Governabilidade importa – vamos ver até quando

Se gritar pega centrão, não fica um meu irmão.” (General Heleno)O realismo mágico que vive o Brasil ganhou um novo capítulo recentemente. Não, não estamos falando das estrondosas saídas do Ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro e do Ministro da Saúde Nelson Teich (menos de um mês após sua entrada para substituir Luiz Henrique Mandetta), nem mesmo do presidente indo à manifestações que exaltam a si mesmo e minimizam medidas de segurança contra a pandemia que já ceifou mais de quinze mil vidas em nosso país. Mas sim de algo que, como a citação que inicia este artigo mostra, é difícil de acreditar.

Durante a campanha eleitoral em 2018, dois pontos pareciam pacíficos àquele que se sagrou vencedor após o segundo turno: a ideia seria colocar apenas pessoas que obedecessem a critérios técnicos para ocupar as pastas do executivo que comandariam o país, diferenciando-se de “tudo que havia sido feito até então”, que era basicamente um amontoado de indicações políticas geralmente advindas do… Centrão. Quanto às indicações técnicas, até foram feitas a priori, mas com o tempo temos ao menos desconfianças sobre o quanto têm autonomia. Agora a novidade é abraçar justamente o que se demonizou menos de dois anos atrás.

Independente do que isso signifique em termos políticos, já que essa salada iria longe, vamos aos aspectos pragmáticos que importam sobre essa união um tanto quanto inacreditável para quem realmente acreditava que o que chegou em 2018 o fazia para “mudar isso daí” mesmo.

Governabilidade pelo lado positivo

O desafio imposto às contas públicas brasileiras se agiganta. Antes mesmo de toda a discussão sobre o coronavírus, já entrávamos em 2020 com a praticamente certeza de que teríamos o sétimo ano seguido em déficit primário. Possivelmente abaixo de R$100 bilhões, mas ainda um notável déficit primário. Já o cenário mais recente, apresentado pelo próprio Secretário do Tesouro Mansueto Almeida, é de que podemos chegar a R$1 trilhão, tudo isso apenas este ano. De longe, o maior déficit primário nominal da história do país.

Dado este enorme desafio, o que não pode desafinar de jeito nenhum no pós pandemia é o retomar de discussão sobre as reformas, essencialmente aquelas que impactam mais sobre o lado fiscal. A reforma administrativa, que trata da estrutura do Estado e envolve muito de seu custear, e a reforma tributária, que trata do aspecto arrecadatório e também do que tange a dificuldade que os negócios têm em pagar seus tributos, ganham ainda mais importância em um cenário de retomada econômica.

É importante lembrar que antes mesmo da atual crise que se abate sobre o país ainda não tínhamos superado a anterior, de 2015-2016. A recuperação mais lenta da história, que não chegou a se completar, agora virou passado. Se o maior PIB da história (2014) parecia inalcançável antes de 2022/2023, agora sabe-se lá quando é que iremos alcançá-lo. Em função disso, toda e qualquer mudança que possa facilitar o ritmo da retomada econômica importa bastante.

Neste sentido, a governabilidade é um alento, pois é justamente através dela que podemos imaginar uma possibilidade maior de aprovação de reformas que consigam pavimentar uma retomada econômica mais sustentável. Imaginemos por exemplo um cenário como o da aprovação da reforma previdenciária: mesmo sem o tal condenável “toma lá dá cá” pudemos observar uma larga votação favorável nas casas legislativas. Não se pode desprezar o poder que o pragmatismo de uma união entre o governo e o centrão possa ter neste aspecto.

Porém, tudo depende de…

Como nem tudo são flores – na verdade, ultimamente, quase nada o são -, é importante lembrar que tudo isso depende de um ajuste fino entre o presidente e seus próprios ímpetos.

Não que seja difícil de explicar para quem lê este artigo, mas o presidente está longe de ser a pessoa menos inconstante do país e, em virtude disso, o “estamos namorando” dito em relação ao presidente da Câmara Rodrigo Maia e a distribuição de cargos que tem ocorrido ultimamente podem, ao menor sinal de novo surto presidencial, virarem fumaça. Lembrem-se que apenas nessa história de “meus ministros têm carta branca” já tivemos três saídas relevantes nas últimas semanas.

O jogo político a ser jogado depende muito de Bolsonaro

Em uma situação sui generis, o presidente pode, tal qual no início de seu mandato, depender apenas de sua própria boa vontade em colaborar para que os planos não só de permanecer na presidência como também de passar reformas se concretizem.

Três aspectos são relevantes para explicar como isso pode de fato acontecer. O primeiro é o apoio popular: apesar de ver sua rejeição subir, a aprovação ainda é de 30%, nível este que, de longe, não sinaliza às casas legislativas que exista possibilidade palpável de impeachment. Em segundo lugar, a oposição atualmente utiliza a estratégia “vamos esperar desidratar”, esperando que o presidente siga errando, além do fato de talvez não querer assumir um abacaxi enorme como esse que Bolsonaro tem nas mãos. E, em terceiro, o adicional mais recente: agora conta-se com o antes demonizado e agora agraciado centrão.

No fim das contas, a tal da governabilidade está de volta. Resta saber se é pra ficar ou, se como há um mês, terá acabado o “espaço para negociação”. Acompanhemos as cenas dos próximos capítulos.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 18/05/2020

Comunicação e liderança política fazem diferença em tempos de crise

Logo ao início deste artigo já queremos colocar um ponto importante: envie este texto a quem você conhece que diz algo como “ninguém está levando a sério o que o presidente do Brasil diz sobre essa pandemia, não precisa se preocupar”.

Crises têm começo, meio e fim

Por mais difícil que pareça acreditar quando se está em meio a uma crise, sim, crises têm começo, meio e fim. Usaremos como exemplo para o artigo a crise que estamos enfrentando no momento, o Covid-19.

Doença cujo descobrimento se deu na Ásia no último trimestre de 2019, com epicentro na região chinesa de Wuhan, teve seu primeiro caso confirmado no Brasil em 26 de fevereiro de 2020 – uma quarta-feira de cinzas, ironicamente.

Não era segredo algum que um dia o vírus chegaria aqui no Brasil. Tivemos um certo tempo de observação das reações internacionais (ao menos na China, na Itália e na Espanha com grandes e danosos efeitos) e, consequentemente, para nos prepararmos. É importante questionar: quando o Brasil começou a se preparar para a chegada do vírus?

Poderíamos ter nos preparado em termos de conscientização da doença e também da capacidade técnica necessária para lidar com ela. Não se trata de problema fácil de lidar, mas preparação da população com uma comunicação mais unívoca faria enorme diferença. Porém, o que vimos foram discursos desencontrados de que, dentre outras coisas, precisaríamos entender como o vírus se comportaria num país tropical já que o caso começou em países com temperaturas mais frias. Todo tipo de subterfúgio foi utilizado para não ser necessário admitir que teríamos, de uma forma ou de outra, de lidar com essa pandemia.

Ah, mas a economia…

Importante ressaltar que mesmo antes do Covid-19 nossos indicadores econômicos estavam bem ruins – seja na parte do crescimento, que patinava, ou mesmo no aspecto do endividamento público, após seis anos seguidos de déficit primário e já deixando claro que 2020 seria o sétimo ano. Contrariando a “decolagem” que alguns supunham na equipe econômica entramos nessa crise como um país quebrado e endividado. Ao contrário da Alemanha que possuía superávit fiscal e dos Estados Unidos que tinham desemprego ao redor de 4%.

Entramos em situação ruim na crise, com ela ficaremos em dificuldades ainda maiores. A situação poderia ser bem diferente caso tivéssemos, no pós-previdência (terceiro trimestre de 2019), já encaminhado outras reformas de impacto fiscal e econômico em geral, como a administrativa e a tributária – reformas essas que, agora, ganham ainda mais destaque dada a situação do endividamento que se deteriora em virtude dos desembolsos necessários para a lida com a pandemia. Com a corda orçamentária cada vez mais esticada e frágil, as justificativas para não entrarmos em um ritmo acelerado de reformas após este momento extraordinário são cada vez mais insustentáveis.

Outro ponto que muito provavelmente não será relegado ao último plano após toda essa catastrófica gestão de crise é a capacidade de gerir políticas públicas mais eficazes e, em tempos de crise, ter lideranças políticas que saibam efetivamente promover uma comunicação que faça a diferença.

Tenha você, leitor, em mente, que a partir do momento em que essa pandemia se fez presente a economia ao redor do globo já entrou em fortes dificuldades – segundo o FMI, a maior crise desde 1929.

Em um momento difícil como esse para o planeta inteiro, a decisão não a cargo de termos uma crise econômica ou uma na saúde, mas sim de, dado que a crise econômica seria inevitável, quais os caminhos para que isso não acompanhasse também um colapso na saúde? Por aqui, “sem querer querendo”, parece que optamos por ter as duas coisas.

Liderança impacta!

Em toda crise, o líder e sua capacidade de liderar é primordial. E o que é liderar? É ser o exemplo, transmitir segurança e, principalmente, ter uma excelente comunicação com a sociedade.

Vale ressaltar que espera-se do líder preparação para ser julgado independente do resultado ou da eficácia das decisões, ou seja, o líder deve caminhar contra ventos e correntezas. É fundamental que o líder transmita confiança e segurança para seus liderados. Podemos citar como exemplo Churchil no pós Segunda Guerra Mundial quando, diante de toda a expectativa de que findo o conflito as dificuldades teriam desaparecido, ele lembrou que, na realidade, ainda havia muito por se fazer. Certamente isso é bem diferente de amenizar os problemas – ou mesmo, como tivemos em uma campanha presidencial de 2014, fazer troça de quem os coloca na mesa.

Aqui no Brasil, nesse momento, estamos vivendo um apagão de lideranças. A sociedade está perdida e procura se segurar em algo que lhe dê confiança. Mas o que vemos? Discursos desencontrados, piadas e brigas políticas. A única coisa que não vemos é um líder que luta pela sua nação e principalmente por vidas. É um desencontro de opiniões e comunicação.

O maior sinal dessa liderança desencontrada é o fato de que embora o assunto principal seja a pandemia, tudo que vemos por aqui são demonstrações diretas de tentar dar nome aos avanços – em vez de focar nos avanços em si.

A frase “não importa a cor do gato, contanto que apanhe o rato” nunca se fez tão ausente em nosso país quanto agora. Aparentemente, por aqui vale discutir muito mais a tonalidade do gato do que se efetivamente o rato foi pego.

Se há um momento em que se espera uma atitude mais altiva de direcionamento do Estado é esse. E se existe um momento mais tosco para demonstrações de poder, também estamos nele.

Comunicação importa!

Não podemos deixar de falar que a crise é um ambiente fértil para boatos, afinal temos uma sociedade sedenta por informações e respostas, e com isso vai acreditar em tudo que lhe é dito.

O grande líder tem o dever de informar a sociedade de forma clara, com a verdade, e principalmente, trazendo esperança e colocando as pessoas como parte da resolução do problema, não do problema em si.

A comunicação deve ser feita com empatia e quem comunica não pode esquecer que cada ouvinte passa por diferentes situações e está com os sentimentos vulneráveis.

Toda decisão tomada deve ser explicada de forma clara, qual o objetivo e resultados esperados, ou corre-se o risco não desprezível de perder em credibilidade.

Nesta crise do coronavírus peguemos um breve exemplo do que é mais eficaz do que o que tivemos por aqui. Na Alemanha, Angela Merkel foi a televisão e disse claramente: “desde a Segunda Guerra Mundial nosso país não enfrenta um desafio que depende tanto de nossa solidariedade coletiva”.

Uma comunicação como essa exime que algumas pessoas sejam irresponsáveis? Não, mas coloca-as como irresponsáveis de maneira mais direta.

Por aqui, nossa “grande estratégia” foi digna dos filmes dos Trapalhões: o presidente não levou a doença a sério e deu a entender que não precisava ser levada, quando governadores começaram a agir reagiu como se “estivessem em campanha política”, houve uma demissão do Ministro da Saúde que discordava dele e desautorizações públicas diversas de seus próprios comandados.

E daí que o presidente fala besteira?

Provavelmente neste momento o leitor se perguntará qual a diferença dos discursos do presidente porque “é claro que sabemos que ele está equivocado”. Pois é, nem tudo é tão límpido assim. Um terço da população acredita que a gestão de crise (se é que ela realmente existe) por parte do presidente é ótimo/boa. Na prática, temos uma quantidade não desprezível de pessoas no país que também acredita que a doença não é algo que demande tanta seriedade assim. E o impacto disso é relevante: por todo o país pessoas pressionam prefeituras e governos estaduais a respeito de uma abertura que precisa ocorrer já que, na prática, “nem é tudo isso aí essa doença”.

Comunicação em crise muda o jogo

Como foi dito anteriormente, tivemos um tempo razoável para começar uma campanha educativa sobre o que estava acontecendo na China, Itália, Espanha, EUA e o que poderia acontecer aqui aqui no Brasil.

Mas já que não tivemos essa capacidade de comunicação educativa pré crise, como deveria ser feito durante a crise?

A principal ação é intensificar campanhas educativas sobre o vírus explicando as consequências mais graves que ele pode ter quando a pessoa é contaminada, o que acarreta para o sistema de saúde e a importância de se proteger. Não há necessariamente um espaço de tempo para que uma mudança cultural seja colocada em prática, mas o máximo de informações possível sobre os cuidados com a doença é o que deveríamos estar vendo o tempo todo. Um exemplo é enviar mensagens de texto simples e educativas.

É essencial manter o bom relacionamento e uma comunicação eficaz com a imprensa. Imprensa vive de furos, então não dê motivos para que dúvidas sejam geradas em relação aos números de saúde, gravidade da crise e conflitos políticos. O que menos precisamos em um momento de crise são suposições.

Não existe gestão de crise sem uma comunicação alinhada e coordenada entre lideranças (como exemplo: federais, estaduais e municipais) para que a população não fique com dúvidas e incertezas em relação às medidas adotadas e, principalmente, qual liderança seguir.

Líderes têm como obrigação comunicar transparência com o cenário atual e previsões para o futuro.

Todas as ações devem ser comunicadas à população com antecedência, clareza, transparência, explicando o porque daquela medida e o resultado esperado. Se a população tem tempo para se programar, as mudanças tendem a ser menos traumáticas.

Caso medidas tomadas sejam revogadas, o líder deve pedir desculpas e explicar onde foi o erro e deixar claro quais serão as novas medidas adotadas para os novos resultados.

Importante perceber se a comunicação está clara e empática para mostrar que a sociedade também é responsável pelo avanço da crise.

A comunicação precisa ser transparente em como será uma futura realidade, as pessoas precisam sentirem-se seguras com o futuro para ter incentivos e agir no presente.

Infelizmente podemos citar inúmeros exemplos de lideranças políticas que têm desempenhado um importante papel e se comunicado de maneira eficaz com a sociedade e são eles: Boris Johnson (Reino Unido), Angela Merkel (Alemanha), Andrew Cuomo (NY), José Luis Martínez (Madrid), entre outros.

O Brasil está dando aulas em ruídos de comunicação e do que não fazer em termos de gestão de crise. É importante notar que artigos como este que você está lendo servem para que, no futuro, não se possa apontar que “não se sabem as causas do caos na lida com uma pandemia como a do coronavírus no Brasil” e, além do mais, também servem para suscitar uma discussão mais séria sobre como a comunicação política mais eficaz faz diferença quando do Estado se esperam ações efetivas de direcionamento.

Caio Augusto

Editor do Terraço Econômico.

Nara Borges

Mestranda em comunicação na contemporaneidade pela Cásper Líbero e chefe de gabinete do Dep. Estadual Daniel José.

 

Publicado no Terraço Econômico em 18/05/2020

Rendimento CDB: taxas e liquidez em 2020

Tendo em vista que você já leu nosso artigo-guia sobre o que é CDB, agora é hora de aprender resumidamente um pouco mais sobre como funcionam o rendimento e a liquidez desse tipo de investimento.

Tipos de rentabilidade do CDB

Todo CDB apresenta um tipo de rentabilidade que está entre os seguintes três tipos: prefixada, pós-fixada ou híbrida.

O CDB prefixado é aquele em que, no momento da aplicação, você já sabe exatamente qual será a remuneração em todo o período, pois ela já é declarada como fixa. Um exemplo: CDB com taxa de 5% ao ano e duração de um ano.

O segundo tipo, que é o CDB pós-fixado, é aquele em que o rendimento tem relação com alguma taxa que varia ao longo do tempo. Exemplo: CDB que tenha rentabilidade de 102% do CDI.

Já o terceiro é uma união dos dois primeiros, dado que uma parte do rendimento é conhecida por ser fixa e outra parte dependerá de alguma taxa que varia ao longo do tempo. Imagine como exemplo um CDB que remunere ao IPCA (variável) somado a 2% (fixo) para o período.

Investimento mínimo no CDB

Esta informação depende bastante de como a instituição financeira consegue fracionar o título que coloca para venda. Mas, geralmente, o valor inicial para aquisição de um CDB está em R$1.000,00 ou em múltiplos disso (R$5.000,00 ou R$10.000,00).

Isso ocorre porque o banco que coloca esses títulos no varejo tem um custo para o fazer e, na prática, colocar o valor de um CDB muito abaixo disso talvez não compense a operação. Importante notar que, ainda assim, existem instituições que permitem o investimento nesses títulos em valores menores.

Prazo de aplicação

A liquidez do CDB é outro fator conhecido já no momento da aplicação. Basicamente aqui temos dois tipos: o título de liquidez diária e o que não tenha essa liquidez.

Um CDB de liquidez diária é aquele que, independente do momento da aplicação, permite que haja um resgate do valor corrigido para aquele período. Geralmente, por oferecerem essa liberdade, remuneram menos do que o tipo sem liquidez, explicado a seguir.

Aquele CDB que não oferece liquidez diária é, em termos práticos, aquele em que o seu dinheiro ficará com a instituição financeira por um determinado período sem que você possa tirá-lo de lá e, ao final deste período, você receberá o valor corrigido (seja ele pós-fixado, pré-fixado ou híbrido, como já apresentamos).

Taxa de juros no CDB

Por se tratar de um investimento em renda fixa, o referencial do rendimento de um CDB é o CDI, que é uma taxa bastante próxima da Selic. Outros fatores de correção podem sim ser usados, mas para uma referência, um acompanhamento do rendimento, o foco se dá sobre o CDI.

Atualmente a Selic encontra-se em 3% ao ano e o CDI encontra-se ligeiramente abaixo disso (2,90%).

Como calcular o rendimento do CDB?

Em se tratando de uma taxa prefixada, o rendimento pode ser calculado corrigindo a aplicação pela taxa combinada ao início e deduzindo ao final o Imposto de Renda. Exemplo: um CDB de 5% ao ano para o período de um ano terá o rendimento de 5% menos o Imposto de Renda.

Quando se trata de uma taxa pós-fixada ou até mesmo híbrida, a simulação do investimento CDB torna-se um pouco mais complexa porque passará a depender da expectativa existente sobre a parte variável. Porém, dado que exista uma expectativa, a lógica é a mesma: trabalhar com o rendimento da aplicação do CDB (rendimento bruto) e deduzir o Imposto de Renda (rendimento líquido). Um exemplo: considerando que a Selic permaneça em 3% pelos próximos 12 meses, um investimento em CDB que renda 105% do CDI (que dá aproximadamente a Selic) apresentaria um resultado ao final de um ano igual a Selic deduzida do Imposto de Renda.

Importante notar que o Imposto de Renda que incide sobre um CDB é regressivo e funciona da seguinte maneira: para aplicações de até 180 tem a taxa de 22,5%, aplicações de 181 a 360 dias têm a incidência de 20%; entre 361 e 720 dias apresenta incidência de 17,5% e, para aplicações acima de 721 dias, a taxa passa a ser de 15%.

Investir em CDB é uma opção menos volátil e mais segura diante de momentos de incertezas como o que vivemos atualmente. Agora que você já sabe um pouco mais sobre o rendimento e a liquidez dele, bons investimentos!

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 11/05/2020

O que é CDB?

Talvez não por seu nome completo – Certificado de Depósito Bancário -, mas pela sua sigla, o famoso CDB, certamente você já ouviu falar disso. Mas, você sabe o que significa? Neste artigo-guia você vai ficar a par desta alternativa de investimento.

Como funciona o CDB?

CDB nada mais é do que um título de renda fixa que os bancos emitem para captar recursos que serão usados em suas atividades e projetos. Assim como em um título do Tesouro Direto em que você financia a dívida do governo, no CDB você está emprestando dinheiro para um banco tocar suas atividades, também em troca de uma taxa acordada ao início, logo no momento da compra.

Quais são os tipos de CDB?

A taxa que você combina com o banco no momento da compra pode ser de dois tipos, pré-fixada ou pós-fixada.

Prefixado

No caso da taxa pré-fixada, você sabe exatamente qual será o rendimento percentual do período em que deixará aplicado o dinheiro com o banco e, em função disso, acaba por acordar também que o dinheiro ficará com o banco naquele período todo. Imaginando um exemplo: você quando compra um CDB pré-fixado de 5% ao ano com prazo de um ano já sabe que aquele título comprado nesta data te renderá um valor corrigido em 5% (menos os impostos no momento do saque) daqui a um ano e antes da conclusão deste período você não poderá retirar o seu dinheiro do banco. Existem bancos também que oferecem a opção do pós-fixado com liquidez diária, a diferença é que você pode ter acesso ao dinheiro a qualquer tempo.

Pós-fixado

Já quando se trata de um CDB pós-fixado, o rendimento estará atrelado a alguma taxa, mas de olho em sua variação ao longo do período. Exemplo: você pode adquirir um CDB cujo rendimento seja de 102% do CDI e, na prática, isso faz com que, no período em que você deixar seu dinheiro com o banco (que pode ser de um dia para o outro ou mesmo deixar o título até o final do prazo), ele tenha o rendimento daquela taxa combinada. Assim como no caso acima, também temos o inverso em termos de liquidez: há bancos que colocam CDBs pós-fixados sem liquidez imediata.

Com uma Taxa Selic de atuais 3%, você leitor deve ter notado que há uma diferença razoável entre o CDB de taxa pré-fixada e o de taxa pós-fixada. Isso ocorre porque os bancos irão te remunerar mais por um tempo em que você não terá liquidez (com os títulos pré-fixados) do que pela possibilidade que você tem de sacar o dinheiro em liquidez diária (com os títulos pós-fixados). Aqui apresentamos apenas um exemplo numérico, mas realmente os títulos que você encontra têm esse diferencial – e isso se explica pela diferença de liquidez entre eles.

Híbridos

Existe ainda um terceiro rendimento possível, o híbrido. Neste o combinado inicial envolve duas taxas diferentes, sendo que uma estará fixada e outra não. Um exemplo: você pode encontrar um CDB que lhe pague o IPCA adicionado a alguma taxa fixa ao longo do tempo. Este terceiro tipo na realidade é uma subdivisão do CDB pós-fixado, dado que mesmo com essa diferente remuneração, ele funcionará da mesma maneira, com o investidor deixando seu dinheiro com o banco pelo período acordado, sem liquidez diária e tendo ao final do processo o recebimento do valor corrigido. Um exemplo desse caso híbrido é um CDB que pague o IPCA (índice de inflação) + 2% ao ano.

O que é CDI e como ele se relaciona com CDB?

A diferença entre o CDB e o CDI é que o primeiro é o título e o segundo é a remuneração associada. CDI significa Certificado de Depósito Interbancário, que é a taxa de juros utilizada entre os bancos quando se emprestam recursos. Ela está sempre nas proximidades da Selic, ligeiramente abaixo dela.

Como funciona o rendimento do CDB?

A simulação de rendimento de um CDB leva em conta o período que você deseja manter o seu dinheiro investido. Independente de ser pós-fixado ou pré-fixado, você pode comparar o investimento levando em conta os mesmos períodos.

Vamos para um exemplo. Supondo o mesmo CDB que apresentamos na explicação da diferença entre pós e pré fixados logo acima, vejamos quais os rendimentos para um ano. Condições: CDB pré-fixado pagará 5% ao ano, CDB pós-fixado pagará 102% do CDI (com liquidez diária) e a Selic terá os atuais 3% (sendo que, por aproximação e para facilitar as contas, teremos um CDI de 3% também). Outra suposição importante: cada título terá o valor de R$1.000,00. Vamos aos resultados:

 

  • CDB pré-fixado terá rendimento bruto de R$50,10 e, após o Imposto de Renda (de 17,5%), seu valor a receber será de R$1.041,33; CDB pós-fixado terá rendimento bruto de R$1.038,26 e, após o Imposto de Renda (também de 17,5%), você poderá retirar R$1.031,56.

 

Como bem apontado anteriormente, você pode conferir que há uma diferença entre os dois CDBs: tendo em vista que o pré-fixado não apresenta liquidez diária, o banco te remunera a mais por isso e, na prática, o “preço” da liquidez diária é ter um rendimento menor, afinal, não existe almoço grátis. Importante ressaltar que também podemos ter pré-fixados de liquidez diária e pós-fixados sem liquidez diária, mas a remuneração tenderá a ser sempre maior para os casos em que você não tenha a liquidez mais próxima.

Qual CDB tem mais rendimento?

Os CDBs que apresentam maior rendimento são aqueles que pagam a mais pela liquidez tomada do investidor. Ou seja, em termos práticos, o CDB que não tem liquidez diária tende a ter rendimentos maiores do que aquele que a tem. Isso é a demonstração de que o dinheiro tem valor no tempo – e que quando você aplica seus recursos com uma instituição financeira sem poder movimentar esse dinheiro por um tempo, ela deve lhe remunerar por esse tempo.

Quando vencem os títulos do CDB?

Como apresentado aqui neste guia, o prazo de resgate é conhecido no momento em que se faz a aquisição do CDB. É possível encontrar basicamente dois tipos: o que apresenta liquidez diária (que pode ser resgatado a qualquer momento) e outro que não tem resgate imediato. Para este segundo caso, temos desde o resgate em meses quanto também em anos. É preciso estar atento também a essa característica antes de investir em um CDB.

Investimento em CDB tem declaração no IR?

A tributação, como de costume nos investimentos, leva em conta o prazo investido. Existem dois tipos de impostos que você pode encarar num CDB.

O primeiro é o Imposto Sobre Operações Financeiras (o IOF), que incide de maneira regressiva durante os primeiros trinta dias da operação. Ele começa em 94% do rendimento para o caso de você o manter por um dia e deixa de existir após o trigésimo dia.

Já o Imposto de Renda (o IR) estará sempre presente independente do período do investimento, porém irá sendo reduzido conforme ele se esticar em prazo, da seguinte maneira: mantendo-o até 180 dias, ele será de 22,5%; de 181 a 360 dias, de 20%; de 361 a 720 dias, de 17,5%; e acima de 721 dias, de 15%. Veja que existe um estímulo real para que você mantenha seu dinheiro com a instituição financeira por mais tempo, pois no fim das contas seu rendimento terá menor incidência de imposto de renda.

Tem garantia de crédito pelo FGC?

O Fundo Garantidor de Créditos assegura que, caso a instituição esteja nele (e você pode consultar), você possa ter garantidos até R$1.000.000,00 em caso de conjuntas e R$250.000,00 em contas individuais de volta (por instituição financeira) no caso dela vir a falência. Essa é uma situação que não ocorre com tanta frequência, mas é importante notar que esse risco de falência existe e deve ser levado em conta no momento de comprar um CDB. Veja as regras completas desse mecanismo.

CDB x Poupança

As diferenças são basicamente três: o rendimento, como ele ocorre e os impostos incidentes.

Sobre o rendimento, a Poupança está sujeita a Selic e a Taxa Referencial, enquanto o CDB pode ter possibilidades diferentes, como ser fixo, ter relação com o CDI ou mesmo ser híbrido (ter parte fixa e parte que varia ao longo do tempo).

O meio como os rendimentos ocorrem também são diferentes: na Poupança ele ocorre uma vez ao mês (o chamado “aniversário”) e no CDB ele ocorre diariamente.

Já sobre os impostos, enquanto a Poupança não tem IOF nem IR, o CDB tem incidência de IOF e IR nos primeiros 30 dias e IR sempre.

CDB x LCI/LCA

As diferenças entre CDB e LCI/LCA estão em dois pontos: tributação e liquidez.

Em termos de tributação, CDB tem incidência de IR, enquanto LCI/LCA não.

Sobre a liquidez, temos que o CDB pode ser de liquidez diária ou não, mas LCI/LCA tem sempre algum prazo para que seja feito o resgate dos valores corrigidos (geralmente é de no mínimo um ano).

CDB x Tesouro Direto

São duas as diferenças: no CDB a garantia dada de pagamento é pela instituição (e, em caso de não pagamento, pela cobertura do FGC), enquanto no Tesouro Direto a garantia de pagamento é feita pelo próprio Tesouro Nacional e, em relação aos rendimentos, enquanto no CDB você sabe que a correção será feita na taxa acordada pré ou pós ao início, no Tesouro Direto você tem essa segurança apenas segurando o título até o final, porque caso decida vendê-lo no meio do caminho (com exceção ao Tesouro Selic, que tem rendimento acumulado o tempo todo), estará sujeito ao que o mercado está pagando no momento – e isso pode resultar em um rendimento positivo ou negativo.

Quais são os passos para investir em CDB?

Primeiro de tudo, você precisa levar em consideração que deseja ter uma segurança maior ao longo do tempo e que precisará contar com aqueles recursos como em uma reserva de emergências. Com esse objetivo, é interessante que a alocação seja feita em um CDB pós-fixado de liquidez diária.

Sendo o caso de uma aplicação que tenha foco em um prazo maior de tempo, que o recurso não precise ficar disponível no curto prazo e que a ideia seja buscar rendimentos maiores para o futuro, passa a ser mais vantajoso que a aplicação seja em um CDB prefixado de prazos maiores.

No fim das contas, o mais importante é inicialmente conhecer seu perfil de investidor e, em segundo lugar, conhecer minimamente a instituição financeira que você está afim de comprar o CDB. Por conhecer minimamente entenda verificar se ela consta na lista de instituições garantidas pelo FGC e também o quanto ela está pagando em rendimentos em relação ao que se tem de taxas de renda fixa no momento.

Agora que você já conhece mais sobre CDB, aproveite para fazer bons investimentos neste mecanismo de renda fixa!

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 11/05/2020

O tripé Bolsonaro está em ruínas

Diretamente dos tempos do pós segundo turno das eleições de 2018, ficamos sabendo pelo recém-eleito que, para além de uma plataforma baseada no liberalismo de seu “Posto Ipiranga”, teríamos também um bastião da justiça para demonstrar que não haveria ali dúvidas sobre o forte combate à corrupção. Sergio Moro, convidado para o Ministério da Justiça e Segurança Pública seria, ao lado de Paulo Guedes no Ministério da Economia, um pilar fundamental do governo.

Temos então, desde o princípio, que o governo procurou se sustentar basicamente sobre o seguinte tripé:

  • – O estabelecimento de uma economia liberal, pautada em reformas que procurassem desburocratizar e desestatizar a economia do Brasil;
  • – O combate da corrupção e do crime organizado;
  • – A defesa dos bons costumes e de valores apresentados como conservadores.

Você leitor já deve ter verificado nesta mesma coluna que o primeiros dos pilares tem caminhado para a ruína. Isso ocorre porque há em curso o Plano Pró Brasil, que é uma espécie militar do PAC petista que vai buscar, da mesma maneira vaga como tentado há poucos anos (e também em outros períodos anteriores, como o regime militar), um programa de grandes obras públicas para gerar empregos. Com uma situação fiscal já insustentável – é sempre importante lembrar que 2020 será o sétimo ano seguido de déficit fiscal – e agravada pelos desembolsos necessários adicionais em função da batalha contra o coronavírus, a ideia inicial de grandes nomes da ala econômica como o Secretário do Tesouro Mansueto Almeida de deixar os desembolsos para o alívio dos efeitos econômicos com a pandemia apenas para a duração dela estão indo por água abaixo.

A sexta-feira

Nessa última sexta-feira, dia 24/04/2020, mais precisamente a partir das 11 horas, o segundo item do tripé ruiu – ao menos oficialmente – com o anúncio da saída do agora ex-Ministro da Justiça Sergio Moro. Esse anúncio não foi apenas o de “um pedido de demissão”, mas sim de algo bem maior: o do paradoxo de um governo teoricamente anti-corrupção que, ao passar dos dias, se revela como cada vez menos republicano.

Durante a dura apresentação de motivos que motivaram sua saída, o principal ponto ressaltado por Moro foi que a promessa de autonomia em sua atuação não teria sido cumprida pelo Presidente. Após comentar de alguns casos em que teria sido publicamente desautorizado pelo ex-chefe, disse que o grande estopim do não cumprimento dessa promessa foi a exoneração de Maurício Valeixo do comando da Polícia Federal (PF). Segundo Moro, a exoneração de Valeixo, realizada por Bolsonaro de maneira unilateral e sem confirmação de que seria feita antes de que de fato saísse no Diário Oficial da União, não teria sido realizada por motivos técnicos, mas por motivos exclusivamente políticos.

A história é mais longa e ainda carece de maiores esclarecimentos, inclusive estando em uma verdadeira guerra de narrativas com capítulos que envolveram de um pronunciamento de quase cinquenta minutos do presidente – em que o assunto principal quase não apareceu, sendo sucumbido por uma lavagem de roupa suja que lembra um fim de namoro conturbado – a troca de mensagens no Twitter. Mas de maneira geral, o que ficou entendido é que Bolsonaro gostaria de um novo chefe da PF que fosse mais “alinhado”, tendo um maior comprometimento consigo mesmo e consequentemente, um menor comprometimento com investigações autônomas e imparciais. Cabe destacar que os filhos de Bolsonaro ultimamente vem sendo investigados. Flávio Bolsonaro está na mira devido a um esquema de “rachadinhas” (servidores comissionados que estariam devolvendo parte do salário a ele), enquanto Carlos Bolsonaro é investigado como sendo o mentor do chamado “gabinete do ódio”.

Após o anúncio de Moro, todos ficaram na expectativa da resposta de Bolsonaro acerca do episódio. Essa resposta veio por meio do já citado pronunciamento que, per se, merece um comentário especial. Cercado por seus Ministros (sobreviventes), no que talvez tenha sido um dos pronunciamentos mais constrangedores da história da política brasileira, falou de tudo um pouco. De falas totalmente anacrônicas do presidente (como o fato de que até o esforço de “desligar o aquecedor da piscina do Palácio da Alvorada” ele havia feito, dando a entender que seu compromisso com a austeridade era real) até a uma tentativa bem barata de comoção (como quando afirmou que “sempre abria o coração para o Sergio Moro”, no que aparentemente acredita nunca ter sido correspondido).

Ministro da Economia – pelo menos por enquanto – Paulo Guedes também acabou sendo um dos destaques, mesmo sem ter dito nenhuma palavra. É que, se uma imagem vale mais do que mil palavras, a imagem de Guedes durante o pronunciamento pode estar gritando que ele pode ser o próximo ministro que vai passar no RH: era ele o único informalmente vestido, sem paletó, de máscara e com um sapato que mais parecia mostrar que na verdade ele estava descalço. Isso sem falar nas singelas e contidas duas palmas dadas após o encerramento da longa fala de Bolsonaro.

O que tudo isso nos mostra?

É importante apontar que a saída de Moro, além de revelar toda a hipocrisia de um governo supostamente “anti-corrupção”, também revela todo o autoritarismo de um presidente que acredita – ao menos em sua cabeça – ser dono de uma nação. Ele inclusive chegou a citar algo, dentro de suas tergiversações diversas, de que “a Polícia Federal se preocupou mais com a Marielle [Franco] do que com seu chefe supremo”, quando apontou que não teria recebido a mesma atenção a investigação feita pelo órgão em relação ao atentado que sofreu durante a campanha presidencial.

A impressão que se tem é que parece que tudo pode ser feito, desde que não desagrade ao todo poderoso presidente Bolsonaro. O ex-Ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, que o diga, já que foi outro que ousou a desagradar o presidente e veio a sofrer o poder da “canetada presidencial” que culminou em sua saída do Ministério.

Sobre o terceiro item que compõe o tripé de Bolsonaro, cabe pedir uma mãozinha para Walras. Segundo Walras, se “n – 1” mercados estão em equilíbrio, consequentemente os “n” mercados estarão. O pressuposto de Walras também pode ser utilizado aqui, pois se dois itens de um tripé estão em ruínas, consequentemente o terceiro também estará no chão em breve. Temos dessa maneira que ficará bastante insustentável a defesa do conservadorismo e dos bons costumes sem os pilares da economia liberal e da justiça isenta.

Moro apontou como principal motivo de sua saída a sequência de momentos em que fora desautorizado por Bolsonaro e que a gota d’água teria sido a exoneração do diretor da Polícia Federal. A mesma promessa de não interferência havia sido feita a Paulo Guedes e, pelo que podemos observar com o tal Plano Pró Brasil – que sequer contou com a presença do Ministro da Economia em sua apresentação -, não é possível descartar que ele seja o próximo a desembarcar do atual governo.

Sem o pilar da Justiça Isenta e nem o da Economia Liberal, até quando o governo Bolsonaro sobreviverá? É mister lembrar que quando o comandante do navio manda todos aqueles que dão as más notícias embora, não fica ninguém para avisar de alguma eventual rachadura – e então quando se nota o naufrágio já é inevitável.

Collor e Dilma sabem bem o que esse “isolamento junto aos que não te contam as más notícias” significa e Bolsonaro, se ainda quiser se atentar a isso (e não seguir culpando o mundo por suas próprias trapalhadas), talvez possa reverter a situação.

Mas não dá para negar que a impressão é de que o jogo efetivamente já acabou.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 27/04/2020

Plano Pró-Brasil: desagradando a gregos e troianos

Já está amplamente enraizado como conhecimento popular tupiniquim que algo dificílimo de ser feito é o tal do “agradar a gregos e troianos”. Isso quer dizer que não tem jeito: ao tomar decisões, ainda mais as que envolvem muitas pessoas – ou populações -, alguém(ns) sempre ficará(ão) desagrado(s). Mas e o “desagradar a gregos e troianos”, também seria tão difícil? O Plano Pró-Brasil mostra que não.

Não é surpresa para ninguém que a crise sanitária provocada pelo Coronavírus está provocando diferentes reações de governos ao redor do mundo e que, além da sua elevadíssima taxa de transmissão e contágio, essa doença também está sendo veloz em levar recessão econômica aos países. Considerando esse cenário de profunda desaceleração econômica global, a maior desde 1929 segundo o FMI, é que o governo federal apresentou um plano de retomada pós-crise intitulado como Plano Pró-Brasil. Esse plano, que parece se inspirar no famoso “Plano Marshall”, visa reativar os investimentos em infraestrutura, objetivando criar 1 milhão de empregos com obras públicas, prevendo aportes de R$ 30 bilhões até 2022.

Apesar do momento de profunda crise, o Plano Pró-Brasil parece estar muito longe de ser uma solução ou sequer de ser um paliativo eficiente. Tal diagnóstico se dá pelo fato de que, tais quais ideias como congelar preços e inserir cláusulas de conteúdo nacional em produções diversas (como meio de incentivar a indústria brasileira), o mote deste programa falha em não ter determinações em termos de prazos e objetivos reais, mantendo-se apenas apegado a chavões e expressões bonitas que nada apresentam em termos de ideias novas ou eficientes.

Se por um lado esse plano vai na direção oposta a toda agenda liberal que estava sendo praticada pela atual equipe econômica do Ministério da Economia – a de privatizações e a de redução do gasto público – por outro, os críticos dessa mesma agenda liberal criticam a timidez e o direcionamento dos gastos desse plano. Ou seja: trata-se de um plano que desagrada a todos de certo modo.

Acerca do Plano Pró-Brasil também falta consenso, e até mesmo dentro do próprio governo federal. Falta de consenso é eufemismo, dado que as diretrizes do plano aparentemente desagradam até mesmo o Ministro da Economia, o “posto Ipiranga”, mais conhecido como Paulo Guedes. O secretário de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, Salim Mattar, também teceu considerações acerca da inviabilidade do atual esboço do Plano Pró-Brasil. Segundo o secretário, essa inviabilidade consiste na incapacidade atual do governo brasileiro de financiar um plano nos moldes do Plano Marshall.

Outro “calcanhar de Aquiles” do Pró-Brasil é a sua associação com o malfadado Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC) – feita, inclusive, pelo próprio Guedes. Mesmo correndo o risco de cair em anacronismo, a comparação entre os dois planos é quase que involuntária, dado que os dois planos envolvem elevados gastos públicos direcionados para o setor da construção civil e um certo descompasso entre ideias megalomaníacas e seus respectivos custos de execução. Esse tipo de comparação é outro ponto negativo, dado que o PAC serviu como instrumental para um gigantesco esquema de corrupção, tendo envolvido as maiores empreiteiras do país.

A expressão “de boas intenções o inferno está cheio” também ajuda a explicar esse plano. Tal qual o PAC, a ideia é de, em um período bastante complicado para a economia, colocar o Estado como sendo motor da manutenção das atividades. Em teoria isso não parece ser ruim, dado que, por ser o ente com maior capacidade de endividamento, o Estado realmente tem cacife para isso. Porém, os entornos de todo tipo de programa desse tipo em nosso país de Estado gigante mostram que, no fim das contas, quem tiver mais força conseguirá recursos (independente de precisar deles ou não), projetos tentados anteriormente com ineficiência mais de uma vez – como a tal da indústria naval brasileira – voltam para uma nova malfadada tentativa e, é claro, a bonita foto em que são enquadradas as supostas “conquistas do Brasil Grande” esconde a parede manchada dos custos que ficarão para as próximas gerações.

E não é força de expressão: no caso do PAC pagaremos os subsídios até 2060 – e, aparentemente, apesar do “Plano Marshall” da época, não tivemos avanços na produtividade do país, embora algumas empresas tenham gostado bastante do dinheiro barato utilizado para os seus projetos.

No fim das contas, tenha o leitor bastante claro em sua mente que, quando o dinheiro barato é colocado na mesa, ninguém é tolo de não pegá-lo. Essa ideia de que “apenas quem precisaria se utilizaria de recursos de um programa desse tipo” tapa o sol com a peneira. Em plena época de pandemia, em que a trajetória da dívida pública (aparentemente terminada com a reforma da previdência, dado que nada de tão relevante assim veio após ela) mostra que uma estabilidade esperada para 2022/2023 em torno de 80% só vá acontecer com sorte após 2030 superando 100% do PIB, é bastante temerário que se pense com seriedade em um plano que envolva a ampliação da participação do Estado de maneira maciça na economia.

Um adendo importante sobre esse tipo de programa é que ele promove na economia o que chamamos de efeito crowding out. Esse efeito, saindo do economês, significa o seguinte em termos práticos: já que o governo está atuando nesse setor, não faz sentido que eu em vias privadas atue. A grande dificuldade sobre isso é que há impossibilidade lógica do governo atuar em todas as áreas possíveis e, quando começa a ficar muito cara essa aventura empreendedora e ele decide sair, deixando muitos setores que talvez nem deveriam estar presentes com reclamações evidentes.

Novamente citamos aqui a indústria naval como exemplo: mesmo sendo mais eficiente adquirir navios estrangeiros vemos uma tentativa por parte do Estado de tempos em tempos de “fazer uma indústria nacional” disso; na prática o dinheiro é despendido, quando fica caro o Estado pula fora e a conta, juntamente com os desempregados, ficam, com o perdão da expressão, a ver navios.

É importante ressaltar que esse artigo não quer dizer que o Estado tenha de ter efeito nulo sobre a pandemia que vivemos atualmente. Ele tem mesmo que participar com medidas de alívio aos agentes produtores e consumidores. Porém há uma diferença notável entre oferecer um alívio durante o tempo da pandemia e esticar o rol de gastos do governo de maneira mais perene – especialmente levando em consideração que, caminhando para o sétimo ano seguido em déficit primário, não tenhamos condições reais de arcar com esse tipo de ideia.

Desse modo o Programa Pró-Brasil comprovou que sim, é possível desagradar a gregos e troianos sem dificuldade alguma. Do lado liberal ficou a ilusão de que esse governo viria para permitir que a iniciativa privada atuasse onde fosse mais eficiente e que o Estado se manteria nas regras do jogo. Já do lado mais estatizante fica o reclame de que “se a Alemanha faz tanto pelo seu povo nesses tempos difíceis podíamos fazer mais por aqui” (deixando de levar em conta, tal qual o governo que criticam tanto ser neoliberal ou algo que o valha, a dificuldade em fechar as contas que já dura quase uma década).

A receita para fazer isso é razoavelmente simples e está sendo executada agora novamente. Basta criar um plano que pretenda elevar os gastos públicos a partir de investimentos em um setor econômico previamente escolhido, provavelmente o da construção civil, que além de ser de baixa complexidade, também está relacionado a graves casos de corrupção na história recente. Claro, não podemos esquecer do principal, tudo isso é para “ativar a economia do país”.

Pelo visto, a pergunta sobre se veríamos esse filme novamente está sendo respondida a passos largos. Sim, veremos.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 24/04/2020

As três crises brasileiras em 2020

O título deste artigo talvez não soe tão intuitivo ao leitor. “Coronavírus nos traz uma crise na saúde, a paralisação das atividades nos traz uma crise econômica, mas qual seria essa terceira?”. A terceira é a mais surreal e evitável de todas elas: a política.

A visão pessoal do presidente do país, apesar de discursos que oscilaram entre o soft e o apontamento direto de que os governadores seriam responsáveis pela crise econômica que se aproxima, é de que as pessoas não deveriam temer o coronavírus porque 70% da população será contaminada e “não tem que se acovardar” com isso. Temos por aqui um dos solitários quatro líderes mundiais que apontam ser uma besteira (ou, como dito por aqui, uma “gripezinha”) toda essa preocupação que o mundo tem tido com essa doença.

Sobre as três crises

A primeira é a de saúde, dado que a rápida disseminação dessa doença faz com que o número de hospitalizados aumente, com necessidade inclusive de isolamento e, na prática, a capacidade dos hospitais se reduz para todos os outros casos. Pode mesmo ser uma doença com mortalidade relativamente baixa – estando em uma faixa entre 1~5% -, mas quanto mais contaminados, maior a necessidade hospitalar e maior o número de mortos. É justamente por isso que se busca desacelerar a velocidade de contágio com as medidas de isolamento social.

Em segundo lugar vem uma onda forte que é a crise econômica. A paralisação total ou mesmo parcial dos negócios ao redor do mundo faz com que as receitas caiam vertiginosamente e, por essa geração de renda diminuir, logo diminui-se a capacidade de manter as estruturas e os empregos. Com isso, uma diminuição considerável da renda que circula na economia ocorrerá e isso se traduzirá em uma forte recessão global. De acordo com o FMI, será a maior recessão desde 1929. Diversos países estão empenhando esforços em termos de política fiscal para suavizar a situação, mas mesmo diante disso uma recessão já está entre nós.

O aspecto sui generis que faz do Brasil ser Brasil é que por aqui não ficamos satisfeitos em ver que a situação está complicada o suficiente, é preciso sempre dar um passo a mais em direção ao abismo. Seguindo a linha de “fim do toma lá da cá” ou o que quer que isso signifique, o presidente afirma ser contrário a qualquer tipo de negociação com o Congresso e, ontem mesmo, discursou sobre isso para manifestantes que pediam uma intervenção militar. Fica difícil até para os analistas de cenários econômicos e políticos realizarem a descrição do tamanho do problema que tudo isso representa.

A terceira crise acelera a piora das primeiras duas

As últimas semanas têm sido tão intensas que talvez tenha escapado ao leitor que, na virada de 2019 para 2020, tínhamos como problema mais relevante a guerra comercial entre EUA e China. Mesmo essa, entre as duas maiores economias do mundo – com fortes repercussões globais -, ficou estacionada diante dos graves problemas que 2020 trouxeram (o coronavírus, a crise econômica e a guerra de preços do petróleo).

Isso significa em termos práticos que o mundo entendeu – ao menos até o momento em que este artigo é escrito – a diferença entre o importante e o urgente. O urgente não está batendo na porta, está derrubando a porta.

Porém, por aqui, a desacreditação por parte do líder do executivo em relação ao coronavírus é tamanha que até quem liderava a operação dessa guerra contra o coronavírus foi trocado porque “ofuscava a liderança do presidente” – só não se sabe que liderança era essa. Ah, a melhor parte talvez você não saiba: Teich, que entrou no lugar de Mandetta, pediu 15 dias para fazer um plano de combate ao vírus. O senso de urgência nesse país, no tocante ao setor público e sua capacidade de atuação, é assustadoramente inexistente. E como se fácil fosse, o líder do poder executivo decide que é hora mesmo de empenhar esforços contra “todos que o perseguem”.

Essa crise acelera as outras duas por um motivo razoavelmente simples de entender: enquanto as prioridades tanto do presidente quanto do congresso forem de quererem carimbar o momento com sua marca de “salvadores da pátria” e não de enfim encaminhar soluções, na área da saúde seguiremos sem diretrizes adequadas. Temos uma coordenação governamental entre os entes absolutamente desorganizada e isso dá a impressão de que quem é favorável ao isolamento é “politicamente contrário” a alguém. Na economia, todo tipo de auxílio anunciado será cada vez mais ineficiente, dado que, com um caos na saúde acima do que podemos lidar, a crise econômica será ainda mais severa e alongada.

Reorganização em uma organização que não existia

Os países mais desenvolvidos discutem soluções para a reabertura após esse período de quarentena. Mesmo em países como a Alemanha tem-se uma noção de que o conceito de normalidade pós-coronavírus é bastante relativo e, até o presente momento, estamos andando sobre uma fina camada de gelo em um lago imenso de incertezas.

Por aqui, lutamos para descobrir como fazemos para colocar em ordem algo que constantemente é desarranjado ou desacreditado.

Essa desorganização imensa vai ter um saldo não desprezível em termos de saúde e de economia. Vejamos as cenas dos próximos capítulos para acompanhar quais serão também os efeitos políticos.

Uma coisa é certa: trata-se de um dos momentos mais inadequados da história do Brasil para termos entrado em uma contenda política. Essa terceira crise vai acelerar a intensidade das outras duas e o nosso país sairá muito machucado disso tudo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 20/04/2020

Coronavírus e pandemias: tem como estar preparado?

Dentre as diversas questões que o coronavírus levantou, uma delas é de natureza filosófica: seria essa doença um cisne negro ou não?

Cisne Negro (originalmente Black Swan) é um termo que, popularizado recentemente por uma obra homônima de Nassim Taleb, significa: aquele evento que, de tão inesperado e pouco provável, pega a todos de surpresa quando ocorre.

Inicialmente podemos admitir que, então, o coronavírus foi um desses eventos. Mas não dá pra descartar que certos avisos foram “dados” em anos anteriores. O que ficou mais famoso nos tempos recentes é o dado por Bill Gates, em um TED de 2015 que falava justamente do que seria a próxima grande preocupação do mundo: a disseminação de algum vírus contagioso tal qual foi o influenza H1N1.

Nas empresas, abertas ou não, o desafio existe

Tirando todo o texto motivacional possível, é imaginável que todos nós, como pessoas ou empresas, sempre precisamos de um empurrãozinho (ou de uma bela porrada como essa) para repensar os meios como atuamos em nossos respectivos mercados e em nossas relações sociais. Desde pequenos hábitos como o costumeiramente oriental de ir trabalhar utilizando uma máscara quando está doente (afinal, ninguém, conhecido seu ou não, precisa ter contato com seu vírus infeccioso), até o avançar mais profundo de seu negócio para o mundo digital, todos repensamos hoje o que talvez já poderíamos estar fazendo para lidar com o que vem a seguir.

Em um curtíssimo prazo, se seu negócio está fechado agora o “alívio temporário” de não ter de pensar em como lidar com aglomerações internas torna-se um martírio conforme se aproxima a época de retomar as atividades. Qual será o “novo normal”? O que as pessoas chamarão de “normalidade” passado esse cenário tão incerto?

Já você que faz parte da chamada cadeia essencial e continua trabalhando, deve estar vivendo com a angústia diária de não só redobrar os cuidados internos como passar o máximo de vezes possíveis a mensagem de que nenhum dos colaboradores deve achar que o cenário é “tranquilo o suficiente” para se reunir com amigos em casa (agora que muitos deles estão parados mesmo) e nem que é “alarmante o suficiente” para que todos entrem em parafuso.

Como será a volta?

 Está aqui um dos maiores mistérios, logo em seguida de “quanto tempo vamos demorar a mais em quarentena”: como é que vamos retomar as atividades (ou ampliá-las, caso você siga ativo) após tudo isso?

Em primeiro lugar é preciso admitir que talvez as mudanças que estejam ocorrendo agora tenham caráter mais permanente do que inicialmente possa parecer. O “vamos abrir os negócios de novo” pode até ocorrer, mas não dá para descartar que ocorra um receio das pessoas de se juntarem novamente. Sendo gestor de negócios, você precisa levar isso em consideração.

Por levar isso em consideração, pense que novos meios de consumo e utilização de serviços deverão emergir, se é que já não estão surgindo. O foco em digitalizar sua atuação ao máximo ou restringir aglomerações de qualquer natureza no caso de não ser possível digitalizar tudo, de oferecer proteção em termos de contaminação (possivelmente usar máscaras ou até face shields, oferecer álcool gel, etc) e de compreender que o receio em retomar “ao normal” estará presente em nossa nova realidade.

Um novo mundo, vindo ou não, demanda preparação

 Independente do modo que você visualize ocorrer a recuperação após essa pandemia, é preciso se preparar para um mundo que com chances não desprezíveis será realmente diferente.

Possivelmente você deve estar pensando que este que aqui escreve não está olhando para as tentativas intensas – e, não seria mentiroso dizer, até desesperadas mesmo – de digitalização de negócios que estão ocorrendo nesse exato momento. Mas, sinceramente, não falamos aqui de uma “via alternativa de faturamento”, mas sim de uma inserção real nesse universo.

Como a tecnologia tem sido utilizada para otimizar seu negócio? Não seria uma boa ideia aproveitar esse momento para repensar a imensa quantidade de papel utilizada ou nos deslocamentos desnecessários de pessoas dentro de suas instalações físicas? Pensar em meios mais eficientes de fazerem as informações circularem deve estar em pauta. Seja tanto pelo motivo de reduzir custos – dado que não está saindo de graça para ninguém essa bordoada do coronavírus – quanto pela visão de reduzir mesmo contato humano ao mínimo necessário.

Teorias de mapeamento de processos deverão ganhar mais espaço com tudo isso. Digitalização e otimização também.

Nunca foi missão fácil empreender. Mas olhando a parte cheia do copo, aquela oportunidade que você que é inovador sempre aguardou para gerar mudanças positivas e necessárias aos seus negócios (e sua vida) parece ter chegado.

Difícil não entender o tamanho do chacoalhão que o coronavírus ofereceu – mesmo aos mais preparados.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 17/04/2020

O que importa olhar no Boletim Focus

Dentro do campo das previsões econômicas brasileiras temos um apanhado de dados apontados pelo mercado publicado semanalmente pelo Banco Central. É o Boletim Focus, divulgado nas manhãs de segunda-feira com expectativas de agentes do mercado para métricas como PIB, taxa Selic, câmbio e IGP-M (variáveis que estão presentes na vida de todos nós).

Até aí tudo bem, é realmente interessante que se tenha um acompanhamento do tipo. O problema é que, tal qual sobre as previsões mais amplas dos economistas, muitos têm um reclame sempre presente: o de que “não adianta nada olhar para o Focus porque ele nunca acontece”. Se você também está nesse time, tenho uma boa notícia pra você: há sim motivos para se acompanhar o Focus semanalmente.

É correto afirmar que as previsões que lá constam não vão acertar “a mosca”. Para ser bem sincero, é difícil ter quem em uma determinada altura do ano consiga acertar tantos dados assim com uma precisão impressionante. Ainda mais em um país como nosso em que a estabilidade passa bem longe de ser uma realidade. Apenas para ilustrar o que digo: menos de três anos após superar dois dígitos a inflação se colocou abaixo do centro da meta e de lá não saiu mais; a taxa básica de juros saiu de um patamar bastante elevado para seu mínimo nominal histórico em menos de quatro anos; e o câmbio, bem, saiu de uma faixa inferior a R$3,00 para ter como “novo normal” a faixa de R$4,00~R$4,50+.

Então, pra começo de conversa, sim estão corretos os que dizem que o Focus não acerta suas previsões. Em um país como o nosso, estranho mesmo seria que o um boletim semanal em qualquer altura do ano conseguisse cravar dados econômicos do final do mesmo (ou até dos próximos).

Mas então o que devemos olhar no Boletim Focus?

Há dois itens importantes a serem observados no boletim semanal de expectativas de mercado: a tendência entre boletins (e a que os anos futuros mostram) e o que dizem as cinco instituições que mais acertam (chamado Top 5).

Quanto ao primeiro ponto, a razão é bastante simples e direta: você pode estar informado sobre os dados que se têm atualmente ou pode estar focado no que eles vêm dizendo ao longo do tempo. Com uma chance não desprezível, caso você esteja no segundo caso, ficará menos surpreso com outras variáveis que nem estão lá. Um exemplo: caso você acompanhe a trajetória das expectativas para o PIB vai perceber que nos últimos anos mesmo com início otimista vemos um desinchar de expectativas ao longo do período; isso mostra como é preciso focar em avanços reais da economia e não em anúncios de que “estamos decolando”. Sobre esse lado, realmente você será menos enganado pelas os ruídos da economia e ficará mais a par das verdadeiras mensagens dela.

Já em relação ao segundo ponto, como medida de alinhamento de expectativas o Banco Central reúne as expectativas das cinco instituições financeiras que mais têm acertado em um anexo da divulgação semanal. Com isso, você pode ficar a par não só das expectativas gerais como também daquelas que provavelmente mais se aproximarão da realidade. Esse “foco dentro do foco” pode ajudar, por exemplo, a verificar se as instituições mais certeiras estão de acordo com os termos gerais ou são mais otimistas/pessimistas que o mercado em geral. Na edição que foi publicada nesta segunda-feira, por exemplo, enquanto o mercado visualiza a taxa Selic em 3,25% para o final de 2020, as instituições que mais acertam já veem essa taxa encerrando o período em 2,75%, tudo isso pela expectativa de que o IPCA deste ano já esteja rumando para 2% (e então haveria espaço para que a taxa, atualmente em 3,75%, caísse tanto assim).

Então olho ou não o Focus toda semana?

Temos, no fim das contas, que a crítica sobre os dados do Focus não é incorreta porque ele realmente não “acerta os dados”. Porém, levando em consideração que sua ideia seja a de estar mais por dentro das previsões econômicas para o ano (e também os próximos) e não querendo discutir o sexo dos anjos do “decolar do crescimento brasileiro” (como com certa frequência fazem as equipes econômicas de qualquer governo por aqui), não deixe de lado esse relatório publicado semanalmente.

A tendência importa e o direcionamento das instituições que mais têm acertado também. Com isso você realmente pode estar mais informado do que muitos que ouvem apenas o barulho e juram que estão vendo alguma imagem.

O Focus também está aqui no canal da Guide. O Focus sai toda segunda-feira no relatório Mercados Hoje atualizado. Acompanhe para entender melhor o que estamos apresentando!

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 13/04/2020

Cisnes negros em 2020: pouso suave que virou queda livre

Errei. Inicio este artigo com essa informação importante. Mas o faço porque tenho motivo. Na virada de 2019 para 2020, os maiores riscos observados para o mundo eram as eleições nos EUA e a guerra comercial entre os americanos e os chineses e, por aqui, a continuidade das reformas e as eleições municipais (questionando se seria possível aprovar mesmo com o calendário mais curto). No entanto, o que fazia de 2020 um ano potencialmente mais lento em termos de crescimento econômico, principalmente no mundo desenvolvido que já desacelera desde o terceiro trimestre de 2019, se transformou em um cenário totalmente adverso e intenso.

Cisne Negro é um conceito cunhado por Nassim Taleb em um livro homônimo e significa todo e qualquer evento que, por não ser esperado, acaba por pegar todo mundo desprevenido e despreparado. Afinal de contas, mesmo os mais cautelosos acabam sendo atingidos fortemente.

2020 até então (e tomara que pare por aí) nos trouxe dois deles.

O coronavírus (ou Covid-19), doença contagiosa que se iniciou na China e se espalha pelo globo com uma velocidade avassaladora, coloca todo e qualquer tipo de previsão de crescimento ou desaceleração que vinha sendo elencada em suspensão. O Brasil, por exemplo, que começou o ano com previsão de crescimento no Boletim Focus nas proximidades de 2,3%, já vê previsões de grandes bancos circundando 0%. De “isso é um PIBinho” para “não ter recessão já era um alívio”. Isso ocorreu dentro de um mesmo trimestre.

A OPEP, organização (também chamada de cartel) dos maiores produtores do petróleo, em reunião no início de março chegou a um impasse. Russos demandavam uma redução da produção para que os preços pudessem retornar a subir, Sauditas discordavam disso. Resultado? Preços do petróleo que já vinham em queda desde a virada do ano em função de redução da demanda afundaram. Com isso, a cadeia produtiva que envolve essa commodity é fortemente afetada e, junto dela, também a de outras commodities.

Estes dois acontecimentos mudam radicalmente as previsões que existiam até poucos meses atrás para o crescimento do Brasil e do resto do mundo. Isso acontece porque enquanto o primeiro representa literal paralisação de países que optaram por fechar fronteiras e isolar suas populações para reduzir o contágio do vírus, o segundo mostra como um dos pilares de estabilidade e crescimento tem se comportado diante dessa desaceleração e também da quebra do cartel de petróleo.

Tudo que se pode recomendar em um momento como esse é cautela. Cautela de quem emprega, cautela de quem é empregado, cautela de quem presta serviço, de quem contrata serviço. Seguir as recomendações médicas mais adequadas para reduzirmos ao máximo os danos desse vírus (econômicos, sociais, humanos, totais).

O pouco que podemos ter de certeza agora é que o pouso suave que se anunciava para a economia virou uma queda livre.

 

Artigo publicado na Edição 280 (Abril de 2018) da ACIF em Revista, página 12