O QUE É TESOURO DIRETO?

“Saia da poupança! O Tesouro Direto rende mais do que ela e tem a mesma segurança!”. Certamente você já leu ou ouviu essa frase por aí, especialmente em tempos de Selic na mínima nominal histórica. Com esse guia pretendemos fazer com que você possa, definitivamente, romper com a inércia e enfim tomar uma atitude de mudança.

 O Tesouro Direto tem origem em 2002. Trata-se de um programa cuja ideia é democratizar o acesso a títulos públicos – que são papéis da dívida do governo. Anteriormente a esse programa apenas era possível comprar títulos inteiros da dívida pública mas, com ele, é possível comprar 1% desses títulos. Tudo isso como um investimento seguro (dado que os investimentos são devidos pelo Tesouro Nacional, um risco soberano), digital (basta ter conta em uma corretora para fazer as compras e vendas) e flexível (uma vez que você pode comprar e vender todos os dias, conforme sua necessidade).

Mas tudo isso custa caro? Pois bem: como apresentamos, o Tesouro Direto te permite comprar 1% de um título público. Na prática, isso significa que com menos de R$50,00 você pode começar a investir no Tesouro Direto. Veja os valores para alguns dos títulos encontrados no site do Tesouro Direto na tarde do dia 05/03 (um dia antes da publicação deste artigo) com cada prazo de resgate:

Respondendo a pergunta do parágrafo anterior: se for bem ver, não custa tão caro assim, você consegue investir também.

COMO FUNCIONA O TESOURO DIRETO?

Para poder comprar e vender títulos no Tesouro Direto basta que você tenha um CPF e uma conta em uma corretora. As operações acontecem em todos os dias úteis, das 09h30 às 18h, utilizando preços e taxas do momento presente da transação. Bastando ter os recursos mínimos para o fazer – e mostramos anteriormente que não são tão elevados – e cumprindo os outros dois requisitos aqui apresentados, você já está apto para atuar no Tesouro Direto.

TIPOS DE TÍTULOS PÚBLICOS NO TESOURO DIRETO

 A história do Tesouro Direto nos mostra que até poucos anos atrás os títulos lembravam uma sopa de letrinhas. Buscando deixar seus conceitos ainda mais diretos, os nomes foram alterados para que se tornem mais intuitivos ao investidor, contribuindo ainda mais para a democratização desse investimento. Os nomes atuais estarão aqui, mas os tradicionais estarão entre parênteses junto deles.

Dentre os tipos apresentados, há basicamente duas vertentes: os pré-fixados, para os quais há uma taxa pré-definida de rendimento dos títulos no momento da compra e você sabe exatamente quanto vai receber no vencimento, e os pós-fixados, nos quais o rendimento varia ao longo do tempo em função da inflação e da Taxa Selic, sendo que a rentabilidade definida por é equivalente apenas a variação desse índice referencial ou é relacionado a variação de um índice referencial mais uma taxa fixa (esse último caso, o título é considerado híbrido, pois contempla aspectos dos títulos pré e pós).

Além disso, há duas possibilidades de recebimento do valor investido: todo ele no momento do vencimento ou com juros pagos semestralmente e mais o valor do vencimento na data final. Lembrando que, como já dito, você pode comprar e vender esses títulos todos os dias úteis, não precisando manter até o vencimento.

Títulos pré-fixados
Tesouro Prefixado (LTN)
 – Também conhecido como Letra do Tesouro Nacional, uma vez adquirido, você já conhece sua rentabilidade anual no momento da compra; recebimento ocorre apenas no vencimento.
Tesouro Prefixado com Juros Semestrais (NTN-F) – Também conhecido como Nota do Tesouro Nacional Série F, assim como o anterior, já apresenta sua rentabilidade no momento da compra, mas o diferencial é que distribui juros semestralmente; recebimento dele ocorre semestralmente e no momento do vencimento.

Títulos pós-fixados

Tesouro Selic (LFT) – A rentabilidade diária deste título (também chamado de

Letra Financeira do Tesouro) está vinculada à Taxa Selic (ou seja: o rendimento que você terá com este título é o da Selic no período que você o mantiver); recebimento ocorre apenas no vencimento.

Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B) – Este título (também chamado de

Nota do Tesouro Nacional série B) tem rentabilidade atrelada à inflação (IPCA) somado a uma taxa conhecida de juros no momento da aquisição do título; seu recebimento ocorre em juros semestrais e também no momento do vencimento.

Tesouro IPCA+ (NTN-B Principal) – Neste título a rentabilidade está na inflação (IPCA) somada a uma taxa conhecida no momento da aquisição, com a diferença do anterior sendo o momento do recebimento (que aqui ocorre apenas no momento do vencimento).

QUAL É O MELHOR TÍTULO PARA INVESTIR?

 O melhor título e qual tesouro direto é mais rentável vai depender, no fundo, de seu horizonte de investimentos e de como você categoriza sua carteira, de acordo com as informações na hora da compra. Trazendo para o bom português: se seu objetivo for formar uma reserva de emergências ou uma disponibilidade de caixa, o Tesouro Selic é boa pedida, porque possui rendimento diário na Selic e isso significa que, na briga Tesouro Direto X poupança, ganhar da poupança com segurança ainda maior que ela (lembrando que quem garante esses títulos em custódia e pagamento é o Tesouro Nacional).

Considerando que seu horizonte de investimentos é mais longo, cabe observar as perspectivas de mercado para os fatores de inflação (IPCA) e Selic.

Caso esteja mais adiante uma possibilidade de que os juros atuais se reduzam, é interessante ter títulos pré-fixados, dado que garantem seu rendimento com os juros atuais e você ganhará esse mesmo rendimento ainda que a economia toda esteja rodando em valores menores. Hoje a Selic está em 4,25% e, por mais que o cenário para novas quedas ainda esteja em aberto, talvez elas não sejam tão sensíveis. Mas olhando para um período turbulento, como o de janeiro de 2016, fica mais fácil observar: naquela época tínhamos títulos pré-fixados pagando cerca de 16% ao ano; quem comprou aqueles títulos naquele momento (havia títulos com vencimentos em 2019, 2023 e 2027) e quem ainda os têm continua a ter esse rendimento pré-fixado combinado até hoje, independente da Selic nas mínimas que vemos agora.

Porém, caso a expectativa futura seja de uma manutenção da situação econômica em termos de taxas de juros de inflação ou mesmo uma possibilidade de alta nos juros prevista para o futuro, vale estar posicionado nos títulos pós-fixados, que, conforme já apresentado, têm seu rendimento atrelado a essas outras taxas.

Importante notar aqui que há dois aspectos a serem observados: o rendimento do título e o seu valor presente. De acordo com a fórmula do Valor Presente (que é, na prática, o trazer de fluxos de caixa esperados para o tempo atual), quanto maior os juros de um título, menor seu valor presente. Ou seja: é importante notar que estes “ganhos ou perdas” estão vinculados a segurar os títulos até o vencimento, uma vez que, caso resgate o tesouro direto antes do vencimento, títulos vendidos no meio do período, podem ocasionar tanto em ganhos quanto em perdas em função de movimentos de curto prazo. Em função dessas oscilações, por exemplo, tivemos em 2019 três títulos do Tesouro Direto que superaram o Ibovespa (e olha que tudo isso ocorreu em pleno bull market na renda variável brasileira).

No fim das contas, o Tesouro Direto é uma possibilidade acessível de investimentos a longo prazo. Você pode sim adquirir e vender títulos todos os dias úteis, mas os rendimentos mais sólidos se dão ao longo do tempo.

COMO INVESTIR NO TESOURO DIRETO?

E, depois disso tudo, você deve estar se perguntando como começar a investir no Tesouro Direto. Como já apresentamos, para investir no Tesouro Direto você precisa ter um CPF e uma conta em corretora. O investimento mínimo é referente a 1% do valor dos títulos disponíveis e, nas atuais circunstâncias, isso significa que com mais de R$30,00 você já está apto para começar a investir.

O rendimento do Tesouro Direto depende do título ser pré ou pós-fixado, mas, ainda que o indexador possa variar, a rentabilidade desta categoria é apresentada logo no momento da aquisição. Por exemplo: o Tesouro Selic é o Tesouro indexado à taxa Selic que rende a taxa do período que você ficar com ele, o Tesouro IPCA+ rende uma taxa acertada neste dia mais a variação da inflação no período e o Tesouro Prefixado rende aquela taxa combinada anualmente. O único título que você tem certeza total do rendimento é o pré-fixado, pois os pós-fixados estarão atrelados ao IPCA ou a Selic, que variam ao longo do tempo. E, também como já dito: você observará o rendimento do título pré-fixado se ficar com o título até o vencimento, caso contrário, estará sujeito a oscilações do mercado caso opte por vendê-lo ao longo do tempo.

O resgate no Tesouro Direto ocorre por solicitação direta a sua corretora e o horário em que as transações ocorrem está entre 09h30 e 18h dos dias úteis, ou seja, o Tesouro Direto tem liquidez diária.

QUAIS OS RISCOS DO TESOURO DIRETO?

São basicamente três.

O de menor possibilidade é o Tesouro Nacional decidir não honrar a dívida pública. A possibilidade disso ocorrer é baixíssima, dado que esses títulos dão “lastro” a diversos outros do sistema bancário (como o próprio CDB dos bancos).

O de possibilidade um pouco maior é o de uma mudança na política econômica que altere radicalmente a situação da inflação e da Selic. Com isso, poderão haver mudanças sensíveis caso o título não seja pré-fixado. Um exemplo: se a inflação apontar para cima e demandar que a Selic suba, uma alta dos atuais 4,25% para 10% reduziria consideravelmente o valor presente dos títulos pré-fixados.

O que está sempre presente é o de oscilação dos preços diários. Como já apresentamos, a rentabilidade, seja ela pré ou pós-fixada, refere-se ao que o título irá entregar até seu vencimento. Porém, no meio do caminho compras e vendas são realizadas todos os dias e, nessas transações, os valores e as taxas do tesouro direto variam. Com isso, você pode acabar tendo um rendimento bem acima ou bem abaixo do “combinado” no momento da aquisição, em virtude dessas transações que ocorrem diariamente.

QUAIS AS VANTAGENS DE INVESTIR NO TESOURO DIRETO?

 Praticidade, facilidade, rendimentos diários (ao contrário do “apenas no aniversário” que a poupança oferece) e, principalmente, o Tesouro Direto é seguro.

COMO DECLARAR O TESOURO DIRETO NO IMPOSTO DE RENDA?

 Os títulos do Tesouro Direto devem aparecer em dois locais na sua declaração de imposto de renda. Primeiramente, deve ser declarada na parte de Bens e Direitos, contendo o saldo da aplicação em 31/12/2019. Se você tiver saldo em duas corretoras diferentes, os valores devem ser declarados em linhas separadas.

Se tiver havido algum pagamento de juros ou mesmo do principal dos títulos, os valores ganhos devem ser declarados na parte Rendimentos Sujeitos à Tributação Exclusiva. É importante salientar que no informe de rendimentos que você recebe da sua corretora / banco esses valores já estão destacados no documento. Assim, é só copiar e colar os valores no Software da Receita.

 Simule um investimento no Tesouro Direto

 Hoje em dia há diversos sites que simulam o quanto você ganharia ao investir determinada quantia em algum título do tesouro por determinado período. Como sugestão, deixamos aos leitores o ótimo simulador de investimentos do próprio site do Tesouro Federal, disponível aqui.

Com todas essas informações em mãos, esperamos que você se sinta mais confortável no investimento no Tesouro Direto!

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 06/03/2020

CASO GUGU: SEGURANÇA JURÍDICA E SUCESSÃO PATRIMONIAL IMPORTAM

Um dos maiores ícones da televisão brasileira, possivelmente a pessoa que mais nos lembramos quando se fala nos anos 1990 por aqui, nos deixou de maneira precoce e trágica no final de 2019. Augusto Liberato, o Gugu, acabou falecendo em um acidente doméstico. O que se sucedeu após isso envolve desde uma chuva de elogios ao trabalho realizado por tantos anos até uma quantidade imensa de críticas pela maneira como materialmente ele decidiu que sua família viveria após sua morte.

O caso é notório: a mãe de seus filhos e sua companheira por tantos anos, Rose Miriamnão apareceu constando em seu testamento. Seus filhos sim, sobrinhos também, mas nada ficou apontado para aquela que o acompanhou por tantos anos – ainda que agora seja apontada como “apenas a mãe dos filhos dele”.

Para além de todo e qualquer aspecto moral – deixe de lado o “isso é uma sacanagem com a Rose Miriam” -, dois pontos importantes dessa história mostram como, apesar de parecer um tanto quanto sombrio, tratar da morte quando há aspectos materiais posteriores a serem considerados é mais importante do que se imagina. Ou, mais diretamente: em se tendo uma herança material, o assunto deve em algum momento ser discutido e, obviamente, isso deve ocorrer antes do acontecimento que origina as novas destinações.

O primeiro ponto é que, como bem diz o latim juridiquês, pacta sunt servanda: em teoria, os acordos deveriam ser válidos pelo que eles apontam, e não pelo que uma visão externa apontaria. Especificamente em relação a este caso: podemos concordar ou não com o testamento existente (este que vos escreve está no time de quem achou de uma ingratidão enorme), mas não se pode negar que, tendo em vista que há um documento apontando o que deveria ser feito, representa grau de insegurança jurídica não desprezível o fato desse documento ser questionado (uma vez que ele tem validade legal).

O segundo está no coração dessa discussão tão complexa. Processos de sucessão familiar, de discussão mais acertada a respeito do que fazer com os bens e ativos de uma certa propriedade a partir do momento em que esse indivíduo não se faz mais presente em vida, são importantes para quem, no fim das contas, deseja que a situação patrimonial ao menos tente seguir da mesma maneira mesmo após o falecimento do ente. Em se tratando de relações do direito privado, na prática, há dois meios de decisão: as partes decidem entre si da maneira que julgarem mais adequada ou, em caso de nenhuma decisão, a justiça entra para analisar e tomar essa decisão. O item “ninguém toma decisão” não existe, o que muda de fato é a possibilidade de serem definidos os eixos da maneira mais adequada para quem conhece a situação ou com o peso da caneta de quem não conhece na totalidade o que ali se passa – ou, de maneira mais direta, é a diferença entre o encaminhar das situações em paz ou de alguma guerra familiar por bens capaz de amealhar o próprio patrimônio no meio desse turbilhão de acontecimentos.

OS PONTOS DAS RELAÇÕES SOCIAIS

Esses primeiros dois pontos estão dentro da esfera legal, mas há outros dois que abarcam as relações sociais e não necessariamente se relacionam com a lei (por mais “injusto” que sejam, não são tão facilmente aceitas como argumentações quando a decisão cai em âmbito judicial). Chamarei esses dois pontos de “terceiro e quarto”, que serão debatidos a seguir.

O terceiro ponto chama-se parceria. Com quem quer que você decida construir sua vida amorosa, levando em consideração que existam carreiras de sucesso envolvidas, um avanço em termos materiais é esperado. Por mais materialista que isso pareça ser, é interessante que você e sua pessoa amada tenham em mente (e, sempre que possível, em “papel passado”) o que aconteceria no caso da ausência de um dos dois. Neste caso do Gugu nunca saberemos de fato que tipo de conversa ocorria com Rose Miriam sobre esse assunto mas, com o falecimento dele, vimos qual era o direcionamento que ele escolheu. Por mais óbvio que pareça, é sempre importante lembrar que esse tipo de discussão ocorre enquanto ambos estiverem fisicamente vivendo aqui.

O quarto chama-se independência pessoal. É louvável quando vemos casais em que, diante de uma excelente oportunidade de um dos parceiros, temos o outro abrindo mão de sua própria carreira profissional já que, no fim das contas, aquele parceiro conseguirá suprir financeiramente as demandas do casal e da família que representam. De fato, quanto a isso, sem problemas. Mas lembre-se sempre do que pode acontecer com você no caso de algum infortúnio com a outra pessoa. A dependência do outro pode ser, a curto prazo, uma possibilidade – mas é menos sustentável a cada dia que passa. Rose Miriam literalmente abriu mão de toda sua vida profissional como médica para ser “apenas a mãe dos filhos” do Gugu. Vivia uma vida magnífica nos EUA até o falecimento do apresentador. E mesmo diante de um patrimônio estimado em R$1 bilhão, agora procura meios para sobreviver a seu próprio custo de vida.

Cada caso guarda a sua própria particularidade, é verdade. Mas, você leitor, já parou para pensar nessas possibilidades diante de um infortúnio? Não é, definitivamente, um assunto tranquilo. Mas coloque em sua mente uma verdade triste sobre a humanidade: somos, por natureza, maus e focados apenas em nossos próprios interesses; a melhor maneira de verificar se existe intersecção entre o que esperamos da realidade e o que ela de fato se mostra ser é colocando estes anseios todos na mesa de discussão.

Parece trágico pensar em uma questão como essas em vida. Mas, dado o histórico de famílias que não levaram isso em consideração e acabaram por arruinar-se (material e emocionalmente), tenha absoluta certeza que é ainda mais trágico não levar nada disso em consideração enquanto há tempo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 02/03/2020

DEMOCRACIA E TESOURO DIRETO

Apesar do significado de democracia ser majoritariamente associado a uma determinada forma de sistema político, é possível encaixar esse termo como sendo algo muito mais amplo, com relação a qualquer situação em que o indivíduo possui, pelo menos, mais do que uma alternativa (real) de escolha. Seguindo essa linha fora das fronteiras do mundo da política, podemos citar a opção de investimento no Tesouro Direto como um bom exemplo de democracia.

Para a esmagadora maioria de especialistas em finanças, a poupança  não é considerada como um investimento, mas apenas como uma forma de poupar dinheiro e formar alguma reserva ao longo do tempo. Não obstante a isso, e por motivos que vão da falta de informação até à comodidade, grande parte da população brasileira ainda insiste em enxergar na caderneta de poupança como uma forma de investimento. Em um contexto antidemocrático, que não ofereça outras escolhas minimamente viáveis – no sentido de serem populares e acessíveis – para investir, a poupança acabaria sendo a única escolha possível. A tradicional alocação brasileira fechou 2019 com um estoque de R$845 bilhões, ainda com captação positiva de R$ 13,3 bilhões.

Mas a opção de investimento no Tesouro Direto torna democrático esse contexto, dado que é uma alternativa (real) de investimento e que pode ser realizada por indivíduos dos mais diferentes perfis socioeconômicos, com acesso, segurança e rendimento que acabam por superar a poupança. Esse é um tipo de investimento que não fica restrito a mega investidores donos de portfólios milionários ou a especialistas em finanças, dado que investir no Tesouro Direto pode ser mais barato do que ir no cinema, podendo ser realizado passo a passo e sem burocracia.

Se pensarmos do ponto de vista de risco, quando pensamos no Tesouro Direto é quase impossível pensarmos numa situação de calote da dívida. Até porque os bancos tem boa parte de seus recursos alocados na dívida do governo e, em caso de não pagamento, todos os outros ativos seriam afetados, como é o caso da poupança. Lembrando que o governo tem a prerrogativa de emitir nova dívida para pagar os juros e principal de dívidas que estão vencendo. Em 2019, devido a queda dos juro básico da economia, o governo economizou quase R$ 100 bilhões com pagamento de juros devidos aos credores.

Dessa forma, o Tesouro Direto, além de outras formas de investimento, traz democracia para o ato de investir. Assim, o “investimento” na poupança é uma questão de escolha e não uma falta de opção. Aqui na Guide, há opção de investimento no Tesouro Direto, nos mais diversos papéis atrelados à dívida do governo (pós, pré e inflação). Em tempos de juros baixos, a renda fixa ainda pode balancear adequadamente a relação risco x retorno das carteiras de investimento.

Especialmente em uma semana como essa, que se encerra com uma das maiores baixas para a renda variável em um longo período de tempo, convém lembrar ainda que, nesta “democratização dos investimentos” que a Selic em 4,25% está nos permitindo, é válido sempre verificar seu perfil de investidor e estar diversificado em seus investimentos – ou, de maneira mais direta, não buscar estar presente apenas nos que “ganharam mais nos últimos tempos”, mas sim no que, em termos gerais, poderá lhe garantir uma segurança maior ao longo do tempo, uma liquidez financeira que lhe permita ter mais sossego ao longo dos anos.

Certamente o Tesouro Direto faz parte do tipo de alocação que te permite este sossego.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 28/02/2020

ZEMA ABRIU A PORTA DO PRÉDIO EM CHAMAS

Um dos maiores resultados de uma política de ampliação do tamanho do Estado focalizada entre o fim dos anos 2000 e início dos anos 2010 tem sido, como observamos nos últimos anos, um esgotamento da sustentabilidade das contas públicas em todos os níveis. Prefeituras, Estados e até a própria União mostram que não têm mais tanta capacidade assim de suprir as promessas feitas de um futuro glorioso e guiado pelo gasto público descontrolado. Quanto a isso, sem muitas novidades. Você, leitor que acompanha o noticiário econômico, já sabe disso.

Porém, uma figura tão presente em nosso país quanto o corporativismo está sempre em busca de manter o seu quinhão. Isso também não é novidade. Grupos de interesse associados ao Estado buscam, desde que o Estado brasileiro existe, ter sempre suas glebas bem separadas daqueles que o sustentam.

A grande novidade agora é que, diante de uma situação absolutamente nova para a realidade brasileira, as prioridades ficaram ainda mais escancaradas diante de discursos cada vez mais vazios de conteúdo.

O discurso é o da responsabilidade fiscal, de levar em consideração o fato de que os recursos não tiveram o melhor direcionamento possível nos anos anteriores e, diante da obviedade de que não podemos mudar o passado, é preciso acertar a partir de agora as contas, basicamente impedindo que os maiores desembolsos sigam aumentando como antes e revendo as prioridades para que as contas fechem. Diagnóstico bastante adequado, realista e importante.

A realidade nunca antes vista no país é o fato de que, pela primeira vez, não há saída fácil. Nos anos 1980 podíamos congelar os preços. Nos anos 1990, segurar o câmbio colocando os juros em patamares estratosféricos. Nos anos 2000, graças ao boom de commodities que a China nos proporcionou, pudemos descansar a cabeça das políticas que realmente importavam – afinal de contas, entrava dinheiro por todas as vias possíveis e nosso futuro glorioso parecia ter chegado. Agora, o que vemos: o orçamento público não tem espaço fiscal, o dinheiro não é tão encaminhado pra cá quanto antes (também porque nossas contas públicas bagunçadas demonstram nossa irresponsabilidade e isso não atrai confiança, tanto que perdemos nosso grau de investimento alguns anos atrás) e o que resta é, pura e exclusivamente, sentar com o orçamento e ver o que terá e o que não terá direcionamento.

Diante do discurso adequadamente posicionado com a realidade, diríamos que a mesa está posta, a receita está aí. Não é simplesmente cortar, mas racionalizar o orçamento público diante das diversas escolhas sociais possíveis e, em um diálogo social sério e comprometido, assumir que não há dinheiro para tudo.

MAS E ZEMA COM ISSO?

Romeu Zema é o primeiro governador eleito pelo Partido Novo. Em seu primeiro ano realmente posicionou o discurso em prol da responsabilidade fiscal e fez alguns cortes. Para os quatro anos de mandato, entre cortes simbólicos que envolvem a não utilização de instalações públicas, como moradia, e nem o uso de transporte pago pelo Estado de Minas Gerais para ir trabalhar e outros mais diretos como a redução de quadros administrativos, espera-se uma economia de aproximados R$900 milhões.

Porém, é chegado o início de 2020. Sob pressão da Polícia Militar de Minas Gerais, Romeu Zema decidiu reajustar o salário dos policiais em mais de 40%. É isso mesmo que você está lendo. Alguém que tem a ideia do tamanho do buraco financeiro em que o estado se encontra, que verifica diariamente que salários são pagos com atraso e que o déficit encontrado coloca a unidade federativa ainda rumo ao caos apesar dos esforços de redução de despesas acaba por… Deixar em situação ainda mais delicada essas mesmas despesas.

Este aumento concedido em nome da segurança pública tem um efeito adverso bastante perigoso e fácil de compreender. Se um estado quebrado como Minas Gerais consegue conceder um aumento nesta magnitude às suas forças de segurança, como seria possível que qualquer um dos outros estados, em situação “mais tranquila”, não consiga fazer a mesma coisa?

Essa pergunta está circulando por corporações policiais em todo o país. Muito provavelmente não só pelas policiais, mas também pela de professores, bombeiros e afins. Por mais duro que seja ouvir isso, é exatamente esse tipo de “se a farinha for pouca, quero no meu pirão primeiro” que nos fez chegar até aqui. No Brasil somos especialistas em verificar os problemas e péssimos em aceitar que fazemos parte deles. O problema é sempre o gasto do Estado com o outro, mas “não mexa aqui no meu de jeito nenhum que eu entro em greve”.

O que impedirá grandes movimentações corporativistas no Brasil diante dessa decisão do governo de Zema? Sinceramente, não se sabe. Provavelmente nada.

Sendo este governo mineiro focado em apresentar uma nova forma de governar, a má notícia é que ainda há cooptação de interesses como na velha política tão criticada. E a péssima notícia é que, de novo: se um estado rumo ao Regime de Recuperação Fiscal consegue “beneficiar seus bravos servidores”, qual o motivo de outros não conseguirem?

Não sabemos se você leitor já teve algum curso sobre como lidar com algum incêndio. Mas, a primeira regra, de abrir lentamente a porta para que o oxigênio do lado de fora não sirva de combustível e possa alimentar uma explosão, foi descumprida exemplarmente por Zema. A porta foi arrancada com estes 40%. Resta saber quando virá a explosão.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 26/02/2020

PERMITIR MÚLTIPLOS EMPRÉSTIMOS COM GARANTIA EM ATIVOS GERARÁ UMA BOLHA?

Não é novidade para ninguém que o custo de se investir no Brasil sendo pessoa física é alto. Apesar da Selic em mínima histórica, por qual motivo ainda temos esse custo em patamares tão elevados?

Para além da concentração bancária, o Banco Central verificou que isso também ocorre pela dificuldade que se tem em oferecer garantias. Hoje, já é possível utilizar imóvel como garantia de empréstimo, mas em situações específicas. A equipe econômica estuda ampliar as possibilidades de se fazer esse tipo de transação e, para além disso, permitir que mais empréstimos possam ser feitos para um mesmo bem de garantia.

Sobre este aspecto alguns levantaram desconfianças. Seria essa a versão brasileira do subprime que quebrou a economia dos EUA em 2008? Se você não for familiarizado com o que lá ocorreu (e qual seria a conexão com a ideia do Banco Central daqui), recomendo assistir o filme A Grande Aposta, que apresenta de maneira bastante didática tudo que ocorreu. Em resumo: ampliação imensa de garantias permitiu com que muitos empréstimos que não pudessem ser honrados (majoritariamente no setor imobiliário) fossem concedidos, o que deu uma impressão de forte avanço durante alguns anos mas, quando se verificou a real capacidade de pagamento, resultou em uma ressaca mundial de crédito.

A permissão de ampliar os usos de garantia para empréstimos é interessante porque realmente é capaz de reduzir o custo desse financiamento. Afinal de contas, para além de qualquer comprovação de que a pessoa está no grupo de bons pagadores, caso ela tenha um meio mais sólido de honrar com o pagamento no caso de vir a faltar com os pagamentos combinados, não fará tanto sentido que pague o mesmo juro de quem não tem essa comprovação. Até o saldo de PGBL poderá ser utilizado como garantia, pelo que defende o Banco Central.

E POR QUE A DESCONFIANÇA?

Possivelmente você leitor está pensando: e qual então é a desconfiança de alguns em relação a essa ideia tão boa? Eis a desconfiança: com a ampliação da possibilidade de uso de ativos diferentes para empréstimos diferentes (uma mesma casa podendo servir de garantia para mais de um financiamento, por exemplo), surge o receio de que, tal qual vimos na crise do subprime, a capacidade de pagamento seja esticada de modo irreal.

O que faz o projeto do Banco Central ser diferente do que permitiu tamanha catástrofe creditícia nos EUA é o fato de que, por aqui, a regulamentação que permitirá que isso ocorra fará verificação da capacidade real de pagamento diante de uma garantia de maneira centralizada, através de uma central de garantias privada a ser montada pelo mercado. O papel dessa entidade seria basicamente de verificar qual o volume de empréstimos em termos gerais (não só considerando uma instituição, mas todo o mercado) um indivíduo seria capaz de pegar.

Levando em consideração que essa central de garantias seja devidamente estabelecida por meios regulatórios, temos que o efeito direto em um curto período de tempo (poucos anos) será o de verificarmos uma real e sustentável queda no custo de financiamento para pessoas físicas no Brasil. Porém, é importante ressaltar que essa verificação é condição sine qua non para que a ideia dê certo. O motivo é simples: caso não exista tal controle, assim como nos EUA, durante um certo período de anos a ideia será de que o custo de financiamento praticamente zerou e que não há limites para pegar empréstimo – porém, ao menor sinal de insustentabilidade, o sistema todo irá ruir.

A atenção a como essa central de garantias será estabelecida é primordial para que um projeto tão interessante seja confirmado como boa ideia ou se transforme no aguardo de um enorme caos no setor de crédito brasileiro em alguns anos.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 19/02/2020

O contrário de guerra comercial é a paz na economia

Em um movimento observado desde a chegada à Casa Branca, Donald Trump deixou claro que um dos meios de cumprir sua agenda de Fazer a América Grande Novamente era justamente re-negociar a posição dos EUA perante o mundo, especialmente no tocante a mercados internacionais. É sabido que as duas maiores economias do mundo são justamente os Estados Unidos e a China – então, nada mais natural que fosse essa potência asiática o alvo maior dessa nova política.

Entre idas e vindas, tributações sobre centenas de bilhões de dólares em produtos e um balançar de expectativas que deixou o mundo todo à deriva, a fase inicial do acordo assinado entre as partes ocorreu em janeiro de 2020.

Nessa primeira fase nem todos os problemas entre as duas economias foram equalizados – até por isso que existirão fases futuras -, mas o que se destaca por agora é que a China se comprometeu a comprar US$200 bilhões em produtos e serviços americanos nos próximos dois anos, em contrapartida a uma redução de 15% para 7,5% em tarifas sobre o equivalente a US$120 bilhões em produtos chineses.

Caminhando contra a corrente de fechamento de mercados ou renegociações diversas de foco mais nacionalista do que global, tivemos a aprovação de um acordo que se discutia há 20 anos no segundo semestre de 2019, entre o Mercosul e a União Europeia. Por um lado, comemorações em relação ao enorme mercado que isso abre para as duas partes. Por outro, reclamações diretas de quem entende ser prejudicado por tal abertura – pois não teria condições de competir adequadamente.

Os dois casos acima apresentados parecem muito diferentes entre si, mas tratam de uma questão muito importante para a economia: faz diferença que os mercados internacionais funcionem, pois o mundo fica mais barato, a competição estimula melhorias que ainda não haviam sido vistas e, para além disso, demonstra os meios reais pelos quais as regras do jogo precisam ser definidas.

Se é possível elencar um elemento notável na atitude de Trump com sua saga comercial contra a China é o fato de que a propriedade intelectual precisa ser respeitada e não estava sendo, o que impacta mesmo negativamente em relação aos mercados. Mas é notável que só se observa esse tipo de cópia quando o mercado é aberto o suficiente para receber os produtos originais.

Para quem resiste na ideia de que a proteção ao nacional deve mesmo ser mais forte do que o acesso a melhores bens, serviços e práticas que podem vir do exterior, apenas um lembrete já deve ser bastante esclarecedor: as políticas de proteção à informática nacional nos anos 1980 nos deixaram defasados em relação ao mundo.

Aberturas devem sim serem responsáveis e acompanharem a capacidade dos mercados internos de resistirem a elas. Mas é ilusório pensar que elas simplesmente não devem acontecer. Na dúvida, basta olhar tantos setores brasileiros protegidos há décadas e se perguntar: “por qual motivo não temos acesso a produtos e serviços melhores do que esses?”.

 

Artigo publicado na Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF-Franca)

Ceteris Paribus e as análises (erradamente) certeiras

Com a reforma da previdência aprovada, o dólar irá para R$3,60.

Com Jair Bolsonaro eleito, teremos dólar abaixo de R$3,50.

As duas situações acima aconteceram e não vimos o dólar cair. Na verdade, ele tem superado recordes de alta e seu novo normal é estar (bem) acima dos R$4,00, a marca temida ainda que em termos nominais. Todos os economistas estão errados? As previsões não passavam de mero wishful thinking?

Nem um, nem outro. A culpa real é de colocar o Ceteris Paribus na frente de tudo.

Ceteris Paribus é um termo na economia que significa “tudo mais constante”. Na prática, é utilizado para estudar o efeito da mudança em outro, levando em consideração que todos os outros permaneçam iguais. É quase como a desconsideração do vácuo ou do atrito em exercícios de física para entender.

Discutimos aqui anteriormente que é preciso abandonar os dogmas e o desejo de que algo aconteça do que a realidade, os fatos e tendências realmente estão querendo dizer. Agora este que aqui escreve faz um novo apelo: tenha sempre muito cuidado com previsões certeiras sobre o que não se consegue realmente prever (ou estude em quais condições aquela previsão foi feita). Em um mundo em que se busca a todo momento atrair cliques, uma manchete com previsão bombástica nem sempre contém um artigo ou reportagem que trate sobre a realidade.

A crítica aqui em relação ao Ceteris Paribus não se dá pelo fato de que ele seja simplista demais. No fundo, realmente é muito mais complexo (e menos apresentável) analisar cenários levando em consideração todos os aspectos em conjunto que mudam com frequência dentro da economia e, sim, é muito mais simples considerar o efeito da mudança de um indicador em outro. Porém, é preciso verificar o que existe entre um fator e outro para realmente confirmar que se tem causalidade entre suas variações.

Para não parecer que falei grego no parágrafo anterior, vamos pegar novamente o exemplo do dólar. Em termos mais amplos, o que faz a cotação do dólar aumentar ou diminuir é a direção dos fluxos financeiros de entrada e saída em relação ao que se tem da moeda por aqui. Reformas estruturais tocadas por aqui ajudam a atrair fluxo de capitais?

Sim. Mas não é o único grande fator a influenciar esse fluxo. Nossa política monetária atual, que nos trouxe a menor Selic da série histórica também influencia, mas no sentido oposto: o dinheiro que vinha de fora apenas ganhar nos juros reais por aqui (também conhecido como carry) está indo embora agora que temos juros reais abaixo de 1% ao ano. Previsões que só considerem um lado ou outro acabam por fugir da realidade – e mesmo as que consideram tudo ainda assim não acertam “na mosca”.

Em termos de apresentação de resultados a quem os aguarda ansiosamente – convenhamos, todos nós estamos nesse grupo -, é muito interessante quando conseguimos colocar relações diretas e sem muitas explicações razoáveis para fatores que as pessoas podem verificar no dia a dia (como a cotação do dólar). Porém, sempre se questione quando verificar uma previsão direta como essas não meramente se “trata-se de bom economista ou não”, mas sim sobre quais bases ele trabalha para afirmar que aquilo seria possível mesmo de ocorrer.

Iniciou-se o artigo tratando de questões diretas que supostamente, sozinhas, impactariam fortemente a cotação do dólar. Mas neste campo de previsões das quais se deve sempre questionar a origem também estão “a reforma trabalhista gerará seis milhões de empregos”, “a MP da liberdade econômica irá gerar 3,7 milhões de empregos” e “após a reforma previdenciária dezenas de bilhões de reais em investimentos externos ocorrerão”. Nada contra as previsões serem feitas e terem inclusive uma mensuração (o que parece ser mais crível do que meramente dizer que “a situação vai melhorar bastante”), mas não esqueça sempre de questionar ou pesquisar qual a origem desse tipo de previsão.

Para além de qualquer previsão “positiva porque agrada e pode estimular” prefiro realmente acreditar que isso tudo ocorre porque prefere-se crer em efeitos diretos entre fatores que não tem necessariamente isso. Peca-se, a meu ver, mais por ingenuidade e falta de conhecimento do que por real maldade.

Ainda assim, lembre-se sempre de procurar o que originou um dado tão direto quando “a cotação do dólar após aprovação de tal reforma”. Em primeiro lugar porque ninguém sabe com certeza pra onde o dólar vai e, em segundo, porque o mundo não é tão preto no branco quanto esse tipo de previsão costuma levar em consideração. Agora que você sabe o que significa Ceteris Paribus, lembre o quanto ele pode fazer diferença sobre alguma previsão (erradamente) certeira.

Caio Augusto, editor do Terraço Econômico, assina este artigo

 

Publicado no Terraço Econômico em 19/02/2020

O “LEVANTADOR” GUEDES

Fora o esforço – imperfeito, é verdade – de aprovar reformas econômicas de suma importância, outra característica consensual acerca do governo Bolsonaro é a presença dos “levantadores”. Levantador, que no vôlei é uma posição de jogo, no jargão popular do mundo da política pode ser o indivíduo que propicia um “bom ataque” ao adversário.

Desde o início, o que não faltou no governo Bolsonaro foram bons levantadores – no sentido político do termo – que, com frases mal colocadas, “fora de contexto” e estapafúrdias tentaram de todas as formas municiar argumentações de crítica ao governo, vindas de adversários políticos e a até mesmo de “bolsonaristas raiz”. Para citar alguns exemplos, basta recorrer a algumas falas da Ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, do Ministro da Educação, Abraham Weintraub, e claro, também do próprio Presidente Jair Bolsonaro. Mas no dia 12/02/2020 um levantador diferente entrou em ação: o Ministro da Economia Paulo Guedes.

Em um evento, Guedes disparou que “o dólar mais alto é bom para todo mundo e que, com a moeda americana mais baixa, “todo mundo” estava indo para a Disney, inclusive empregada doméstica”. O dólar acabou valorizando, batendo R$4,35, resultado positivo – ao menos segundo a ótica do ministro. É que com a moeda brasileira mais desvalorizada em relação à moeda americana, alguns produtos brasileiros, em tese, acabariam ganhando em competitividade. A indústria brasileira também, em teoria, muito contraditória por sinal, também se beneficiaria. Por outro lado, quem perde são os consumidores brasileiros, uma perda que é geral, não ficando restrita aos que costumam ir a Disney. Perde com essa desvalorização quem consome qualquer tipo de importado. O trigo do pão de cada dia, por exemplo, é majoritariamente importado.

Mas muito além da questão técnica que envolva os potenciais benefícios e/ou malefícios de uma valorização do dólar, o grande erro de Guedes foi o de taxar uma determinada classe trabalhadora como não merecedora de algo, que nesse caso é a viagem para a Disney. Mesmo que o ministro não tenha tido essa intenção, o seu discurso foi elitista e retrógrado, carregado com o velho preconceito de quem “é pobre deve reconhecer o seu lugar”. Esse tipo de fala levanta a bola não apenas para a oposição, mas para qualquer cidadão brasileiro, bolsonarista ou não.

Essa política baseada em frases de “levantadores” geralmente é contraposta com uma opinião: “pelo menos a economia está indo bem”. Não entrando no mérito do que significa a economia ir bem (apenas lembrando que a recuperação segue bastante aquém do que muitos empolgados previram), é preciso lembrar que não precisaria haver necessariamente uma troca entre termos uma boa economia e um corpo de Ministros de Estado que saiba ter filtro no que fala publicamente. Ou, mais diretamente: onde foi que o Brasil escolheu que teria ou uma economia no rumo certo ou representantes máximos do Executivo que não falassem tanta bobagem?

Diferentemente do caso de Roberto Alvim, em que o absurdo foi tão alarmante que causou a sumária demissão em menos de 12 horas, as chances de que algo nessa direção ocorram com Paulo Guedes tendem a zero. Talvez porque “foi só uma fala” e “ao menos os planos da economia estão indo no caminho certo”. Mas fica o questionamento: até quando vai ser suficiente utilizar o caminho da economia como subterfúgio para tantas frases que não precisavam ter sido ditas?

Não sabemos se o Presidente da República pensa sobre isso e, cá pra nós, é possível que isso tudo seja estratégia. Ainda assim trata-se de estratégia perigosa, porque se nem o fio de confiança sustentar – leia-se: se a economia seguir em lenta recuperação e não alçar os voos mais agressivos que Guedes tanto fala e a baleia harpoada seguir quase imóvel -, é difícil imaginar o que sustentaria este governo.

Segue um encarecido pedido ao Ministro da Economia: foque nos planos das reformas (a administrativa já é “na semana que vem” desde pelo menos novembro do ano passado) e deixe a comunicação, institucionalmente falando, a quem o faz com o que importa para a população de verdade. Ou então apenas siga municiando a oposição ao governo com tais “levantamentos”. A escolha é do senhor.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 14/02/2020

Separe sempre o desejo da realidade

A eleição de Bolsonaro abriu nas mentes das (algumas) pessoas uma questão interessante. Como tentar entender melhor, dentro do campo de previsões de todo tipo, o que realmente é encaminhamento de algo real ou mero ruído? Apresento aqui como ruído aquela informação que não muda nenhuma tomada de decisão prática.

Política a parte, cito que a as eleições de 2018 foram um marco porque, pela primeira vez em um considerável período de tempo, a dicotomia entre o que se espera e o que de fato acontece foi escancarada. Mesmo com a “máquina de moer do stablishment” ligada a todo vapor ainda assim tivemos a eleição de um dito azarão. Talvez porque não tenhamos olhado o que acontece pois ficamos agarrados às nossas próprias expectativas.

Esse tipo de reflexão serve para quase tudo que envolva previsão. Pra onde vai o dólar? E a Selic? O preço da energia elétrica? E da carne? Tendemos naturalmente a colocar como expectativas futuras aquilo que gostaríamos que ocorresse mais do que aquilo que a realidade nos indica que ocorrerá.

Uma grande questão dos tempos recentes, por exemplo, é o do caminho que os juros brasileiros têm seguido. Nesta última quarta-feira, 05/02/2020, o COPOM decidiu reduzir a Selic de 4,5% para 4,25%, o que é a menor taxa nominal de juros da história do país. Na prática, isso sinaliza que todos os nossos problemas estão acabados? Seria o ideal pensar assim, mas não se pode esquecer que esse nível de juros ocorre enquanto caminhamos para o sétimo ano seguido em déficit primário, o que demonstra como nosso lado fiscal, apesar da reforma da previdência aprovada, ainda segue bastante prejudicado.

No fim das contas, um dos aspectos que mais deve ser observado acerca de qualquer tipo de informação ou dado apresentado é o impacto que ele tem em seu contexto local e em um contexto mais amplo. Praticamente nada no mundo é “totalmente positivo” ou “totalmente negativo”, pode ser mais positivo/negativo para um determinado grupo e ter sinal inverso para os demais. Três exemplos que se seguem explicam melhor o que quero dizer.

O mercado de energia elétrica utiliza como medida de precificação de curto prazo o chamado Preço de Liquidação das Diferenças, que é divulgado semanalmente no site da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica. De acordo com reportagem recente do Valor Econômico, o nível elevado e chuvas recentes e uma mudança que permite escoamento de energia de Belo Monte para o Sudeste permitirá que o preço do MW/h, que já vem caindo recentemente (da faixa de R$300 para R$200), possa cair ainda mais nos próximos meses (para a faixa de R$100).

Nesse momento, uma pergunta: notícia positiva ou negativa? Depende do contexto em que se está observando. Para a população como um todo e para a indústria que se utiliza de energia elétrica, boa notícia porque indica que esse custo poderá diminuir. Mas, observando a parte da indústria que produz energia em suas diferentes maneiras, trata-se de uma desincentivo essa redução esperada de preços.

O mercado da carne se aqueceu após alguns encontros do governo brasileiro com a China. Por aqui, isso fez com que o alimento tivesse uma alta que inclusive ajudou a deixar o IPCA em patamares acima do que se esperava (ainda que pontualmente). Péssima notícia para o brasileiro, que consome carne, mas grande notícia para quem é do setor.

Imagine alguma entidade que defenda algum setor específico – no Brasil é fácil pensar nisso, são tantas! – que recebe algum dado de abertura comercial ou alguma permissão análoga a entrada de produtos estrangeiros que possam concorrer com aquele que o setor produz. Para o setor, isso quer dizer que o país todo vai sair prejudicado. Ao consumidor, ter mais opções (possivelmente melhores) será benéfico.

Percebe como é possível ter uma mesma notícia com impactos diferentes quando se observam contextos diferentes?

É claro que não dá pra ser altruísta o tempo todo (“ah, é bom para o Brasil, então tudo bem eu quebrar”), mas é importante ter cuidado com fontes setoriais que falam de seus impactos locais como se fossem globais – e analisar qual o “saldo” entre as benesses e perdas que qualquer previsão ou dado apontam. Ou então você acabará se influenciando por algum ruído e tomando decisões equivocadas.

Muito válido reforçar que, sim, a verdade está nos dados. Verifique sempre como são obtidos, como são formados e o que querem dizer em contextos mais próximos e mais distantes a você. Não é porque algo te prejudica que está prejudicando o todo, nem porque algo te beneficia que estaria beneficiando ao todo. É o saldo que faz a diferença.

Dessa forma, deixo aqui duas dicas que julgo como interessantes: o livro Como mentir com estatística, que é um clássico que mostra como os dados (com a informação verdadeira) podem ser apresentados a você de modo que te enganem meramente pelo jeito que são apresentados; e o pensamento para reflitir sempre sobre como sua visão pode estar sendo alterada pela bolha em que você está inserido.

Em uma era de especialistas de tudo e descrença em pesquisas de previsão de basicamente qualquer coisa, procure os dados e saiba como são formados antes de qualquer coisa. Vale mais saber usar uma informação que tenha impacto do que simplesmente bradar ao mundo uma opinião que não leva a nada.

Refletir sobre isso bate no nosso próprio ego e dói um bocado. Mas é necessário para não ser enganado por suas próprias percepções.

Caio Augusto, editor do Terraço Econômico, assina este artigo.

 

Publicado no Terraço Econômico em 10/02/2020

CDI AINDA SERVE DE MEDIDA COMPARATIVA AOS INVESTIMENTOS?

“Brasil, o país da renda fixa” é o tipo de frase com a qual sempre estivemos acostumados em Terra Brasilis. E não é para menos: considerando o período em que nosso país apresenta estabilidade de preços (pós-1994, com o Plano Real), sempre se teve como referencial a taxa de juros como comparativo. De uma Selic em dois dígitos quase como regra a um nível de juros nunca antes visto de tão baixo, hoje a temos como inevitável o questionamento que dá título a este artigo.

Usar um comparativo de rendimento de investimentos é um meio importante de observar se sua estratégia ao longo do tempo está ou não sendo eficiente. No fundo, aproximar-se de um índice ou até superá-lo acaba sendo uma medida prática do quanto se tem alcançado em resultados em relação ao que se espera alcançar com sua estratégia.

O que fez historicamente com que ficássemos acostumados a comparar todos os investimentos à evolução da renda fixa é o fato dela sempre ter atraído capital excedente na economia por ter rendimento superior. Em termos práticos: com uma Selic em dois dígitos (vamos supor 12%), um negócio ou ação precisaria suar a camisa para superar tal crescimento anual e “valer a pena o risco” de não deixar o dinheiro aplicado no banco; porém, com o rendimento atual nas proximidades de 4,25% ao ano, muitas alternativas surgem capazes de superar este rendimento.

Outro motivo relevante que explica o porquê de utilizarmos tradicionalmente a renda fixa como benchmark é o fato de que esse dado está mais fácil de ser acessado do que outros índices. Certamente é mais fácil encontrar quem saiba em que proximidade se encontra o CDI (dado que sempre está levemente abaixo da Selic) do que, por exemplo, qual foi a variação no último ano das small caps, do Ibovespa ou ainda no IMOB.

Em todo caso, se ainda não se puder cravar que o Brasil deixou mesmo de ser “o país da renda fixa” (dado que nosso lado fiscal ainda é bastante deficitário e existem reformas importantes ainda a serem tocadas para suavizar com maior firmeza o futuro dos juros no país), pelo menos por enquanto já é possível verificar que o nível atual de rendimento para a renda fixa custa a superar a inflação do período.

Vamos aos números: com a Selic no atual patamar de 4,25%, a poupança passa a ter um rendimento anual de 2,98%, 100% do CDI passam a representar 3,51% e 120% do CDI significam 4,21%. No Boletim Focus mais recente, a expectativa de inflação para 2020 é de 3,25%. Em outras palavras: mesmo se você conseguir 100% do CDI, ainda assim estará basicamente empatando com a inflação – o que faz com que sua alocação não seja nada muito além do que uma manutenção do valor do dinheiro do tempo, com sério risco de ser uma diminuição (considerando que o cenário de inflação possa superar as expectativas positivamente).

Chegamos novamente ao impasse que o título nos traz: então a renda fixa deixou de ser referencial?

O ideal, no fim das contas, é acompanhar com a maior proximidade possível o tipo de investimento que se está fazendo em relação a sua classe própria de ativos. Ou, em termos mais diretos: se você está investindo em ações do Ibovespa, busque comparar o rendimento de sua carteira com o do Ibovespa; se está investindo em fundos imobiliários, compare o rendimento de sua carteira com o IMOB; e assim sucessivamente.

A má notícia de deixarmos de ter a renda fixa como “referencial de ouro” é o fato de que haverá um esforço maior para buscarmos referenciais aos investimentos caso essa estrutura de juros baixos seja mesmo uma nova realidade no Brasil. Mas a melhor parte disso é que diversas oportunidades para fazer seu dinheiro ter ganhos maiores ao longo dos anos acabam por surgir em uma situação como essas.

Se por um lado “acabou a moleza do 1% sem risco por mês”, por outro temos uma oportunidade nunca antes vista no país de ampliar o conhecimento do público em geral sobre como alocar seus recursos guardados ao longo da vida para que, em sua aurora, eles possam lhe prover da melhor maneira possível.

Em suma: passe a comparar os investimentos de acordo com a classe de ativos em que se encontram, não mais apenas com a renda fixa. É mais saudável do que ter a ilusão de que se está com um desempenho excepcional por superar um índice que está muito baixo.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 10/02/2020