O Diabo Veste Prada e suas decisões na carreira

Continuando a série de indicações nesta coluna, que já contou com filmes (como Moneyball), livros (como Axiomas de Zurique e Capitalismo de Laços) e até documentários (como Enron: os mais espertos da sala), hoje vamos com mais um filme, o notável O Diabo Veste Prada.

Este filme de 2006 conta a história de uma jornalista que consegue um emprego na revista de moda mais badalada de Nova York, chamada Runway. Essa jornalista é Andrea Sachs (interpretada por Anne Hathaway). Sua chefe, a temida Miranda Priestly (Meryl Streep é quem dá a vida a essa personagem), parece passar uma imagem constante de medo em todos que a cercam. Interessante notar que o filme teve inspiração em histórias reais da autora, Lauren Weisberger, que teve uma chefe na revista Vogue chamada Anna Wintour.

O ambiente molda você, saiba manter suas essências

Logo no início do filme vemos Andy Sachs indo a uma entrevista de emprego na revista de moda. Vestindo-se como estava acostumada a fazer todos os dias em seus empregos anteriores, logo ao chegar já escuta ironias de quem a recebe por esse motivo, possivelmente não estar bem vestida o suficiente para aquela ocasião. E então vai para a entrevista, cujo cargo alçado era o de ser assistente de Priestly, a qual ela não conhecia.

A cena do primeiro encontro das duas é interessante de se ver. Alguém que não tem muito tempo a perder diante de outra pessoa que desejava muito uma oportunidade. Quase sendo ignorada, Sachs direciona que estava ali, mesmo não pertencendo àquele mundo, porque era inteligente e queria uma chance. Possivelmente não teria tido tal chance se tivesse desistido diante da primeira balançada de cabeça de Priestly – que acontece em literalmente menos de um minuto da cena.

Ao longo do filme vemos uma adaptação cada vez maior de Sachs ao mundo em que passou a se inserir. Suas roupas, o que ela passou a se atentar mais, tudo parece que estava diferente. Essa mudança passou a ser notada por seu namorado e também por seus amigos, que não levavam muito a sério essa “nova Andrea” que havia surgido.

Vida profissional e vida pessoal: há equilíbrio possível?

Em um momento que certamente foi bem pensado pelo roteiro – dado o assunto que trata e a música ao fundo -, Sachs comenta a Nigel (interpretado por Stanley Tucci) que não estava muito bem naquele dia porque tinha problemas com sua vida pessoal ocorrendo. Quando ouve dele algo que faz pensar um bocado: “isso acontece quando se está saindo bem no trabalho”. Em um mundo em que essas barreiras praticamente inexistem, especialmente agora com o Home Office e a sensação de que trabalhamos 24 horas por dia, temos que esse embate entre “as duas vidas” que vivemos é cada vez maior.

Evitando ao máximo dar spoilers, mas lembrando do que esse embate significa em termos práticos, durante o filme algumas escolhas duras são feitas por Sachs justamente levando em conta as diferenças que via entre o mundo profissional e pessoal. E isso é um lembrete importante a todos nós: a vida é mesmo feita de escolhas.

Tão importante quanto saber o que queremos fazer é delimitar as linhas do que não queremos e não iremos fazer de forma alguma. Isso é válido para qualquer tipo de relação e, levando em conta a fluidez existente entre pessoal e trabalho, é preciso saber fazer escolhas acertadas, ao menos na maioria das vezes, para não ser aquela pessoa no futuro que se arrepende por não ter tido uma bela família ou ter parado na escada profissional bem abaixo do que seu potencial lhe entregaria de verdade.

Experiências contam muito, não as despreze

Em diversos momentos do filme as personagens ao redor de Priestly passam por situações surreais que chegam a impressionar. Uma delas, por exemplo, é a missão quase impossível dada a Sachs de conseguir o manuscrito do próximo Harry Potter para as filhas de Miranda lerem durante uma viagem de trem que estavam para fazer.

Outro momento que parece uma cacetada grátis é quando, diante de escolhas a respeito de uma cor que estavam sendo feitas para um desfile que se aproximava, Sachs não conseguiu entender tamanha celeuma e riu diante daquilo. A reação de Priestly soa quase a um tapa físico em relação àquela risada. E é aqui que temos um ponto interessante a ser olhado: estar ao redor de pessoas que são de fato destacadas no que fazem acaba por ser enriquecedor ainda que elas não sejam especialistas no bom trato pessoal. Pode ser que você não queira lidar com isso pra sempre, mas não é de todo ruim que passe por algumas experiências do tipo.

Importante notar aqui que falamos do que realmente tem alguma razoabilidade, do que agrega mesmo em termos profissionais. Em praticamente todas as cenas em que algo assim acontece no filme, Miranda sempre coloca alguma justificativa (que pode parecer insanidade, como conseguir um voo de Miami para Nova York de última hora em meio a uma tempestade tropical) para o que está pedindo. Aceitar o que não é razoável ou é meramente baseado em um rebaixar profissional – como parece ter sido o caso em uma revista brasileira, segundo relatos recentemente divulgados – acaba fazendo mesmo é mal.

Há sim uma linha tênue entre o profissionalismo sem rodeios e eventuais abusos. Mas é aí que você deve aprender em seu campo profissional com as experiências que viver e quais as linhas que você acredita que não devem ser cruzadas.

Prove-se com ações e aprenda a aceitar feedback

Esses dois pontos aqui costumam dar um nó na garganta de vez em quando. Muito provavelmente você já passou em sua carreira por momentos em que se questionou “por que alguém está recebendo crédito por ações que eu realizo?”. Ou, mais complicado ainda, “por que ninguém está entendendo as mensagens que estou passando verbalmente?”.

No mundo profissional, é ideal que você entregue resultados, e não justificativas para apontar como eles não vieram a acontecer. E, tanto quanto eles acontecem como quando não acontecem, é preciso estar preparado para a resposta que se receberá em relação a isso, o tão temido (embora ninguém admita) feedback.

Pode parecer desanimador pensar dessa maneira, mas em termos profissionais, ao longo do tempo com diversas entregas você consegue provar a todos uma das duas seguintes coisas: que há uma razão grande para ser promovido ou para deixar aquele lugar porque não estão mesmo reconhecendo o quanto você entrega. Qualquer que seja a situação, depende, mais uma vez, das linhas que você traça sobre o que deseja e o que não deseja para sua carreira e, é claro, pelos feedbacks que vai recebendo durante ela.

Tome decisões ou elas tomam você

Dentre as diversas lições sobre carreira profissional deste filme, a que escolhemos para encerrar esse artigo é talvez a mais direta. Toda decisão precisa ser tomada por alguém: ou nós a tomamos ou alguém toma e chega até nós como algo “dado e resolvido”. Não se trata aqui se “querer ser quem toma as decisões”, mas, desculpe a insistência, mais uma vez saber quais coisas você está e quais não está disposto a fazer.

Quando uma decisão é tomada por você ou por alguém, aos poucos um rumo vai sendo definido. Pode parecer pesada essa pergunta para uma sexta-feira, mas: você está atento a isso ou está no modo Zeca Pagodinho (deixando a vida te levar)? Afinal, para quem não tem planos, qualquer coisa serve.

Recomendamos que você assista o filme não apenas uma vez, mas todas as vezes em que, em sua carreira profissional, você se deparar com delicadas e importantes escolhas. Refletir sobre o caminho que se toma é o melhor jeito de não se arrepender no futuro pelo que fez ou pelo que se deixou de fazer.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 11/09/2020

O silêncio dos perdedores

Nos capítulos anteriores…

O ano era 2019. Para além de um movimento considerável de queda da Selic – começou 2019 em 6,5% e terminou o ano em 4,5% -, o que vimos foi uma vultosa valorização do Ibovespa: 31,58% em apenas um ano, batendo o martelo final aos 115 mil pontos. Definitivamente a escolha entre 4,5% e 31,58% é fácil: todos os caminhos levavam à bolsa.

Tudo parecia um mar de rosas. Literalmente você deve conhecer alguém que, se não o fez, ao menos falou que se aposentaria de seu emprego para passar o dia olhando as cotações da bolsa. Não à toa, o número de investidores pessoa física da Bolsa saltou para 3 milhões em 2020. Em 2018, eram menos de 800 mil CPFs na bolsa.

Foi aí que um daqueles acontecimentos que ninguém espera – mas que acontecem de tempos em tempos – aconteceu. O coronavírus, que já vinha mostrando seus efeitos na Ásia e na Europa, desembarcou por aqui. Os mercados que já estavam assustados em um ritmo cada vez maior desde fevereiro entraram em pânico. Resultado? Queda de 29,90% em um mês, o temido março de 2020.

Sim, observamos um movimento de recuperação desde que o fundo do poço foi alcançado. Ainda assim, sabe quanto tivemos de rendimento para o Ibovespa no acumulado deste ano até agosto? -14,07%. Pois é: mesmo a surrada Selic, em atuais 2% ao ano, está dando uma surra naquele índice que “matou a renda fixa” em 2019.

É claro que o índice representa o agregado de todas as ações e sim, tivemos recuperação em algumas delas. Mas temos nesses dados até então apresentados uma possibilidade imensa: o pessoal dos trades vencedores de 2019 estão em um cemitério conhecido do mercado agora – o dos perdedores. Ou você acredita que na mesma velocidade em que te contam “bater o mercado” te dizem que o dinheiro simplesmente sumiu?

“Tá, mas eu ainda acho a Selic baixa… E agora?”

Fique tranquilo, leitor. Não iremos sugerir a você que abandone toda a renda variável em prol de aportes sem medo na Selic. Mas, levando em conta que você já tem uma reserva de emergência e está procurando alternativas para investir seu dinheiro, de fato é hora de pensar em alternativas melhores.

Com esse cenário nunca antes visto por aqui de redução de taxa de juros, o brasileiro médio está se deparando com uma realidade que já existe nos mercados mais desenvolvidos: não há retorno que não envolva ao menos um pouco mais de risco. Mais diretamente: aquele “1% ao mês no seu bolso sem esforço” que se tinha com uma Selic consistentemente em dois dígitos parece que foi embora pra nunca mais voltar.

Com esse escoamento de dinheiro veremos diversos mercados tirarem ideias do papel e colocá-las em realidade. E é nesse momento que muitas oportunidades ficam disponíveis.

Já falamos aqui nesta coluna sobre algumas delas: o setor imobiliário, o investimento em startups através do equity crowdfunding e até mesmo a busca de retornos por meio de royalties musicais. Esses são os chamados ativos da economia real e, para além dos mercados financeiros e da dívida pública, verão ainda uma quantidade imensa de dinheiro escoando para eles.

Quanto? Bem, não custa lembrar que a alocação mais tradicional do Brasil, a Poupança, tem um estoque atual de recursos (considerando o mês de agosto/2020) de R$986,78 bilhões. Não é razoável supor que todos esses recursos sairão dali, até porque mais de 80% dos brasileiros preferem essa alocação, mas pense o que aconteceria com talvez um quarto desses recursos indo a outros mercados.

Ativos reais x Ativos financeiros

Não é nossa intenção aqui rivalizar os dois tipos, mas colocar na mesa a diferença entre eles. Ativos financeiros são aqueles cujo controle não está necessariamente nas mãos do investidor, tendo certo distanciamento entre o dinheiro que entra e aquele que volta após investido. Já os ativos reais são aqueles que, ligados diretamente a economia real, trazem uma correlação direta aos movimentos dessa.

Qual é o melhor? Na dúvida, esteja em ambos. Mas saiba que, ainda que em espaços curtos de tempo os investimentos financeiros possam entregar resultados fabulosos, em casos de correções – esperadas ou fora da curva – o susto pode ser razoável. Isso geralmente não pode ser dito dos ativos reais que, estando ligados a economia real, podem sim passar por correções, mas seguirão ali fornecendo certa segurança – e, claro, rentabilidade acima do juro básico da economia (SELIC).

Um exemplo bastante direto: durante uma forte oscilação de cenários, estar em um Fundo de Investimento Imobiliário pode te render um susto porque um grande locador decide sair e o fundo desaba; caso a ideia seja deter imóveis diretamente, ainda que com o trabalho adicional que isso geraria, diante de uma grande correção basta você segurar o ativo e seguirá o tendo, podendo auferir ganhos maiores.

Ou, de outro modo: um fundo imobiliário pode vir a quebrar, seus imóveis, bem, só se intempéries da natureza ou outros eventos fora da curva literalmente os destruírem.

É claro que acima demos apenas um exemplo. Mas é válido parar pra pensar na diferença entre ativos reais – que estão de alguma forma “sempre presentes” – e ativos financeiros – podem oferecer uma volatilidade que nem todo investidor está preparado para lidar.

É hora de arriscar! Com cuidado, é claro

De novo, a triste notícia: no atual cenário não existe mais o já conhecido “1% no bolso sem esforço” de outros tempos, então se você quiser buscar algum retorno que seja próximo a isso, terá de colocar seu dinheiro em algum local com mais risco. Mas temos aqui a boa notícia: alternativas para isso não faltam hoje, sobretudo no mundo dos ativos reais.

Aliás, nossos parceiros da Hurst Capital fizeram um vídeo para que você reflita sobre a diferença entre os dois tipos de ativos.

Vale a pena estudar o que é melhor de ser feito com seu dinheiro agora que a Selic não é mais aquelas coisas. O que não vale é ignorar todas as possibilidades de fazer mais com seu dinheiro que existem agora!

Ah, e claro: cuidado com aquelas histórias de enriquecimento rápido e trades sempre vencedores. Os perdedores, escanteados pelo mercado que quer mostrar apenas o lado do glamour e riqueza, estão sempre ali: quietos, mas estão lá. Nunca se esqueça disso.

 

Publicado no Terraço Econômico em 12/09/2020

Moneyball: aprenda a mudar o jogo

Seguindo a sequência de indicações da coluna do Terraço Econômico aqui no Guia Financeirohoje trazemos o filme Moneyball: O homem que mudou o jogo. Não pretende ser este artigo um resumo do filme, mas sim um apanhado dos ensinamentos mais notáveis que ele traz.

A obra, de 2011, conta a história real de um time de baseball que, entre 2001 e 2002 conseguiu um feito histórico: vencer uma quantidade tão grande de partidas de maneira seguida que marcou um recorde para a liga profissional do esporte. Se isso levou ou não o time a vencer o campeonato, seria spoiler nosso te contar, assista ao filme e descubra. Aqui iremos apresentar algumas das tantas mensagens valiosas dele.

Dentre todos os personagens do filme, vamos concentrar os esforços de análise sobre os dois que mais agregam ao conjuntoBilly Beane (interpretado por Brad Pitt) e Peter Brand (interpretado por Jonah Hill). Beane é um ex jogador de baseball que comanda a gestão do time Oakland Athletics e Brand é um egresso de Economia em Yale que tem um método peculiar de seleção de jogadores, baseado em modelos matemáticos que levam em conta as características principais de ação deles em jogo.

Importante apontar desde já que tratam-se de direcionamentos positivos para a vida, para os negócios e também para os investimentos, o que provavelmente faz com que esse filme seja um daqueles em que você não deve tirar todas as lições assistindo-o apenas uma vez. Vamos então à elas.

Saiba fazer as perguntas certas

A maior tentação que existe diante de um problema, qualquer que seja ele, é abraçar a retórica fácil de que ou as coisas estão muito difíceis, ou o mundo conspira contra você ou mesmo que não escutam suas soluções. Mas, já parou pra pensar que você pode mesmo estar errando em não fazer as perguntas corretas?

O primeiro passo da resolução de um problema é o correto diagnóstico dele, pois é deste ponto que se pode observar o tamanho real do desafio a ser enfrentado para que ele seja superado.

No filme, o time acabou de perder grandes atletas, que receberam ofertas melhores de times maiores. O desafio era como fazer para então substituir esses atletas, não só pelo aspecto de jogabilidade como também perante aos fãs – que não querem desconhecidos, mas sim figuras marcadas e que consigam desempenhar bem seus papéis.

Mas, no fundo, será que o problema era substituir os jogadores ou o que eles entregavam em campo? As figuras que representavam ou os resultados que ajudavam a chegar?

Se você não sabe de algo, encontre quem sabe

Durante o filme vemos que há uma busca por novos jogadores que substituir as entregas de algumas pratas da casa que haviam saído. Beane, quase fechando uma nova contratação, vê que um cara discreto que estava no canto da sala muda a decisão que estava sendo acertada e impede a contratação quase certa de um jogador apenas com algumas palavras que fala a outro homem que estava ali. Curioso para saber o que havia sido dito, após a reunião ele procura esse homem e descobre que é Brand.

Os dois desenvolvem uma conversa e, nessa, a curiosidade de Beane sobre o que havia sido falado por Brand enfim encontra uma resposta: “falei que gosto daquele jogador e que não seria boa ideia vendê-lo”. Isso desencadeou outra pergunta (lembre-se da importância de saber as perguntas certas): “e por que você acha isso?”. Nesse momento Brand explica que tem um olhar específico sobre o que os jogadores entregam.

Esse olhar diferente era levar em consideração características objetivas de jogo de diferentes jogadores e inseri-las em um modelo matemático que indicava quem eram de fato os melhores jogadores. A melhor parte? Como até então a ideia era “seguir o feeling dos olheiros do esporte”, nessa visão mais criteriosa alguns jogadores que não eram tão atraentes aos olhos gerais (e, dessa maneira, estavam disponíveis a baixos preços para aquisição) podiam se transformar em joias da coroa daquele time em transformação.

O encontro de Beane e Brand é a grande faísca que dá mote ao filme.

Olhe pelo que deve ser olhado de fato – e faça com que vejam o mesmo que você

Difícil encontrar quem nunca passou pela situação de, ao chegar com uma solução inovadora e com justificativas plausíveis de sucesso, ouvir de quem já está lá algo como “eu tenho a experiência e você só tem uma novidade tola, por qual motivo deveríamos te ouvir?”. É claro que nem toda ideia nova será boa o suficiente para superar o que já existe, mas caso você tenha com claridade o que precisa ser observado, alinhe as visões de quem precisa concordar com você.

Essa situação ocorre no filme quando o gestor do time apresenta o jovem economista de Yale. Seria a experiência de décadas de alguns olheiros do time suplantada por um modelo matemático recém-chegado?

Provavelmente na vida real a questão não foi tão pontual como mostrado no filme, mas a ideia foi: precisamos alcançar determinados objetivos e isso apenas acontece se levarmos em conta características específicas dos jogadores – e não o bom e velho “eu acho e sinto que esse é dos bons”.

Ah, e alinhar a visão é fundamental: de nada adianta montar gerencialmente um plano que tenha de fato muito sentido e lógica se taticamente ele for tido como algo intangível, maluco ou mesmo que não valha a pena a ser executado. Mais do que dizer que tem que ser feito “porque é uma ordem” procure sempre deixar os executores ao seu lado no aspecto “é naquele ponto ali que todos devemos chegar”.

Seja humilde, reconheça suas limitações

Um dos pontos de resistência de qualquer organização ou relação social é justamente colocar à prova aquilo que você acredita, principalmente se isso tiver sido construído ao longo de um tempo considerável e estiver sendo questionado por alguém que acabou de chegar.

Porém, tão importante quanto saber defender seu ponto é reconhecer que algo novo faz mais sentido e pode sim ser mais eficiente. Não é algo fácil nem trivial, mas necessário. Afinal de contas, você se importa mais em dar o nome a um jogo perdedor ou erguer a taça junto de quem deu a ideia melhor?

Faça o melhor com o que você tem, não com o que sonharia ter

Idealizar, alçar mentalmente voos mais amplos, não é pecado algum. Porém, é no campo da realidade que as situações acontecem de fato e você precisa tomar decisões palpáveis que, no fim do dia, nem sempre serão as mais fáceis do mundo.

Em partes diferentes do filme isso é colocado na mesa. Em algum momento seria a falta de recursos financeiros para a contratação de atletas, em outro a dificuldade de demitir alguém que já não se encaixa mais no elenco e, ainda, o problema em fazer com que o plano seja seguido.

Levando em conta que você tem uma situação, com determinados agentes, recursos e possibilidades, aja como tal. O mundo realmente não está ligando para suas dificuldades ou com os “se’s” mentais estabelecidos, mas sim quer ver o que você consegue com o que tem nas mãos.

Não faça as coisas apenas pelo dinheiro

Uma das decisões mais importantes tomadas na vida por Beane durante sua juventude levou em conta puramente cifras financeiras – e outra que ele não tomará ao final do filme mostra que ele aprendeu que na vida, em termos gerais, não devemos tomar decisões apenas pelo dinheiro. Este que vos escreve se segurou bastante para não dar esses dois spoilers mas faz aqui novamente a forte recomendação de que você assista o filme, pois entenderá com facilidade este trecho após isso.

Este ponto pode ser contra intuitivo para alguns leitores que talvez acreditem que necessariamente se mais dinheiro tiver envolvido melhores possibilidades estarão na mesa. Mas tenha em mente que é sim válido colocar diversos aspectos na balança – dentre eles o dinheiro, mas não somente ele – ao tomar grandes decisões na vida. Mais dinheiro não garantirá, por exemplo, necessariamente maior satisfação.

Tudo é um processo: aproveite a vista

Aparentemente todos os times em qualquer competição objetivam única e exclusivamente vencer os campeonatos que disputam. Seria ilógico discordar dessa ideia, afinal de contas, ninguém entra “para perder”.

Porém, o que você não pode se esquecer é que, independente do resultado que se alcance, os processos podem levar você a uma noite de champanhe e fogos de artifício ou a uma ressaca moral que provavelmente ensina muito mais do que as taças que você não se lembra mais.

Como diria aquela clássica canção da banda Pato Fu: “As brigas que ganhei nenhum troféu pra casa eu levei / As brigas que perdi, essas sim, eu nunca esqueci”.

Passando por uma vitória – ou mesmo a maior sequência de vitórias da história, como no filme – ou mesmo uma derrota, veja o quanto você aprendeu no final. Isso porque, seja em sua vida profissional, pessoal ou nos seus investimentos, derrotas e vitórias acontecerão o tempo todo e o máximo que você pode fazer é aprender a como não cair em velhas arapucas (pela raiva da derrota ou pela empolgação da vitória).

São tantas lições que…

… provavelmente você já deve ter notado que este artigo ficou maior do que a média destes dessa coluna.

Em uma tentativa cirúrgica de não entregar pontos do filme mas sim pontos de atenção do mesmo, encerramos agora indicando mais uma vez ao leitor esse filme.

Provavelmente não será o melhor filme que você verá na vida. Mas a quantidade de toques que ele pode te dar em um sentido amplo pode colocá-lo como seu próximo filme de cabeceira.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 04/09/2020

PIX: o nome da revolução nos sistemas de pagamento

Um sistema de pagamentos pode ser definido como sendo o conjunto de procedimentos, regras, instrumentos e sistemas operacionais integrados com a função de transferir recursos do pagador para o recebedor e, a partir disso, encerrar uma obrigação.

O que é o PIX?
Quais as vantagens trazidas pelo PIX?
Como tenho acesso ao PIX?
Qual o preço do PIX?
Conclusão

Até o presente momento, os serviços de transferências eletrônicas de recursos mais comuns eram por meio de DOC ou de TED. Mas isso está prestes a mudar, e graças a um novo meio de pagamento que promete revolucionar o sistema de pagamentos brasileiro: o Pix.

O que é o PIX?

Talvez a pergunta mais correta fosse: “O que será o PIX?”. Porém, considerando o anúncio realizado pelo Banco Central (BC) desde fevereiro, além de toda a descrição disponibilizada pelo próprio BC, é possível dizer que o PIX já é uma realidade, apesar de que o seu lançamento está previsto ainda para novembro.

Logotipo Pix - powered by Banco Central

Acerca do PIX, uma realidade prestes a ser lançada (e extremamente aguardada), este consiste em um sistema de pagamentos que funcionará de maneira instantânea e digital, 24 horas por dia e 7 dias por semana. Os serviços do PIX estarão disponíveis em todos os dias do ano, não existindo mais a velha dor cabeça com os feriados ou fins de semana impedindo você de movimentar seu dinheiro.

As transferências com o PIX ocorrerão diretamente da conta do usuário pagador para a conta do usuário recebedor, dispensando a necessidade de intermediários. A dispensa de intermediários possibilitará a redução dos custos de transação.

Quais as vantagens trazidas pelo PIX?

Se o PIX fosse definido em apenas uma palavra, esta seria: Modernidade.

No caso de poder ser definido a partir de duas, estas seriam: Modernidade necessária.

Isso é devido a incrível dinâmica propiciada pelo atual mundo digital, que permitiu o surgimento de novas empresas, principalmente no setor financeiro. Como exemplo disso, temos a emergente importância das fintechs. Devido a essa dinâmica, novas necessidades precisam ser atendidas e é nessa lacuna que o PIX vem atuar, “revolucionando” o cenário atual.

O PIX aumentará a velocidade em que pagamentos/transferências são feitos e recebidos, estimulando a competitividade e a eficiência do mercado. Isso reduz os custos e eleva a segurança dos clientes. Além disso, é possível observar todo um movimento de inclusão financeira que facilitará a entrada de novas empresas no mercado, possibilitando a inovação e o criação de novos modelos de negócio.

Desse modo, o PIX consiste em uma modernidade necessária, uma verdadeira revolução nos meios de pagamento do Brasil. Basicamente porque a inovação que ele traz é permitir que você precise cada vez menos de andar com dinheiro, uma vez que as transações, tais quais fazemos com dinheiro, poderão acontecer a qualquer hora do dia.

Como tenho acesso ao PIX?

As diversas instituições financeiras – quase mil – que se colocaram como interessadas em participar dessa revolução, já estão disponibilizando os meios a seus clientes. No fim do dia, isso ocorrerá por meio de um cadastro de dados.

Pode soar estranho que tais instituições, que já têm nossos dados, peçam um novo cadastro. Mas provavelmente isso ocorre porque essa base para o PIX será nova, exclusiva e, o mais importante, rápida.

Qual o preço do PIX?

Segundo o Banco Central, a tecnologia que permite o PIX existir é bem mais barata que as anteriores. Tão barata que, segundo nossa autoridade monetária, a cada dez transações o custo será de um centavo, sendo que hoje uma TED, por exemplo, tem um custo médio de R$0,07. Apesar do custo baixo, não se sabe sobre a cobrança de taxas para esse tipo de transferência, isso ficará livre a cada instituição.

Em relação a tributação, o fantasma da CPMF segue rondando novamente e não podemos descartar que venha a virar realidade. Se esse for o caso, o custo de usar o PIX seria, então, esse novo “microimposto” somado a taxa definida pela instituição bancária.

Conclusão

O PIX representa um avanço importante por pelo menos três motivos: tem um potencial real de diminuir a demanda por papel moeda (essa que recentemente aumentou tanto que justificou a famigerada nota de R$200,00), permite que as pessoas não andem tanto assim com dinheiro físico e ainda coloca o sistema bancário em contato com a modernidade de poder transferir dinheiro com a mesma facilidade de enviar um e-mail (a qualquer dia e hora).

Aliás, cabe dizer que teria sido um golaço liberar a tecnologia durante o período de pandemia para reduzir a necessidade das pessoas de enfrentarem longas filas para sacarem o auxílio emergencial. Ainda assim, muitos elogios a essa medida do Banco Central, pois deve ajudar bastante os brasileiros.

Enron: os mais espertos da sala e lições para a vida

Uma empresa que levou dezesseis anos para sair de 10 bilhões de dólares em ativos e chegar em 65 bilhões e, em apenas 24 dias, faliuO documentário Enron: os mais espertos da sala é sobre números superlativos, ego, jogadas arriscadas e muito dinheiro.

Enron foi uma empresa de energia dos Estados Unidos que, com forte base no estado da Califórnia, controlava esse setor por lá. Pautou, por um período considerável de tempo, por desregulamentações que a deixasse mais livre para operar. Mas foi esse ritmo de “liberdade absoluta” que permitiu que todos os problemas viessem a acontecer.

“Como a Enron ganha dinheiro?”

Logo ao início do documentário vemos cenas dos ex-executivos da empresa sendo interrogados publicamente a respeito das más decisões tomadas – e esse tipo de cena é mostrada em outras partes também. Em um determinado momento é feita uma pergunta que parece óbvia, mas para o filme faz todo sentido: como a Enron ganha dinheiro?

Tal pergunta é justificada pelo fato de que a Enron, sendo uma empresa de energia, deveria ganhar dinheiro como todas as empresas do setor, através das operações relacionadas ao mercado de energia. Certo?

Pois é, mas nela tínhamos dois detalhes obscuros que faziam com que tudo ocorresse de maneira diferente.

O chocante desvio ético…

Imagine a empresa que leva energia até a sua casa todos os dias. No Brasil, os preços finais que chegam pra você dependem do Sistema de Bandeiras Tarifárias, este que leva em conta o custo de produção da energia – quanto mais elevado estiver, mais será repassado aos consumidores em forma de aumento e o contrário também é verdadeiro. Já em relação aos players que produzem a energia, há o chamado Preço de Liquidação das Diferenças (ou PLD), que é, de maneira simplificada, o “preço de mercado” da energia quando comprada setorialmente (e que é definido em valores máximos e mínimos pela ANEEL todos os anos).

E, sim, há uma relação entre o PLD e as bandeiras tarifárias: quanto maior for o PLD, maior o aumento.

Na Califórnia, nos anos 1990, essa precificação era bem mais livre. E por bem mais livre entenda: quaisquer custos que pudessem ser repassados, seriam repassados diretamente ao consumidor.

E é aqui que entra o desvio ético. Se estiver lendo em pé, sente-se, porque por mais surreal que isso pareça, de fato aconteceu. Os operadores da rede de energia desligavam algumas partes do sistema para gerar uma escassez de energia que justificasse aumento no valor das contas. Expressões como “vocês precisam ser criativos para encontrarem um jeito de desligar a energia hoje” e “vamos tirar dinheiro das vovós da Califórnia” eram literalmente ditas por esses operadores em gravações que mais adiante se tornaram públicas.

Dessa maneira, enquanto a empresa conspirava diretamente para gerar faltas de energia que se refletiriam mais adiante em aumentos nas contas, as receitas acabavam sendo impactadas positivamente e, assim, um mesmo serviço de energia comum (e bastante questionável em termos de entrega) acabava se tornando uma lucrativa operação financeira, levando as ações a aumentarem consistentemente.

… e o eletrizante desvio contábil

Unindo a essa artimanha de promoção de escassez estava uma ideia que, até então, por mais simples que fosse, trazia resultados geniais. Essa ideia era a de aprimorar a valor presente ganhos esperados de operações que estavam em curso juntamente de um conjunto de “jeitinhos” para esconder as dívidas que ficavam no caminho.

Funcionava da seguinte maneira: a Enron atribuía em seus balanços a aquisição de novas instalações e, “já que ninguém dizia não ser possível”, atribuía logo no momento dessas compras toda a receita esperada com o futuro delas. Seria como, na prática, um investimento de vinte anos pudesse ser colocado na mesa como resultado do ano atual. Uma coisa é a expectativa de ganhos e resultados, outra bem diferente é o reconhecimento desses.

Para piorar a situação, em um emaranhado de diferentes empresas que foram sendo criadas, as dívidas acabavam sendo escondidas. A mistura de fogo com gasolina era a seguinte: as receitas incorporavam os ganhos ao longo do tempo que a Enron teria com as aquisições que fazia enquanto os custos dessas aquisições (esses que, tais quais as receitas, também eram de longo prazo) não entrassem em seus balanços.

Resultado? Uma empresa cujas ações subiam sem parar, dado que suas receitas eram cada vez maiores com despesas que não acompanhavam e dívidas que pareciam ser sempre estáveis.

Um detalhe impressionante dessa história é que a firma de auditoria, Arthur Andersen, quando “se deparou com a situação” literalmente começou a destruir os arquivos físicos que existiam buscando limpar os rastros da enorme fraude que fingiam não ver. Aliás, mesmo diante de questionamentos públicos da justiça, a empresa se negou a responder sobre.

No mundo das empresas de auditoria, até esse momento, chamavam as grandes empresas de Big Five, sendo elas a Arthur Andersen, a Ernest&Young, a KPMG, a Deloitte e a PriceWaterhousecoopers. A partir desse momento, sem surpresas, passaram a ser Big Four.

Como caiu o castelo de cartas?

O começo do fim de um problema é identificar que ele existe. Neste caso não foi diferente: em 05/03/2001 um artigo questionador chamado Is Enron overpriced? colocava na mesa uma pergunta importante: como uma empresa de energia pode estar tão bem diversificada e ganhar tanto dinheiro assim? Lembrando que a Enron ocupou por diversos anos um dos primeiros lugares da Fortune 500, ranking das maiores empresas dos Estados Unidos.

É claro que não foi apenas esse artigo que promoveu todos os questionamentos que vieram a seguir, mas ele parece ter estalado os dedos para que muitos acordassem do conto de fadas acionário em que viviam.

O assunto, que já esteve presente até em uma cena dos Simpsons, acabou rendendo discussões diversas sobre como setores de serviços públicos devem ser regulados e também sobre como algumas práticas contábeis – como essa de atribuir a valor presente os resultados esperados para o futuro – precisavam ser revistas.

Além de uma dívida de US$15 bilhões que ficou para trás, milhares de empregos foram perdidos e muitos americanos que tinham nessas ações parte de suas aposentadorias viram seus sonhos virar pó. Levando em conta que não se tratava de qualquer empresa, mas sim de uma das maiores dos EUA, esse baque tremendo não parecia sequer imaginável, até que de fato aconteceu.

Fica a dica: do documentário e para seus investimentos

As cifras que os executivos levaram para casa advindas de bônus milionários que surgiram a partir dessas fraudes e o rastro de perdas que ficaram para trás fazem com que esse documentário realmente seja para os que têm mais estômago.

A indignação fica latente quando ele acaba.

Porém, como diz aquela velha frase, você pode aprender errando ou observando o erro dos outros. Da virada do milênio pra cá muita coisa mudou, principalmente no tocante ao acesso da informação. Sabe aquela empresa da moda? Não vá na onda de quem grita por aí que você não pode ficar de fora. Procure a opinião de quem estuda sobre ou, se você entender disso, olhe os balanços, as previsões, os planos.

Sempre duvide daqueles que têm certezas demais e questionamentos de menos.

É claro que uma fraude dessa magnitude fica muito mais difícil de acontecer hoje em dia dadas as balizas legais existentes e também a esse fluxo informacional mais adequado, mas ainda assim esse tipo de coisa está sujeita sempre a acontecer: lembremo-nos por exemplo que todas essas mudanças não impediram por exemplo o escândalo da OGX que, segundo a CVM veio a apurar mais adiante, também tinha razões contábeis.

Assista a esse documentário e reflita sobre seus investimentos. Pode ser um tanto assustador pensar nisso, mas é melhor que seja pensado antes de se tornar vítima de mais alguma malandragem dessas.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 28/08/2020

Qual o investimento mais amado do Brasil?

O ano era 2019 e o Bull Market estava feroz. Ibovespa acompanhando o ritmo global e subindo (quase) todo dia. A impressão era de que ações nunca mais iriam cair. Entrada de milhares de CPFs na B3, em um movimento extraordinário. Selic caindo e com sinais de que deve ficar baixa por muito tempo. De posse de todas essa informações, se você tentasse adivinhar qual foi a alocação financeira mais feita pelos brasileiros no ano passado, qual seria seu chute?

Separando em sete categorias e elencando-as da menos destacada para a mais, temos: em sétimo lugar, com apenas 2%, as moedas estrangeiras. Em sexto, com 3%, as ações (é possível que aqui já tenhamos alguns incrédulos leitores). Na quinta posição, com 4%, títulos públicos (“mas o Tesouro Direto não tinha se popularizado? só isso?”). Em terceiro lugar, com igual peso, de 5%, títulos privados (LCILCAdebênturesCDB) e previdência privada. Na segunda colocação, com 6%, os fundos de investimento.

Chegamos então a ele, o campeão. Com notáveis 84% de participação, monte que supera com facilidade a soma de todos os outros anteriores, a tradicional Poupança.

Esses dados estão na pesquisa Raio X do Investidor, da ANBIMA, que chega nesta publicação a sua terceira edição.

Apesar desse resultado um pouco controverso, é interessante observar que o movimento de redução de alocações na Poupança é notável, ainda que todas as outras seis categorias tenham ficado quase no mesmo patamar durante os três anos do estudo:

Por que será que isso acontece?

Dentre os motivos pelos quais isso acontece, podemos elencar por exemplo que isso tem relação direta com a Selic baixa sendo um fenômeno recente demais – incapaz ainda de inspirar alocações mais arriscadas -, a educação financeira ainda ser um certo tabu e, para além desses dois, o hábito de poupar ser dependente da renda e de como o consumo ocorre.

Em relação a esse terceiro item cabe fazer uma observação importante. Para quem pesquisa um pouco mais e lida mais organizadamente com suas finanças pessoais procurar alternativas mais rentáveis de investimento no cenário atual de baixa taxa básica de juros parece óbvio. Mas essa está longe de ser a realidade da maioria dos brasileiros. Dentre outros motivos, porque a renda se aproxima da subsistência. Segundo o IBGE, um quinto dos trabalhadores tinha renda média em 2019 igual a metade de um salário mínimo.

Os hábitos de uma boa lida com o dinheiro podem sim serem ensinados. Mas o caminho ainda é bastante árduo, tendo em vista que nosso déficit educacional é tão amplo que fica difícil elencar como prioridade o ensinar sobre dinheiro adiante de português e matemática, ainda que possam esses dois serem de alguma forma mesclados com aquele outro. Há outros problemas mais urgentes a serem resolvidos primeiro.

Mas há uma parte cheia nesse copo!

O estoque atualizado de recursos na poupança, para o mês de julho de 2020, é de R$973,669 bilhões – estoque esse que foi reforçado por uma entrada líquida de mais de R$110 bilhões nos primeiros seis meses desse ano. Quase um trilhão de reais na Poupança.

Neste ano temos o fator coronavírus, que tornou mais complexo qualquer tipo de previsão – algo que possivelmente pode ter contribuído para esse aumento de alocação na Poupança. Mas é aí que está a oportunidade: esse montante imenso de dinheiro que literalmente perde para a inflação pode ser atraído a alocações melhores.

O movimento de desbancarização do brasileiro, de uma caminhada a investimentos melhores, está apenas no começo. Existe um campo imenso para que novos produtos cheguem ao investidor e tornem-se possibilidades reais.

Lembremo-nos do gráfico acima citado: o movimento de queda de utilização da Poupança é maior do que o aumento individual em cada uma das outras categorias, mas como a queridinha do Brasil ainda tem um montante enorme (e rendendo abaixo de zero), não faltam motivos para que quem detém oportunidades mais atrativas possa colocar seus produtos na mesa.

O que dá pra esperar pro futuro?

Esse estudo da ANBIMA formará ao longo dos anos uma base de dados interessante sobre o que o brasileiro médio faz com seu dinheiro quando o coloca no sistema financeiro. A depender do evoluir dos três fatores aqui citados – a Selic seguindo em baixa, a educação financeira se tornando mais popular e o hábito de poupar também -, podemos observar uma mudança nesse cenário.

Importante ressaltar também que a Poupança tem forte presença no financiamento imobiliário nacional e, por este motivo, não dá para imaginar que nos próximos anos a queda seja tão forte que essa alocação praticamente suma. Ela deve continuar bastante presente.

Em todo caso, antes de imaginar que é “um completo imbecil” aquele que não tem uma bela e diversificada carteira, lembre-se que, na média, é de uma maneira absolutamente conservadora e tradicional que o brasileiro médio investe. A decisão entre “fazer troça” com isso ou contribuir com o escoamento desse dinheiro para diversos setores dependerá diretamente da qualidade do diálogo entre quem oferece produtos financeiros e quem pode alocar recursos neles.

Ou, mais diretamente: a batalha é árdua, mas há muito dinheiro na mesa. Oportunidade, para quem investe e pra quem quer captar recurso, não vai faltar!

Você sabe o que é Equity Crowdfunding?

Para começarmos todos na mesma página, vamos iniciar pelo conceito de Equity CrowdfundingEquity é o fazer parte de uma empresa, ser sócio, ter ações dessa firma. Crowdfunding é fazer a coleta de recursos de maneira mais ampla, geralmente focando em ter vários apoiadores diferentes com quantias menores de recursos aportados, sendo este todo o real diferencial para o projeto – é o que podemos chamar em bom português de “financiamento coletivo”.

Existem dois tipos de Crowdfunding: o de recompensas e o Equity. A diferença entre os dois é a seguinte: enquanto o primeiro ao receber recursos devolve mimos a quem decidiu participar da campanha e tem foco em projetos específicos (por exemplo o lançamento de uma obra literária), o segundo permite que você em troca do valor que aportar receba participação de uma empresa.

Tendo em vista o perfil mais fragmentado de recebimento de aportes – em menores valores mais com uma quantidade maior de pessoas -, Equity Crowdfunding costuma ser relacionado com startups, uma vez que nesses casos o financiamento ocorre de maneira mais direta e explicativa. Quase que literalmente nesses casos o “olho no olho” com quem está te vendendo a ideia faz muita diferença. Bem diferente de abrir o home broker e comprar uma ação de uma empresa da qual você dificilmente terá acesso direto à gestão.

Fique atento ao tipo de Crowdfunding para não se arrepender

Todo investimento via Crowdfunding é boa ideia? Como toda boa resposta de economista: depende. O diferencial de se investir em uma startup é que dessa maneira você pode estar em contato mais direto com ideias que podem desembocar em enormes projetos e lucros futuros. Ainda assim, é preciso que você esteja consciente que é necessário determinar o que você está comprando em termos de participação.

Um caso que ficou emblemático no mundo para deixar claro o que isso significa (da importância de você saber o que está comprando) é o da Oculus Rift. A empresa, que em campanha na plataforma de crowdfunding Kickstarter obteve US$2,5 milhões de dólares, foi vendida para o Facebook logo em seguida por US$2 bilhões. Isso acabou pegando mal no mundo do financiamento coletivo porque, no fim das contas, qual seria a necessidade de arrecadar dinheiro coletivamente se a empresa tinha essa outra enorme possibilidade diante de si (de ser comprada por um enorme conglomerado da tecnologia)?

Outro, que lembra pela provável não necessidade real de um financiamento coletivo, foi o da Hamburgueria Zebeléo, que virou piada amplamente na internet brasileira. Dos três que estavam no projeto, um havia acabado de ganhar o prêmio de R$150 mil por ter se sagrado vencedor do programa MasterChef, outro era um empresário razoavelmente bem-sucedido (que comentava inclusive de viagens internacionais que havia feito no vídeo que teoricamente atrairia a atenção para necessidade da doação) e outra era conhecida como um fenômeno jovem dos estudos. O vídeo dá uma dimensão do que a campanha objetivava.

Esses dois casos ilustram a seguinte verdade sobre esse tipo de crowdfundingsó entre nessa, do lado de quem pede recursos ou de quem oferece, se tiver minimamente alguma ligação lógica com a causa. Não é que você não possa ser um sócio apenas interessado no retorno advindo do negócio ou projeto, mas, diferentemente de uma ação em bolsa, aqui o risco está intimamente relacionado de como o negócio pode ir do céu ao inferno (ou vice-versa).

Entrar nessa por mero esporte pode ser o melhor jeito de jogar dinheiro ou a reputação no lixo.

Mercado cada vez mais popular!

Dois fatores fazem com que esse tipo de coisa fique cada vez mais popular em um país como o nosso: os juros baixos e os programas que falam das ideias inovadoras.

O primeiro caso, dos juros, é relativamente simples de compreender: em um país de juro de 1% ao mês no bolso sem muita preocupação, muitos dos projetos interessantes que as pessoas sonhavam em tirar do papel – e que geralmente demandam mais investimento do que sozinhos conseguem dispor – ficavam sempre para amanhã, literalmente porque não compensaria a disputa entre o dinheiro suado e o que trabalhava fácil pra você. Já hoje, com 1% sendo metade dos juros anuais (fora Imposto de Renda e outros que deduzem isso), o dinheiro está escoando para muitos outros mercados que não o da dívida pública.

O segundo caso é um pouco mais específico, mas é possível que o leitor já tenha se deparado também com ele: programas como o Shark Tank (que inclusive tem edição brasileira há alguns anos) mostram, diretamente, como ideias diferentes podem ser tiradas do papel. E esse tipo de programa traz dois conceitos importantíssimos a quem pretende entrar nessa: primeiramente, você precisa conhecer do seu negócio o suficiente pra saber o quanto pagariam por ele (não adianta tirar valuation da cartola, porque quem investe não tem tempo nem dinheiro a perder sem propósito) e, em segundo lugar, se você quiser petiscar, tem que arriscar.

Como investir em Equity Crowdfunding no Brasil?

A Comissão de Valores Mobiliários mantém uma lista ativa de plataformas de investimento colaborativo. O primeiro passo, seria consultar se a empresa que fornece tais oportunidades é regulada pela CVM, por uma questão de segurança do investimento a ser feito.

O segundo passo é entender a fundo da empresa que se quer fazer parte. Não que você vá ser o gestor dela ou executará atividades de alguma natureza, mas convém saber em quais ideias seu dinheiro entraria. Novamente: aproveite a oportunidade que você tem de fazer isso com um “olho no olho” muito mais intenso do que você tem ao abrir o home broker e comprar uma ação.

Um terceiro passo que sugerimos é justamente assistir diversos episódios desses programas que abraçam ideias inovadoras. Não para que você se force a ter ideias tão boas, mas para que verifique na prática que tipo de coisa quem participa desse tipo de investimento (seja solicitando recursos ou ofertando-os) está procurando e como descobrir se o negócio a ser investido é uma boa ideia ou uma barca furada.

A liquidez que o mundo visualiza hoje com os juros baixos aparentemente sendo o novo normal em todo canto é uma oportunidade de ouro para que você invista em ativos reais e em negócios de maneira mais direta, como é o caso do equity crowdfunding. Só não se esqueça que, diferente do mundo pacato de 1% sem esforço que tínhamos por aqui poucos anos atrás, os riscos não só existem como não devem ser desprezados.

 

Artigo publicado no Terraço Econômico em 20/08/2020

Bolsonaro I ou Dilma III?

Situação fiscal complicada. Alertas de todos os lados de que, com as contas não fechando, logo estaremos em terreno pantanoso. Reformas a serem feitas, cada vez mais inadiáveis. E quem ocupa o Palácio da Alvorada parece razoavelmente alheio a toda essa realidade. Se só te dermos esses dados, de qual governo você lembra primeiro?

As diferenças…

O segundo mandato de Dilma Rousseff começou com ares de engano a muitos dos que nela votaram. Em uma campanha que literalmente criou um personagem para brincar com quem via o que se aproximava – o Pessimildo – e evocava a todo tempo o otimismo, jamais se imaginariam por exemplo o descongelar de preços administrados e a súbita realização de que as contas públicas não fechavam mais. Aliás, sobre elas, logo ficamos sabendo que os resultados eram positivos apesar da gastança dos últimos anos por algumas malandragens contábeis – que vieram a derrubar a presidente pouco tempo depois.

Bolsonaro antes mesmo de entrar já listava entre suas principais diferenças com “isso daí” o fato de que teria como escudeiro na economia Paulo Guedes, um liberal de carteirinha que encaminharia o país para uma estada dourada de “libertação do socialismo” (importante lembrar que isso foi até citado no discurso da posse). O Super Ministro já entraria com todos os poderes necessários para permitir que o país enfim reduzisse o tamanho de sua máquina pública.

Em resumo, a diferença principal foi de diagnóstico ao início: em Dilma II foi a “surpresa” de virada ortodoxa diante das dificuldades que o país passava, em Bolsonaro I foi o afirmar categórico de que o país passaria por uma grande virada.

… e as semelhanças

Dilma trouxe Joaquim Levy, conhecido por sua austeridade em relação a contas públicas e até com um apelido bastante direto: “Levy Mãos de Tesoura”. O ponto crucial era de que tínhamos de fazer um ajuste fiscal severo, porque a situação era bastante delicada. Resistiu menos de um ano, tendo em vista que não conseguiu quase nada do que se propôs a fazer, tendo sido boicotado inclusive pela base do próprio governo.

Bolsonaro iniciou seu governo dizendo que não faria interferências políticas e que seus ministros seriam livres para escolherem suas equipes. Isso seria o cumprimento de uma promessa de campanha. Por mais que em outros ministérios isso não tenha sido cumprido à risca, no da economia a ideia foi mesmo de deixar Paulo Guedes direcionar as coisas. Direcionar, sim, executar, nem tanto.

Desde o início da gestão, as baixas no Ministério da Economia foram as seguintes: Marcos Troyjo (comércio exterior), Mansueto Almeida (Secretaria do Tesouro Nacional), Caio Megale, Rubens Novaes, Salim Mattar (Secretaria de Desestatização), Paulo Uebel, Joaquim Levy (BNDES) e Marcos Cintra (Receita Federal). Especula-se que Waldery Rodrigues e Carlos da Costa também estejam de saída em breve.

O desmonte ocorre indiretamente por ações do presidente. Declaradas explicitamente ou por meio de sutis mensagens, cada uma dessas saídas deu a entender que ocorreu porque, como sumarizou Salim Mattar, não havia vontade política de tocar as mudanças que precisariam ser tocadas. Ou, mais diretamente: se quem tem a caneta que manda não quer que mudanças ocorram, elas simplesmente não ocorrerão.

Se vamos repetir o passado, isso aqui acontecerá

Tal qual a escolhida a dedo por Lula, Bolsonaro passa por uma fase bastante positiva em termos de popularidade. Por quaisquer que sejam os motivos, a aprovação do presidente nunca esteve tão alta quanto agora. No Brasil, quando a popularidade está em alta, geralmente os mandatários não gostam de dar más notícias.

Levando isso em conta, se o passado se repetir, podemos esperar uma continuidade dos desembolsos específicos ao período da pandemia mesmo para um período maior. Para além disso, não será difícil observar a exaltação de programas que expandem os gastos públicos com obras e afins, sempre com o nobre objetivo de recuperar o Brasil da crise.

Mais atualmente o debate direto é em relação ao Teto de Gastos. A pressão sobre este é cada vez maior e, tendo em vista que “o Brasil não pode parar”, por mais altamente não recomendável que isso seja, não se pode descartar que uma flexibilização maior – possivelmente pelo esticar do período de calamidade fiscal até 2021 – do orçamento.

Diferentemente do período de Dilma em que havia a ilusão de que o espaço fiscal era maior, agora sob qualquer ótica que se observar não há espaço fiscal para esse tipo de artimanha. Não se assuste o leitor se ver em breve o tal Plano Pró-Brasil sendo retirado da gaveta.

Será que agora vai ser diferente?

Dado o espaço fiscal absolutamente estrangulado, muito se coloca em pauta que o governo não será destrambelhado o suficiente para, por exemplo, derrubar o Teto de Gastos. Em todo caso, com essa discussão ou não, a situação segue sendo bastante delicada – e esse limite legal pode mesmo vir a ser rompido em 2021.

Mas não podemos nos esquecer que a união entre líder popular/populista e gastos adicionais costuma dar samba em Terra Brasilis.

A depender da tensão atual entre Jair Bolsonaro e seu Ministro ‘Posto Ipiranga’, já se tem até substituto na área – e, pelo que consta, esse seria Roberto Campos Neto, atual presidente do Banco Central.

O histórico de preferências em termos de políticas públicas de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro converge para um estatismo típico do Brasil. Fica aí para questionamento do leitor então: vivemos hoje o primeiro mandato de Jair ou o terceiro de Rousseff?

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos, que, pelo visto, serão eletrizantes.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 17/08/2020

O que esperar de 2021?

Você não leu errado o título deste artigo: realmente vamos falar aqui do próximo ano. Para que não exista confusão, explicamos que isso é necessário porque este ano, tomado por efeitos negativos da pandemia do coronavírus, reações dúbias do poder público em relação a isso – que resultam em um verdadeiro abandonar de medidas de segurança por cada vez mais pessoas -, além das eleições municipais no Brasil e presidenciais nos EUA, não fica difícil imaginar que, apesar de muito ter para acontecer, pouco de fato será decidido ainda neste ano.

Explicação feita, vamos ao que interessa. O que será que o próximo ano pode nos reservar? É possível observar isso em três diferentes óticas: saúde, economia/reformas e política/relações internacionais. Vejamos cada uma delas.

Saúde

O mundo todo está atrás de uma vacina para a Covid-19, isso não é novidade. No momento em que esse artigo é escrito, temos cinco vacinas em Fase 3, que é a fase mais avançada, só anterior a aprovação.

Conforme informa o Bloomberg, e podemos ver na imagem abaixo, as vacinas em fases mais avançadas de teste têm sua aprovação prevista, caso tudo ocorra de maneira positiva, entre o quarto trimestre deste ano e o segundo do ano que vem:

Processo de desenvolvimento da vacina do covid-19

Em termos de saúde, certamente o aspecto mais relevante para 2021 será o fato de encontrarmos uma ou mais vacinas para lidar com a atual pandemia. Provavelmente serão algumas vacinas, o que é bastante positivo, dado que a quantidade de pessoas a serem imunizadas é imensa, demandando algumas bilhões de doses – que, até o presente momento, não sabemos se ocorrerão em dose única ou em mais de uma.

Por mais que alguns países já tenham reduzido as medidas de segurança, não podemos descartar novas ondas de contaminação, dado que, por mais desanimador que isso pareça, é complexo demais contar com o “bom senso” das pessoas em ficarem por tanto tempo seguindo medidas de segurança.

Por basicamente dois motivos: em primeiro lugar, a ideia era de que em no máximo dois meses teríamos a situação controlada (e aqui no Brasil já caminhamos para cinco) e, em segundo, ainda há uma linha tênue entre o que sabemos e o que não sabemos desse vírus – o que nos deixa no limiar entre acreditarmos que de fato há um “novo normal” ou apenas no aguardo de uma vacina que nos faça retornar ao que conhecíamos antes.

Qualquer que seja o caso, a prudência segue sendo necessária.

Economia/Reformas

Outro bom motivo para lembrar que vale mais olhar 2021 do que o ano atual é o fato de que mesmo chegando ao final da primeira quinzena de agosto desse ano o governo apenas colocou na mesa parte de uma reforma (a tributária), ainda não tendo efetivamente tratado da administrativa. Levando em conta que as eleições municipais – que formam a base mais capilarizada dos partidos – estão logo ali, se o governo não coloca para o Congresso o que quer que seja votado, difícil imaginar atitude altiva deste último nessa direção também.

É possível considerar 2021 como sendo um ano estratégico para o campo de reformas que impactem a economia basicamente por dois aspectos: considerando que seja encontrada uma vacina (ou até mais de uma) e a imunização tenha tido início, a pandemia vai aos poucos saindo do foco principal que tem atualmente (que concentra basicamente todos os esforços, ao menos em teoria) e, para além disso, temos mais um ano de espaço entre duas eleições (a municipal de 2020 e a presidencial de 2022).

Levando em conta que a estratégia seja a mesma de 2019 com a reforma previdenciária, de um foco maior em esclarecer amplamente quais seriam as intenções da mudança pretendida – o que teve relativo sucesso, visto que houve a aprovação da mesma -, podemos prever que ao menos uma das duas reformas mais importantes para o momento (tributária e administrativa) deve ser aprovada em 2021. Atenção: isso só acontece se o foco for o mesmo de 2019.

A recuperação da economia deverá ser lenta. Não é demais relembrar que, antes mesmo da crise atual chegar, ainda não havíamos nos recuperado do baque de 2015-2016. Outro indício dessa recuperação mais lenta é o fato de que nossos mercados – como o de trabalho – são pouco flexíveis e, no fim das contas, embora tenhamos a sensação de que aqui sofremos menos com a situação atual do que outros países no mundo, isso certamente contribui para que nos recuperemos mais lentamente também. Reformas auxiliam nesse caminho de retomada – embora, mais uma vez, elas deixam o caminho mais fácil, mas não garantem a chegada.

Política/Relações internacionais

Embora estejamos aqui focando no próximo ano, um fator do atual momento fará muita diferença para o(s) próximo(s): a eleição nos EUA. Isso acontece porque duas plataformas bastante distintas entre si estão em disputa: o nacionalismo de Trump vs o globalismo de Biden.

Os destinos eleitorais na maior economia do mundo impactam o resto do mundo diretamente. Isso já acontece em tempos regulares, mas agora isso torna-se ainda mais intenso, com efeitos notáveis sobretudo aos países emergentes como o Brasil.

A reeleição de Trump significaria uma continuidade das medidas que vão em direção do famigerado America First e, dentre outros pontos, isso significa que tensões comerciais com a China devem seguir adiante e os caminhos para relações internacionais mais diretas entre países – e não tanto em blocos de países – devem se intensificar.

Já a vitória de Biden acarretaria um retorno do pêndulo do mundo para o lado da globalização, aliviando tensões internacionais em prol de um comércio mais amplo mundialmente. Neste cenário, ganham os países emergentes, por passarem a ter uma nova janela temporal de investimentos que antes concentrar-se-iam justamente onde houvesse maior foco nacional – nos EUA, por exemplo.

Qualquer que seja o caso nas eleições norte-americanas não podemos nos esquecer que a China já corre por fora para ampliar sua presençaEsse movimento que começou logo no início do segundo trimestre aumenta a cada dia. Como economia que há décadas cresce ininterruptamente e caminha nos próximos anos para se posicionar como a maior do mundo, o gigante asiático não quer depender tanto dos rumos no Tio Sam.

Nossa política aqui influencia? Sim, mas com maior relação ao item anterior (das reformas) do que sobre o resto do mundo. Ajeitar a casa por aqui fará muita diferença – porque quem se mostrar como boa oportunidade de negócios irá receber os mais vultosos fluxos financeiros.

Vem logo, 2021!

Tal qual passada a aprovação da reforma previdenciária na Câmara em 2019 e o famigerado questionamento sobre “o que vem no pós-previdência”, o foco está cada vez mais direcionado para o que vem no pós-pandemia. Tendo em vista que se trata de uma questão sanitária, esse aspecto será primordial para equalização de tudo.

2020 ainda reserva muitas emoções, isso é sabido. Mas tenham em mente desde já: pode ser que 2021 seja mais calmo, mas certamente será um ano estratégico em todo o mundo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 10/08/2020

Atrás da tecnologia só não vai quem já morreu

2020 é um ano que entra para a história, dentre outros aspectos relevantes, por mostrar que migrações para o mundo digital não puderam mais ser adiadas. É possível que você conheça algum setor que ainda esteja fora das redes ou totalmente sem contato com elas – nem que seja por um aplicativo de mensagens -, mas se já era algo um pouco difícil de acontecer no começo do ano, agora então é bem mais raro.

Essa mudança ocorre por algo que todos nós que vivemos esse ano já sabemos, mas quem ler este artigo no futuro poderá não se lembrar com exatidão: a pandemia provocada pelo novo coronavírus nos fez adiantar o calendário da digitalização dos negócios porque o presencial simplesmente deixou de ser possível por um tempo. Levando em conta que no Brasil movimentos como quarentena ou algo parecido vêm ocorrendo desde março, literalmente quem não fez nenhuma adaptação tem altas chances de ter quebrado ou estar nesse triste caminho.

Existem diversas maneiras de digitalizar negócios, é verdade. Mas, provavelmente, todas elas passam por alguma das Big Techs: Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google (ou, como são conhecidas, as FAAMGs). Isso se reflete diretamente no fato de que essas empresas hoje têm resultados expressivos nos mercados financeiros, mesmo diante da maior crise mundial desde 1929.

O agregado impressiona

O índice S&P500 lista 500 ativos/empresas das bolsas de Nova York por seu tamanho e liquidez. Neste ano, o mês de março representou um enorme tombo para todos eles, como já se sabe. Porém, impressiona o ritmo de recuperação das FAAMGs logo em seguida: as cinco empresas sozinhas tiveram, até junho/julho, 35% de retorno anual, enquanto no mesmo período as outras 495 do índice perderam 5%:

A importância da tecnologia nos negócios está dada – e os resultados práticos disso são observados em como essas empresas têm se desempenhado nos mercados.

É importante sempre ressaltar que a resposta dos Bancos Centrais a essa crise foi mais rápida e vigorosa que em 2008 e, no fim do dia, isso ajuda a explicar a recuperação rápida dos ativos de mercado mundo afora. Ainda assim, cada uma dessas empresas mostrou, com os resultados mais recentes divulgados – os do segundo trimestre desse ano, período em que tivemos o fundo do poço da atual crise -, que estão preparadas para os novos tempos.

Facebook

Mesmo passando por um boicote recente de algumas marcas – até o gigante conglomerado Unilever se uniu a essa causa -, que o fizeram em decorrência de um posicionamento questionado por elas da plataforma em relação a conteúdos de potencial disseminação de ódio, o grupo de Mark Zuckerberg teve um resultado impressionante: lucro trimestral de US$5,2 bilhões, 98% superior ao mesmo período de 2019.

Dentre as justificativas, destaca-se o aumento da interatividade por meio das empresas da plataforma durante a pandemia. Lembrando que o grupo detém, além do Facebook, também o Instagram e o WhatsApp. Não é muito difícil confirmar na prática a tese e a estratégia da empresa do logo azul.

Amazon

Mais uma que praticamente dobrou o lucro líquido no segundo trimestre de 2020 em relação ao mesmo período de 2019 foi a Amazon: US$5,24 bilhões agora, contra US$2,62 bilhões no ano anterior. Notável também dizer que, nesse mesmo trimestre, a empresa desembolsou US$4 bilhões apenas para aumentar os cuidados aos seus funcionários neste período de pandemia – algo que ocorreu após reclamações deles sobre tais condições em meados de março -, fato esse que chegou a ser apontado pelo próprio Jeff Bezos como motivo pelo qual os acionistas poderiam esperar lucro zero nesse período.

Este crescimento aqui foi impulsionado pela utilização da plataforma nas duas pontas: muitos, em casa, passaram a comprar mais por ela e, outros, que não tinham como oferecer seus produtos de outra maneira, passaram a fazê-lo por meio de seu marketplace.

Apple

O efeito para cima na empresa da maçã veio por meio das receitas: os analistas esperavam um faturamento de US$52,25 bilhões, mas a realidade trouxe à tona: US$59,69 bilhões nesta cifra, impulsionados pela aquisição de computadores (que tiveram alta de 21,6% em relação ao ano anterior) e dos devices Apple Watch e HomePod (que juntos representaram um aumento de 16,7% ao mesmo período do ano passado).

Resultado? Após tal divulgação a empresa voltou ao posto de maior do mundo em valor.

Microsoft

A empresa criada por Bill Gates e que passa por uma verdadeira revolução nos últimos anos encaminhada por Satya Nadella não ficou de fora: neste caso tivemos um aumento da demanda por serviços de nuvem, sendo que o produto deles nesta área, o Microsoft Azure, sozinho conseguiu um faturamento de US$50 bilhões – o que representa parte considerável dos US$143 bilhões deste ano até o fechamento do segundo trimestre. Ainda, começam os rumores de uma possível compra da Tik Tok, aplicativo chinês que bombou no período que coincide com a pandemia em todo o mundo.

Google (Alphabet)

O rei dos buscadores não ficou de fora da festa: mesmo com uma queda nas receitas na ordem de 2% (de US$38,9 bilhões no segundo trimestre de 2019 para US$38,3 bilhões no atual), queda essa que é a primeira em 16 anos, os resultados ficaram acima do esperado também em função de uma utilização maior de anúncios em meio a pandemia. De fato, das FAAMGs, parece ter sido a que teve menor destaque explosivo em resultados do segundo trimestre – mas ainda assim segue como líder absoluta no que faz e, diante de tantos setores que seguem se recuperando, segue resiliente.

O que os ativos reais têm a ver com isso?

Absolutamente tudo. Novamente: em um ano como o que vivemos atualmente é difícil justificar seu negócio estar de fora das redes, ainda que seja simplesmente de alguma plataforma de mensagens. A frase “se você não está na internet não está em lugar nenhum” nunca fez tanto sentido quanto agora.

Os negócios que souberam – ou estão aprendendo – se inserir nessa realidade que, cá pra nós, já vinha ocorrendo nos últimos anos, sairão melhor dessa crise do que entraram. Lembremo-nos por exemplo de dois casos brasileiros de sucesso nessa direção: a WEG, empresa de motores industriais que vem abraçando a digitalização e ampliando seus mercados nos últimos anos e a Magazine Luiza, cujo presidente afirmou cerca de um ano atrás que o objetivo da empresa era justamente digitalizar o varejo no BrasilNo final, a economia real se transformou em definitivo.

Importante lembrar também de como negócios que alguns anos atrás sequer existiam hoje são impulsionados pela tecnologia: hoje é possível até investir em royalties musicais, estes que têm seu rendimento vinculado a todas as vezes em que alguém ouve música em um show ou dá play em algum serviço de streaming. E se há interesse? Na recente operação da Hurst Capital a captação se esgotou em apenas um dia.

O negócio em que você trabalha ou desenvolve terá cada vez mais inserção digital. O título deste artigo evoca uma velha marchinha de carnaval para uma realidade absurdamente atual: atrás da tecnologia só não vai quem já morreu.

 

Publicado no Terraço Econômico em 05/08/2020