A resposta dos Bancos Centrais à crise da COVID-19

Ao longo dos anos, nosso conhecimento sobre crises econômicas e financeiras vai sendo construído a partir de filmes, artigos e leituras em geral que fazemos sobre diversos episódios que ocorreram na história. Crise asiática, quebra da bolsa de Nova Iorque, crise do petróleo, empréstimos subprimes e mercado imobiliário, crise da dívida soberana europeia. A lista é longa, e o processo de recuperação da economia foi distinto em cada um dos episódios mencionados.

Apesar de mudanças na forma como essas crises começaram, os dias seguintes são bem conhecidos: redução no consumo, fechamento de empresas, demissões, diminuição do poder aquisitivo, aumento do desemprego, queda da confiança dos agentes (produtores e consumidores).

Contudo, vale a pena mencionar que as crises anteriores foram resultado de imperfeições inerentes à economia, como os contratos muito arriscados do subprime, elevação sem transparência das dívidas soberanas de nações européias, aumento repentino na produção de petróleo com manutenção da demanda, etc.

Agora, estamos no olho do furacão de uma nova crise, provocado por uma fator externo à economia: o surgimento de um vírus. Diferente dos outros casos, a economia não desacelerou a partir de um fato; na realidade, a “roda da economia” simplesmente PAROU por alguns meses, devido ao chamado shutdown realizado em todos os continentes. Após esse período, a produção voltou a se “normalizar”, embora em uma velocidade inferior ao momento anterior ao surgimento do vírus.

Até aqui, o que estou contando é que aparentemente o mercado foi capaz de absorver o primeiro impacto e aos poucos retomou a produção e consumo. Isso não é a verdade dos fatos.

Ficou faltando falar sobre um personagem que conseguiu acalmar os ânimos dos agentes por meio da injeção de liquidez e compras de títulos públicos e privados nos mercados financeiros.

Quê? Se você não entendeu, fique tranquilo! Deixando o “economês” de lado, vou te explicar o que significa essa intervenção e o papel dos Bancos Centrais na redução da incerteza nesse período de crise!

A resposta dos Bancos Centrais 

Em momentos de forte turbulência como o vivido atualmente, os Bancos Centrais se fazem presentes basicamente através da injeção de liquidez na economia objetivando que o sistema siga respirando apesar da paralisia que o cerca. Essa injeção de recursos acontece de maneira a comprar títulos que estejam circulando e, desta forma, assumindo os riscos deles. Em momento de crise, como o atual, os compradores “somem”, fazendo com o que os preços desabem. Por isso, a intervenção dos BCs tem o objetivo de suavizar essas oscilações de mercado.

A resposta, dessa vez, é bem mais rápida e vultosa do que em 2008. O motivo é razoavelmente simples: enquanto naquela época o ponto era recuperar a parte financeira da economia que tinha observado uma quase quebra com origens no mercado imobiliário dos EUA, dessa vez a economia como um todo – em aspectos financeiros e reais, no mundo inteiro – observou uma rígida paralisia. A necessidade de respostas hoje é, de fato, superior.

Elaboração do gráfico: Bloomberg.

Esse injetar de liquidez acaba resultando em uma externalidade que pode vir a beneficiar o Brasil: tendo em vista que os recursos disponíveis para manutenção do sistema circulando lá fora se dão presentes, os países desenvolvidos começam a olhar para locais mais arriscados para se investir e, nessa conta, entram os emergentes. É possível que uma onda de recursos não observada em muitos anos seja direcionado para cá.

Cuidado: liquidez que não realiza vira ilusão

Desde a crise de 2008 até a atual grande crise que vivemos, um perigo que está sempre a solta é o da dependência de estímulos de bancos centrais para que as economias sigam basicamente se desenvolvendo. Um forte indício dessa dependência é o fato de que bancos centrais como o dos EUA, do Japão e da Europa basicamente viram seus balanços aumentarem ano a ano desde 2008 juntamente da recuperação econômica e, no atual momento, o que vemos é uma tendência ainda maior do tamanho desses balanços para cima.

De um lado podemos sempre observar que injeções de liquidez dão um alento maior à economia para períodos complicados. Por outro, é possível observar também um descolamento entre os fundamentos das empresas e o porquê de estarem se valorizando tanto. Explica-se: o que faz com que empresas se valorizem de verdade é quando elas apresentam receitas maiores dados os custos e despesas (e, no fim do dia, lucros maiores também).

Uma amostra do que essa inconsistência significa está por exemplo no caso da Hertz. A empresa abriu processo de falência recentemente e, logo em seguida, buscou US$1 bilhão no mercado de ações – e conseguiu. Pensemos com clareza: qual o sentido de uma empresa falida levantar capitais nesta magnitude? A única explicação possível é a miopia da liquidez exacerbada que temos no presente momento.

E como fugir dessa miopia?

Temos dois caminhos para aproveitar essa liquidez gigantesca que os Bancos Centrais estão promovendo nas economias mundo afora. Um tem maior possibilidade no curto prazo e outro tem foco em prazos alongados.

A primeira possibilidade é surfar a onda da valorização da renda variável. No curto prazo, de fato essa liquidez inundará fortemente os mercados e será responsável por uma valorização sem precedentes. Inclusive, é importante notar que mesmo março de 2020 tendo sido um dos piores meses da história para a renda variável no Brasil, a recuperação já observada a partir de abril e as positivas perspectivas de recuperação que seguem são razoáveis. Porém, como já dito, o efeito do descolamento entre os ativos financeiros e a economia real pode resultar mais adiante em quebras de empresas – evidenciando que os ganhos nesta estratégia tendem a ser de curto prazo.

O segundo ponto seria aproveitar essa liquidez para focar em ativos da economia real. Dado que aplicações de baixo risco agora passam a ter retornos bastante baixos, diversos projetos de investimentos em ativos reais passam a ser mais atrativos do que antes. Os investimentos da economia real têm prazo de maturação bem mais longo do que a compra de ações no mercado de renda variável mas, no final do dia, apresentam uma consistência maior ao longo do tempo.

Fique de olho nos ativos reais!

O momento em que vivemos suscita muitas emoções, mas, a regra fundamental para geração e multiplicação de patrimônio ao longo do tempo é o pensar sobre fundamentos do investimento realizado com parcimônia e lógica. Qual o sentido de abraçar grandes ganhos de curto prazo que não devem se sustentar ao longo de décadas?

A janela de oportunidades que se abre para os ativos reais é, por mais paradoxal que pareça neste momento, ainda mais interessante do que a existente para os ativos financeiros. Tudo isso em função, justamente, da resposta firme que os Bancos Centrais dão ao redor do mundo neste exato momento.

 

Publicado no Terraço Econômico em 24/06/2020

Selic em 2,25%: Tesouro Selic ou Poupança?

No final do ano passado você viu aqui um artigo que tratava das funções da Poupança com a Selic em 4,5%, o dobro do patamar em que se encontra atualmente. Naquele momento, em que a queda foi de 50 bps e se chegava a 4,5% ao ano, a recomendação era de manter nessa aplicação apenas os recursos destinados ao consumo nas proximidades, dado que o rendimento era baixo demais para compensar a manutenção desses recursos como meio de investimento.

E agora, com uma queda de 75 bps e a taxa em 2,25%, qual seria a ideia? A resposta é menos intuitiva do que se imagina.

Em uma análise com a aplicação mais conhecida por ser a substituta ótima (com mesmo risco e maior rendimento) da Poupança, no Tesouro Selic vemos como a questão não é tão óbvia. Vejamos a partir de quatro aspectos: liquidez, acessibilidade, rendimentos e custos, chegando ao final até a um quinto item importante, que é qual vale a pena para cada situação.

Liquidez

 Tesouro Selic e Poupança estão par a par neste aspecto. Nos dois casos você pode retirar os recursos a qualquer momento. A diferença está na aplicação, que pode demorar um pouco mais no caso do título do Tesouro, enquanto a Poupança tem aplicação imediata.

Acessibilidade

Para alocar recursos na Poupança, basta ter uma conta em um banco, podendo este ser tradicional ou digital. Já para fazer aplicações no Tesouro Selic, ou em qualquer título do Tesouro Direto, é preciso ter conta em uma corretora. Neste item, se por um lado a Poupança é mais acessível, por outro é interessante pensar na gama de novas possibilidades de investimentos que se tornam possíveis a partir da abertura de uma conta em alguma corretora, como a Guide.

Rendimentos

A Poupança rende 70% da Taxa Selic + a Taxa Referencial (TR), o que atualmente significa que ela rende algo próximo de 1,5% ao ano. O Tesouro Selic tem como rendimento a Selic, que é, atualmente, 2,25% ao ano.

Custos

Na Poupança eles inexistem: tanto para aplicar quanto para sacar os recursos, não há custos. Já no Tesouro Direto temos pelo menos duas taxas: 0,25% da B3 (que tem a custódia dos títulos) e o Imposto de Renda, podendo ter também uma terceira que é a taxa cobrada pela corretora para que você compre títulos. Sobre o imposto de renda, funciona da seguinte maneira o desconto sobre o rendimento: 22,5% se você segurar o título até seis meses, 20% se o fizer entre seis meses e um ano, 17,5% se o fizer entre um ano e dois e 15% vendendo o título após dois anos de sua compra. Vale dizer que na Guide, a taxa é zero para esse tipo de investimento.

Mas e aí, qual delas vale mais a pena?

Neste momento entra o item não tão intuitivo mencionado no início deste artigo, que é uma comparação direta do resultado de cada um, levando em conta o rendimento menos os custos envolvidos.

Este resultado líquido, no caso da Poupança, é de 1,575%.

No caso do Tesouro Selic, ele depende do tempo que você vai segurar o título em carteira. Levando em conta o custo anual da B3 (de 0,25%) e o Imposto de Renda, isso considerando que a corretora tenha custo zero para manutenção de títulos do Tesouro Direto, temos que o rendimento anual é de 1,645%.

Provavelmente o leitor chegou até este ponto e pensou: “Mas então qual é a dúvida? Se o Tesouro Selic rende mais até em termos líquidos, por que não deixar lá?”. E aqui entram duas questões para te fazer pensar sobre: a inflação e o tempo que você deve deixar o dinheiro lá.

Inflação e tempo fazem diferença!

Para o ano de 2020, as estimativas de inflação ficam superiores a 1,6% e, para os próximos anos, superam os 2%. Levando em conta uma continuidade atual do patamar da Selic, neste ano ainda compensará manter o Tesouro Selic como mais vantajoso que a Poupança por este primeiro superar a inflação, mas a partir de 2021 nenhum dos dois superará – ou seja, manter os recursos de reserva de emergência em qualquer um deles significará perda de poder de compra.

Especificamente em termos desse rendimento líquido, embora em um ano o Tesouro Selic supere a Poupança, dentro deste ano os dois caminham consideravelmente juntos. Há uma leve superação apenas em seis meses, quando o Tesouro apresenta um rendimento líquido de 0,7939%, enquanto a Poupança apresenta um rendimento de 0,7844%. Então é virtualmente impossível dizer que existe tanta vantagem de um sobre o outro.

O que devo fazer?

Tal qual no artigo sobre a Poupança do final de 2019 – referenciado logo ao início deste texto -, a ideia é que se mantenham recursos nesta aplicação estritamente que forem utilizados no curtíssimo prazo (para pagar contas de rotina, por exemplo), dado que agora será literalmente pior, pelo Imposto de Renda envolvido, fazer transações com o Tesouro Selic durante um intervalo menor a seis meses.

Quanto aos períodos superiores a seis meses segue a recomendação de manter sua reserva de emergência no Tesouro Selic. Porém, com o fato de que a inflação a partir de 2021 supera tanto este quanto a Poupança em rendimento, o mais prudente é aproveitar a conta aberta na corretora para procurar melhores oportunidades com risco baixo para alocar sua reserva de emergência.

No fim das contas, tenha em mente algo fundamental: mesmo levando em conta que os juros ao longo do tempo apontam para uma subida da Selic nos próximos anos, aparentemente a era de renda fixa tranquila e recompensadora parece ter acabado no Brasil.

Em termos de tempo, os próximos seis meses serão importantes para que você pense mais adequadamente sobre onde manterá seus recursos de reserva de emergência. Pois, como bem apresentado aqui, a partir de 2021 – a depender do atual nível da Selic -, tanto Poupança quanto Tesouro Selic representarão perda de poder de compra.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 22/06/2020

Previsões para 2020: Feliz 2021

Desde que tivemos a entrada em cena da pandemia do coronavírus já se tinha em mente que a economia mundial sofreria um baque grande. O quanto, no fim das contas, ainda não temos como prever com tanta acurácia basicamente porque a informação mais importante – que é quando entraremos no chamado novo normal em definitivo – ainda não temos. Mas, para além de estimativas sobre recuperações alfabéticas (em V, em W, em L e afins), temos algumas expectativas já sendo calculadas.

Na semana anterior, uma delas saiu, a do Banco Mundial. O que se encontra no prospecto para o crescimento esperado, não só faz com que pensemos que este ano está perdido, como também façamos o desejo pela chegada o mais breve possível de 2021. Ao redor do planeta o tombo esperado é de 5,2% e, especificamente aqui no Brasil, de 8%.

Para se ter uma ideia do que esses 8% de queda esperada para o Brasil significam, o biênio 2015-2016, que teve a pior queda registrada na economia brasileira, ficou em aproximadamente 7%. Dessa vez, pelo que se prevê por enquanto, teremos um recorde negativo de queda – e, dessa vez, em um único ano.

Algo que não podemos deixar de lembrar é que, antes mesmo do coronavírus ser uma realidade, já caminhávamos para a recuperação mais lenta de nossa história. O baque de 2015-2016 seria superado apenas em 2022; só nessa altura retomaríamos o mesmo nível de Produto (PIB), que foi o de 2014. No momento, a situação é ainda mais dramática: pode ser que recuperemos o atual nível de PIB somente após o final de 2022 e, quanto ao maior que já tivemos, somente mais alguns anos após isso.

A recessão

Outro aspecto que chama a atenção para o atual quadro recessivo é que ele é o mais amplo desde a crise de 1929: segundo também este relatório do Banco Mundial, 90% das economias sofrerão com essa retração, o que é superior aos 85% que representou o impacto no crash que finalizou a década de 1920.

Para além de efeitos observáveis, como destruição de riqueza que tanto puderam ser observados (apesar dos rallies mais recentes nas bolsas mundiais), um ponto que preocupa é o aumento da situação de pessoas em pobreza extrema. Em momentos como esse, de uma forte retração, milhões de pessoas que haviam saído dessa situação retornam à ela.

Este ponto do parágrafo anterior deve ser levado em consideração justamente pelo fato de que acaba por antecipar um movimento que, sem a Covid-19, seria discutido mais amplamente na economia global apenas daqui mais alguns anos: a automação e a dificuldade de recolocação no mercado de trabalho que nos faria pensar com mais seriedade em programas com o de renda mínima, por exemplo, e avaliarmos a permanência dessa política pública.

Diante das atuais circunstâncias, muitos países estão colocando em prática esse tipo de ideia como uma maneira emergencial de permitir que muitas pessoas não fiquem totalmente desamparadas em meio à essa imensa crise. Porém, algo a se pensar, é se com a brusca redução sobre a renda mundialmente que vivemos agora não haverá de fato uma demanda pela colocação na mesa de programas assim já na atual situação como permanentes.

Um conjunto imenso de ideias que entrariam no foco da discussão nos próximos anos acaba por se destacar nesse momento extraordinário em que vivemos. Fato é que devemos experimentar agora a maior e mais rápida queda de renda ao redor do planeta dos últimos tempos e, não será surpreendente se ocorrer, talvez a maior queda de toda a história.

Nosso curto prazismo diante de momentos complicados talvez nos faça esquecer que estamos somente no meio de 2020 (e que, na prática, tivemos apenas seis meses em uma situação tão tensa quanto essa). Porém, mesmo que nos próximos anos nos questionemos sobre como talvez tenhamos exagerado nas previsões nesse exato momento, a ideia agora é de que se o tempo corresse mais rápido talvez teríamos mais respostas e possibilidades.

Ao apagar das luzes em 2020 será raro encontrar quem, diante de tudo que passamos neste ano – e olha que sequer completamos a metade dele -, diga que “o ano passou voando”. A quantidade de paradigmas quebrados e a dificuldade para se recuperar o baque deste ano ficará para sempre em nossa história.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 15/06/2020

Flexibilidade no mercado de trabalho importa

Ao final do mês anterior tivemos a divulgação do CAGED de abril deste ano e, através destes dados do saldo entre empregos criados e desfeitos, vimos que o Brasil perdeu apenas em um mês 860 mil postos de trabalho com carteira assinada. Nesta mesma coluna você viu, logo em seguida, uma breve análise que tratava de como apesar deste número ser bastante negativo, em termos práticos, ele ser menos danoso do que poderia em virtude de dois programas governamentais criados para que as empresas possam superar a crise sem um aumento relevante do desemprego.

Na semana anterior, um dado também sobre o mercado de trabalho – mas desta vez do norte-americano – chamou a atenção: embora aguardando um aumento no desemprego em cerca de oito milhões de vagas, na verdade o que aconteceu foi a geração de 2,5 milhões delas. O número surpreendeu a todos e acabou gerando um impulso nos mercados globais tendo em vista que uma recuperação mais rápida do que o esperado estaria por acontecer, pelo menos no mercado americano..

Antes de apresentar a ideia deste artigo sobre o que significam esses dados (do abril brasileiro e do maio norte-americano), duas ressalvas específicas sobre o que foi divulgado na semana passada: em primeiro lugar, esse dado é de curto prazo e não necessariamente reflete que toda a recuperação já possa ser precificada, uma vez que, ainda que se trate de um bom sinal no curto prazo, é importante frisar que a informação mais relevante para precificação dos ativos agora, que é “até quando vai essa desaceleração e como entraremos no novo normal” ainda é desconhecida. Em segundo lugar, um aspecto técnico da medição dos dados pode significar que, na verdade, que o desemprego por lá é maior do que diz esse último relatório, já que algumas milhões de pessoas podem ter sido incorretamente categorizadas como não-desempregadas.

O que significa este desemprego?

Ressalvas feitas, vamos ao ponto principal: o que o desemprego de 860 mil pessoas no abril brasileiro e a geração de 2,5 milhões de vagas no maio norte-americano têm a nos apresentar? Que a flexibilidade no mercado de trabalho importa. Por flexibilidade no mercado de trabalho entenda: a facilidade, em termos de burocracia e de todos os custos envolvidos, entre a contratação e a demissão de pessoas para trabalharem em uma empresa.

Em nosso país temos um código de regras bastante específico e cheio de nuances a respeito de como devem ser feitas as contratações e demissões e, para além disso, temos custos diversos tanto para contratar quanto para demitir. Nos EUA, a realidade é mais flexível neste aspecto e há maior facilidade em qualquer uma das duas coisas. Sob essa ótica aqui apresentada, temos então que o mercado de trabalho brasileiro é mais rígido e o norte-americano mais flexível.

Essa flexibilidade costuma ser encarada como um meio de desproteger os empregos, dado que os coloca sob um crivo muito mais simples e suscetível a mudanças de curto prazo. De fato esse ponto existe e, em períodos extraordinários como o que vivemos, deve ser levado em consideração. Porém, essa “dificuldade adicional em contratar e demitir” no Brasil coloca um ponto que não necessariamente é lembrado: essa rigidez dificulta as operações das empresas porque não permite que a adaptabilidade seja tão rápida quanto muitas vezes é necessário.

Observando diretamente a gestão das empresas no Brasil, muitas vezes se encontra o seguinte dilema: diante de uma elevação na demanda, vale a pena utilizar mais completamente a capacidade de seus colaboradores ou prontamente contratar mais pessoas e, tendo em vista uma queda na demanda, vale a pena demitir as pessoas para readequar ou esperar que a demanda retome? Nesta parte o leitor deve estar pensando: “então, por isso que ajuda a proteger os empregos”. Sim, ajuda, mas nada faz pelas pessoas que seguirão desempregadas, apenas pelas que já estão empregadas – e com o regime comum de carteira assinada, veja que não estamos aqui nem falando dos informais, que cresceram fortemente nos últimos anos, dentre outros aspectos, também por essa dificuldade (e pelos custos) em se formalizar.

Em uma realidade como a dos EUA, por exemplo, a facilidade entre iniciar e rescindir contratos de trabalho permite que, na prática, um aumento ou queda de demanda tenha reflexos em resultados mais rápidos sobre o mercado de trabalho.

Com esta diferenciação entre os dois mercados de trabalho e a rigidez de cada um podemos apresentar a seguinte questão: a flexibilização neste mercado tem relação direta com momentos de crise ou de crescimento econômico se refletem na geração ou redução de empregos. E a relação é a seguinte: quanto mais flexível é contratar e demitir, mais rápidos os efeitos se darão sobre a taxa de desemprego em momentos de recessão ou de recuperação.

Vamos aos dados: no Brasil, que ainda não havia se recuperado da crise que vivemos em 2015-2016 antes mesmo do coronavírus apresentar seus efeitos por aqui, nossa taxa de desemprego se manteve em dois dígitos desde então – e encerramos 2019 com 11%, taxa essa que já está mais alta hoje, aproximando-se de 13%. Nos EUA, dado o vigor econômico dos últimos anos, a taxa de desemprego estava em 4,4% em março e saltou para 14,7% em abril, tendo recuado neste momento, levando em consideração a apuração correta dos dados, para cerca de 13%.

O que podemos extrair destes dados? Que o forte efeito recessivo de curto prazo advindo do coronavírus foi sentido mais bruscamente nos EUA do que por aqui, dada a flexibilidade maior no mercado de trabalho deles. O que podemos prever a partir dos dados de maio? Que a recuperação econômica no novo normal tende a ter efeitos mais rápidos de redução do desemprego nos EUA do que no Brasil.

Isso significa que direitos trabalhistas devem ser desconsiderados? Não necessariamente. Mas sim que, em eventuais reformas que busquem de fato tornar nosso mercado de trabalho mais dinâmico, a facilitação de contratações e demissões deveria entrar em pauta de maneira mais madura.

Ou então, tal qual vimos ocorrer da crise de 2015-2016 pra cá (e veremos em vários dos próximos anos), acompanharemos um aumento do desemprego no curto prazo seguido de uma desalentadora queda neste aspecto que tanto impacta para a renda da economia.

Que possamos pensar de maneira madura sobre como a proteção aos que estão empregados pode, infelizmente, significar um impasse a mais para aqueles que não estão. Pois, no fim do dia, quem não pode demitir com facilidade certamente não contratará com facilidade.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 08/06/2020

Tempos extraordinárias, medidas extraordinárias

Não deve ser novidade ao leitor desta coluna que o Brasil não desempenha adequadamente a lida com seu orçamento público há anos – 2020, reforço, será o sétimo ano seguido em déficit primário. Mas este ano não é um ano regular. Passamos atualmente por um momento absolutamente extraordinário e, como demandado nesses períodos, medidas também são.

Essas medidas envolvem diretamente uma atuação do governo como agente que mudanças e sustentação durante um período que, até então, não se sabe quando terá fim. E, mesmo que tenhamos a consciência de que nossa situação fiscal não permite amplos programas, é justamente do Estado que alguma ação precisa sair em um momento como esse.

Existem dois tipos de medidas possíveis: as de direcionamento e as que envolvem desembolsos (estes que, segundo Relatório de Acompanhamento Fiscal de maio/2020 do Instituto Fiscal Independente do Senado, o IFI, levarão o déficit deste ano a R$671,8 bilhões). No primeiro tipo o que podemos observar é um complexo emaranhado de confusões entre instâncias diferentes (federal, estaduais e municipais), dando uma verdadeira aula ao mundo do que não fazer em termos de coordenação. Já no segundo tipo, temos alguns avanços, mas ainda há muito o que se estudar – e escolhas complexas terão de ser feitas muito rapidamente.

No que tange aos desembolsos do governo neste momento, três aspectos demandam atenção direta. O primeiro é o da vulnerabilidade: pessoas sem renda ou com renda informal precisam sobreviver a este período, então temos o auxílio emergencial (ou coronavoucher), este que atualmente teve duas parcelas pagas (abril e maio), terá certamente uma terceira (junho) e estuda-se ficar presente por mais alguns meses. O segundo é o dos entes públicos subnacionais: as receitas dos estados e municípios podem ficar em média 30% menores neste ano e, sem um socorro federal, faltará dinheiro para que diversos serviços públicos possam ser tocados. Já o terceiro é o do setor privado e, neste, as escolhas não são tão triviais.

Provavelmente não é novidade ao leitor que nosso país tenha diversos setores altamente concentrados e que demandam mais competição para que o consumidor saísse mais beneficiado. Porém, alguns desses setores sofreram e ainda sofrerão muito com os efeitos dessa pandemia e do novo normal que a acompanha. Um exemplo rápido é o setor aéreo: praticamente três empresas dominam o setor no Brasil e a decisão de que devemos simplesmente deixá-las quebrarem – já que estão faturando praticamente zero neste período e talvez demorem a voltar aos patamares anteriores – não é trivial porque possivelmente destruiria toda uma cadeia de conexões territoriais no país. É por isso que o governo, acertadamente, estuda ser sócio de algumas delas para ajudar a passar essa fase.

Mais importante do que as decisões tomadas agora, em tempos de pandemia, é lembrar que elas não podem servir de subterfúgio para planos malfadados do passado. Ou, em termos mais diretos: medidas extraordinárias para tempos extraordinários, para que não repitamos 2008 – em que tais medidas, que de fato aliviaram a economia, acabaram virando um suposto moto-perpétuo que foi até 2014 (e cujos efeitos de irresponsabilidade sentimos até hoje).

 

Publicado na edição de Junho de 2020 da Revista da ACIF Franca (Página 52)

Gestão de negócios e a pandemia: com o que você se importa?

A pandemia do coronavírus tem trazido diversos pensamentos e aflorado reações em todas as esferas possíveis. Uma que não passa em branco, justamente por ser seriamente afetada, é a econômica. Afinal de contas, o fechamento de muitos negócios – seja por exigência dos governos, queda da demanda ou mesmo por espontaneidade dos gestores das empresas – afeta sim. Definitivamente não é situação fácil ter de jogar seu faturamento a zero ou quase zero por alguma motivação que independe do seu próprio negócio.

Neste momento em que flexibilizações da quarentena começam a acontecer em diversos lugares do Brasil e do mundo, mesmo levando em consideração que ainda não temos tratamento comprovadamente eficaz ou mesmo uma imunização contra o coronavírus, uma pergunta bastante delicada está na mesa de todos os gestores de negócios: é seguro abrir as portas agora?

Importante fazer a ressalva de que há negócios que são da chamada cadeia essencial e permaneceram abertos por todo esse período em que outros ficaram fechados. Nestes negócios há chances consideráveis de que a gestão já tenha (ou esteja muito próxima de) encontrado meios de aumentar a segurança de quem trabalha na empresa e de quem transaciona com ela de qualquer maneira. Também notável lembrar que, nessa caminhada a um novo normal, demandas já estão diferentes e quem não buscar se adaptar acreditando que “tudo voltará ao que era antes” tem chances não desprezíveis de se decepcionar. Terceiro ponto importante: muitos negócios já quebraram nesse período e os que estão aguentando as pontas devem estar loucos para retornar as atividades.

Ressalvas feitas, voltemos a pergunta: a depender da região em que você se encontra e do estado da pandemia ao seu redor, vale a pena reabrir as portas e voltar a faturar agora?

Mark Cuban, empreendedor dono do time de basquete Dallas Mavericks, recentemente soltou uma frase que faz muito sentido nesse momento: “como você trata seus empregados hoje [nesse período de pandemia] terá mais impacto sobre sua marca no futuro do que qualquer propaganda ou qualquer outra coisa que você tentar fazer”. É uma frase forte e bastante ampla, que importa muito para quem gere negócios. Na média, como você faz essa gestão importa o tempo todo. Mas, você se importa com períodos extraordinários também?

Em um mar de exemplos que sinalizam que talvez não se importe tanto assim com quem trabalha com você ou quem se utiliza de seus produtos e serviços – com reaberturas em momento precoce puramente baseadas no argumento “é preciso ganhar dinheiro” -, alguns exemplos chamam a atenção, como o desse bar em Ourinhos: em anúncio pelo Instagram informou aos seus clientes a decisão de, mesmo com flexibilização autorizada pela prefeitura, não reabrir as portas porque não sente que haverá suficiente segurança para isso. Veja só o comunicado:

Não é toda empresa que tem a capacidade de fazer isso. Ressalto aqui que, sim, muitos negócios inclusive já quebraram por não terem conseguido acesso aos meios de enfrentar esse período ou por não terem estrutura própria para isso. E, importante dizer, ninguém está demonizando ganhar dinheiro. Mas é de fato notável que, não sentindo segurança para funcionar, em qualquer que seja a situação – e em termos de saúde não há opção a vida -, a gestão deve tomar atitudes que não necessariamente coadunam com o que se esperaria em tempos regulares.

Para além de ler esse breve artigo e questionar sobre qual a intenção deste que vos escreve, deixo a reflexão direta a você que gere negócios ou conhece quem o faz: você se importa com quem está contigo ou apenas com o dinheiro que seu negócio faz?

“Um negócio que não produz nada além de dinheiro é um negócio pobre.” (Henry Ford)

 

Publicado no Terraço Econômico em 05/06/2020

CAGED: podia ser pior, muito pior

Os dados mais recentes a respeito do desemprego no país foram divulgados. Dados do CAGED, o cadastro que mostra a diferença entre admissões e demissões – e o saldo novo de desempregados – mostrou uma baixa de 860 mil empregos neste mês de abril de 2020.

O resultado, como pode observado na série histórica apresentada abaixo, é o pior para este mês desde 1992:

Resultados de empregos formais em abril

Péssima notícia? Tudo dentro do esperado? Ou podia ser pior? Neste mesmo mês de abril tivemos 20 milhões de demissões nos Estados Unidos. É preciso fazer uma importante ressalva nessa comparação: a rigidez do mercado de trabalho (dificuldade para contratar e demitir) é muito menor nos EUA, o que significa que movimentações para cima e para baixo no desemprego tendem a ser observadas mais por lá.

Números absolutos talvez não explicitem exatamente a situação, mas há um aspecto que ajuda a entender como esse número do desemprego em abril no Brasil poderia ter sido substancialmente pior.

Os programas até então apresentados pela equipe econômica do governo com o objetivo de suavizar a situação das empresas neste momento de forte crise, têm sofrido duras críticas por, dentre outros motivos, não estarem chegando de verdade onde precisam chegar. Segundo o Sebrae, linhas de crédito especiais para esse período só têm sido acessadas por 14% das empresas, sendo que grande parte delas simplesmente teve recursos negados.

Porém, existem dois programas que têm cumprido seu papel de maneira a aliviar este período. O primeiro é a linha de financiamento do BNDES que paga diretamente o salário (até dois salários mínimos por funcionário) por dois meses e tem como regra que, caso o CNPJ se utilize dele, não seja possível rescindir contratos até 60 dias após o último dia que utilizar o recurso. O segundo é programa emergencial que permite redução de carga-horária e salários – o que tem certa compensação por parte do governo – para que não seja preciso demitir.

Antes de chegarmos no encaminhamento do que esses programas significam em termos práticos, três ressalvas precisam ser feitas. A primeira é que a linha de financiamento do BNDES tem chegado a muito menos empresas do que poderia, porque leva em consideração que os funcionários têm todos conta salário no mesmo banco  (o que significa que, se os funcionários tiverem contas em bancos diferentes ou se eventualmente são pagos em dinheiro ou cheque, o recurso não fica disponível para uso). A segunda é que esse programa emergencial mantém os empregos apesar de que, por essa diminuição de salários, acabe também reduzindo a massa salarial total da economia no fim das contas. A terceira é que são programas apenas disponíveis para quem está no sistema regular de trabalho, portanto não atingem aos informais.

Ressalvas feitas, sem sombra de dúvidas esses programas são os mais eficientes no que se propõem a fazer. O objetivo de ambos é, na prática, a manutenção de empregos nesse período de turbulência. Não existem dados publicamente disponíveis sobre o de financiamento de folha pelo BNDES, mas o que permite redução de jornada e salários apresenta um contador em seu site que, no momento em que esse artigo é escrito, se aproxima de oito milhões e duzentos mil empregos mantidos por via dele.

Ainda que por efeito da rigidez do mercado de trabalho e da considerável informalidade, é interessante notar que alguns milhões de empregos estão, por enquanto, sendo poupados de virarem estatística negativa no CAGED. Quantos empregos não sabemos, são diversos fatores a serem considerados, mas certamente são alguns milhões deles – ao menos pela duração em que esses programas tiverem e, torcemos todos, que sejam suficientes para superarmos esse período caótico.

Precisamos seguir atentos a continuidade desses programas para verificar se eles serão suficientes para o período em que atravessamos – e, na prática, até então não se sabe qual será a extensão desse período, a depender de como funcionará nossa entrada em um novo normal. Mas, de fato, enquanto há uma infinidade de outros programas que muito anunciam e pouco fazem de efeito prático, é mister apontar que esses dois em específico fazem trabalho notável neste momento.

Cada emprego mantido, ainda que sob eventual redução do montante pago ao funcionário, é um alento a mais para a economia neste período complexo em que vivemos. Quando menos a massa salarial da economia for prejudicada, menores serão os efeitos de diminuição da renda após essa mudança toda ocorrer.

Isso está longe de significar, contudo, como Paulo Guedes tem dito que “vamos surpreender o mundo” com nossa recuperação, mas, novamente, é preciso reconhecer que esses dois programas cumprem com maestria seu objetivo pretendido – e, num período como o que vivemos agora, a diferença entre países que verão o desemprego caminhar para cima aos milhões contra os que o fizerem de maneira mais suave será considerável.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 29/05/2020

Moeda e seus riscos: como isso afeta seus investimentos

Em um ano como 2020 a pergunta “o que não perdeu valor?” parece ser tão complicada de responder que, possivelmente, a resposta seja “o dinheiro que deixei parado no banco”. Neste artigo de hoje, em parceria com a Hurst Capital, você vai descobrir que, na verdade, esse dinheiro também perdeu valor.

Comecemos com uma indagação um pouco filosófica: o que faz o dinheiro ter valor? Até a década de 1970, o que fazia com que o dinheiro tivesse valor era sua garantia em reservas de ouro que um país tinha. Na prática, o famoso padrão ouro significava que a emissão de moeda de um país teria um certo lastro e não poderia se expandir para além disso.

Hoje, todas as moedas emitidas por entidades centralizadas estão sujeitas puramente a uma confiança de que exista valor transacional por parte delas, mas não há valor intrínseco ou que possa ser lastreado em algum metal, por exemplo. Pelo lado negativo, a expansão da moeda agora não tem um porto seguro facilmente utilizável para se guiar. Pelo lado positivo, há uma possibilidade mais ampla de, por meio de expansão ou retração monetária, fazer política econômica que reaja a mudanças na economia.

Os Bancos Centrais, assim, ficaram muito mais poderosos.

Essa movimentação no volume disponível de moeda – e, consequentemente, nos níveis de preços disponíveis – é realizada pelos Bancos Centrais da seguinte maneira: quando da ocasião de um choque econômico que reduza a liquidez da economia (como vimos em 2008 e como estamos observando na atual crise do coronavírus), são injetados recursos para que o sistema não venha a colapsar, o que se convencionou chamar de Quantitative Easing (ou QE); em “tempos de paz”, esses recursos vão sendo pouco a pouco retirados da economia para que as transações voltem a ocorrer sem que essa necessidade se faça presente.

Um aspecto que não pode ser esquecido no meio do caminho é que essa expansão monetária, em algum momento do tempo, irá fazer seus efeitos sobre a economia real desvalorizando o preço dos ativos em termos reais – ou seja, a clássica inflação vem cobrar a conta desse esticar de liquidez.

Em teoria, essa movimentação é bastante prática e direta. Mas, na prática, desde 2008 vivemos em um mundo que não dá mais coordenadas tão claras e objetivas sobre isso. No período compreendido entre 2008 e meados de 2017, taxas de juros em boa parte do mundo desenvolvido (EUA, Europa e Japão) estavam nas proximidades de zero como maneira de estimular a liquidez na economia. Entre 2017 e 2019, ao menos nos EUA, uma reversão deste cenário começou: a taxa de juros viu pequenos aumentos e, assim, parte da enorme liquidez colocada na economia começava a ser retirada dela. Porém, com uma desaceleração que já vinha sendo sinalizada no mundo desenvolvido desde o terceiro trimestre de 2019, somada ao impacto que o coronavírus nos trouxe, voltamos a ver no mundo todo um incentivo a essa injeção maior de liquidez.

Não é preciso entrar em todo o ferramental técnico-econômico para explicar o que ocorre na atual circunstância. Os balanços dos Bancos Centrais, que já estavam em tamanho elevado pela liquidez que injetaram na economia, tiveram um pequeno alívio nos últimos três anos mas já voltaram a acumular novas extensões – dessa vez, inclusive os dos países em desenvolvimento.

Levando em consideração que estamos há um período não desprezível de tempo esticando o tamanho dos Bancos Centrais, voltemos a pergunta do início deste artigo: o que faz o dinheiro ter valor real?

As teorias sobre o dinheiro

Existe uma teoria econômica chamada Modern Monetary Theory (ou simplesmente MMT) que tenta entender esse fenômeno ocorrido há mais de uma década, que permite até então aumentarem os balanços dos Bancos Centrais de maneira considerável sem que o efeito inflacionário venha se fazer presente. Dentre outros pontos que essa teoria busca compreender, um tem causado certa polêmica na discussão econômica: em certas condições, não haveria problema de se aumentar indefinidamente os balanços dos Bancos Centrais e nem a dívida, porque o efeito inflacionário não causaria mais danos.

O valor real que o dinheiro tem é colocado cada vez mais a prova em momentos como o atual. Bancos Centrais de todo o mundo, ao garantir liquidez suficiente para a economia se manter de pé, expandem seus balanços fazendo-nos questionar: em que momento a inflação virá fazer uma grande correção sobre tudo isso? Ou, caso isso não aconteça, no que se tem real valor então?

Após toda essa reflexão o leitor provavelmente já entendeu que, de fato, a pergunta “o que não perdeu valor em 2020?” não tem como resposta adequada “o dinheiro que ficou parado”, porque mesmo que ainda não existam grandes efeitos inflacionários advindos da enorme expansão monetária que tem ocorrido desde 2008 (com destaque para o entorno daquele ano e também para as fortes movimentações de 2020), essa expansão imensa nos meios de pagamento ao redor do mundo não se dá efetivamente sem custos.

Enquanto se aguarda a chegada inflacionária – ou mesmo um novo momento econômico em que esse custo inexista de verdade -, é importante ressaltar que os ganhos reais em investimentos estão justamente nos ativos reaisPrecatórios, por exemplo, são lastreados com base na receita real auferida pelo Estado em um determinado período de tempo. São diferentes de tantos outros ativos ao redor do mundo hoje (como as ações) que podem estar adquirindo valor apenas em virtude do aumento da liquidez na economia e não necessariamente por maior valor atribuído.

Recentemente uma capa da The Economist colocou em questionamento justamente este descolamento entre os ativos financeiros em Wall Street e a economia real. Os primeiros, que em março viram uma queda vertiginosa, observaram em abril (e seguem observando agora) ganhos que parecem não ter relação alguma com a economia real, esta que observa perdas e números negativos tão notáveis quanto os vinte milhões de norte-americanos que perderam seus empregos apenas no quarto mês do ano.

Melhor do que aguardar os efeitos práticos de uma desvalorização imensa advinda da moeda é considerar o investimento em ativos reais.

Pense nisso quando for fazer novos investimentos.

 

Publicado no Terraço Econômico em 28/05/2020

O vídeo saiu, e agora?

Em mais um evento de sexta-feira – essas que, em Terra Brasilis, andam tão emocionantes quando o assunto é a política -, tivemos a divulgação na íntegra de um vídeo revelador.

Para quem não acompanhou, um pequeno resumo dos fatos: Sergio Moro anunciou em 24 de abril (uma sexta-feira) sua decisão de sair do Ministério da Justiça e Segurança Pública após saber da decisão de que o diretor da Polícia Federal seria trocado por Jair Bolsonaro e, dentre outros motivos, o fez porque afirmou discordar das intenções do presidente em interferir no órgão. Uma das provas dessa interferência seria o vídeo de uma reunião ministerial ocorrida dois dias antes, além de mensagens trocadas entre os dois.

Após toda uma saga que envolveu um longo depoimento (quase oito horas) de Sergio Moro na Polícia Federal em Curitiba para apresentar suas provas, todas as atenções se voltaram para o juiz do STF que estava com a decisão de levantar ou não o sigilo do tal vídeo. Celso de Mello o fez na última sexta-feira.

Uma semana toda de tensões antecedeu o momento em que tivemos a suspensão do sigilo e a seguinte publicização do mesmo. Bolsonaro apareceu algumas vezes dando a entender que queria que o vídeo fosse inteiramente apresentado, outras dizendo que isso não poderia ser feito. A defesa de Moro insistia que o vídeo deveria ser todo colocado para a sociedade. Então chegamos às proximidades do horário limite de divulgação (17h da última sexta-feira).

O que tinha no tal vídeo?

O país assistiu a uma reunião ministerial com nível elevado de tensão, em que o presidente cobrava de seus subordinados que fizessem uma defesa pública dos pilares de seu governo e também de sua figura quando essa fosse arranhada de alguma forma. Diversos palavrões foram ditos também, mas isso era o de menos.

Alguns dos itens apontados por Sergio Moro se fizeram presentes, mas, no todo, o saldo parece apontar para uma vitória política de Jair Bolsonaro. Essa vitória política ocorre porque, no fim das contas, os discursos de que o povo estaria sob uma “quase ditadura” dos governadores e prefeitos, acaba por assinalar a visão que muitas pessoas no país têm de que muitas atividades econômicas estão paradas não pelo efeito da pandemia, mas porque esses chefes de poderes executivos subnacionais ordenaram o fechamento de tudo – ao contrário do que o presidente preconiza.

Uma reunião com ares de “grava aí que depois vamos utilizar isso”, cheia de frases feitas e direcionamentos que indicam uma preocupação elevada do presidente com seu povo e como este estaria sofrendo com a situação. No caso, a situação que causaria o sofrimento seria a da economia parada, dado que apenas em duas situações isoladas de todo o evento o coronavírus foi citado, pelo ex-ministro Nelson Teich.

O que não tinha no vídeo?

Por mais que no momento em que a reunião tenha ocorrido um número alarmante de casos e crescente de mortos já se verificava no país, não se verifica nesta extensa reunião uma discussão mais ampla do que deveria ser feito em termos de protocolos de saúde ou de qualquer natureza para que a situação pudesse ser encaminhada rumo a um novo normal.

Aparentemente não é um erro de análise indicar que em nosso país o último assunto da pauta seja justamente o que está sendo mais discutido ao redor do mundo.

Quando a crise chega, não há espaço para conversa fiada

Conversa fiada, para o leitor que eventualmente não saiba, é aquela cujo objetivo é justamente se esvair de si mesma, chegando a lugar nenhum. Sem medo de arriscar, boa parte da condução do poder público com a pandemia do Covid-19 por aqui envolve encontrar culpados mais do que resolver os problemas.

No curto prazo de algumas semanas isso poderá fazer sentido. Atualmente, após esse vídeo, a impressão de que o presidente do país nada tem a ver com o que se passa e, na verdade, só queria ajudar o povo, provavelmente prevalecerá. As culpas sobre o aumento nas mortes e a crise econômica cairão sobre o colo de prefeitos e governadores. O discurso está pronto.

Porém, nos próximos meses duas coisas notáveis devem ocorrer.

A primeira é que a arrecadação de impostos cairá vertiginosamente – o que já acontece agora, já que a arrecadação federal de abril foi a menor desde 2006. Contra isso não haverá remédio: serviços públicos começarão a não ter mais capacidade e algo que nunca havia acontecido em termos gerais no país passará a acontecer: acabará o dinheiro para pagar até salários do funcionalismo.

A segunda: com a reabertura de tudo devemos observar uma queda na demanda advinda de um receio das pessoas de voltarem “ao normal” ou mesmo de uma volta abrupta a tudo que se conhecia antes seguida de um aumento elevado no número de casos e mortes seguida de um isolamento voluntário, independente de direcionamentos de governadores e prefeitos. Somente neste momento observar-se-á que a redução da atividade econômica se deu na verdade pelo coronavírus, não por ordem de quem quer que seja de fechamento de atividades que envolvam aglomeração.

No momento em que esse duplo impacto atingir o país a estratégia de passar a culpa no lugar de procurar como solucionar o problema poderá seguir na mesa. Mas com uma diferença fundamental: até quem não tiver “sentido no bolso” estará reclamando quando isso acontecer.

O aprendizado disso tudo

O mundo discute protocolos de segurança enquanto por aqui discutimos quem seria o culpado de tudo. É como ver uma casa pegando fogo e, em vez de ligar para os bombeiros, começar a brigarmos uns com os outros sobre quem esqueceu de chamar o eletricista para verificar aquele fio desencapado que estava fazendo um barulho esquisito.

Temos chances não desprezíveis de sermos um dos últimos países a sair dessa situação toda. Optamos por deixar a política como assunto principal mesmo quando o foco deveria ser lidar mais adequadamente com este período de travessia ou mesmo sobre como sairemos dessa situação com segurança mais adiante.

Novamente: no curto prazo, enquanto ainda há uma forte ilusão de que “logo tudo volta ao normal”, a ideia de procurar culpados em vez de soluções para os problemas serve como uma luva; o mesmo provavelmente não poderá ser dito quando o dinheiro acabar – tanto em termos de arrecadação do governo quanto do caixa das empresas para segurar esse período – e “de repente descobrimos” que perdemos tempo com qualquer coisa menos o que deveríamos ter perdido.

Ou, como diz aquela clássica frase de Abraham Lincoln:
“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo.” 

Até quando irá a ilusão em que vive a política brasileira, de achar que pode enganar a todos o tempo todo?

Qualquer que seja o calendário em que essa viva, não é difícil imaginar que em poucos meses tenhamos a dura resposta dessa pergunta.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 25/05/2020

Coronacrise: até onde irá?

Antes mesmo de seguir a leitura deste artigo saiba que essa resposta não está disponível a ninguém completamente. Mas com essa leitura você terá um direcionamento maior do que realmente precisa observar para saber como sairemos dessa.

A pergunta de bilhões de dólares que dá título a este texto tem como maior dificuldade de ser respondida o fato de que, diferentemente de outras crises econômicas, essa tem como origem um fator bastante diverso de ser analisado, que é o da saúde. Para piorar, trata-se de um aspecto de saúde e que ainda não é completamente analisado. Se alguma outra doença que já fosse conhecida estivesse se espalhando agora, já teríamos com maior certeza um tratamento e talvez até uma imunização. Por enquanto, tudo que temos são testes. Alguns mais otimistas que outros, mas todos testes.

O primeiro e mais importante fator que deve ser observado para termos uma ideia de até onde será necessário manter as atuais medidas de restrição (que impactam diretamente na economia) é o acompanhar da evolução da curva de contaminação. Em cada país ela tem ocorrido de maneira diferente, mas o que se tem de mais conhecido até então é o fato de que essa doença se espalha em centros concentrados. Começou em Wuhan, na China; na Itália, concentrou-se na Lombardia (ao norte); na Espanha, as regiões de Madri e da Catalunha são as mais afetadas; nos Estados Unidos, Nova York o maior centro até então; no Brasil, a concentração maior está em São Paulo, mas Rio de Janeiro e Brasília também concentram muitos casos.

A verificação da curva de contaminação é essencial para ter um conhecimento mais palpável de quando as atividades poderão retomar à “normalidade”. Isso porque, em termos práticos, embora seja uma doença com uma mortalidade não tão elevada (em dados agregados do mundo todo em número de casos e mortos, se aproxima atualmente de 5%), ela se espalha com bastante velocidade. E é esse o ponto chave: por mais que uma boa parte das pessoas acabe não tendo sequer sintomas do vírus, caso as atividades ocorram normalmente a circulação de pessoas não se altere, quem não tem reação alguma ao vírus provavelmente o leva para quem terá complicações severas e poderá até falecer.

Acompanhar o evoluir da doença em termos geográficos é, assim, o primeiro ponto.

O segundo ponto a ser observado é a efetividade de meios de tratamento ou mesmo a viabilização de uma cura (através de uma vacina). Novamente, friso: até o momento em que este artigo é escrito muitos testes já foram realizados mas a eficácia definitiva ainda não foi alcançada; o que está no alvo até então é a hidroxicloroquina, que tem apresentado sinais cada vez mais notáveis de que seja eficaz no tratamento (e, desde o início de abril, entrou no protocolo oficial de tratamento de doentes a partir da internação, de acordo com o Ministério da Saúde). Quanto a vacina, no melhor dos cenários, devemos ver algo viável (que além de resolver a questão do coronavírus não cause efeito adverso indesejável) apenas ao início de 2021.

O leitor talvez estranhou ler sobre uma doença em uma coluna de economia. Não estranhe: de fato é uma questão de saúde que está sendo mais relevante para a economia agora. Espero não ter estranhado o termo normalidade entre aspas no quarto parágrafo – porque não é desprezível que, quando tudo isso passar, o que conhecemos por normalidade seja bastante diferente.

 

Publicado na edição de Maio de 2020 da Revista da ACIF Franca (página 54)