Desoneração de folha e Auxílio Emergencial: vamos repetir o pós 2008?

Para além de todas as preocupações com o coronavírus em termos de saúde e economia, um ponto de questionamento que começa a aumentar de maneira sensível após termos entrado na segunda metade deste desafiador ano é: será que as medidas emergenciais até então tomadas seguirão adiante?

No artigo anterior desta coluna você ficou a par do Programa Pró Brasil, cujo desenho um tanto quanto enigmático fez lembrar o Programa de Aceleração do Crescimento – aquele que promoveu desembolsos vultosos e em nada aumentou a produtividade do país. Este programa do atual governo, segundo a equipe econômica afirma agora, está bem engavetado. Mas outros dois que estão em atuação agora (e podem acabar ficando na pauta) preocupam.

O primeiro destes pontos é a desoneração de folha. Como medida de estímulo a manutenção de empregos na situação atual – importante frisar que isso já foi chamado anteriormente de algo que seria um estímulo a geração de novos -, o programa que chegou para durar três meses já foi esticado por um período maior. Em meados de julho discute-se que seja inclusive prorrogado para o ano de 2021.

A preocupação com esse ponto é a seguinte: esse tipo de desoneração realmente auxilia na manutenção de empregos, porém, não tendo em conjunto uma redução de alguma despesa do Estado em conjunto (o que raramente acontece na mesma velocidade em que há a concessão desse tipo de desoneração) ela simplesmente será uma transferência de impostos de uma área para outra. Uma nova CPMF poderia vir para “tapar esse buraco”, por exemplo.

O segundo ponto é o Auxílio Emergencial. Tal qual o Bolsa Família, podemos elogiá-lo por realmente chegar a quem precisa (trata-se de política realmente focalizada e eficiente). Estudo recente dos economistas Ecio Costa (UFPE) e Marcelo Freire (Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de PE) mostram que o efeito sobre a massa salarial nacional – a renda que está com as pessoas formalizadas e não formalizadas – será um adicional de quase 7% durante esse período.

Se por um lado temos que esse programa auxiliará a aliviar os efeitos da crise, o que é extremamente benéfico, temos por outro lado que o movimento de saída dele não será tão trivial. O motivo não é tão difícil de entender: imagine uma família que recebe menos de R$150,00 mensais do Bolsa Família e passou a receber pelo menos quatro vezes isso com o atual programa. Esse consumo simplesmente regredirá quando o auxílio acabar? É neste momento que temos de acompanhar bem como funcionará o Programa Renda Brasil, cujo objetivo é aperfeiçoar o Bolsa Família.

A sensação deste que vos escreve é que o prorrogar “indefinido” de programas como esses, por mais benéficos que sejam, seria um equívoco. Como bem apresentado aqui anteriormente: medidas extraordinárias devem sim ser tomadas em tempos extraordinários. Mas se transformarmos tais medidas em permanentes, principalmente na atual situação fiscal do país (em que vamos fechar a década com mais da metade dos anos em déficit primário), a conta chegará muito mais rápido do que das outras vezes.

Fica a pergunta: vamos repetir o pós 2008 em que medidas temporárias viraram permanentes até que a conta chegou de maneira arrebatadora?

 

Publicado na edição de Agosto de 2020 da Revista da ACIF Franca (Página 22)

O Brasil pós-covid: uma análise do IPEA

Não há absolutamente ninguém no planeta Terra que não tenha se surpreendido com a pandemia da COVID-19 e os seus efeitos imediatos no cotidiano. De uma hora para outra, nossos hábitos foram radicalmente alterados, as rotinas adaptadas e os nossos planos repensados.

Com essas mudanças bruscas, as economias do mundo todo foram severamente afetadas. Segundo o FMI, há a expectativa de encolhimento do PIB mundial de 4,9%. Não é pouca coisa. Aqui no Brasil, é esperado que o PIB contraia 9%, queda mais suave do que o esperado na Espanha (12,8%) e no Reino Unido (10%). Não há paralelo na história da humanidade de quedas tão bruscas e generalizadas em todos os continentes.

Mas a boa notícia é que, aparentemente, o pior já passou. Quando olhamos os indicadores de indústria, varejo, consumo das famílias e pedidos de desemprego, no Brasil e no mundo, há a clara percepção que o fundo do poço ficou para trás. No caso brasileiro, existe ainda no ar uma certa desconfiança dos agentes em relação à economia, e, principalmente, como será o pós-pandemia.

Nesse sentido, o IPEA elaborou um material riquíssimo de análise e projeções que levam em conta esse cenário. Colocamos o relatório completo aqui. É interessante mencionar que o Instituto, além de mostrar o cenário atual e as medidas que foram adotadas, sugeriu 4 eixos de ações para serem tomadas para a recuperação, visando o aumento da produtividade da economia e utilização eficientes dos recursos.

Em seguida, abaixo elaboramos um resumo do material disponibilizado pelo IPEA.

Cenários macroeconômicos

O crescimento observado para a economia em 2020 será muito aquém do que aquele esperado ao início deste ano. Fato é que antes mesmo do coronavírus já não tínhamos previsões tão elevadas de crescimento, mas um PIB menor acabou transformando-se em uma queda livre.

Os dados mais recentes do Boletim Focus, que coleta informações de agentes do mercado, trouxe nesta segunda-feira (26/07) uma queda esperada de 5,77% para a economia brasileira neste ano. Segundo o estudo do IPEA, a queda ficará em 6%, mas com recuperação de 3,6% em 2021, conforme mostra o gráfico abaixo.

Em termos de dívida pública, este item que tenderia a se estabilizar e reverter logo nos primeiros anos da década que se inicia em 2021, acabou apontando para cima. Previsões indicam que uma possível estabilidade ocorra apenas ao final da década.

Em parte, devido aos desembolsos adicionais deste atual período e também pelo avanço “natural” do tamanho do Estado brasileiro. Não nos esqueçamos que o orçamento público do Brasil é 93% composto de despesas “engessadas”, que não podem ser alteradas sem movimentações na Constituição. Este desafio que já era complexo torna-se ainda mais após esse período.

Em consequência dessa questão fiscal temos um apontar para cima da curva de juros ao longo do tempo. Naturalmente, com uma dívida maior e mais complexa de ser gerida, o custo desses empréstimos tomados pelo governo se eleva. Apesar da inflação ainda em baixa, isso ocorre porque nossa situação fiscal já era delicada antes mesmo da pandemia.

Covid-19 no mundo: medidas internacionais adotadas

A atuação internacional se deu, não surpreendentemente, também através de vultosos pacotes fiscais cujo objetivo foi o de manter a espinha dorsal das economias funcionando. Assim como aqui, tais estímulos foram em direção a empresas e também a pessoas físicas.

Nesse momento, o estudo do IPEA mostra de maneira bastante direta como um lado fiscal mais robusto faz diferença em momentos como o atual. Se sabemos que todos os países acabam tendo de elevar suas dívidas públicas, a capacidade de cada um sinaliza como poderão enfrentar melhor a crise. O estudo apresenta os casos da Alemanha, da França, da Espanha, dos Estados Unidos e do Canadá para comparar com as medidas aplicadas no Brasil.

Importante ressaltar o caso específico da Alemanha que, de “austericida” passou a ser um exemplo na lida deste período, dado que, logo no início, literalmente colocou à disposição recursos ilimitados que tinham início na monta de US$550 bilhões. Novamente, para que não se perca esse ponto: apenas um cuidado recorrente com o lado fiscal permite que isso ocorra. Momentos extraordinários demandam medidas extraordinárias, mas tempos normais demandam prudência.

Em um momento como o atual vemos claramente quem teve e quem não teve essa prudência.

Eixos de ação para a recuperação econômica

O estudo do IPEA mencionado aqui coloca quatro eixos para recuperação econômica do Brasil pós-pandemia. Esse é um ponto bastante positivo do material produzido pelo Instituto: além de falar do cenário atual, fornece o caminho para dias melhores. Cada um dos eixos apresenta propostas diferentes de atuação.

Atividade produtiva e reconstrução das cadeias de produção.

Neste primeiro eixo as propostas são de reformar o sistema brasileiro de recuperação de empresas (leis de falências e recuperação judicial), a concessão de empréstimos para micro e pequenas empresas para manter de pé suas escalas produtivas, a criação de uma indústria de reciclagem automotiva, o uso estratégico de compras públicas (com foco em micro e pequenas empresas), ideias para o campo da saúde (para reestruturá-lo em termos de financiamento), a criação de concursos nacionais de foco de resolução de problemas com financiamento privado e a adequação dos fundos de financiamento regionais.

Inserção internacional

O Brasil ainda é um país muito fechado. A relação (importação + exportação)/PIB é de 25%, inferior aos nossos pares sul-americanos e de praticamente todos os países ricos (OCDE).

Precisamos estar mais integrados ao resto do mundo, nas cadeias de valor e dar condições para que empresas exportadoras tenham mais êxito na venda de seus produtos e permitir às indústrias locais que importem equipamentos e bens de forma mais fácil, desburocratizada e barata. Além disso, precisamos ter menos amarras e dificuldades para atrair investimento externo, favorecendo o ambiente de negócios por aqui.

De forma geral, os especialistas do IPEA sugerem a adoção de políticas que favoreçam esse ambiente propício para o comércio exterior e para a atração de investimentos externos (tanto diretos como indiretos).

Investimentos em infraestrutura

Não é nenhuma novidade que precisamos de obras de infraestrutura com o objetivo de reduzir o “custo Brasil”. Com exceção de poucos estados, fazer o transporte de carga nesse país de dimensões continentais é caro e arriscado. Apostamos todas as nossas fichas no modal rodoviário, deixando de lado alternativas pluviais e férreas.

Para piorar a situação, casos de corrupção e mal uso do recurso público foram recorrentes nos últimos anos, lançando dúvidas sobre esse modelo de investimento.

Não à toa, o estudo do IPEA sugere fortalecer as parcerias público-privadas e as RDC (Regime Diferenciado de Contratações Públicas). Ainda, sugere revisar as concessões, de modo a identificar ineficiências e oportunidades de melhoria. Trata também da questão do saneamento básico, que deve ser transformado a partir da aprovação do Marco Legal no Congresso.

Proteção econômica e social de populações vulneráveis

Há uma enormidade de programas sociais no Brasil. Mas poucos de fato são focalizados, ou seja, chegam de fato para quem precisa. O Bolsa Família é um deles, com evidências robustas de êxito na transferência direta de recursos para famílias pobres. Contudo, ainda há políticas feitas no Brasil que não trazem resultados concretos para as populações vulneráveis.

O relatório do IPEA, nesse eixo, traz diversas políticas com o objetivo de focalizar o gasto e, dessa forma, dar maiores condições de progresso para esses grupos vulneráveis: medidas educacionais (tempo integral na educação básica, financiamentos estudantis), saúde (vacina tríplice, número de profissionais na saúde) e políticas sociais (agricultura familiar, jornada de trabalho e acesso ao emprego pelos jovens) são debatidas no documento, inclusive pontuando qual deverá ser a origem dos recursos para cada política sugerida.

Mas espera um pouquinho: o que tudo isso tudo tem a ver com os ATIVOS REAIS?

A economia real movimenta os ativos reais. Isso parece óbvio, mas não pode ser esquecido. Aparentemente o mundo dos investimentos se preocupa apenas com aqueles que estejam focados mais em aspectos financeiros, mas é quando a roda da economia gira nas ruas que os ativos reais, aqueles que têm um maior potencial de valorização vigorosa ao longo do tempo, cumprem seu caminho de valorização.

A partir do momento em que a economia estiver sobre bases mais sólidas e bem estabelecidas, os negócios poderão se desenvolver melhor e, com isso, os ativos reais passam a se valorizar mais.

Em termos de longo prazo, temos uma chamada década perdida (como vimos nos anos 1980 e viveremos nos anos 2010) quando a renda da economia praticamente anda de lado o tempo todo. Com a casa arrumada, todos saímos beneficiados.

Não é fácil, não é trivial e envolve um conjunto imenso de mudanças como as que apresentamos aqui. Mas se tem uma coisa que não podemos deixar de considerar é que a oportunidade para reformar e pavimentar o futuro nunca foi tão evidente.

 

Publicado no Terraço Econômico em 30/07/2020

B3 tirou a custódia do Tesouro Selic: o que muda para você?

Para além de todas as notícias que vão e vem do mundo da economia e política brasileira, uma bem positiva ocorreu na semana passada: a B3 decidiu tirar a taxa de custódia de 0,25%. O que isso muda para você como investidor?

Primeiramente é importante lembrar do nosso Guia sobre Tesouro Direto, que apresenta todas as informações necessárias para que você comece a ter esse tipo de investimento em sua carteira.

Mudou, mas não pra todo mundo

A taxa de custódia existe porque, no passado, a B3 tinha um custo para cuidar dos literais papéis que representavam a dívida pública. Embora hoje pareça um pouco antiquado, as dívidas pública e privada tinham literais comprovações físicas em papel que precisavam ter sua custódia realizada e, no caso, esse custo cobre isso.

A mudança sobre a taxa de custódia do Tesouro Direto se deu da seguinte maneira: para até R$10.000,00 investidos em Tesouro Selic, ela passará a ser zero e, para a diferença superior a isso, continuará sendo de 0,25% a. a. 

Com isso, que fique claro: apesar da notícia ser boa (já que beneficia 53% dos investidores do Tesouro Direto), poderia ser ainda melhor se abarcasse a todos, levando em conta todos os valores investidos (não apenas com limite de R$10.000,00) e todos os títulos (não somente o Tesouro Selic).

Em números, como fica a diferença?

Seguindo os dados atualizados para a data de publicação deste artigo, em que a Selic está em 2,25%, imaginemos três montantes investidos em Tesouro Selic: R$6.000,00, R$14.000,00 e R$22.000,00.

O primeiro montante, a partir de 01/08/2020, que é quando se inicia a mudança, deixará de ter incidência da taxa de custódia do B3. Portanto, incidirão sobre ele apenas o Imposto de Renda (decrescente conforme o tempo aplicado aumentar) e IOF (presente nos primeiros 30 dias).

Em relação ao segundo, a incidência da taxa de custódia ocorrerá apenas sobre a diferença entre o volume aplicado e R$10.000,00, ou seja: sobre o montante total estarão o Imposto de Renda decrescente e o IOF nos primeiros dias, mas sobre R$4.000,00 seguirão existindo os 0,25% anuais de taxa de custódia.

Tal qual o segundo, no terceiro caso teremos a mesma coisa: sobre a diferença entre o volume aplicado e R$10.000,00, o que neste caso representa o valor de R$12.000,00, teremos a taxa de custódia de 0,25% ao ano – e sobre o volume total aplicado teremos apenas o IR e o IOF.

Recomendamos novamente que você veja o Guia sobre Tesouro Direto para entender com maior precisão como funcionam essas taxas. E, afirmamos novamente: com a recente mudança, o que haverá de diferente será somente a taxa de custódia sobre valores no Tesouro Selic até R$10.000,00 – todos os outros apontamentos seguem verdadeiros.

O que isso muda para você?

Na prática, essa notícia é positiva para quem mantém total ou parcialmente sua Reserva de Emergência nos títulos do Tesouro Selic. Isso porque, com essa mudança, eles terão um custo menor e, consequentemente, um rendimento líquido maior.

Sempre válido lembrar que a reserva de emergência deve estar em recursos líquidos e de fácil acesso, priorizando mais isso do que necessariamente um retorno vigoroso, já que tais recursos, como bem diz o nome, devem estar ali para serem usados em emergências – e nessas situações não faz sentido que você tenha de acessar recursos não tão fáceis de transformar em dinheiro.

Fica a dica, B3!

Enquanto alguns dizem que “a renda fixa morreu”, fazemos aqui um apelo para um fato importante: a renda fixa segue tendo importância na carteira de todo investidor, basicamente porque ela fornece os mecanismos de amortecimento de impactos em períodos de forte volatilidade e, no fim das contas, acaba por reduzir assim o risco da carteira como um todo. Quando os mercados vão muito bem alguns se esquecem que correções podem ocorrer e, em termos de patrimônio, você pode se prejudicar se não tiver esse cuidado de manter parte dos seus investimentos em ambiente mais seguro.

Jamais saberemos se este artigo chegará a ser lido por alguém que possa tomar esse tipo de decisão na B3, mas, fica aí a dica: um meio muito interessante de atrair mais investidores no Tesouro Direto seria se livrar dessa taxa de custódia para sempre ou adaptar a uma nova realidade de juros.

Uma sugestão seria, tal qual ocorre com os rendimentos da poupança, que estão sujeitos a se alterarem conforme a Selic se reduz, colocar como condição que essa taxa deixe de existir em determinado patamar da taxa básica de juros e retorne em outro. Afinal de contas, uma coisa é ter 0,25% ao ano descontado de um investimento que esteja em dois dígitos (como tínhamos poucos anos atrás) e outra bem diferente é o ter num nível de juros reais (juros menos a inflação) próximos a zero.

Fica aí a sugestão para você que tem recursos em sua reserva de emergência nas proximidades deste nível: em tempos de Selic baixinha (e aproveitando a benesse até então apresentada), o Tesouro Selic volta a ser uma opção bastante viável.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 27/07/2020

Economia circular: por que importa? E onde nos levará?

Durante muitas décadas pós revolução industrial o capitalismo nos levou a crer que o ciclo de um produto seria basicamente a extração de seus insumos, a confecção ou industrialização, a venda e, ao final de sua vida útil, a transformação automática em lixo. É possível que o leitor esteja pensando: “mas não é exatamente isso que acontece até agora?”. Porém, essa realidade vem mudando.

E o motivo é economicamente justificável.

O que é economia circular?

Economia circular é aquela que leva em consideração a continuidade em ciclos dos processos de produção. Ou, de maneira mais direta, aquela que atribui valor ao que anteriormente era considerado resíduo, aproveitando-o no processo novamente ou mesmo criando novos ciclos que terão valor agregado suficiente para compensar justamente essa sua nova vida.

O conceito da economia circular vai muito além da mera questão ambiental. Fonte: gauchazh.

Parece um conceito distante e não relacionado a algo que você conheça mas, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria em estudo de 2019, 76% das empresas adotam iniciativas de economia circular, mesmo que 70% delas não tenha conhecimento do que isso significa. Medidas que vão nessa direção incluem a otimização de processos, o uso de insumos circulares (novamente inseridos no processo produtivo), a recuperação de recursos e a extensão da vida de produtos.

Efeitos práticos da economia circular

Esse tipo de iniciativa ocorre por basicamente dois motivos. Em primeiro lugar, a demanda por produtos que geravam resíduos aumentou nas últimas décadas em 150%; o “tirar leite de pedra” fez com que as indústrias tenham passado atualmente a extrair 40% a mais de eficiência das matérias primas. Em segundo lugar e, umbilicalmente ligado ao primeiro, há o interesse pela reutilização ou “esticamento” do uso de matérias primas basicamente porque, diferentemente do que se pensava anteriormente, elas têm valor agregado. Podemos observar também um terceiro motivo: há certa preferência por parte do consumidor de produtos que levem em conta uma redução de resíduos gerados.

Análises realizadas pela União Europeia indicam que a adoção de medidas que vão na direção da economia circular possam incrementar até 7% do PIB do bloco europeu até 2030, sendo que podem ser economizados cerca de US$700 bilhões de recursos por ano apenas com a economia de recursos em setores como o de alimentos, têxteis, bebidas e embalagens.

Os números são vultosos e mostram como esse caminhar faz diferença.

Empresas que colocam em prática a economia circular

Vimos até então o que é a economia circular e como ela se traduz em benefícios econômicos para as cadeias produtivas. Vamos agora então para empresas que colocam esse conceito em prática.

Nespresso: a marca conhecida por seu café em cápsulas para públicos selecionados coloca em prática a economia circular através de gestão do café, do alumínio das cápsulas e de práticas sustentáveis diversas. Tem distribuídos pelo país mais de 100 pontos de coleta para reciclagem das cápsulas e coloca em seu site institucional quais as práticas de sustentabilidade adota em suas cadeias produtivas – conjunto chamado pela empresa de The Positive Cup. Segundo a empresa, seus três pilares são café de qualidade sustentável, clima e meio ambiente e reciclagem das cápsulas.

HP: a gigante das impressoras e cartuchos de tinta disponibiliza nacionalmente mais de 400 pontos de coleta para seus produtos que seriam descartados após o fim da vida útil. Há inserção de 100% do plástico reciclado em seus produtos atualmente. O maior desafio da empresa neste aspecto não é ter uma infraestrutura preparada para receber esse material, mas recebê-lo de fato: apenas 8% dos consumidores fazem essa devolução e, ainda assim, isso significava, ao menos em 2018, 45 toneladas de cartuchos reciclados todos os meses.

Braskem: a empresa dedica um espaço especial em seu site institucional para as práticas que adota e as metas que busca alcançar nos próximos anos neste aspecto. Abrindo em oito metas (na imagem a seguir), a ideia é direcionar de maneira mais assertiva possível a gestão dos resíduos plásticos e de toda a sua cadeia, objetivando a reciclagem, reutilização ou recuperação de 100% de suas embalagens até 2040.

Fonte: Braskem.

Como meus investimentos se relacionam com isso?

Vimos aqui que a tendência da economia circular é, além de ambientalmente correta, economicamente viável. Além disso, vimos também que muitas empresas já utilizam práticas deste campo e provavelmente nem sabem disso.

A gestão de resíduos é cada vez mais um negócio. Empresas de maior porte como os casos aqui apresentados conseguem verticalizar a atuação na direção de colocar suas cadeias produtivas na direção da economia circular. Porém, essa não é a realidade de todas as empresas.

Paradoxalmente, temos aqui uma boa notícia, não má. As empresas que não conseguem lidar com seus resíduos podem acabar, no fim das contas, gerando novas empresas especializadas em transformar o uso daquele resíduo. Um exemplo dos tantos possíveis de serem apresentados é o de uma empresa de móveis feitos com um polímero à base de casca de arroz. A ideia original foi de dar destinação mais adequada a este item em uma região que gera quantidade considerável deste – o Sul do Brasil.

A dica para seus investimentos é: esteja atento com a gestão de resíduos. Muitos negócios surgirão nos próximos anos com foco no que antes era considerado meramente um descarte de processos industriais. E, certamente, estarão aí incontáveis oportunidades de investimentos na economia real.

 

Publicado no Terraço Econômico em 23/07/2020

Coleção Economistas: Nobel, o início de um projeto

Em 1968, para comemorar o seu 300º aniversário, Banco Nacional da Suécia criou o prêmio de Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel, que confere, anualmente, o prêmio de aproximadamente US$ 1 milhão para os vencedores. Popularmente conhecido como Prêmio Nobel de Economia, é o único dos prêmios (6 no total) que não foi criado pelo magnata sueco, mas, apesar disso, seu prestígio é indiscutível, tendo premiado economistas que tiveram grandes contribuições à evolução da ciência econômica.

O primeiro ano de premiação foi 1969 e, desde então, foi agraciado 51 vezes para 84 acadêmicos (podem ser premiados até 3 pesquisadores por edição). Na sua primeira edição, o prêmio ficou com a dupla de economistas europeus Jan Tinbergen (Holanda) e Ragnar Frisch (Noruega), que levaram o mérito pela contribuição na área dos modelos macroeconômicos.

Ao longo dos anos, foram premiadas pesquisas das mais variadas áreas e temas, moldando o modo de pensar e de pesquisar da profissão. Esse impacto ocorre anos antes da premiação (por vezes décadas), com a comunidade acadêmica digerindo e questionando as contribuições, sendo o Nobel a joia da coroa de tal processo.

Na edição mais recente até a abertura deste projeto, de 2019, o prêmio ficou com um trio de economistas: Abhijit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer, que levaram o prêmio por seus trabalhos de abordagem experimental para ajudar no combate à pobreza global. Vale notar ainda que Esther Duflo, além de ser a segunda mulher agraciada com o Nobel de Economia, foi a mais nova a ganhar o prêmio na história do Nobel em Economia (46 anos).

Dada a importância do prêmio, estudar a pesquisa dos laureados passou a ser excelente forma de acompanhar a evolução da ciência econômica. Pensando nisso, e aproveitando o crescente interesse que a economia vem despertando na sociedade em geral, apresentamos o projeto Coleção Economistas: Nobel, que estamos lançando agora com muita satisfação aqui no site do Terraço Econômico.

O objetivo principal do projeto é fortalecer a disseminação de conhecimento da nossa tão amada Economia e o meio que encontramos para fazer isso foi através da divulgação das ideias dos premiados a cada ano. Buscamos alcançar um público amplo, que inclui desde estudantes, jornalistas até os próprios economistas, difundindo a importância e despertando o interesse para a pesquisa vencedora e para o premiado.

Para fazer isso, aproveitamos o processo de fortalecimento da comunidade de economistas nas redes sociais, observada nos últimos anos. Professores, estudantes e demais profissionais estão cada vez mais em contato, compartilhando conhecimento. Por isso, convidamos economistas em diferentes estágios da carreira para fazer a colaboração.

Desde promissores estudantes de graduação, passando por talentosos mestrandos e doutorandos, até chegar a profissionais da mais alta qualidade, seja na academia ou fora dela, teremos aqui nesta coluna contribuições das mais diversas, o que enriquece o trabalho e reforça o laço entre economistas do país. Isso é particularmente importante no momento atual, onde precisaremos cada vez mais buscar convergências para que o país implemente reformas e políticas públicas bem desenhadas com o objetivo de finalmente alcançarmos o desenvolvimento que nos permita não ter mais décadas perdidas, mas sim décadas de crescimento econômico, redução da pobreza e desigualdades e melhoria das oportunidades para a população brasileira.

Vamos, portanto, ao que interessa: os textos começarão a ser publicados no dia 21/07, na ordem cronológica, sendo que todas as publicações ocorrerão nas terças e quintas. Haverá algumas surpresas ao longo do caminho e temos certeza de que os leitores irão apreciar. Agradecemos imensamente aos colaboradores, que investiram seu tempo para entregar textos excepcionais, e ao apoio fundamental do Terraço Econômico. Espero que gostem!

Organizadores: Guilherme Tinoco, Caio Augusto, Arthur Lula, Lucas Iten, Gabriel Brasil e Cláudio Lucinda

 

Publicado no Terraço Econômico em 15/07/2020

O fantasma do desenvolvimentismo está sempre por perto

Não será novidade alguma para o leitor desta coluna o fato de que estamos em um ano extraordinário. Como já defendido aqui, os desembolsos adicionais por parte do governo visando a superar esse período da maneira menos danosa possível são mesmo necessários, além de ser a praxe que tem sido realizada em todo o mundo. Porém, por aqui, temos motivos para sempre ficarmos de olhos bem abertos diante de ideias mirabolantes.

O ano era 2008. O mundo encarava a pior crise que o capitalismo já havia visto desde 1929. Iniciada no mercado imobiliário dos EUA e derrubando diversas economias ao longo do mundo, por aqui foi chamada de “marolinha”. O segredo foi uma inversão da política econômica mais centrada no controle de gastos e de crédito que havia sendo feito nos últimos anos em troca de outra mais expansiva. Funcionou, aliviou e ainda crescemos 7,5% em 2010.

Porém, criou uma ilusão: se o Estado gastar mais, não tem como pararmos de crescer, então o segredo seria simplesmente gastar cada vez mais. Por mais que não exista moto-perpétuo – e mesmo já tendo visto que isso não funciona, por exemplo, na década de 1980 -, a ideia foi seguida fielmente até 2014. Saímos, nestes poucos anos, de um endividamento de cerca de 50% para a faixa de 70%, sem que se notassem resultados para a economia em termos de produtividade. Em palavras mais diretas: gastamos muito e mal.

Voltemos para 2020. Sétimo ano seguido em déficit fiscal (antes mesmo de termos o coronavírus por aqui já era o que se previa). Uma situação que já não era confortável ficou ainda mais: a dívida pública que estava nas proximidades de 75% do PIB terá um incremento que, segundo cálculos mais agressivos, nos fará encostar em 100% do PIB. Olhando pra mudança em 2008, veremos que se isso acontecer teremos dobrado nossa dívida pública em pouco mais de uma década. Reformas se colocam como ainda mais necessárias.

Diante de uma questão tão evidente como essa, o ajuste das contas públicas, o que estaria em nosso caminho? A mudança na Secretaria do Tesouro e a tentação do Plano Pró Brasil.

O primeiro item é a saída de Mansueto Almeida, conhecido por sua habilidade não só com o lado fiscal como também com o lidar político de questões e entrada de Bruno Funchal – Ex-Secretário da Fazenda do Espírito Santo que ajudou a colocar o estado em melhor situação fiscal do Brasil. O nome que entra é extremamente qualificado, mas não podemos descartar que possamos ver uma repetição de Joaquim Levy no segundo mandato de Dilma Rousseff (muita capacidade, mas pouca possibilidade de execução).

O motivo disso é o segundo item. Plano Pró Brasil é uma ideia apenas em esboço que lembra os programas malfadados de expansão do Estado que vimos aflorar entre 2008 e 2014. Mas será que cairíamos no mesmo erro novamente? Basta ver o apetite do governo por “recuperar a economia em V”.

Em se tratando do nosso país, o populismo fiscal e o desenvolvimentismo estão sempre por perto. Sigamos atentos ao que pode ser o repetir de um erro enorme que nos levaria a um colapso absoluto das contas públicas – este que não só essa geração como também as próximas passariam a arcar.

 

Publicado na edição de Julho de 2020 da Revista da ACIF Franca (Página 38)

E a recuperação econômica?

Tendo como principal assunto o coronavírus em 2020, após termos entrado na segunda metade do ano cresce a pergunta: já é possível visualizar como será a recuperação econômica pós pandemia? A resposta ainda é inconclusiva, mas alguns dados recentes podem ajudar nessa tentativa de compreendermos o que vem pela frente.

O primeiro trimestre: ponta do iceberg

Tendo em vista que o coronavírus chegou ao Brasil com certo “atraso” em relação ao resto do mundo – o primeiro caso confirmado por aqui foi em 26 de fevereiro – e que nossas “medidas de isolamento” começaram também de maneira antecipada (em meados de março), imaginávamos que o primeiro trimestre sofreria menos com a desaceleração e que os impactos seriam sentidos mais fortemente apenas no segundo. Porém, a realidade infelizmente surpreendeu em termos negativos: queda de 1,5% já no primeiro trimestre.

Diferentemente dos Estados Unidos em que temos os chamados “dados de alta frequência” (com divulgações semanais e no máximo mensais), por aqui acabamos tendo de visualizar os dados com maior acurácia apenas em uma base mais mensal e, ainda assim, com certo distanciamento. Ainda assim, dois dados recentemente divulgados para o Brasil – a Pesquisa Mensal do Comércio e a Pesquisa Mensal de Serviços, do IBGE, ambos de maio – nos ajudam a visualizar alguns pontos iniciais.

Pesquisa Mensal do Comércio: recuperação em V?

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) surpreendeu até os mais otimistas. A média de expectativas aguardava um crescimento no volume de vendas no comércio varejista de cerca de 6% e, no fim das contas, o resultado observado foi de 13% para o mês de maio.

Para além desse dado otimista, precisamos observar três aspectos bastante importantes.

Consumo reprimido

O que inicialmente era apenas um consumo desenfreado de álcool gel, papel higiênico e itens essenciais alimentícios mudou em maio. Houve reversões consideráveis nos itens de tecidos e vestuário, assim como também subiram razoavelmente o consumo de móveis, de eletrodomésticos e de materiais usados em escritório (devido ao home office).

E-commerce

Está subindo bem. Levando em consideração que as lojas estavam fechadas, as pessoas aumentaram sua base de consumo diretamente pelos meios eletrônicos e, na prática, o varejo acabou se beneficiando por essa praticidade de pedir em casa. Isso sem falar na união dessa praticidade com a utilidade de muitos que tiveram que se adaptar para trabalhar diretamente de suas casas.

Auxílio emergencial

O impacto do também chamado Coronavoucher é direto sobre a renda. Na média, ele empurra para cima a massa salarial – que é a renda disponível das pessoas, não importando se estão formalizadas ou não – em cerca de 7% no país, o que é ainda mais pronunciado nos estados do Nordeste, onde a participação superará 16%. Em termos bem diretos: esse dinheiro está não só chegando na ponta como virando consumo de maneira bastante rápida.

Levando em conta estes três aspectos, é salutar que aguardemos os próximos dois meses pelo menos para verificar a sustentação dessa alta.

Pesquisa Mensal dos Serviços: longo caminho adiante

Pelo lado da Pesquisa Mensal dos Serviços (PMS) a realidade já é diferente: em maio, ante abril, a redução do índice de volume de serviços foi de 0,9%. A base desse indicador segue bastante depreciada: neste ano a queda está em 7,6% e, em relação a maio de 2019, vemos uma redução de 19,5%.

Diferentemente do consumo do varejo, que pode ocorrer de maneiras diferentes como o e-commerce, os serviços têm uma dificuldade relacionada a sua execução: boa parte deles necessita de presença física e, ainda que muitos tenham se adaptado aos tempos atuais com alternativas remotas, esse dado mostra que ainda há um intervalo razoável para que possamos retornar aos níveis anteriores a pandemia.

Então o que podemos esperar da recuperação?

Novamente, importante frisar: vale a pena aguardar as divulgações setoriais dos próximos meses até o final do ano.

Isso porque, na prática, precisaremos observar basicamente dois aspectos: até quando serão necessários os auxílios do governo (às empresas e famílias) e quando veremos um início consistente de recuperação, um atingir certeiro do fundo do poço – este que, se aparentemente já aconteceu para o mercado de renda variável em março, ainda não se pode confirmar de ter ocorrido agora.

Importante lembrarmos que, no fim das contas, toda essa recuperação estará condicionada ao descobrimento de um tratamento ou de uma vacina para a Covid-19. Na ausência dessa descoberta faz-se ainda necessária uma série de medidas de isolamento social, medidas essas que, necessariamente, acarretam em algum nível de restrição a economia.

É possível sim que entre junho e julho já tenhamos alcançado o fundo do poço da economia como um todo – com os efeitos negativos mais fortes concentrados no segundo trimestre. Mas, quanto a tal “recuperação em V” que vem sendo tão divulgada, é necessário cautela: aparentemente, se ela ocorrer em “U” já será motivo de comemoração, uma vez que em 2020, antes mesmo do coronavírus chegar, ainda estávamos nos recuperando do baque do biênio 2015-2016.

A recuperação econômica caminha e demanda atenção. Vejamos quais serão as cenas dos próximos capítulos. Ainda é cedo para cravar qualquer previsão mais certeira, pois para uma análise dotada de maior profundidade vamos precisar observar a sustentabilidade dos dados nos próximos meses.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 13/07/2020

Inside Job e The Big Short: entendendo a crise de 2008

Em tempos de quarentena – ou pelo menos de quem ainda está nela, ainda que parcialmente -, boas indicações de filmes ajudam com os longos finais de semana. Imagina se você, além de ver um bom filme, ainda puder aprender um pouco mais sobre economia?

Inside Job, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em 2011, vai a fundo no cerne da questão: o que aconteceu para o mundo chegar ao cenário de implosão que observamos em 2008? E, para além disso: seria possível ter sido evitada essa tragédia?

The Big Short, de 2015, apresenta a mesma questão, mas pela visão de alguns personagens que não só viram o que estava para acontecer como jogaram contra o mercado e tiveram resultados bastante rentáveis com suas apostas.

O que esses dois filmes têm de diferente? A profundidade e o grau técnico com o qual abordam a crise de 2008.

E o que tem em comum? São dois excelentes modos de você, caso tenha a curiosidade e ainda não saiba, entender com detalhes o que de fato se passou em 2008.

Mas afinal, o que aconteceu em 2008?

documentário, como todo filme deste tipo, além de apresentar um arcabouço técnico sólido a respeito dos instrumentos financeiros que “lastrearam” todo o castelo de cartas que desabou em 2008, fala também com quem esteve lá nos Bancos Centrais, centros de pesquisa e até no FMI quando tudo aconteceu.

Mesmo a um olhar mais atento – de alguém que entende do assunto -, algumas pausas são necessárias para a melhor compreensão do documentário. Um exemplo disso é a cena que explica o que é um CDO: ainda que seja um desenho que mostre passo a passo do que era esse instrumento financeiro, não é difícil que se tenha de parar pra pensar sobre como ele funcionava (e, convenhamos, talvez tenha sido essa mesma a intenção de quem o criou, não ser entendido).

Já o filme, com uma mistura de momentos de bastante seriedade e tensão – como a cena de uma palestra entre um grande investidor e um dos personagens que apostou contra o mercado imobiliário em que o mercado está implodindo literalmente enquanto eles falam – e outros que parecem um filme do Scorsese – com Selena Gomez e o Nobel de Economia Richard Thaler explicando um dos termos que encaminham o instrumento financeiro CDO – acaba por mostrar para o telespectador que, no fim das contas, a questão ficou dentro do espectro técnico por muito tempo mas acabou impactando a todos de certa maneira, mesmo aos que sequer tinham algum conhecimento da questão.

Uma proximidade entre o documentário e o filme também está no fato de que marcas não são poupadas. No filme, por exemplo, há uma cena em que os nomes dos bancos que receberam as apostas contra o mercado imobiliário aparecem claramente. No documentário esses nomes também ficam visíveis diversas vezes.

Importante notar que tanto em um quanto no outro, você verá que a grande origem do que se passou em 2008 foi um mascarar de títulos lastreados no mercado imobiliário que eram vendidos como sendo de baixo risco mas contendo todos os segmentos possíveis de risco – o que, na prática, significava que o risco não era baixo como se apresentava. A diferença fica apenas no nível de detalhamento apresentado e na proximidade que cada um passa.

Como todo bom documentário, Inside Job apresenta ao espectador uma visão passiva das situações. Entrega o conteúdo com maestria, mas de forma bem técnica. Já em The Big Short, temos cenas inclusive de quebra da quarta parede, quando o personagem que narra a história se dirige a quem está assistindo não só para fazer observações como também para questionar a visão de quem vê sobre o que acabou de acontecer.

Isso coloca uma proximidade que mostra justamente o ponto de que “embora quisessem confundir o mundo com esse instrumento financeiro, ele tinha mais a ver com você do que você imagina”.

A indicação dessas duas obras se dá porque o documentário é o meio mais técnico-didático que se tem para entender o que se passou em 2008 e o filme é mais provocador.

A ordem dos fatores importa!

Sendo possível indicar uma sequência, assista primeiro ao Inside Job e, tendo essa base teórica do que se passou, veja o The Big Short. A triste notícia é que esse tipo de estratégia utilizada em 2008 muda de nome mas segue sendo uma realidade até hoje no mundo financeiro. A boa notícia é que, sabendo disso, não só você não será tão facilmente enganado com alguns cenários econômicos como também não cairá no conto da carochinha ao analisar alguns investimentos.

Importante apontar que mesmo tendo direcionado algumas cenas dos dois, a experiência não foi arruinada, porque ambos são bacanas de se ver – apesar das notícias desoladoras que trazem sobre a realidade.

Boas sessões!

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 10/07/2020

Colecionismo: como ganhar dinheiro com itens procurados e exclusivos

Colecionismo é, de maneira bastante direta, o ato de procurar itens parecidos de um mesmo tipo/espécie e mantê-los consigo de maneira afetiva. Esse consumidor acaba por distinguir-se dos demais por ter uma verdadeira paixão por um determinado tipo de item e, geralmente, o uso dado aos itens é diferente do que suas funções originais indicariam. Essas coleções podem ser de diversos tipos: obras de arte, carros, edições comemorativas de brindes, antigos cartões telefônicos, moedas do mundo, entre tantos outros.

Em geral, esses emotional assets estão relacionados a pessoas de alta renda ou ao menos que podem ter renda suficiente para a manutenção de tais coleções, como veremos a seguir. Realmente trata-se de um mercado de amplas possibilidades. E ele pode ser explicado através de um conceito econômico chamado Função de Utilidade.

Dentro da economia o que se conhece por Função de Utilidade é a atribuição de valor a algo e, na prática, isso varia de pessoa para pessoa – ou, no economês, cada pessoa tem sua própria. De maneira direta, esse conceito mostra que, levando em conta pessoas que têm a mesma quantia de dinheiro, seu consumo provavelmente irá variar de acordo com marcas diferentes porque as preferências podem ser diferentes.

Unindo os conceitos de colecionismo e função de utilidade, temos que o colecionador é aquele indivíduo cuja função de utilidade atribui valor maior a itens específicos geralmente fora de seu meio comum de utilização.

Vamos a alguns exemplos para que fique mais claro ao leitor que eventualmente não tenha ainda compreendido a relação entre as duas coisas.

Ô LOCO, MEU!

Um dos maiores colecionadores de relógios do país é o apresentador Fausto Silva. Em sua coleção estão peças que vão de alguns milhares até mesmo milhões de reais. O cuidado é tamanho que, além de ter em sua residência um cômodo específico para guardar sua coleção, mantém um funcionário apenas para essa manutenção – também, pudera: peças que custam em média R$100 mil e chegam a superar R$1 milhão demandam cuidado. Mais recentemente, apresentando de seu apartamento o Domingão do Faustão, descobrimos também que ele é colecionador de carros em miniatura, tendo mais de 1.500 unidades.

Apresentador Fausto Silva, com sua coleção de relógios de luxo em prateleira ao lado. Foto: Observatório da Tv – UOL.

Em reportagem de 2016 conhecemos quatro dos maiores colecionadores de carros do país. Entre Mercedes Benz, Porsches e raridades como a única unidade do mundo do Moon 6-45 Piton 1918 (cuja montadora fechou em 1930). Um dado interessante também encontrado nessa reportagem: segundo a consultoria Hagerty, enquanto entre 2006 e 2014 a bolsa praticamente andou de lado e o ouro se valorizou em 100%, o mercado de carros antigos registrou alta de 250%. Por aqui o leitor já consegue compreender que, além de ser um hobby o colecionismo também pode ser bastante lucrativo.

Obras de arte também formam um mercado movimentado. Recente entrevista com uma consultora de Art Advisory & Finance de um grande banco, podemos observar como algo que é estritamente dependente da função de utilidade de cada um – e não apenas da mera escassez – é passível de virar investimento. É destacado nessa entrevista que, para além do desejo de colecionar e dos vultosos recursos envolvidos, é preciso que a pessoa tenha certo amor pela arte que justifique as aquisições.

Uma das bebidas mais nobres do mundo também está entre os itens de colecionadores: uma edição especial do whisky The Macallan já foi arrematada por mais de R$5 milhões de reais e tiragens limitadas fazem com que milionários mundo afora paguem verdadeiras fortunas por rótulos da marca. Aliás, em 2019, dentro do mercado de luxo, foi justamente essa bebida a que mais se valorizou: cerca de 40%, de acordo com o Knight Frank Rare Whisky 100 Index.

Vejamos que em todos estes casos existe a aficção por itens que não necessariamente serão utilizados em sua função principal e se acumulam de maneiras diferentes sob a posse das pessoas. Fausto Silva guarda seus relógios, mas não consulta as horas em todos eles ao mesmo tempo, nem “brinca” com os carrinhos em miniatura; os colecionadores de carros os mantém bem cuidados em suas garagens, não necessariamente “dando uma voltinha” com cada um deles o tempo todo; os donos das obras de arte mais seletas do mundo não necessariamente abrem suas mansões para que o mundo possa vê-las; também é muito improvável que os donos dos whiskies mais caros do planeta façam o consumo da sua coleção em festas de família a cada fim de semana.

Qual é o tamanho do mercado de colecionismo no mundo?

Mas, para além das paixões despertadas pelo colecionismo, também existem os mercados envolvidos, o aferir de lucros que se consegue fazer sobre as transações de itens específicos que movem tais paixões.

Em nosso país temos um fundo focado em artes plásticas, chamado Brazil Golden Art. A ideia do fundo é ter participações diferentes tanto de obras de artes de artistas renomados quanto aqueles que apresentam potencial de valorização ao longo do tempo. De maneira bem direta, como todo fundo de investimento ou instrumento financeiro, objetiva no longo prazo ter retornos positivos através das transações relacionadas neste mercado.

O mercado de colecionismo no mundo é considerável: estima-se que esteja na casa dos US$370 bilhões. A distribuição é vasta, como se pode observar no gráfico a seguir:

Fonte: Tech Crunch.

Outro exemplo que temos no Brasil do mercado de colecionáveis – que inclusive é um dos itens de destaque do gráfico – é o de moedas: a startup O Numismata reúne os amantes desse tipo de coleção e faz o intermédio entre compradores e vendedores de moedas.

Segundo o que apresentam, o interesse por esse mercado de nicho sempre esteve presente em nosso país, mas aumentou após as Olimpíadas de 2016 e as moedas especiais lançadas em comemoração aos jogos. Ainda dentro do colecionismo de moedas temos também o Collectgram, marketplace específico para quem quer comprar e vender moedas.

De mero hobby a profissão, de paixão específica a mercado, é possível perceber com os diversos exemplos aqui apresentados como o colecionismo é um meio da economia real em que você pode não só transacionar itens como também fazer um bom dinheiro com eles. Seja por meio de fundos de investimento específicos ou mesmo pela aquisição e venda de coleções diretamente, temos que aquilo que no passado até poderia ser chamado de “acumulação sem sentido” hoje, em um mundo bastante conectado, pode ser na verdade um meio bastante rentável para aplicar seu dinheiro.

No mundo dos investimentos alternativos e ativos reais, o colecionismo pode começar a aparecer com mais frequência nas transações que envolvem esse mercado.

 

Publicado no Terraço Econômico em 08/07/2020

Novo marco do saneamento básico: o Brasil saindo do século XIX

Um número absolutamente alarmante para iniciar este artigo: cem milhões. Este é, aproximadamente, o número de pessoas hoje no Brasil que não tem acesso a tratamento de esgoto. Como resultado, doenças que atrasam a vida de crianças em fase escolar e adultos que já trabalham. Os números são impressionantes: em 2018, foram 15 mil vidas perdidas em decorrência de “saneamento ambiental inadequado” no Brasil, com 346 mil internações, sendo que uma parte não desprezível dos atingidos é de crianças e jovens. Dessa forma, qualidade de vida e produtividade são diretamente afetadas.

A aprovação do Novo Marco do Saneamento Básico ocorreu no Senado com uma votação realmente expressiva: 65 votos favoráveis e apenas 13 contrários. Agora seguirá para a sanção presidencial, o que deve ocorrer em breve. A partir da aprovação deste novo marco do saneamento básico no Brasil podemos observar que um serviço antes não acessível a praticamente metade da população brasileira passará a estar acessível nos próximos anos.

O que é o novo marco do saneamento?

Os três pontos mais essenciais deste novo marco são os seguintes:
(i) a necessidade de licitação e competição entre empresas (essas que podem ser as que já exercem o serviço atualmente ou novas empresas de origem privada);
(ii) o direcionamento em formato de metas para universalização dos serviços e;

(iii) regulação mais direta do setor por parte da Agência Nacional de Águas (ANA).

A diferença que isso pode fazer para o provimento dos serviços é a seguinte: a partir de agora, ao contrário da situação atual que se encontrava em boa parte do país, haverá necessidade direta de se estabelecerem prazos e metas realísticas para que o serviço seja colocado em operação.

Tal mudança nos faz lembrar o que ocorreu no final dos anos 90 com a privatização das telecomunicações. Naquele momento o país não possuía sequer 20 milhões de linhas de telefonia fixa. Por mais que o desenho regulatório tenha permitido uma concentração razoavelmente forte neste setor, hoje temos mais de uma linha móvel por habitante no país – o que mostra como, de fato, o serviço foi universalizado.

E as críticas?

Existe uma crítica sobre o atual movimento de que se trataria de uma privatização de um item tão essencial para as pessoas quanto a água. Porém, o que deve ser observado, é que não se trata de uma privatização do recurso em si, mas sim da possibilidade de execução do serviços envolvidos em saneamento básico por empresas privadas (lembrando que não necessariamente serviços serão realizados por essas empresas, dado que deverá ser resolvido este assunto após licitação em cada um dos municípios).

Outro aspecto que deve ser levado em consideração é que o Estado passará a entrar em definitivo como regulador da atuação, função essa que hoje não é tão diretamente executada – ou mesmo não gera sanções a quem não cumpre metas, mesmo quando elas eventualmente existirem. Mais uma vez é importante frisar que isso não significa que a gestão necessariamente ocorrerá por meio de empresas privadas (pode ser que ocorra pelas próprias empresas já existentes), mas sim que haverá um direcionamento mais rigoroso em relação a universalização do serviço e, na prática, sanção a quem não cumprir com suas metas.

O motivo do título deste artigo é bastante simples: com a possibilidade real de universalização dos serviços de saneamento básico nos próximos anos, sairemos de uma situação lastimável para outra que pode, enfim, nos trazer ao atual século em termos de saúde. Afinal, muitas doenças que hoje combatemos em um verdadeiro enxugar de gelo terão sua presença fortemente reduzida com essa mudança.

No Brasil de 2020, a dificuldade de se superar a maior pandemia em cem anos pode ser aliviada em partes por termos um sistema de saúde que abrace a todos, mas certamente por nossa situação em relação ao saneamento básico é mais complicada. É como se um problema urgente (a pandemia do coronavírus) viesse se sobrepor a um outro urgente e importante (a necessidade de aumentarmos o acesso a saneamento básico no país).

Hoje é mais fácil encontrar alguém com acesso a 4G do que com acesso a água encanada e esgoto tratado em nosso país. A mudança desse cenário não é instantânea, mas certamente terá como primeiro passo essa aprovação deste ano. Afinal, coleta de esgoto e água tratada são condições BÁSICAS para o cidadão do século XXI.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 29/06/2020