é muito claro em suas colocações: para qualquer quantia arrecadada com seu trabalho, uma parte (10%) deve ser guardada para a formação de um patrimônio.

Muito mais do que a quantia (que pode ser pequena no início da vida profissional), a ideia é que o hábito é o mais importante. Por diversas vezes, as histórias contadas no livro enfatizam o papel da mudança de mentalidade como fator determinante parauma evolução real no padrão de vida.

Até porque, na saída dessa primeira visita a Arkad, três grupos se formaram: aqueles que sequer entenderam o assunto, outros que não acreditaram nos ensinamentos transmitidos fazendo até chacota com a situação e um terceiro grupo que continuou visitando Arkad e mudou a sua mentalidade e, consequentemente, a sua visão e comportamento sobre o dinheiro e acumulação de patrimônio.

Os 7 ensinamentos para a falta de dinheiro e mais histórias

Em seguida, o autor nos apresenta, detalhadamente, as 7 lições para que nunca falte dinheiro em nossas vidas. São elas:

  1. 1. Comece a fazer seu dinheiro crescer
  2. 2. Controle seus gastos
  3. 3. Multiplique seus rendimentos
  4. 4. Proteja seu tesouro contra a perda
  5. 5. Faça do lar um investimento lucrativo
  6. 6. Assegure uma renda para o futuro
  7. 7. Aumente sua capacidade para ganhar

Cada um desses ensinamentos é tratado em um capítulo à parte. Apesar de parecerem óbvios, muitos não se atentam a dificuldade que é ser disciplinado a ponto de formar um patrimônio ao longo da vida e poder usufruir disso no futuro. Parece fácil, mas na prática, não é.

Por meio de exemplos, o autor consegue dar leveza ao assunto ao discutir as 7 lições. E mais do que isso: há outras histórias em seguida para reforçar a importância da formação de um patrimônio, como é o caso das cinco leis de ouro, contada pelo filho de Arkad.

Nela, Nomasir, teve que provar o seu valor para ser digno de participar do testamento do pai e receber a sua grande herança. Mas seu Arkad não deixou o filho desprovido de recursos: lhe deu um saco com moedas de ouro, e uma tábuade argila gravada com as 5 leis de ouro.


Será que Nomasir conseguiu provar o seu valor?

Uma obra dos anos 1920, mas com conexões mais próximas do que você imagina

Apesar de tais lições serem praticamente atemporais como o leitor já deve ter notado, é interessante observar que elas também se relacionam com expoentes do pensamento sobre uma vida financeira mais confortável dos dias mais recentes. Isso pode ser verificado quando em certos momentos a obra trata sobre a real necessidade das despesas que temos – e como a vaidade pode significar um corroer do que acumulamos pela vida.

Duas dessas ligações que podemos fazer são com Robert Kyiosaki, autor de Pai Rico, Pai Pobre e Warren Buffet, que inclusive tem um documentário sobre sua vida que já abordamos aqui nesta coluna.

Nos dois temos a preocupação com o encontrar de um estilo de vida que supra suas necessidades, não a dos outros. Gastar e investir no que a gente gosta – e não no que aquilo que as pessoas que gostamos gostam – faz uma diferença imensa ao longo dos anos. Ainda, importante lembrar outra indicação que fizemos aqui: os Axiomas de Zurique: também um livro antigo mais como lições extremamente atuais.

Sem mais spoilers e uma reflexão

As finanças têm evoluído em uma velocidade impressionante. Se antes tínhamos apenas algumas opções de investimento, hoje temos uma infinidade de produtos e serviços financeiros disponíveis a apenas um toque.

Mas o que O homem mais rico da Babilônia tenta mostrar é que muitas vezes não importa a quantidade de opções de investimento que temos, mas sim se a nossa mentalidade e ações decorrentes dela estão preparadas para iniciar o processo de enriquecimento via acumulação recorrente de patrimônio.

Embora sutil, esse ‘virada de chave’ é primordial para mudar a nossa relação com o dinheiro e com as finanças pessoais.

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 16/10/2020

Melhor presente de dia das crianças: educação financeira

Neste 12 de outubro tivemos mais um Dia Das Crianças. Caso você nunca tenha pensado sobre, este é mais um dia instituído no Brasil por força de lei – ocorreu em 1924, durante o governo do presidente Arthur Bernardes. Porém, a data se tornou popular no Brasil quando, a partir de 1960, a Johnson&Johnson se associou a marca de brinquedos Estrela para criar uma ação comemorativa nesta semana para dar tração à venda de produtos para crianças na data já existente.

Outra curiosidade que talvez você não saiba é que, apesar de comemorado em mais de 100 países ao redor do mundo, a data não é unificada. Na verdade, lá fora a data mais comum é o dia 20 de novembro, quando, em 1959, a UNICEF publicou a Declaração dos Direitos das Crianças.

Enfim, independente do dia, aproveitamos a ocasião para falar sobre um assunto interessante, uma semente que pode render bons frutos no futuro. O que você deu de dia das crianças para a criança mais próxima (seu filho, sobrinho, afilhado) neste ano? Uma lembrancinha? Um bolo? Uma mensagem? Passou o dia junto? Aqui você vai descobrir que tem uma coisa que você pode ensinar, com o tempo, que vai ser mais perene do que qualquer atitude ou presente dado: educação financeira.

Sementes hoje, árvores amanhã

Tendemos a acreditar que o melhor modo de agradar uma criança neste dia é dando a ela um brinquedo ou algo especial para que ela se lembre da data. Isso pode ser sim verdadeiro, e não estamos aqui tentando te fazer virar o pai/tio/padrinho “mão de vaca” que não dá nada nessa data porque quer “passar uma mensagem”. Mas, sim, que tal adicionar junto a isso um conhecimento que pode mudar a vida daquela criança?

Este conhecimento é a educação financeiraFalar de dinheiro com crianças permite que elas se tornem adultos mais responsáveis com uma das coisas que menos costumam ser. E, no fim das contas, essa irresponsabilidade média se dá geralmente pela ignorância de não terem tido tais sementes plantadas, justamente, quando eram crianças – segundo pesquisa recente, essa é a situação de 79% dos brasileiros.

Como fazer isso? Um meio é inserir o assunto de um modo lúdico, em um jogo. Para citar um exemplo, há o jogo Descobrindo o Valor das Coisas, numa parceria entre o educador financeiro Gustavo Cerbasi e Maurício de Sousa que transformaram um assunto geralmente tão áspero em algo divertido. E, caso você não tenha tido contato com finanças pessoais, pode conferir em artigos aqui deste blog sobre o que é educação financeira e também sobre como passar essa mensagem adiante para crianças.

Importante apontar que educação financeira não é apenas o básico de saber quanto se ganha, mensurar quanto se gasta e ver o que pode ser feito com o que sobra, mas também envolve tópicos mais avançados como não cair em pirâmides financeiras, essas que de tempos em tempos seduzem tantos adultos.

Você ou o governo: alguém pode começar

Você já deve ter ouvido sobre aquela velha diferença entre brasileiros e americanos quando têm filhos: por aqui, quando muito, abre-se uma poupança, enquanto no Tio Sam são compradas algumas ações para quando o filho for para a faculdade. Recentemente inclusive um artigo da renomada revista de finanças Barron’s colocou essa questão de maneira ainda mais direta: o que você dá a uma criança deve estar no nome dela, não só por efeitos fiscais (os impostos sendo pagos por quem detém os ativos) como também pelo aspecto da responsabilidade (a ação é da criança, não sua).

Por aqui, até bem recentemente, o mais sofisticado que se tinha para fazer nesse departamento era comprar títulos do Tesouro Direto. Isso ocorria basicamente em função da nossa taxa de juros historicamente alta que faz com que, ao longo de uma janela ampla de tempo, o CDI supere a renda variável. Este hábito pode estar adormecido em função da Selic baixinha, mas segue sendo salutar.

Tal qual a previdência, geralmente há um questionamento feito sobre quando se deveria iniciar este processo de falar sobre dinheiro e prover um “pé de meia” para a geração que suceder a atual. Pensando justamente nisso, que na economia chamamos de desconto hiperbólico (onde os benefícios são tão distantes que parecem não superar os custos de curto prazo), temos um exemplo do Reino Unido de programa que pensa nisso, os Child Trust Funds: criado em setembro de 2002 envolve um investimento que o governo fazia para incentivar os pais a fazerem o mesmo e cujos resultados só poderiam ser acessados quando as crianças fizessem 18 anos – o que ocorre neste ano e liberará entre 1500 e 70.000 libras por pessoa, a depender do quanto se investiu no período.

Mude o futuro de uma criança hoje

A trajetória de educação financeira para crianças não é trivial e, sim, depende dos pais terem tido um mínimo acesso a isso, para saberem o que estão transmitindo. Mas uma coisa é fato: um presente de dia das crianças que envolva algo tão de longo prazo quanto isso certamente contribuirá muito positivamente para o adulto do amanhã.

Se você já faz isso pela criança mais próxima que tem, nossos parabéns! Se não o faz, que tal começar?

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 13/10/2020

Política econômica de balão de ensaio: até onde vai?

Vem aí o Renda Brasil. Não, não se fala mais em Renda Brasil. Vem aí o Renda Cidadã, que será custeado com o adiar de pagamento de precatórios. Isso de adiar precatórios é má ideia, deixemos pra lá. Não, espera, vai ter precatório sim…

Esse imbróglio mais recente a respeito de um programa de renda mínima que venha a substituir o Bolsa Família é só o episódio mais recente de um modus operandi que, se funcionou com sucesso no período eleitoral, hoje coloca em dúvida a credibilidade do que é anunciado pelo governo.

Chamemos aqui de “política econômica de balão de ensaio” todos os momentos em que anúncios de novas medidas econômicas ficam literalmente ao sabor das opiniões emitidas por diversos agentes após elas serem divulgadas. Dependendo da opinião majoritária, essa política prossegue ou é sumariamente abandonada.

O lado bom: ouvem-se opiniões

Em relação ao atual governo, de tempos em tempos vemos por aí uma discussão: ele é capaz de aceitar críticas ou apenas segue adiante com suas ideias independente dessas opiniões alheias? No caso da política econômica, aparentemente temos o primeiro caso: ouve-se um bocado quem analisa as medidas econômicas assim que são divulgadas.

Sob a égide de “mudar isso daí”, frase tantas vezes ditas quando então candidato e pelo agora presidente (e pré candidato em 2022, claramente) Bolsonaro, os dois pilares do que seriam a tal grande mudança que o Brasil poderia esperar seriam Sérgio Moro e Paulo Guedes, respectivamente os “Super Ministros” da Justiça e da Economia. O primeiro saiu, o segundo agarrou-se ao estilo de governar.

Moro, ao sair, deu entrevista em que colocava sob as luzes do escrutínio midiático um fato: o presidente é quem acabava por decidir as coisas no fim do dia. Não que isso não fosse de sua alçada ou possibilidade, mas isso se distanciava do que fora prometido em período eleitoral. Já Guedes, como grande fiador da economia, sempre teve como apontamento ser aquele que tem a palavra final sobre os rumos da economia.

E o que mais tem feito aquele que tem o poder de decisão sobre as medidas econômicas? Ouvir bastante o que dizem sobre elas logo que anunciadas.

Temos aqui um lado positivo: especialistas e analistas da economia podem apontar direcionamentos sobre o quê das políticas apontadas faz sentido e quais coisas poderiam ser alteradas para que as mudanças fossem mais relevantes.

O lado ruim: qual é o plano?

Se por um lado é positivo que o governo seja aberto para ouvir, por outro podemos questionar sobre a existência ou não de planos reais que possam gerar mudanças impactantes. Ou mesmo se o diagnóstico da realidade faz algum sentido na prática.

Voltemos algumas casas para discutir brevemente o modo como o governo enxerga a realidade. Entre 2018 (antes mesmo de entrar) e 2020, três grandes promessas foram colocadas na mesa: zerar o déficit orçamentário em 2019arrecadar R$1 tri vendendo imóveis e outro R$1 tri vendendo empresas estatais. Planos ambiciosos que jogam as expectativas para cima, mas trazem junto o questionamento: e como isso será feito?

Para além dessas três promessas e de outras mais recentes, como a de realizar quatro grandes privatizações em 90 dias (que inclusive venceu em prazo nesse fim de semana sem sequer sabermos quais seriam), a equipe econômica do atual governo parece jogar um jogo perigoso de deixar para a opinião geral o que deveria ser feito, no lugar de propor caminhos.

Um adicional de periculosidade nessa equação toda é o fato de que as próprias áreas internas do governo que são responsáveis por esses direcionamentos econômicos parecem estar em pé de guerra: Guedes e Marinho, por exemplo, se estranharam recentemente nessa questão de ter ou não precatórios como fonte de financiamento do Renda Cidadã, assim como já tivemos (e possivelmente ainda temos) rusgas entre Guedes e Maia.

O cavalo está indo embora selado, de novo

O governo praticamente não tem oposição, tem de fato uma equipe econômica competente – ao menos a que não saiu dele – e está diante de 2021, um ano intervalado de eleições que permite um mundo de possibilidades positivas em termos de reformas. Ao mesmo tempo, coloca sobre a mesa propostas que encaminham soluções muito tímidas e, ainda assim, quando questionadas, acabam virando “não foi bem isso que quisemos dizer”.

A oportunidade de fazer mudanças e entrar para a história como um governo que realmente conseguiu transformar o país vai escapando como areia das mãos a cada dia que se passa e a cada nova justificativa pouco plausível para o não alcançar de resultados.

Ficam aqui dois questionamentos: até quando vai a política econômica de balão de ensaio? E será que, mesmo diante de um cenário incrivelmente favorável, deixaremos a oportunidade de gerar reais mudanças passar mais uma vez?

A cada nova promessa aparentemente impossível de cumprir, a distância entre o que se fala e o que se cumpre coloca cada vez mais em cheque toda a política econômica. Se a confiança é cada vez menor, não terá sido por falta de aviso caso ela chegue definitivamente a zerar.

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 05/10/2020

Coronavírus e a geopolítica da vacina

2020 começou com a desconfiança sobre um vírus que se espalhava pela China, passou por pelo menos dois trimestres de preocupação direta com o avanço dessa doença pelo mundo e hoje, diante de discussões amplas sobre o que deve ou não ser aberto e flexibilizado, aguardamos ansiosamente a corrida das vacinas.

Neste especial do Bloomberg podemos acompanhar quão acirrada está a corrida:

A corrida da produção da vacina da covid-19

É possível observar na imagem acima como temos ao menos oito vacinas em Fase Três (ou entrando nela), assim como pelo menos outras sete que estão em um momento mais inicial. Literalmente o mundo todo está procurando um encaminhamento para o fim do atual cenário.

Quem será que vai chegar primeiro?

No fim das contas, quanto mais vacinas tivermos, melhor. A quantidade de pessoas a serem imunizadas para que a pandemia possa alcançar um nível sustentável de controle é imensa, na casa de algumas bilhões, então ficaria bastante inviável depender de apenas uma vacina.

Porém, nesse cenário de corrida, se temos como lado positivo que a ciência pode realizar um feito inédito até então, não podemos deixar de levar em consideração que o aspecto político também terá muita importância. Pode parecer esquisito, mas não se esqueça que quem “chegar lá primeiro” vai querer colher todos os frutos políticos de ter “salvo sua nação”.

Atualmente, dentre os países com vacinas em testes em níveis mais avançados, temos o Brasil, os Estados Unidos, a China e a Rússia. E, em praticamente todos eles, já tivemos alguns alertas sobre quão próximos estamos.

Na Rússia, o primeiro alerta

Surpreendendo a todos, dado que não havia disponibilizado resultados de suas pesquisas, a Rússia anunciou em agosto que havia encontrado uma vacina e logo começaria a imunizar seus habitantes. No fim das contas, descobriu-se que na realidade essa vacina estava entrando em Fase 3, o que de certa forma frustrou as expectativas de que já teríamos chegado a uma solução. Inclusive, cabe apontar que um dos locais de teste dessa vacina é aqui no Brasil no estado do Paraná.

Nos Estados Unidos, uma eleição acirra os ânimos

Seguindo sua linha característica de anúncio de avanços, Trump já ofereceu várias sinalizações explícitas de que os Estados Unidos estão chegando perto de ter uma vacina. Primeiramente disse que seria distribuída antes do fim do ano ou bem antes disso (o que inclusive poderia remeter ao período anterior às eleições presidenciais por lá) e, mais recentemente, afirmou que todos os norte-americanos serão vacinados até abril.

Acordos na Europa abraçam uma grande quantidade

Recentemente a União Europeia fechou acordo com dois laboratórios para a aquisição de 300 milhões de vacinas quando elas estiverem disponíveis e aprovadas. Levando em conta que a população ali alocada está hoje em pouco mais de 500 milhões de pessoas, temos que essa quantidade aparentemente estaria focando em uma chamada imunidade de rebanho, que é aquela situação em que mesmo quem não está vacinado fica protegido da doença, uma vez que ela se espalha muito mais vagarosamente.

Pandemia iniciou na China, querem terminar lá também

A primeira vacina a ser produzida na China pode ficar pronta em novembro, segundo o Centro de Controle de Doenças e Prevenção do país. Entre vacinas testadas apenas lá e também em outros países (como o Brasil), o país tem hoje quatro vacinas em fase final de testes. O indicar de um mês tão próximo quanto novembro mostra como o país também está se posicionando firmemente na corrida da vacina. O país anunciou mais recentemente que deve conseguir produzir 610 milhões de doses até o fim de 2020.

Tantas vacinas… Mas qual o problema?

Trump apontando que todos os norte-americanos serão imunizados até março, União Europeia adquirindo 300 milhões de vacinas, Rússia dando a entender que já chegou lá. A problemática disso tudo é que a cada nova previsão de produção de vacinas, vemos que haverá disponibilidade menor para países menos desenvolvidos.

Com o mundo todo bastante interessado em encontrar uma solução para a atual pandemia, não é estranho observar como todos os países e regiões estejam se articulando para proteger suas próprias populações. E, é claro, também para poder, mais adiante (o mais rápido possível), colher todos os frutos políticos de ter “ajudado a salvar o mundo”. Esse interesse não pode deixar de ser levado em consideração.

Em um cenário positivo de aprovação dessas vacinas que estão nas fases finais logo nos próximos trimestres, ou ainda mesmo dentro de 2020, teremos determinadas regiões privilegiadas do mundo recebendo vacinas, enquanto outras vão ter de esperar um tempo maior para ter o mesmo acesso. E isso tem a ver não apenas com a capacidade de produção de doses como também com a geopolítica.

O que pode aliviar a questão

Dois pontos mostram como podemos ter certa esperança de que a questão corra de maneira um pouco diferente disso.

O primeiro vem da Índia: o Serum Institute of India, maior produtor de vacinas do mundo, está se preparando para uma produção massiva de doses, cerca de um bilhão delas. Importante notar que a capacidade produtiva deste laboratório é de cerca de 1,5 bilhão de doses de qualquer vacina, mas a ideia deles é de focar na produção desta vacina específica quando estiver disponível.

Outro alívio vem da Bill & Melinda Gates Foundation, que está investindo em fábricas em diversos locais do mundo – com foco em regiões subdesenvolvidas – para que as vacinas sejam produzidas e amplamente distribuídas assim que disponíveis estiverem.

Novamente, não se trata de informação surpreendente que a corrida por vacinas contra o coronavírus coloque em jogo aspectos regionais, já que de fato cada governante gostaria que sua população fosse vacinada primeiro. Porém, se de um lado temos uma quantidade razoável de vacinas que, em cenário positivo, estarão entre nós nos próximos meses, não podemos deixar de levar em conta que a geopolítica certamente terá sua influência no desenrolar dessa questão.

Tão relevante quanto os impactos da “coronacrise”, será verificar, a partir de 2021, a corrida pela imunização em diferentes regiões do planeta.

Becoming Warren Buffett: as mensagens não ditas

Na sequência das indicações de sexta-feira que essa coluna tem trazido, temos hoje um documentário da HBO de 2017 chamado Becoming Warren Buffett (ou, em nossa tradução, Como ser Warren Buffett).

Dada a relevância do personagem principal deste documentário, provavelmente você já viu em algum outro lugar um artigo sobre as lições que ele traz. Para que você não sinta que está perdendo seu precioso tempo enquanto lê este aqui, de cara vamos te dizer: nele você verá as mensagens não explicitamente ditas. Que juros compostos importam e que “a primeira regra é não perder dinheiro e a segunda é não esquecer a primeira”. Mas, e quanto ao que é dito quase que subliminarmente?

Vamos a esses ensinamentos, e não são poucos.

Seja você mesmo e cuide-se

Imagine que você tem mais dinheiro do que pode gastar em toda sua vida. Possivelmente suas próximas duas gerações podem fazer o mesmo sem se importar. Isso mudaria o modo como você faz as coisas?

No documentário é mostrado que Warren aprendeu com seu pai que o que importa é como uma pessoa se vê, não como os outros veem. Revela o personagem principal do filme que isso o influenciou bastante na maneira como vê o mundo.

Quanto aos cuidados, logo no início temos uma analogia bastante interessante. Imagine que Buffet te enviará o carro dos seus sonhos, sendo só necessário pedir; mas com uma condição: seria o único carro da sua vida. Saber que seria o único carro faria você cuidar mais dele, não faria? Pois então faça isso com sua mente e seu corpo, porque não há substituição de nenhum desses.

As coisas podem dar errado, e tudo bem

Uma das tentativas mal sucedidas da vida de Buffet foi entrar em Harvard. Ele descreve que teve uma entrevista de quinze minutos com representantes da faculdade na qual descobriu de maneira bastante direta que não teria chances de estudar ali.

Em função disso ele acabou em Columbia, onde teve contato com Benjamin Graham e David Dodd, que são praticamente os criadores do value investing, modo de investir que leva em conta os fundamentos das empresas ao longo do tempo e não apenas seu crescimento. Essa filosofia de investimento o acompanha até hoje. Imagine só se tivesse entrado em Harvard…

Veja a essência, o real valor

Geralmente se tem a impressão de que um preço maior denota um valor maior. Mas é sempre importante lembrar que preço e valor são coisas diferentes.

Durante os primeiros anos da Berkshire Hathaway, a ideia era encontrar empresas que tinham preços baixos mas estavam subvalorizadas. Há no documentário até uma expressão peculiar para isso: “ações bituca de charuto, aquelas que lhe permitem uma última tragada”.

Em uma época como a atual, que no mercado brasileiro temos uma verdadeira festa dos IPOs, jamais se esqueça de que você em todo e qualquer investimento deve procurar pelo valor, não pelo preço. Não é trivial, demanda pesquisa e certo conhecimento que vai sendo adquirido, mas é indispensável de ser feito.

Quebre as leves correntes antes que elas pesem demais

Em certo momento é dita uma coisa importante: algumas dificuldades que teremos na vida podem ser superadas, contanto que ainda tenhamos os meios para isso. Buffett sentia que tinha dificuldade em falar em público e precisava contornar isso. Para tanto, fez um curso de Dale Carnegie.

Segundo Warren, ter identificado essa questão ainda jovem permitiu com que ele lidasse com isso de maneira mais eficaz, pois, como apontou, é mais fácil se livrar de hábitos complicados (como a dificuldade de falar em público) quando eles ainda não estão enraizados, ou quando as correntes que representam ainda são frágeis e podem ser quebradas.

Tenha a cabeça aberta

O pai de Buffett foi um congressista Republicano e, durante boa parte de sua vida, ele recebeu essa influência de raiz mais conservadora politicamente. Susie, sua esposa, estava em outro espectro político: graças a ela, ele ficou atento ao movimento dos Direitos Civis nos EUA e chegou inclusive a ir em um discurso de Martin Luther King.

Isso significa que você deve ser ligado a causas sociais? Não necessariamente. Mas aponta que é salutar, não se prender a dogmas, pensar que eles devem definir sua vida inteira ou mesmo evitar de se relacionar com as pessoas em função disso. Esse tópico é especialmente importante numa época em que a polarização política parece dominar todos os aspectos da nossa vida.

Defina o que realmente importa e seja consistente

Em diversos momentos da vida teremos os “conselheiros de obras questionáveis” nos apontando caminhos. “Você precisa se casar com tal idade”, “já é hora de ter filhos”, “por que não comprou uma casa ainda?”.

Mas, lembre-se: tão importante quanto descobrir seu verdadeiro EU é ter em mente o que se quer fazer e, ainda mais relevante, o que não se quer. A consistência na tomada de decisão do que se deseja é importante. No fim das contas é você que vive sua vida, não quem te dá conselhos.

Aprenda com o passado

“Quem sai aos seus, não degenera”, já dizia a tradicional máxima familiar. Mas ser parecido e ter certa visão de mundo análoga não significa que você precisa fazer tudo igual e cometer os mesmos erros.

Buffett via em seu pai uma figura conservadora e que vinha de uma certa criação que envolvia ter a mulher como “pessoa que cuida da casa” enquanto o marido sozinho seria o provedor. Quando se casou, ele refletiu sobre isso e chegou ao entendimento de que não fazia muito sentido.

É sim possível ter novos pontos de vista independente de onde você foi acostumado desde pequeno a olhar.

Tenha parcerias confiáveis

Charlie Munger, parceiro de longa data, foi quem fez Warren olhar com mais atenção para empresas um pouco maiores que poderiam estar subvalorizadas. Essa mudança de mentalidade, de sair apenas das pequenas empresas, impactou positivamente sobre os resultados da Berkshire Hathaway ao longo dos anos.

Não se trata de missão trivial, mas quem ao longo do caminho você encontrar que te oferecer uma visão sincera, honesta e confiável da realidade, procure manter ao seu lado. As melhores decisões são aquelas que tomamos com pessoas com as quais podemos confiar – e confiança não é só concordância, também depende de um apontar honesto dos caminhos.

No documentário, Munger brinca que Buffett deve ter discordado dele umas quatro vezes em quarenta anos. E, sobre isso, “qual o impacto no longo prazo? Nenhum”, disse o velho parceiro.

Seja ético! Isso vai valer a pena

Em décadas de investimento, Buffett viu diversas oportunidades de ser desonesto e conseguir dinheiro com isso. Não o fez, e está aqui até hoje, diferentemente de muitos que num curto prazo aproveitaram da “burrice” alheia para em algum momento posterior serem pegos em suas falcatruas.

Interessante aqui pontuar o caso do banco Salomon Brothers, do qual ele era acionista controlador e, após problemas envolvendo fraudes, atuou diretamente nas negociações com o Tesouro dos EUA para permitir que a instituição seguisse em atividade. Caso não tivesse reputação, provavelmente o fim teria sido outro para o banco – sem spoilers.

Comunicação e imagem importam

A mudança de Buffet de mega investidor bilionário para alguém que expõe suas opiniões mais abertamente se deu quando ele começou a comprar jornais – não os que ficam nas bancas, mas os veículos de jornalismo mesmo. Isso abriu muitas portas para que ele pudesse colocar suas visões para o mundo. Interessante apontar que, recentemente, ele colocou essa parte de seu império a venda.

Outro meio bastante direto de fazer isso são os eventos anuais dos acionistas da Berkshire Hathaway – o de 2020, inclusive, foi inteiramente online. Nesses eventos, que são quase festas, Buffet coloca suas impressões sobre o mundo dos investimentos e também se reúne com os acionistas quase como se fossem todos de uma mesma grande família.

Você não precisa ter uma empresa multibilionária nem comprar os jornais da sua região para fazer isso. Comunique-se adequadamente, seja lembrado. Tudo isso importa para as portas que se abrem para você ao longo do tempo.

Com tudo isso, você pode construir o que sonha

Poderíamos adicionar aqui tantas outras lições, como, por exemplo, a de, em sendo possível, ajudar ao próximo no caso de você ser bastante privilegiado ou buscar uma ocupação na vida que te deixe feliz e não apenas apegado ao dinheiro. Mas apontaremos neste encerramento duas lições importantes:

  1. 1 – Seja você mesmo, independente dos conselheiros de más obras que encontrar pelo caminho;
  2. 2 – Você não precisa ser o próximo bilionário do planeta para viver feliz e realizado. Embora não seja trivial encontrar a grande ocupação que não te deixe jamais cansado ou desanimado, sempre é possível tentar mais uma vez.

É possível viver de maneira livre e realizada como Buffet sem precisar ser ele. Basta ser quem você realmente quer ser. No fim das contas, foi desse jeito que um dos caras mais ricos do mundo chegou lá.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 25/09/2020

2021: um ano decisivo

Não, o leitor não está lendo errado. Estamos mesmo na edição de setembro. Mas vamos falar do quão relevante pode ser o próximo ano. O motivo? No vai e vem das aberturas e reaberturas e no aguardo de uma vacina para o coronavírus – que, dando tudo certo, ocorre entre o primeiro e o segundo trimestres de 2021 -, pouca coisa bastante relevante ainda acontece nesse ano. Duas, basicamente: as eleições municipais no Brasil e as presidenciais nos Estados Unidos.

Comecemos pelo que ocorre nesse ano e impacta fortemente os próximos. 

Nos Estados Unidos, a eleição fica entre a continuidade de medidas mais nacionalistas se Trump lá seguir ou um certo retorno a acordos comerciais mais amplos caso Biden sagre-se o vencedor – nisso o Brasil se beneficia mais com a vitória do Democrata e se souber se posicionar arrumando a casa para receber recursos vindos de fora.

Por aqui as eleições municipais serão um teste da continuidade do movimento político que levou Jair Bolsonaro a presidência em 2018. Geralmente nessas eleições certa base é ampliada ou implodida com foco nos dois anos seguintes. Nosso presidente aos poucos aprende que isso é sim importante e, no fim do dia, pode sair ainda mais beneficiado desse pleito.

Então vamos para 2021, o personagem principal deste artigo. Independente do cenário eleitoral que se aproxima, em Terra Brasilis o presidente, como já apontado, entendeu que precisa de uma base e tem se articulado com ela. Não vemos mais tanta hostilidade com o Congresso, nem mesmo geração de ruídos desnecessários com jornalistas diuturnamente. Gostando dele ou não, aparentemente ele começou a entender o que precisa fazer. E isso é bastante positivo: 2021 não tem eleição nenhuma e, caso o governo entre com a faca nos dentes e uma reforma (seja ela a tributária ou a administrativa) embaixo dos braços, teremos chances reais de vê-la aprovada.

Atenção a esses dois pontos: o governo precisa continuar com o movimento atual de ampliação de base e também entrar em 2021 sem desculpas como “o Congresso não está ajudando” (e quando será que ajudou?). Se esses dois fatores ocorrerem, devemos fechar o próximo ano tal qual o fizemos em 2019: com uma relevante reforma aprovada.

Em termos da pandemia em que vivemos, aquele assunto complicado que mais concerne à medicina do que a economia, nos resta esperar que a ciência consiga entregar o que o mundo todo – e bilhões de dólares – aguarda: encontrarmos uma (ou mais) vacina(s) que possam ao menos nos direcionar com maior firmeza ao famigerado “novo normal”.

Já quando olhamos para as Relações Internacionais, o acordos EUA-China e Mercosul-UE estarão em pauta, com foco maior. A eleição norte-americana terá influência direta em tudo isso, pois contribuirá com o clima nacionalista ou e maior abertura global.

Ainda temos alguns meses, que talvez demorem como anos. Será difícil encontrar ao final desse ano quem tenha achado que “ele passou voando”…

 

Publicado na edição de Setembro de 2020 da Revista da ACIF Franca (Página 14)

O fogo queima a imagem do Brasil perante o mundo

Os dados a respeito das queimadas no Brasil, verificados pelo INPE, indicam com certa precisão onde temos esses eventos ocorrendo em nosso país e em alguns países vizinhos. O meio como esses dados são divulgados já provocou anteriormente a exoneração de um Diretor do órgão, após embate entre o que fora divulgado e a visão do Presidente sobre a questão. Esse assunto parece não ter saído da pauta desde que entrou de maneira mais contundente no ano passado.

Olhando diretamente aos dados específicos do número de focos detectados – por medição realizada via satélite -, de junho de 1998 a setembro de 2020 temos basicamente duas maneiras de olhar a situação atual. Uma é verificar que de janeiro de 2019 até hoje, em termos de um olhar mensal, não temos nenhum mês batendo o recorde de focos (mesmo que não tenhamos nenhum mês sendo o mínimo da série histórica). Por outro lado, temos que o avanço ocorrido dentro do mesmo ano não é desprezível. Ou seja, a tendência não é nada boa.

De fato diversos aspectos podem estar relacionados a esse aumento das queimadas, mas, não temos agora o maior número delas em termos gerais. Elas têm aumentado e gerado preocupação, mas a situação realmente já foi pior nesse departamento. Assim sendo, chegamos ao ponto que foca este artigo: então como as queimadas podem impactar a economia? Podemos elencar três aspectos bastante diretos.

Economia de baixo carbono

Existem em vigor certos acordos que levam em consideração uma emissão mais baixa de gases do efeito estufa, como o Acordo de Paris. Por mais que estes acordos estejam sempre sendo questionados – e grandes players como os Estados Unidos, que são também grandes poluidores, estejam de saída -, as metas existentes precisam ser respeitadas.

O conjunto de metas estabelecidas nesses acordos considera a contribuição agregada do país no tocante aos gases do efeito estufa, não a emissão de uma empresa ou outra, embora cada ação individual seja bastante positiva. Inclusive, cabe apontar que a chamada economia circular, aquela que leva em conta um aproveitamento mais eficiente dos recursos e uma geração menor de resíduos, não só existe no Brasil como também ajuda na eficiência inclusive financeira de cada vez mais empresas.

Sobre esta ótica, as queimadas prejudicam pelo fato de contribuírem positivamente para o saldo anual de gases do efeito estufa. Estudo recente aponta que, no fim das contas, o mundo todo está entregando menos do que deveria em termos de reduzir a poluição. Ainda assim, não seria por este motivo que o Brasil poderia “esbanjar” e ir nessa direção de aumentar a poluição ao invés de contribuir com a redução dela.

Acordo Mercosul-UE

Um acordo que levou vinte anos em negociações pode ir pelo ralo. Mercosul e União Europeia, dois grandes blocos econômicos do mundo, têm se desentendido em relação a essa questão das queimadas. A França já se posicionou contrária ao acordo em função dos desmatamentos, e em pesquisa recente três a cada quatro europeus têm a mesma oposição.

O que pode certamente estar nas entrelinhas dessa oposição é um certo protecionismo existente na Europa, essa presença que inclusive no período pós-pandêmico discute-se que pode ficar ainda mais evidente. O agronegócio brasileiro é um dos mais eficientes do planeta e, de fato, podermos ter acesso a um mercado tão diversificado e rico quanto o europeu poderia prejudicar os agricultores de lá.

Qualquer que seja o caso, as queimadas poderão ter relação direta com a não concretização de um acordo que levou duas décadas para ter seu martelo batido e que poderia tirar o Brasil de seu status atual tão fechado.

A “boiada” das regulações ambientais

Já dizia aquela velha sabedoria popular: não basta ser honesto, tem de parecer honesto também. Unindo a essa verdadeira tempestade perfeita de críticas do mundo temos a atuação absolutamente questionável do atual Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Confrontado sobre as queimadas e os dados apresentados, o Ministro resume-se a apontar supostas perseguições internacionais – e aponta poucos caminhos de saída.

Não podemos ser ingênuos de acreditar que não existam pressões internacionais para que o agronegócio brasileiro não se posicione em mercados mais amplos como o Europeu, mas também seria no mínimo leviano imaginar que a melhor resposta a um problema é mostrar outro problema e não uma solução.

A cereja do bolo tem sido a postura do mandatário especialmente após a fatídica reunião ministerial gravada e amplamente divulgada meses atrás, em que diz que a ocasião da pandemia seria uma oportunidade de “passar a boiada” de desregulamentações ambientais. Inclusive, recentemente, com mais de 12% do Pantanal queimado, ele achou uma boa ideia publicar em suas redes sociais oficiais um curto vídeo andando… em um carro de boi.

Voltemos a ideia que iniciou este trecho do artigo: além de ser algo também tem de parecer. Com o mundo de olhos voltados para o descalabro das queimadas que ocorrem nesse momento em nosso país, não seria minimamente lógico imaginar que ele deveria mover esforços para esclarecer que há um mínimo controle no lugar de botar tudo na conta da “ideologia”?

É inegável apontar que a ação deste governo em relação ao tema ambiental, pautando-se mais pelo desvio das questões do que pelo apontamento ou encaminhamento de soluções, deixa a desejar e impacta toda a América Latina.

Mais ação, menos conversa fiada

Em um mundo onde a enxurrada de informações logo pode virar desinformação, muito do trabalho do atual Ministério do Meio Ambiente tem se focado em passar uma imagem de “não devemos nos preocupar” com algo que de fato deveria gerar preocupações, tanto em termos ambientais quanto econômicos.

É assustador parar para pensar no quanto um governo que veio, nas palavras de seu representante maior, para “mudar isso daí” reagir de forma tão lenta e cheia de meandros – o que demonstra que a vontade real seria mesmo de não fazer nada – diante de problemas tão graves.

Tal qual a política econômica que muito anuncia e pouco entrega de fato – com exceção neste caso à reforma previdenciária -, este reclamar diuturno no lugar de propor soluções já traz efeitos diretos. O Fundo Amazônia, mantido internacionalmente com objetivo de preservação de nosso maior bioma, já perdeu recursos (R$133 milhões da Noruega e R$155 milhões da Alemanha, só no ano passado) e essa perda pode ficar ainda maior. Afinal de contas, para quê serve doar recursos para preservação de algo que não está sendo preservado?

Outro ponto que deveria estar sendo levado em consideração é o efeito negativo sobre os investimentos. Se levássemos mais a sério a questão do desmatamento, poderíamos ver US$10 bilhões por ano a mais entrando em nosso país por meio de investimentos.

Como visto aqui, são diversos os pontos nos quais saímos prejudicados como país quando a preservação ambiental é relegada à discussão do sexo dos anjos – enquanto hectares seguem em chamas, junto de nossa credibilidade internacional. Apontar que a situação já esteve pior ou que o resto do mundo também não está tomando o cuidado devido – por exemplo dizendo que as queimadas brasileiras não são como as da California – não resolve os problemas. É preciso colocar na mesa os planos e agir.

Aparentemente podemos ver como em alguns (infelizmente, cada vez mais) aspectos, o que veio para mudar parece ter sido sair do status de planos ruins para entrar numa situação de apatia. Mudar, mudou, só fica difícil dizer o que é pior.

O agronegócio brasileiro se esforça há um tempo razoável para apresentar ao mundo que é produtivo sem ser danoso à natureza. Com o esforço monumental de incompetência demonstrado no período atual, literais décadas de esforço podem ir por água abaixo. Talvez seja essa a “mudança” pretendida. Só não será possível reclamar depois do leite derramado, ou melhor, da mata que desapareceu com o fogo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 21/09/2020

O dilema das redes e a vida off-line

Seguindo a linha de indicações desta coluna às sextas-feiras, hoje traremos a você algo que talvez te prenderá a atenção mais do que vídeos de gatinhos ou do seu humorista favorito por horas. Bem, na verdade pouco mais de uma hora e meia. Mas são minutos bastante densos.

Hoje vamos falar do documentário cuja intenção é literalmente de chacoalhar as redes sociais: O Dilema das Redes.

O que a tecnologia faz de melhor…

É inegável que a tecnologia nos muda. Nos conecta. Permite literalmente que você esteja em contato com um amigo ou cliente do outro lado do mundo instantaneamente. Em tempos de pandemia e home office, permite que grandes eventos anteriormente exclusivos e para convidados seletos possam estar abertos a todos – tal qual a convenção da Berkshire Hathaway, em que Warren Buffet apresenta resultados de investimentos e visões sobre o que vem a seguir, que em 2020 teve transmissão online.

Através dela nunca estivemos tão confortáveis quanto agora. Precisa de ser transportado do ponto A ao ponto B? Em minutos pode ter um Uber na sua porta. Gostaria de comer daquele restaurante que você gosta no meio da semana mas não quer ir até ele? Peça um iFood, ou mesmo um Rappi, para ter parte daquela experiência com você em talvez menos de uma hora. Quer ver como estão parentes distantes? Abra o Facebook ou mesmo o Instagram. E pra falar com eles? Bem, temos o WhatsApp e o Telegram.

As possibilidades de negócios se ampliaram fortemente. O Terraço Econômico, feito por nós que escrevemos essa coluna, dificilmente existiria em uma época em que a internet não fosse uma ferramenta tão presente na vida das pessoas. Não porque os assuntos que abordamos não fossem interessantes, mas porque o meio de produzir tais conteúdos ficou cada vez mais acessível.

O que trinta anos atrás demandaria um estúdio caro de televisão, hoje demanda acesso a internet e notebooks – às vezes apenas smartphones.

Casamentos surgem. Grandes amizades de like minded people ocorrem com muito maior facilidade. Conexões entre pessoas que provavelmente nunca se conheceriam acontecem. E ficamos conectados assim o dia todo. O que nos faz pensar que…

…também nos deixa presos a ela!

Hoje, smartphones com sistema Android e iOS são 98% de todos os que existem – sendo que somos hoje em 3,8 bilhões de pessoas utilizando esses aparelhos ao redor do globo. Graças a essas duas informações lhe faremos uma pergunta bastante pontual: você já checou o contador de horas de tela do seu smartphone para ver quanto tempo você passa olhando para ele diariamente? A descoberta pode ser assustadora, especialmente quando se olha um período de tempo e se descobre o aumento do uso.

Não há como responder, mas, já parou pra pensar que isso pode ser mais tempo do que o que você dorme? Mais tempo do que você passa com seus pais? Com seus filhos?

Pois é. O documentário traz diversos especialistas que fizeram parte da “Matrix” que faz com que você – e eu – utilize essas ferramentas todas que chamamos de indispensáveis todos os dias.

Ah, mas e a praticidade?”. Ela importa. E ela vale muito, muito dinheiro. Aliás, é bom lembrar, tal qual disse a Economist em 2017: “dados são o novo petróleo”. O ativo mais valioso é justamente o que bilhões de pessoas entregam gratuitamente e espontaneamente todos os dias.

O que faz com que sejamos verdadeiros servos voluntários do que nasceu para nos dar alegria, conexão e vontade de viver?

No documentário vemos uma grande discussão sobre como as redes sociais tinham o objetivo inicial de realizar conexões mas, por interesses comerciais – o que a priori não tem nada de errado – acabam por tomar as decisões que tomaríamos, por nós mesmos.

Isso acontece, em termos práticos, porque a experiência que temos com os aplicativos que nos cercam é adaptada diariamente com nossas escolhas. Novamente nos deparamos com a dualidade entre a praticidade – “muito legal, o Spotify já sabe o que eu quero ouvir antes mesmo de abrir essa playlist que fez pra mim” – e a conexão sem sentido – “o que será que aconteceu pra tanta gente estar falando sobre a Terra ser plana em pleno 2020?”.

“Se concorda comigo, então está certo!”

Viés de confirmação é um termo na economia comportamental que significa, em termos práticos, que nós, seres-humanos, procuramos nos aproximar de quem concorda conosco, porque isso dá uma sensação maior de que não estamos ficando loucos – ou mesmo que estamos redondamente certos.

Isso acontece na vida, mas é potencializado pelas redes sociais.

O meio como isso acontece parece um caminho sem volta: os algoritmos das redes sociais colocam em contato direto pessoas que acreditam em coisas parecidas, sejam elas astronomia, vídeos de gatinhos ou teorias conspiratórias. São as bolhas da internet.

Algo que parece ser apenas a reunião de pessoas que pensam parecido sobre alguns aspectos da vida – tal qual tínhamos nas saudosas comunidades do Orkut ou nos fóruns de jogos do UOL – passa, assim, a se tornar potencialmente perigoso. Isso porque a quantidade de pessoas pensando sobre “como o mundo está totalmente de cabeça pra baixo” e “como somos enganados o tempo todo” aumenta exponencialmente. Toda e qualquer verdade, até a científica, é questionada. Viraliza aquele que coloca em cheque o que se acredita. E algoritmo atrás de algoritmo, temos a luz das atenções sobre o que gera um verdadeiro desagregar de pessoas. Curiosamente, o completo oposto do que as redes sociais vieram criar.

O fenômeno “desfiz amizades pelo voto dado na última eleição”, por exemplo, tem relação direta com esse fenômeno totalmente novo. Aos poucos ficamos cada vez mais acostumados a estarmos em bolhas nas quais ninguém discorda de ninguém. E, quando isso ocorre, sentimo-nos mais sensíveis – afinal, quem pode discordar do que eu falo?

Esse fenômeno, pelo que os integrantes do documentário – dentre eles está por exemplo o co-criador do Like do Facebook – afirmam, não passa de uma externalidade negativa, ou seja, um resultado não esperado de uma ação. Ainda assim, o problema está entre nós e não parece caminhar em uma direção sustentável ou mesmo mentalmente saudável. O que fazer então?

O copo vazio: não depende só de nós

É apresentado no documentário que as estratégias desenhadas para nós usuários (e que literalmente comandam nossas vidas, dentro e fora das redes) dependem estritamente de pessoas que passam seus dias pensando em como nos manter mais tempo conectados dentro das redes. E, por este motivo, a solução para uma mudança neste cenário teria necessariamente partir de quem desenvolve tais tecnologias.

A maior dificuldade está então envolvida com o modelo de negócio das Big Techs: seria possível sair desse círculo vicioso em que o usuário quer mais e mais tempo de tela e ainda assim ser lucrativo, rentável? Como fazer com que os usuários forneçam o almoço grátis de dados de uma maneira que não envolva deixá-los alheios às próprias vidas?

Outro grande gargalo é o aspecto regulatório. Deveriam as empresas regularem a si mesmas, dado que sua atuação é global? Cada país deveria regular sua própria rede (o Brasil por exemplo tem o Marco Civil da Internet)? Essas perguntas são muito complexas e geralmente podem parecer resumidas a “os governos não gostam que tenhamos empresas tão grandes”. Mas não se engane: essa questão de como tais empresas estão em nossas vidas importa para muito além desse aspecto puramente empresarial.

O copo cheio: podemos mudar aos poucos

Um conselho dado de forma unânime no documentário é: desative suas notificações. Sabe aquele momento em que você pega no celular e em um piscar de olhos meia hora foi embora? Provavelmente o gatilho de todo aquele tempo moído veio de uma notificação. Seu cérebro aos poucos vai se tornando cada vez mais desatento em função disso, quase como o efeito de uma droga. Reduzir ao máximo as chances dessas armadilhas pode ajudar.

Outro amigo da gestão do tempo nessa era da chuva de informação e desinformação é a técnica pomodoro: definir tempo para as atividades que você vai desempenhar. E o truque aqui é fazer o complementar do que diz essa técnica: defina períodos do seu dia para não utilizar essas ferramentas (como, por exemplo, decidir a quanto tempo de dormir você vai desligar todos os seus equipamentos eletrônicos que levaria para a cama).

Temos ainda um meio mais radical que, por motivos pouco comerciais, talvez você nunca tenha ouvido falar. Se hoje temos tão popularizados os smartphones, que tal ter um dumbphone? Uma opção vendida lá fora em o Light Phone, que permite pouquíssimas funções, quase como aquele celular que você teve no início dos anos 2000, bem diferente dos de hoje.

Não importa o que, mas faça algo

Não é possível mensurar qual o impacto deste artigo sobre o leitor, dado que ele levanta alguns questionamentos e indica o documentário. Mas, a respeito do documentário em si, é difícil imaginar que não tenha efeito sobre você, especialmente no caso de trabalhar mergulhado em informações de curtíssimo prazo, como a maioria de todos nós faz hoje em dia.

Mudar esse hábito não é fácil. Mas o que é impossível de fato é retomar o tempo que passamos perdendo rolando telas para baixo infinitamente.

Seriam este artigo e o documentário indicado capazes de te fazer deletar todas as redes sociais? Sinceramente, não é nem essa a intenção. Como bem iniciamos esse artigo, esse mundo além de integrador parece ser um caminho sem volta. Mas tudo que indicamos aqui é que seja feita uma reflexão sobre o uso das redes.

O que livros como 1984, filmes como Matrix e séries como Black Mirror dão a entender que é um futuro assustador, na verdade é o presente. Por mais que pareça que não tomamos mais decisão alguma, é possível sim quebrar o ciclo que nos prende a esses vícios.

Dê o primeiro passo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 18/09/2020

O que é ESG?

ESG é a sigla para Enviromental, Social and Governance. Essa sigla representa uma nova ótica em relação a como empresas e investimentos devem ser analisados. A partir dessa nova visão, os resultados financeiros, antes levados em conta como principal (quando não o único) fator de análise, passam a se juntar também aos impactos que a empresa tem no meio ambiente, no lado social e na governança corporativa.

Veja o que vamos abordar:
O que é ESG?
Por que essas práticas são importantes?
Quais os efeitos do aumento dessa busca?
Você vai ouvir cada vez mais sobre isso!
Carteira Recomendada ESG

O que é ESG?

Cada uma das três letras traz consigo um conjunto de questionamentos diferentes e busca, dessa maneira, responder a essas demandas:

E – Enviromental (Ambiental): Qual a pegada ecológica da empresa? Como ela lida com as gestão dos resíduos que gera? Sua atuação contribui para as mudanças climáticas?

S – Social: Os direitos trabalhistas estão sendo respeitados? A segurança do trabalho é adequada? Existe diversidade no quadro de colaboradores? Como funciona o relacionamento com a comunidade em que a empresa se insere?

G – Governance (Governança): Quais são as políticas anticorrupção da empresa? Há diversidade no conselho administrativo? Como funciona o sistema de práticas que controla a empresa?

Esse trio de letras traz para os mercados a necessidade de analisar os investimentos com base em uma tríade mais ampla do que a clássica “estamos apenas de olho no resultado para os nossos acionistas”. Isso ocorre porque, diante de momentos como o atual em que temos mudanças bruscas, fica claro que a responsabilidade da tomada de decisão das empresas vai muito além dos seus colaboradores e instalações físicas. Tal percepção já ocorria anteriormente, mas com esse movimento passa a ser institucionalizada.

Importante dizer que a visão de rentabilidade financeira não é abandonada aqui, ela só deixa de ser o único ponto a ser observado no momento de tomar a decisão de realizar o investimento.

Por que essas práticas são importantes?

Basicamente estão envolvidos com o ganho de relevância do ESG os acontecimentos que colocam à prova a necessidade de estarmos atentos aos impactos das empresas de uma maneira global.

Podemos citar três episódios ou conjuntos de motivos dos últimos anos como sendo bastante relevantes, em ordem crescente de impacto, para que tal conjunto de práticas tenha adquirido tanta importância por aqui.

Corrupção: o desnudar de escândalos promovido por operações como a Lava Jato colocou na mesa o questionamento sobre como as empresas se relacionavam com o poder público. Tendo em vista isso, diversas empresas nos últimos anos começaram a investir em programas anticorrupção. Importante notar que isso não só tem a ver com a ideia de se proteger de eventuais danos como também a existência da Lei Anticorrupção (a 12.846/2013) que coloca sanções que podem ir até 20% do faturamento bruto da empresa que se envolver em crimes junto a qualquer instância do setor público.

Para se ter ideia de como essas políticas de compliance importam, vejamos um exemplo corriqueiro que pode impactar a empresa em que você trabalha ou gere recursos e talvez não seja de seu conhecimento: se um motorista que transporta os produtos de sua empresa é parado por um guarda na estrada e, diante de uma irregularidade (um farol queimado, por exemplo) decide tentar subornar esse policial para evitar uma multa, tal tentativa pode enquadrar o CNPJ representado pelo trabalhador nessa lei. Por essas e outras que, sim, o compliance deve ser para toda a empresa, em toda a sua extensão.

Desastres ambientais da Valeem apenas três anos a Vale se envolveu em duas tragédias ambientais de grande magnitude envolvendo suas barragens de rejeitos de minérios. Brumadinho e Mariana estamparam jornais pelo mundo destacando a incompetência da empresa em ter lidado com esse aspecto. Acidente ou irresponsabilidade, o ponto é que uma ocorrência dessas já é péssimo, duas então, ainda mais em um intervalo tão curto de tempo, passa um péssimo sinal. E, após esses acontecimentos, o investidor passou a pressionar por transparência nas políticas ambientais.

Coronavírus: como não podia deixar de ser, temos aqui a pandemia atual mostrando mais uma contribuição. Desta vez, a ideia está em verificar como as empresas se adaptam para momentos de grande instabilidade, o que envolve muito mais do que simplesmente alocar os colaboradores em home office, também leva em conta como a empresa vai seguir se adequando às próprias políticas em uma realidade que, a depender do setor, terá sido alterada permanentemente.

Quais os efeitos do aumento dessa busca?

O interesse maior por investimentos que levem em conta o ESG tem se mostrado no exterior como uma ideia bastante atrativa: os fundos que levam em conta a sigla tiveram entrada líquida de capital de US$71 bilhões durante o período mais agudo da crise (o que fez com que chegassem a US$1 trilhão de valor total globalmente). Antes mesmo dessa entrada forte de capital, temos que esses fundos tiveram em 2019 desempenho superior ao do mercado como um todo.

Na crise atual os fundos ESG mais antigos superaram os mais recentes em desempenho e, em um panorama geral, os resultados mais resilientes de empresas com essas características estão ampliando ainda mais o interesse por alocações deste tipo. Isso sem contar que o maior fundo de pensão do mundo, o Fundo de Pensão do Governo do Japão, decidiu priorizar investimentos deste tipo.

Aqui no Brasil já sentimos também os efeitos: desde o mês passado temos o Índice S&P/B3 Brasil ESG, que agrega 96 ações de empresas que respeitam esse conjunto de práticas. Importante apontar também que a Guide também tem uma carteira indicada nesse aspecto.

Importante salientar que nem tudo são flores e ainda estamos caminhando. Um caso que chamou a atenção recentemente por colocar em cheque a questão da governança foi o da tentativa de aquisição da Linx pela Stone. Independente do quanto você saiba sobre esse caso, o ponto é: para além de um conjunto de políticas que atraem a atenção (e os fluxos de capital), precisamos estar atentos aos testes práticos que são impostos. A realidade bate com muito mais firmeza que as intenções puras e simples.

Você vai ouvir cada vez mais sobre isso!

Provavelmente você já se perguntou nesse período todo sobre o que, passando isso tudo, entrará num “novo normal” e o que voltará a ser como era antes. Pelo visto, um dos aspectos que entrará para um novo caminho é justamente o olhar para as empresas que leve em conta a tríade ESG.

Não necessariamente porque devemos esperar viver grandes cisnes negros como esse com maior frequência, mas sim porque, além de ser esse olhar mais responsável com o todo, ele também leva em conta uma resiliência que, no fim do dia, deixa tudo ainda mais rentável.

Ganham todos dessa maneira: os acionistas, os colaboradores da empresa e o mundo. Esse ganha-ganha geral vai fazer com que, tal qual uma outra sigla de três letras (o PIX), você ouça, veja e leia cada vez mais sobre ESG por aí.

A Guide também está montando uma carteira recomendada com empresas ESG. Leia mais sobre esse assunto e comece a investir em empresas ESG.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 14/09/2020