BREXIT APROVADO: BRITÂNICOS JÁ PODEM COMEMORAR?

Com enredo de novela mexicana (cheio de nuances, idas e vindas, mas com final feliz), a saída do Reino Unido da União Europeia finalmente ocorreu na última semana, ironicamente no final de um mês que parecia não querer acabar em 2020. A vontade do povo – com 51,89% dos votos no plebiscito em 2016 – foi finalmente atendida neste ano, após adiamentos, derrotas políticas, troca de primeiro-ministro e discussões infindáveis no parlamento britânico. Até a rainha Elizabeth II declarou que o ano havia sido conturbado, e tratava o prazo final de 31 de janeiro como prioridade número um do governo (não se esqueça que o sistema britânico ainda é o de monarquia parlamentar, que apesar de simbólico, tem muita influência na política daquela região).

Apesar do atraso na definição do tema, finalmente o resultado das urnas chegou de fato a uma definição concreta: o Reino Unido não faz mais parte da União Europeia. E com isso, algumas questões permanecem sem respostas aparentes, mas que deverão ser solucionadas nos próximos 11 meses, no qual os termos do divórcio serão implementados, que envolvem acordos comerciais, segurança, a livre circulação de pessoas, entre outros assuntos.

Relativo ao comércio, com o Brexit valendo temos o Reino Unido com permissão de fazer acordos diretos com quem quiser – o Mercosul, por exemplo, já se movimenta na direção de um possível acordo futuro. Porém, importante ressaltar que apesar dessa liberdade maior de negociar com o resto do mundo, no curto prazo de onze meses deverão ser verificados todos os aspectos do comércio com o continente logo ao lado. Parece algo “já resolvido”, mas, observando com cuidado o enorme tempo tomado apenas para que a separação ocorresse, não deverá ser algo tão trivial negociar algo tão mais complexo.

Dois breves episódios – talvez meramente simbólicos, mas que podem significar algo – demonstram como a saída comemorada pelos britânicos talvez não seja tão fácil de lidar. Nigel Farage, um dos representantes do Reino Unido no Parlamento Europeu (e líder do partido que trabalhou pelo Brexit ativamente), quando do discurso final anunciando a partida teve a ideia de levantar bandeiras nacionais para dar adeus àquela entidade e, por esse motivo, teve seu microfone silenciado por Mairead McGuinness, que tocava a sessão; como se pouco fosse, ainda ouviu dela: “tirem essas bandeiras daqui e as levem com vocês já que estão indo embora”. Curioso que, por coincidência, o microfone de Farage foi cortado bem no momento em que ele anunciava o anseio de negociação comercial “como soberanos” entre o Reino Unido e a União Europeia.

Outro caso, dessa vez mais cômico, foi o do selo postal comemorativo da Áustria. Para celebrar a saída do Reino Unido da União Europeia, uma cutucada sutil: selos postais com a data do Brexit e o mapa do continente em azul (com exceção, é claro, dos que acabaram de sair do bloco). A parte mais curiosa deste caso é que os selos já estavam prontos para serem lançados em outra data, 29 de março de 2019 – mas como veio a ocorrer mesmo em 31 de janeiro de 2020, a outra data impressa aparece riscada. Um recado bastante sincero de que a saída já era mesmo dada como certa e só se aguardava a concretização para ser celebrada.

Por falar em celebração, por mais que em algumas partes houvesse quem tenha se desapontado com a decisão, muita comemoração pela saída pode ser vista na terra da rainha. A decisão democrática do povo é soberana e foi respeitada, mesmo que tenha demorado tanto tempo e custado tanto capital político – lembremos que, nesse meio do caminho, até queda de primeira ministra tivemos (Theresa May).

Outro aspecto notável de mudança com essa saída: agora a política de circulação de pessoas também será livre. Segundo o que se levantou até então, uma das medidas a serem tomadas pelo Reino Unido será a atração de imigrantes qualificados. Essa questão também não será fácil, porque alteraria o atual fluxo mais livre de entrada de imigrantes ao qual a União Europeia está acostumada.

Nesta coluna você deve ter verificado como acompanhamos a saga do Brexit em alguns momentos diferentes. Foram três artigos: um sobre as incertezas que esse evento acaba por gerar, um segundo apresentando que mesmo caso não se concretizasse já teria causado instabilidades irreversíveis e um terceiro, de outubro de 2019, questionando se finalmente a complicada saída seria enfim concretizada. De fato, como nos artigos que já tivemos aqui no Blog da Guide a respeito do assunto, há incertezas em jogo, o balançar de tabuleiro político faz com que algumas marcas não possam mais ser desfeitas e, agora, há um agravante: os onze meses para que as mudanças sejam acordadas realmente são o prazo final (uma vez que o Reino Unido já se encontra fora da União Europeia e, dessa vez, não há adiamento).

No final das contas, reforça-se, a vontade do povo foi soberanamente respeitada. Resta saber, nos próximos meses, o quanto a comemoração pelo alívio da saída terá valido a pena em melhorias reais quando se concretizar por completo a partir de 2021.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 03/02/2020

DAVOS 2020: SUSTENTABILIDADE, OTIMISMO CAUTELOSO E A BALEIA BRASILEIRA

Fórum Econômico Mundial em Davos ocorreu na última semana, entre os dia 21 e 24 de janeiro. É possível dividir a análise sobre o evento em três pontos: primeiramente, qual foi seu foco; em segundo lugar, como o Brasil se posicionou; em terceiro, como foi a observação geral dos participantes do mundo empresarial (os CEOs presentes).

O tema central do encontro suíço neste ano teve o nome Stakeholders for a Cohesive and Sustainable World, ou seja, colocar todo mundo (de agentes a impactados por ações econômicas) em uma mesa para discutir como o mundo pode ser mais sustentável em diversos aspectos – divididos em sete temas: futuro da saúde, como salvar o planeta, sociedade e o futuro do trabalho, economias mais justas, melhores práticas de negócios, além da geopolítica e o uso das tecnologias da melhor maneira possível.

As visões que podem ser encontradas sobre o evento relacionam-se todas com a sustentabilidade de uma maneira geral: reconhece-se que o meio ambiente tem importância primordial e que esforços precisam ser empreendidos para que as mudanças climáticas caminhem mais lentamente (pressão mais notável do evento foi essa), que o capitalismo está em franca mudança (dentre outras razões porque as rotinas de trabalho são diferentes e a tecnologia é cada vez mais inclusiva) e que uma integração melhor entre as economias é mais benéfica do que um isolacionismo cujas tendências têm sido observadas (como por exemplo na guerra comercial China-EUA ou mesmo no Brexit).

Quanto ao posicionamento do Brasil, tivemos um foco exclusivo na economia. Como apresentado pelo Ministro da Economia Paulo Guedes, o mundo parece olhar mesmo com novos olhos nosso país. Nossa equipe econômica teve encontros diretos com mais de 50 chefes de grandes negócios interessados em investir por aqui e recebeu elogios de diversos órgãos internacionais, o que sinaliza fortemente que a confiança sobre nosso país está mesmo retomando.

A questão da Amazônia não passou batida. Mesmo não sendo a especialidade de Guedes, ficou a cargo dele defender que o governo está em cima de ações maiores de prevenção aos incêndios e ao desmatamento na área. Pode não ter por si só melhorado a situação, mas não piorou a visão internacional sobre a questão, dado que apesar deste tópico ter aparecido em diversas apresentações, a visão foi mais de que o Brasil se responsabiliza e toma atitudes do que “o país está deixando de lado a questão”.

Por fim, a visão de quem faz negócios, das empresas, especificamente de seus CEOs, presentes no Fórum. De um lado, a coleta de informações com eles sinaliza que uma desaceleração global de aproxima: segundo a PwC, 53% dos entrevistados preveem uma redução no crescimento já em 2020 – o que representa uma alta considerável, dado que no ano passado essa previsão era de 29% e, em 2018, de apenas 5%. O ciclo econômico é, sem dúvidas, fator de uma tirada de pé do acelerador para muitos presidentes de empresas globais.

Do lado cheio deste copo temos o apaziguamento de conflitos comerciais, majoritariamente o que existe entre os Estados Unidos e a China. Há um esperado efeito de confiança nos mercados globais advindo dessa calmaria esperada após a Phase One – mesmo que ainda seja possível questionar qual a validade prática desse acordo e, no fim das contas, que a finalização do mesmo (a Phase Two que, segundo Trump, deve parar nela e não ter fases seguintes) fique em ritmo de espera até as proximidades das eleições nos EUA (fator que, articulador que é, Trump certamente utilizará como carta na manga para seguir à frente da Casa Branca).

O leitor deve estar pensando “e o que o item baleia brasileira está fazendo no título?”. Bem, esse termo esteve no discurso de Paulo Guedes no evento, que sinalizou como o governo brasileiro está fazendo para que nossa economia retome. Comparando nossa economia a uma baleia bastante machucada com arpões – que seriam os obstáculos que o Estado tem colocado nas últimas décadas, seja por corrupção, burocracias, ineficiências ou mesmo irresponsabilidades em diversas áreas – e que, a cada novo passo dado (como a reforma da previdencia ano passado) um arpão é retirado e a movimentação aumenta.

Infelizmente não tivemos escapatória de outra previsão não muito condizente com os fatos: nessa apresentação, Guedes disse que a retirada de arpões teria previsão de fazer o país crescer 1% no primeiro ano, 2% no segundo, 3% no terceiro e 4% no quarto ano – “e já está acontecendo”, apontou quando o crescimento de 2019 deve ficar em torno de 1,3% e o desse ano deve ficar ao redor de 2,5%. Pode ter servido para empolgar os presentes, mas não necessariamente tem bases reais na possibilidade de crescimento do país – a não ser que alguma solução de fato muito rápida aos entraves do crescimento sustentável brasileiro esteja por vir.

Em suma, Davos 2020 foi assim: para um mundo em que a sustentabilidade ampla é o foco, o Brasil se apresentou como uma oportunidade de investimentos (da qual muitos presentes concordaram e sinalizaram investir) e quem faz os negócios segue torcendo pelo melhor mas aguardando o pior cenário.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 27/01/2020

O CHAMADO DA TRIBO: LIVE GUIDE – TERRAÇO ECONÔMICO

Nesta quinta-feira, 23/01, estivemos na Guide Investimentos para uma live pelo Instagram que discutiu o Relatório Anual 2020, de nome O Chamado da Tribo. O nome do relatório relaciona-se ao autor Mario Vargas Llosa, autor de uma obra com este mesmo nome e que, ao longo de sua vida, passou por uma grande mudança de pensamento: de um militante político de esquerda para ser um liberal.

A analogia do nome do relatório ao Brasil se dá pelo fato de que nosso país também vive esse rito de passagem. Após o impeachment de Dilma Rousseff e a entrada de Michel Temer, em 2016, nosso país começou a dar sinais de que caminharia do estatizante meio de vida para outro de ares mais liberais. Reformas são tocadas adiante desde então.

Um ano de bastante representatividade para essa mudança de paradigma foi, justamente, 2019. O primeiro ano de Jair Bolsonaro foi marcado, para além de suas idas e vindas no campo político, pela Reforma da Previdência. Essa marca histórica permite um alívio fiscal de aproximadamente R$800 bilhões para os próximos dez anos – isso sem contar outras medidas como combate à fraude no setor que deverão fazer o valor final chegar a R$1 trilhão – e, para além disso, sinaliza fortemente que regras que distorciam o orçamento e faziam com que os mais pobres transferissem renda aos mais ricos não serão mais toleradas (mesmo considerando que algumas categorias mantiveram em pé seus privilégios).

Os benefícios da responsabilidade fiscal aliada a uma abertura do país a novas (e privadas) oportunidades se mostra no ganho de confiança que tem sido observado, além das previsões mais positivas dos últimos anos quando o assunto é o crescimento do PIB. Nosso CDS, que é em termos diretos o diferencial de juros que pagamos para pegar empréstimos no exterior (o famoso “risco país”) está em nível bastante baixo e, o dólar que assume patamares de novo-normal acima de R$4 demonstra que o capital especulativo deixa o país a medida que aquele outro mais interessado em investir produtivamente está aos poucos chegando.

Nosso país passa por um momento avesso ao mundo desenvolvido: por aqui, nosso ciclo econômico indica que cresceremos mais; lá fora, há fortes indicativos de que uma desaceleração se aproxima. Essa combinação é mais um forte motivo para que foquemos na continuidade das reformas estruturais (como a administrativa e a tributária) e também na abertura do país. Afinal de contas, é para onde há mais potencial que o capital acaba por fluir – e, estando na ponta de crescimento do ciclo econômico, se demonstrarmos que vale a pena investir por aqui, certamente viraremos uma grande oportunidade nessa próxima década.

Um ponto que não se pode perder de vista é que apesar de termos conseguido um avanço fundamental em 2019 (a reforma previdenciária), os desafios seguem imensos aqui e lá fora. EUA e China assinaram acordo comercial, mas ainda não se tem finalização do mesmo; Brexit já tem data para ocorrer, mas ainda não se sabem os reais efeitos dessa mudança; acordo Mercosul-UE foi firmado, mas a mudança de diretrizes na Argentina após a eleição recente (a volta ao kirchnerismo) pode vir a ser um obstáculo para a tramitação do acordo; a Europa segue em desaceleração de sua economia; o cenário político nacional segue desafiador em seu segundo ano após a saída do presidencialismo de coalizão para outro meio em que mesmo os analistas políticos mais experientes têm dúvidas sobre o que seria a real base do governo nas casas legislativas.

Em resumo, temos que a caminhada rumo a um país de crescimento mais sustentável começou. Ela é longa, difícil, cheia de espinhos e corporativismos no meio do caminho. Mas, tal qual disse o chinês Lao Tse, um caminho de mil quilômetros começa com o primeiro passo. Que em 2020 possamos seguir nessa caminhada para que, um dia, deixemos de ser o “país do futuro” para ser aquele local em que o futuro de fato tenha chego.

O vídeo da transmissão está disponível até às 18:30h de hoje (24/01) no instagram da Guide.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 24/01/2020

NÃO PODEMOS PERDER A CAPACIDADE DE RECONHECER ABSURDOS

Provavelmente o maior assunto da semana anterior foi o vídeo do agora ex-Secretário da Cultura, Roberto Alvim, em que o anúncio de um programa de premiação artística no Brasil tinha um conjunto de aspectos que fazia ser o próprio anúncio o último ponto importante. Música sombria, olhar dos filmes do Stanley Kubric, citação muito próxima de outra emitida por quem disseminou a propaganda nazista (e até posições de todos os itens muito parecida com a de uma foto deste mesmo personagem sombrio) …. Não faltaram motivos para questionar a permanência de Alvim no cargo.

O vídeo foi amplamente criticado – nacional e internacionalmente -, as repercussões foram diversas e em menos de doze horas após a publicação já tínhamos a demissão do Secretário. Segundo alguns, porque Bolsonaro se sensibilizou com o absurdo. Segundo outros, porque é bem assessorado juridicamente – já que seria possivelmente encaixada uma omissão neste caso como crime de responsabilidade.

Qualquer que seja o motivo, ainda assim tivemos uma sequência de questionamentos sobre como aquela ação talvez tenha sido exagerada demais, que se tratava apenas de um conjunto de coincidências (como o próprio ex-Secretário afirmou, ao dizer inclusive que concorda com a frase apesar de sua origem). Para alguns, no fundo, nada demais aconteceu.

Alguns pontos poderiam ser levantados sobre essa questão, para além do fato de que essa série de “coincidências” tornaram a situação de fato absolutamente insustentável.

Em primeiro lugar, é sempre importante relembrar que, sim, deve haver liberdade absoluta de discurso. A fala, a opinião, por mais que possa irritar, causar descontentamento e discórdia, não pode ser cerceada – sob o risco de, amanhã, quem apoiar o cerceamento ter sua vez de ser cerceado. Porém, a partir do momento que sua fala representar algo maior do que meramente sua opinião, por exemplo sendo ela porta-voz de alguma instituição (neste caso, o direcionamento da cultura por parte do governo no Brasil), há de se pensar na responsabilidade daquilo. Provavelmente nosso Presidente não pensa assim, mas não deixa de fazer sentido.

Como segundo ponto, não podemos nos esquecer qual foi a promessa feita por Bolsonaro durante a campanha e reafirmada em seu discurso de posse: nosso país estaria finalmente livre de amarras ideológicas. Estar livre dessas amarras significa que o Estado vai deixar de intervir de acordo com o que imagina ou que o direcionamento central vai ser simplesmente oposto ao que se tinha anteriormente? Independente da resposta que o governo tenha, querer colocar algo tão livre quanto a arte como sendo “heroica e nacional, (…) imperativa, (…) ou não será nada” é, aos olhos de qualquer um que queira entender, um direcionamento bastante evidente.

Como terceira observação, nunca podemos perder a régua que distingue o “deixa isso pra lá” do que são os verdadeiros absurdos. Esqueça as comparações rasteiras sobre qual regime foi pior, o nazismo ou o comunismo; pare de pensar se quem defende um desses não tem moral para falar do outro; e, por favor, pare com a “contagem de mortos” que supostamente justificaria a existência de um como maldade e do outro como compensação. O que é absurdo, que é fora do razoável de uma maneira inquestionável, deve estar nas memórias de todos para que simplesmente não torne a acontecer, não porque deveria servir de base para justificar a próxima atrocidade humana que se seguir.

Uma mudança realmente robusta em nosso país passa não só pela guinada econômica que temos observado desde Temer e agora vemos com Bolsonaro. O Brasil não se restringe à sua economia avançar ou ficar estagnada, mesmo que esse aspecto seja de fato primordial a todos nós. Qual o sentido de vermos um lado avançar e outro provavelmente parar no tempo ou até retroceder? Se Gandhi libertou a Índia, isso lhe dá o direito de cometer um assassinato? Se Madre Teresa de Calcutá fez um trabalho nobre pelos mais pobres, isso lhe dá o direito de tacar fogo em um orfanato? Lula por ter sido um presidente de um período em que o Brasil sinalizava melhorar a cada dia (e de fato muita gente viu sua vida melhorar em seus governos) está autorizado a receber propina de grandes construtoras em forma de imóveis de lazer?

Para além de aspectos políticos, sociais e econômicos, absurdos permanecem absurdos. O que nos diferencia diante do papel que podemos exercer na sociedade é o fato de não termos olhos vendados a esses fatos condenáveis. Nem tudo é condenável só porque se discorda mas, mesmo com aquilo (ou aquele) que se concorda e gosta muito, não podemos esquecer que, uma vez mais, absurdos seguem sendo absurdos. Não precisa começar um movimento revolucionário entre as pessoas que você conhece, basta de alguma maneira lembrar do que é de fato absurdo.

Ao final deste artigo, uma reflexão para pensarmos sobre os absurdos que vemos e, como diz uma expressão dos dias de hoje, “passamos pano”, fingimos que não existem. Se perdermos nossa capacidade total de repararmos no que está errado, teremos perdido, no fim das contas, nosso senso real de humanidade. Importante notar que nós, do Terraço Econômico, também já nos manifestamos em relação a esse (no mínimo) bizarro caso.

 

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.

Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram

meu outro vizinho que era comunista.

Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram

e levaram meu vizinho católico.

Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;

já não havia mais ninguém para reclamar…”

Martin Niemöller – 1933 – Símbolo da resistência aos nazistas

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 20/01/2020

LEITURA INDICADA: THE ARMCHAIR ECONOMIST

A economia geralmente está ligada a aspectos cotidianos das grandes movimentações sociais: o quanto o país cresceu, como os preços estão evoluindo, qual o efeito do dólar em alta sobre os preços do pão (cujo trigo é majoritariamente importado), dentre outros aspectos. Porém, para além desses pontos, a economia também se preocupa com os incentivos, os pontos que, quando bem direcionados, conseguem na grande maioria das vezes alcançar resultados esperados – muito mais do que meramente mudando leis e aguardando que elas “passem a pegar”.

Existem alguns livros que levantam essa temática que você já deve ter ouvido falar, como o best seller Freakonomics (de Stephen Dubner e Steven Levitt) ou mesmo o brasileiro Sob a Lupa do Economista (de Carlos Eduardo Gonçalves e Mauro Rodrigues). Este indicado agora, o The Armchair Economist (de Steven Landsburg), segue na mesma linha, mas com o diferencial interessante: ele se apresenta, para além dos exemplos levantados, como uma lente da economia, uma visão de como os economistas visualizam a sociedade de forma mais direta – focada, claro, nos incentivos.

A OBRA É DIVIDIDA EM SEIS PARTES.

A primeira, What Life Is All About, faz uma apresentação de alguns conceitos diretos que importam muito para a economia com exemplos da vida. Princípios como o da indiferença (levantando a questão da poluição do ar e quem realmente se importa com ela), questionamentos sobre como a lei que obriga o uso de cinto de segurança acabou gerando mais acidentes do que antes (através do olhar pelos incentivos que ela gera) e uma discussão sobre os porquês dos shows do Rolling Stones sempre venderem todos os ingressos (e como a resposta a isso não é tão óbvia assim) estão presentes ali.

Na segunda, Good and Evil, aborda-se a moralidade pelo ponto de vista dos economistas. Aqui discutem-se os problemas que a democracia gera para a tomada de decisões em políticas públicas, a importância da formação de preços para a melhor alocação de recursos na sociedade (a eficiência sobre a equidade, assunto sempre polêmico em relação aos economistas) e até como decisões baseadas na economia já se comportaram em tribunais mundo a fora.

Temos na terceira, How to Read The News, há o maior foco de todo o livro sobre essa ideia de que o leitor deveria vestir os óculos da economia e dos incentivos para verificar o funcionamento da realidade. Nesta parte a questão da guerra às drogas (e como você deveria escolher um lado nessa eterna batalha) é abordada, assim como também a respeito das estatísticas de desemprego e o que querem dizer sobre o que vem a seguir na economia e também uma proposta que, embora focada nos EUA, para nós brasileiros até parece esquisita: a de encaminhar ao fim o bipartidarismo tradicional na política (para que mais ideias possam vir a ser discutidas).

Durante a quarta parte, How Markets Work, o autor retoma o olhar sobre coisas da vida que quase nunca são observadas com a visão econômica (e praticamente nunca com o enfoque de que funcionem como mercados), tais quais o porquê de a pipoca custar mais caro no cinema (e como as respostas óbvias a isso não acertam os reais motivos), o porquê da vida ser cheia de decepções e, para não dizer que seriam apenas os “mercados da vida”, também fala sobre precificação de ações e como isso funciona.

Com a quinta parte, The Pitfalls of Science, o autor fala de como tudo deve ser questionado, desde a eficiência de Einstein como cientista até como economistas estão sujeitos a cometer erros o tempo todo.

Encerrando a obra com a sexta parte, The Pitfalls of Religion, há uma menção direta do autor sobre não ser ambientalista e não acreditar no que chama de “religião da ecologia”, fazendo um comparativo entre o meio utilizado por ambientalistas para apresentarem a necessidade de mudanças sociais evitando um colapso ambiental e como os economistas utilizam os dados e modelos para chegar a seus encaminhamentos sobre a realidade.

Trata-se de uma obra que provavelmente vai deixar um pouco assustado quem acredita que os economistas são insensíveis, mas, no fim das contas, é um ótimo meio de, durante várias das situações apresentadas, pelo menos pensar “isso me parece mais verdadeiro do que o que já havia visto anteriormente”. E, se você realmente gostar muito da obra, talvez você seja mais parecido com um economista do que parece, independente do que isso signifique para você.

 

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 17/01/2020

2020: otimismo vai vem, pé no chão também

Atire a primeira pedra quem, desde 2017, não ouviu, disse ou pensou que “agora o Brasil vai decolar novamente”. Seja porque houve uma mudança na guinada econômica com o impeachment de Dilma e a entrada de Temer, pela aprovação de reformas no caminho ou ainda pelo fato de que estamos realmente há muitos trimestres ainda abaixo do nível pré-crise, é difícil encontrar quem não tenha tido qualquer contato com essa afirmação.

No terceiro ano seguido em que a euforia deságua em decepção – o que se encerrou, 2019 -, iniciamos, segundo o Boletim Focus, na faixa de 2,5~3% para o PIB e, após contabilização do ano todo, devemos observar um resultado real que custa a ser metade disso. Ainda assim, a surpresa positiva advinda dos dados do terceiro trimestre já começam a reativar a euforia para 2020.

Dois termos são bastante importantes para se observar quando o assunto for “o quanto o Brasil deve crescer a seguir”. O primeiro é o chamado PIB potencial que, em termos diretos, é o quanto o país consegue crescer, no longo prazo, considerando sua capacidade instalada. O segundo é o hiato do produto que, no fim das contas, é a diferença entre o PIB que está sendo observado e o que poderia ser (o potencial).

Segundo estudos publicados no Blog do IBRE-FGV (cujos autores foram Claudio Considera, Elisa Carvalho de Andrade e Juliana Carvalho de Cunha Trece), praticamente todos os setores brasileiros (excetuando-se o de intermediações financeiras) encontram-se em hiato negativo. Isso é um bom sinal, porque demonstra que os setores devem encontrar crescimento e não o contrário disso. Porém, os mesmos estudos indicam que nosso PIB potencial está na faixa entre 1~1,5%, o que demonstra que a realidade anterior de crescimento fabuloso pode ter ficado para trás.

As previsões do início de dezembro de 2018 para o PIB deste ano que acaba de se iniciar estão nas proximidades de 2,2%. Na prática, essa previsão não é irreal, dado que realmente o crescimento tem começado a dar as caras por aqui.

O que não podemos perder de vista é o fato de que ainda há um caminho considerável de reformas espinhosas a serem trilhadas – citando apenas duas, a administrativa (a respeito do tamanho e funções do Estado) e a tributária (que está longe, mesmo entre os especialistas, de ter um consenso sobre qual a melhor forma de ser feita) – e a estabilidade do país no longo prazo depende de avanços institucionais sólidos no momento presente. Em outras palavras: não espere que a aprovação de reformas sirva como um toque de Midas para o crescimento, porque realmente não será assim.

Um ponto importante é o fato de que o país se encontra em uma transição interessante: estamos observando uma redução do tamanho do Estado como parte do PIB e um aumento da participação da iniciativa privada. Esse movimento necessário (devido ao esgotamento dos meios estatais de crescimento) demora, mas pode nos trazer, ao longo do tempo, um crescimento sustentável como nunca antes.

Sobre 2020: torcer para crescer e fazer nossa parte investindo para isso, sim; nos iludirmos com um crescimento mágico e irreal, de novo não.

 

Artigo publicado na Revista da Associação Comercial e Industrial de Franca (ACIF-Franca)

O superlativo futuro que nos espera

Em 2012 tivemos o primeiro vídeo no YouTube a superar um bilhão de visualizações. Aliás, dos quase oito bilhões de habitantes que tem nosso planeta, 1,9 são usuários dessa plataforma de vídeos, ou 23,75% da população. Talvez tão interessante quanto isso seja lembrar que partimos da época da popularização da internet  – nos anos 1990 – até os dias atuais de uma velocidade em “banda estreita” de 56,6 kbps em via física para as atuais redes móveis – para smartphones – do 5G alcançando 2,92Gb/s de velocidade. Se a virada do milênio foi de notável avanço, hoje temos observamos esse avanço ocorrendo, a cada dia.

Como em tudo na vida temos pontos positivos e negativos. Do lado do copo meio vazio, a praticamente impossibilidade de se desconectar (seja em aspectos pessoais ou profissionais) e o imediatismo absoluto que nos faz impacientes com meros três segundos de espera, ao mesmo tempo que ficamos satisfeitos em saber que esse tempo de latência praticamente inexistirá com o 5G em operação. Ah, e claro, não podemos deixar de citar também o fato de que, se as máquinas conseguem fazer mais rápido e de maneira mais eficiente os trabalhos mais automatizáveis, elas acabarão por deixar em situação mais precária quem não se preparar com educação para as mudanças que já estão ocorrendo – e canetada nenhuma será capaz de evitar isso.

Porém, olhando os pontos otimistas temos uma infinidade de possibilidades adicionais. Hoje, de qualquer lugar do mundo, bastando um dispositivo com acesso a internet, qualquer pessoa pode virar protagonista de sua própria trajetória profissional. As barreiras à entrada ao mundo do conhecimento se reduziram imensamente. Nunca tivemos uma quantidade tão grande de informação disponível e, como efeito mais recente, há a interação maior entre os rastros que deixamos na rede e como eles nos direcionam respostas.

A internet, em seu princípio, funcionava como uma revista. O usuário abre, verifica as imagens, mas pouco pode reagir àquilo tudo. Mais adiante, numa nova geração, veio a possibilidade de deixar suas marcas – e, seja em fóruns específicos que muitos dos leitores que aqui estão frequentavam ou em redes sociais dos anos 2000 como o Orkut, por exemplo. Seguindo o processo evolutivo, passamos a obter respostas aos nossos questionamentos – sim, as marcas que sempre nos viram falar sem parar agora querem falar conosco de forma aberta. Mas é a revolução que vem a seguir que é realmente superlativa.

A que revolução este que aqui vos escreve se direciona? A da formatação de experiência de acordo com os rastros que deixamos na rede. Ficou difícil? Lembra da última coisa que você pesquisou no Google ou comentou em uma rede social? Já reparou que ela, em muito pouco tempo, virou algo vendável que passou por você como se alguém estivesse lendo seus pensamentos? É dessa revolução que se fala aqui.

Seguindo o caminho de ver os itens, reagir a eles, obter respostas e agora receber personalizações a partir da experiência, não é surpreendente imaginar que a quantidade de dados necessária para tocar todo esse mundo seja substancialmente maior do que aquele que encontrávamos meros trinta anos atrás. Mas é justamente aí que o mundo novo mostra-se possível: com a quantidade colossal de dados que as redes da mais nova geração conseguem transmitir, sequer será necessário no futuro o armazenamento físico dos dados em nossos aparelhos – bastando, antes mesmo que pensemos se é possível mesmo ou não que o armazenamento em nuvem seja suficiente.

Ao contrário do que previam alguns clássicos do cinema como De volta para o futuro, hoje não temos carros voadores, mas a tecnologia é ainda assim impressionante em sua capacidade. Como já dito, a potencialidade de se tornar profissionalmente independente é algo único na história. Conforme artigo publicado pela Betway Cassino, site de caça níquel online, a respeito do que em 1980 previam os especialistas serem as profissões de 2020, boa parte do que se esperava para o futuro vindo especificamente das tecnologias e da automação acabou se confirmando como realidade. Uma das profissões desse levantamento, a de consultor de bem-estar, é facilmente comprovável fazendo buscas sobre algum produto no YouTube; patrocinados por marcas ou não, muitos fazem testes que nos poupam a experiência potencialmente desagradável de fazer uma aquisição da qual teremos arrependimento logo em seguida.

Ainda no campo das grandes previsões, outro artigo da Betway Online Cassino menciona previsões realizadas nos anos 1990 a respeito de como estaríamos em 2020, incluindo um infográfico muito interessante. Com uma margem de acerto ainda maior do que o apresentado no parágrafo anterior, um futuro que levaria em consideração grandes ganhos de escala, uma conexão cada vez maior e um foco em sustentabilidade do planeta parece cada vez mais próximo, se não já mesmo presente.

Quanto aos ganhos de escala, hoje em aplicativos gratuitos para smartphone temos dezenas de funções diferentes. Sobre a conexão, em termos de comunicação mesmo grandes conglomerados de televisão conseguem fazer reportagens de praticamente qualquer lugar do mundo apenas como uma conexão de rede móvel. O ponto da sustentabilidade é até questionável, mas de fato a rastreabilidade maior possível hoje aumenta o senso de responsabilidade do consumo a cada dia.

Hoje as gerações estão mais focadas na experiência, na usabilidade, no que levaremos na memória, do que necessariamente no acúmulo de bens. É cada vez mais comum ver quem use Uber em vez de ter um veículo, ver quem pede um Rappi no lugar de ir ao supermercado e ver quem alugue um apartamento pela Quinto Andar porque não tem tempo de ir a uma imobiliária. A era da facilitação está diretamente ligada ao que a tecnologia consegue nos proporcionar e, apesar de parecer a cada dia que “não falta mais nada a ser inventado”, outro artigo da Betway nos faz um lembrete importante: as mudanças serão cada vez mais e mais constantes, aceleradas e disruptivas.

Provavelmente ao início deste artigo você deve ter pensado “mas 2012 foi há muito tempo, um bilhão de visualizações no YouTube é algo já superado largamente”. Você está certo: o vídeo mais visto da plataforma hoje já superou 6,6 bilhões de visualizações. É quase como se todas as pessoas do planeta tivessem assistido a música Despacito ao menos uma vez. Mais de 500% de superação do teto máximo do maior alcance de uma plataforma de vídeo em apenas oito anos; plataforma essa que começou em fevereiro de 2005, quase quinze anos atrás.

Por aqui pegamos as visualizações máximas de vídeos no YouTube como proxy dos “super números” que estamos nos acostumando a ver – mas não faltam outros exemplos. O mundo está em uma mudança cada vez mais exponencial e, no fim das contas, fará diferença aquele que souber não necessariamente acompanhar essa quantidade incomensurável de mudanças, mas aquele que mais puder aceitar que precisa se adaptar a elas.

Sejamos todos bem vindos ao futuro superlativo. Um pequeno lembrete: em 2020 estamos mais próximos de 2050 do que de 1970. O futuro – e todos os seus dados, relatos, respostas e acompanhamentos – é cada vez mais presente.

 

Caio Augusto, Editor do Terraço Econômico, assina este artigo.

 

Publicado no Terraço Econômico em 16/01/2020

Precarização do trabalho, pontes de diamante e o mundo dos Jetsons

Diamante. Na escala de dureza, que mede o quão resistente é um material, é, ou pelo menos era nos meus tempos de escola, o item a ocupar o primeiro lugar. Se este é o material mais duro do mundo, o mais resistente, qual o motivo de não construirmos pontes, que precisam ser resistentes o bastante para aguentar centenas de toneladas que passam sobre elas diariamente, de diamante? Seria uma maldade dos nossos governantes ou uma impossibilidade orçamentária? Acredito que você sabe de bate pronto qual é a resposta certa.

Uberização das coisas. Aquela pessoa que não encontra oportunidade no trabalho formal – por sua formação insuficiente ou por qualquer outro motivo – decide pegar um carro, moto (seu ou alugado) para participar do maior fenômeno de compartilhamento e deslocamento da história do capitalismo. Eles não têm relações trabalhistas com essas empresas. Mas, caso não tenham essa oportunidade, terão renda zero enquanto seguirão buscando um posto de trabalho com todos os benefícios de um “trabalhador protegido” no Brasil.

Possivelmente você leitor deve estar pensando que este que aqui escreve está falando de dois assuntos absolutamente desconexos, mas agora vem o momento em que tudo fica mais claro: qual o sentido de tornar o que é de concreto em algo de diamante? Será que não é tão claro em termos orçamentários que a praticidade de pedir um Uber, Rappi ou afins custa em margens minúsculas – ou mesmo inexistentes – para essas empresas e, não, não daria pra ser muito melhor que isso?

A precarização do trabalho é de fato um assunto sério e que precisa ser discutido. Porém, longe das ilusões tipicamente brasileiras de que uma mera canetada poderá resolver qualquer coisa. Aliás, pequena correção: ilusões californianas também.

Como fazemos para melhorar uma situação dessas? É aí que entra um dos maiores paradoxos possíveis: para evitar que as pessoas deixem de ter rotinas exaustantes em subempregos que não necessariamente as colocam no hall de “escolhidos pela proteção trabalhista”, é possível (e já está ocorrendo) vermos a automação de funções mais operacionais. Por enquanto parece algo distante e focado em apenas alguma unidade de fast-food toda moderna que você tenha ido ultimamente, mas imagine o tamanho do efeito quando por exemplo carros e caminhões autônomos chegarem ao mercado.

A grande verdade é que a discussão atual foge do ponto real das coisas. Por enquanto, o maior foco está sobre a situação desfavorável daqueles que estão nessas posições do mundo das praticidades. O que praticamente não se fala é que deveríamos focar no reposicionamento das pessoas que serão substituídas com a automação. Como deve ser a educação do futuro para ficarmos na adaptabilidade diante de um futuro em que a inteligência artificial é cada vez mais capaz e não deve demorar muitas décadas para superar em completo o ser humano?

Outro ponto pouco comentado é o fato de que no ínterim entre a destruição de empregos pela tecnologia e a criação de novos postos, haverá uma quantidade imensa de pessoas que simplesmente não conseguirá se reposicionar no mercado. Novamente pense no exemplo dos caminhoneiros: já imaginou o que vai acontecer quando começarem a ser substituídos? O assunto “renda mínima universal” vai se tornar cada vez menos utópico e cada vez mais presente conforme os anos forem se passando.

Não encare esse artigo como uma volta ao redor do nada. Apenas para que ninguém se perca: não faz sentido focar em ampliar relações trabalhistas de empresas que mal têm margem para estarem abertas pelo mesmo motivo que não construímos pontes de diamantes – e o motivo é “não há orçamento suficiente para isso”. Ainda assim, não há como descartar que a questão da precarização das condições de trabalho precisa ser discutida com seriedade, o que é diferente de “vamos proibir qualquer meio de renda enquanto não for o modo que acreditamos ser o mais correto”.

A ideia aqui é defender a precarização do trabalho? É claro que não! Mas sim a racionalidade na discussão sobre algo tão sério e que tem sido levado na base da mera canetada irresponsável.

O futuro parece implacável e muito triste, mas apenas para quem não tem real consciência do quanto precisa estar preparado para se adaptar a ele. Socialmente falando, estamos focando em dar água com açúcar a um paciente que claramente está infartando. Quando será que vamos levar o paciente (a discussão sobre a precarização do trabalho) para o hospital de verdade?

Longe de mim querer propor soluções para o mundo. Só acredito que estamos na página errada. E, infelizmente, o livro vai se fechar mais rápido do que imaginamos para alguns (muitos) que supostamente estamos defendendo.

Caio Augusto, editor do Terraço Econômico, assina este artigo

 

Publicado em 07/01/2020 no Terraço Econômico

RENDA VARIÁVEL: DE OLHO NO FUTURO

Você tem acompanhado nas últimas semanas aqui nesta coluna sobre quando é válido deixar seu dinheiro na poupança e em que situação ainda é boa pedida que ele fique na renda fixa. Eis que, então, chegou a hora de falar dela, a estrela das manchetes em tempos de bullmarket: a renda variável.

Renda variável é aquela que, como seu nome deixa bem claro, não oferece expectativa de retorno ao longo do tempo – como faz a renda fixa -, o que pode significar tanto que uma grande queda pode moer seu patrimônio quanto um momento de relevante alta pode mudar sua vida. Mas, afinal de contas, como saber se é hora de dar alguns passos em direção a esse terreno tão variante?

Voltemos brevemente aos artigos sobre a poupança e sobre a renda fixa. Para a poupança, sobram as alocações do dia a dia (já que não vale a pena ficar pagando IOF e IR sobre um dinheiro que já se sabe ser de permanência curta na conta). Para a renda fixa, uma reserva de riscos e oportunidades (a liquidez que facilita no caso de algo fora do comum, pro bem ou pro mal). Considerando que você esteja preparado nesses dois primeiros aspectos, é hora de pensar na renda variável.

Tenha em mente, logo de início, que renda variável é onde você deve aportar recursos que não precisa nos próximos anos, dado que para as despesas correntes você já se prepara com a poupança e para as eventualidades se prepara com a reserva em renda fixa. A grande novidade que temos em um Brasil de Selic nunca antes vista em tal patamar, é que agora o “investimento para o futuro” está cada vez mais distante da renda fixa – ou, mais diretamente, o “1% ao mês sem muito esforço nem risco” parece ter acabado.

Para a renda variável, tenha em mente que pelo menos alguma parte do seu tempo será necessária para buscar compreender como as diversas possibilidades funcionam. Ações são as menores partes de uma empresa, ETFs replicam índices e fundos de investimentos têm gestores que passam o tempo todo buscando os melhores retornos possíveis. Como saber em qual se encaixa mais (ou o quanto é válido estar em cada um desses e outros meios mais) envolve uma certa pesquisa prévia para não se arrepender depois.

O primeiro dos passos é descobrir seu perfil de investidor. Não é de se espantar que em um país conhecido como sendo o condado da renda fixa, mas que agora se depara com o desafio de investir em renda variável ou ver o valor do dinheiro ser corroído pelo tempo os testes de perfil de investidor estejam mudando, já que mesmo o maior dos conservadores, se quiser pelo menos buscar os retornos fáceis de poucos anos atrás, terá de buscar um pouco mais de risco. Esteja atento ao seu próprio perfil de investidor e a que modalidades de investimento há maior encaixe.

Mas uma coisa é fato: estômago, paciência e olhar no futuro são absolutamente necessários se você quiser encarar esse mundo.

Estômago: alguma má notícia no mercado pode te fazer perder bastante em um dia (Joesley Day, por exemplo, teve esse efeito) e, por outro lado, grandes períodos de alta te farão sentir como se estivesse em um cassino. Controle-se focando em seu perfil para não se arrepender.

Paciência: no longo prazo, o mercado de renda variável vence o da renda fixa. Há uma polêmica sobre esse ponto, pois por aqui somos acostumados a uma taxa de juros elevada, mas na continuidade dela em baixos patamares, de fato não haverá sequer comparativo entre o retorno da renda fixa e o dela. O CDI continua um bom comparativo para analisar o rendimento dos seus investimentos e verificar como a renda variável é superior ao longo do tempo à renda fixa.

Olhar no longo prazo: o hábito de seguir investindo em boas empresas (ou bons fundos, ou bons índices…) é o que fará com que os recursos acabem se acumulando de maneira mais vantajosa. Ganhos de curto prazo são possíveis? Claro que são: apenas em 2019 o Ibovespa superará 30% de valorização (enquanto a renda fixa não chegará a 7%). Mas há anos em que há desvalorização imensa. Não deixe que resultados de curto prazo te impressionem ou desanimem, pois é ao longo do tempo que as verdadeiras riquezas são construídas no mercado de renda variável.

Com Selic baixa acabou a moleza de comprar aquele título público e esquecer até a aposentadoria. Você pode até fazer isso, mas terá de viver com o fato de que os juros reais a que você pode estar sujeito talvez sejam negativos (o que faz com que você perca dinheiro no tempo).

Não se trata de um caminho fácil, mas não é impossível: dá para usar poupança, renda fixa e renda variável para ter uma vida financeira mais tranquila.

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 27/12/2019

RENDA FIXA EM 2020: NÃO A ABANDONE POR COMPLETO!

Selic em 4,5%, com viés de manutenção ou mesmo ainda uma nova queda (talvez de 25bps) antes de retomar o crescimento que, segundo o Boletim Focus mais recente, deve rumar nos próximos três anos a 6,5%. Em outras palavras: o paraíso brasileiro da renda fixa é cada vez mais uma realidade do passado.

“Fuja da renda fixa!!!”. Provavelmente você já leu ou ouviu essa frase diversas vezes nesse 2019. Mas o grande enigma nessa afirmação está no seguinte ponto: você conhece seu perfil de investidor para dizer qual o passo mais adequado a ser dado para fugir da renda fixa? E, além do mais, como diz a grande sabedoria de finanças, você “nunca deve deixar todos os ovos em uma cesta só”. Vale a pena tirar tudo da renda fixa e alocar em renda variável?

Pouco tempo atrás falamos aqui que você não deve abandonar de todo a poupança, basicamente porque ela serve ainda para despesas correntes – já que, no fim das contas, é um esforço não muito efetivo migrar esses recursos para outros que paguem IOF e IR dado o curto espaço de tempo que ficam na conta até serem destinados. Agora, vamos defender que você não abandone a renda fixa.

Todos os meses você recebe seus rendimentos (salário, alugueis, retirada de lucros etc) e, após pagar suas contas todas, se felizmente estiver no grupo dos brasileiros que consegue verificar que sobrou dinheiro, tem de fazer alguma coisa com ele. Neste caso, esse dinheiro que sobrou não necessariamente cairá bem para a poupança, já que os desembolsos do mês em teoria foram feitos e agora o dinheiro ficaria aguardando novas destinações.

Assim sendo, para onde direcionar esses recursos excedentes? É preciso olhar diretamente para onde estão as sobras de dinheiro dos meses anteriores.

Considerando que não sobre dinheiro em muitos períodos ou, quando sobre, seja numa quantia não muito elevada, o melhor a se fazer é procurar algum investimento em renda fixa que lhe dê mais tranquilidade financeira ao longo do tempo. Essa tranquilidade, no caso, é a de não ficar sempre preocupado com a pergunta “e se algo sair dos conformes neste mês?”.

Imagine que você tenha um total mensal de rendimentos de R$3000,00 e que suas contas mensais fiquem ao redor de R$2700,00 (já considerando aquela margem de segurança da qual falamos no artigo sobre não abandonar a poupança). Com esses R$300,00, supondo que você não tenha nenhuma reserva, é válido que você procure alguma alocação de renda fixa em que você possa manter seu dinheiro lá aguardando uma das duas situações a seguir.

A primeira delas é uma oportunidade positiva. Sabe aquela promoção de viagem que aparece inesperadamente e sugere ser uma grande oportunidade de viajar com sua família? Se você tiver algum recurso parado, pode ser essa a hora de utilizá-lo. A segunda, é uma ocorrência negativa. Você acordou, se arrumou, estava indo para o carro para mais um dia de trabalho quando descobre que ele não está ligando porque a bateria drenou. Caso você viva no limite de seu orçamento, pensar em uma bateria nova já lhe causará calafrios porque “vai faltar dinheiro no mês que vem”, mas se você tiver algum dinheiro parado em reserva, por mais que ninguém goste de desembolsar em situações ruins, basta pegar esses recursos, comprar a bateria nova e seguir com a vida.

No fim das contas, a renda fixa mantém, então, uma função primordial: a de conservar o valor do dinheiro excedente para o caso de oportunidades ou ocorrências inoportunas. Como a vida é cheia de idas e vindas – e eventos não programados, positivos e negativos -, convém você estar minimamente preparado para encarar uma praia ou mesmo uma ressaca do mar.

“Mas e se eu já tiver recursos em reserva e quiser algo com maior potencial de retorno? ”. Aí entramos em um campo mais sofisticado, o da renda variável. Fique atento ao próximo artigo desta coluna!

 

Publicado no blog da Guide Investimentos em 23/12/2019