2020 começou com a desconfiança sobre um vírus que se espalhava pela China, passou por pelo menos dois trimestres de preocupação direta com o avanço dessa doença pelo mundo e hoje, diante de discussões amplas sobre o que deve ou não ser aberto e flexibilizado, aguardamos ansiosamente a corrida das vacinas.
Neste especial do Bloomberg podemos acompanhar quão acirrada está a corrida:

É possível observar na imagem acima como temos ao menos oito vacinas em Fase Três (ou entrando nela), assim como pelo menos outras sete que estão em um momento mais inicial. Literalmente o mundo todo está procurando um encaminhamento para o fim do atual cenário.
Quem será que vai chegar primeiro?
No fim das contas, quanto mais vacinas tivermos, melhor. A quantidade de pessoas a serem imunizadas para que a pandemia possa alcançar um nível sustentável de controle é imensa, na casa de algumas bilhões, então ficaria bastante inviável depender de apenas uma vacina.
Porém, nesse cenário de corrida, se temos como lado positivo que a ciência pode realizar um feito inédito até então, não podemos deixar de levar em consideração que o aspecto político também terá muita importância. Pode parecer esquisito, mas não se esqueça que quem “chegar lá primeiro” vai querer colher todos os frutos políticos de ter “salvo sua nação”.
Atualmente, dentre os países com vacinas em testes em níveis mais avançados, temos o Brasil, os Estados Unidos, a China e a Rússia. E, em praticamente todos eles, já tivemos alguns alertas sobre quão próximos estamos.
Na Rússia, o primeiro alerta
Surpreendendo a todos, dado que não havia disponibilizado resultados de suas pesquisas, a Rússia anunciou em agosto que havia encontrado uma vacina e logo começaria a imunizar seus habitantes. No fim das contas, descobriu-se que na realidade essa vacina estava entrando em Fase 3, o que de certa forma frustrou as expectativas de que já teríamos chegado a uma solução. Inclusive, cabe apontar que um dos locais de teste dessa vacina é aqui no Brasil no estado do Paraná.
Nos Estados Unidos, uma eleição acirra os ânimos
Seguindo sua linha característica de anúncio de avanços, Trump já ofereceu várias sinalizações explícitas de que os Estados Unidos estão chegando perto de ter uma vacina. Primeiramente disse que seria distribuída antes do fim do ano ou bem antes disso (o que inclusive poderia remeter ao período anterior às eleições presidenciais por lá) e, mais recentemente, afirmou que todos os norte-americanos serão vacinados até abril.
Acordos na Europa abraçam uma grande quantidade
Recentemente a União Europeia fechou acordo com dois laboratórios para a aquisição de 300 milhões de vacinas quando elas estiverem disponíveis e aprovadas. Levando em conta que a população ali alocada está hoje em pouco mais de 500 milhões de pessoas, temos que essa quantidade aparentemente estaria focando em uma chamada imunidade de rebanho, que é aquela situação em que mesmo quem não está vacinado fica protegido da doença, uma vez que ela se espalha muito mais vagarosamente.
Pandemia iniciou na China, querem terminar lá também
A primeira vacina a ser produzida na China pode ficar pronta em novembro, segundo o Centro de Controle de Doenças e Prevenção do país. Entre vacinas testadas apenas lá e também em outros países (como o Brasil), o país tem hoje quatro vacinas em fase final de testes. O indicar de um mês tão próximo quanto novembro mostra como o país também está se posicionando firmemente na corrida da vacina. O país anunciou mais recentemente que deve conseguir produzir 610 milhões de doses até o fim de 2020.
Tantas vacinas… Mas qual o problema?
Trump apontando que todos os norte-americanos serão imunizados até março, União Europeia adquirindo 300 milhões de vacinas, Rússia dando a entender que já chegou lá. A problemática disso tudo é que a cada nova previsão de produção de vacinas, vemos que haverá disponibilidade menor para países menos desenvolvidos.
Com o mundo todo bastante interessado em encontrar uma solução para a atual pandemia, não é estranho observar como todos os países e regiões estejam se articulando para proteger suas próprias populações. E, é claro, também para poder, mais adiante (o mais rápido possível), colher todos os frutos políticos de ter “ajudado a salvar o mundo”. Esse interesse não pode deixar de ser levado em consideração.
Em um cenário positivo de aprovação dessas vacinas que estão nas fases finais logo nos próximos trimestres, ou ainda mesmo dentro de 2020, teremos determinadas regiões privilegiadas do mundo recebendo vacinas, enquanto outras vão ter de esperar um tempo maior para ter o mesmo acesso. E isso tem a ver não apenas com a capacidade de produção de doses como também com a geopolítica.
O que pode aliviar a questão
Dois pontos mostram como podemos ter certa esperança de que a questão corra de maneira um pouco diferente disso.
O primeiro vem da Índia: o Serum Institute of India, maior produtor de vacinas do mundo, está se preparando para uma produção massiva de doses, cerca de um bilhão delas. Importante notar que a capacidade produtiva deste laboratório é de cerca de 1,5 bilhão de doses de qualquer vacina, mas a ideia deles é de focar na produção desta vacina específica quando estiver disponível.
Outro alívio vem da Bill & Melinda Gates Foundation, que está investindo em fábricas em diversos locais do mundo – com foco em regiões subdesenvolvidas – para que as vacinas sejam produzidas e amplamente distribuídas assim que disponíveis estiverem.
Novamente, não se trata de informação surpreendente que a corrida por vacinas contra o coronavírus coloque em jogo aspectos regionais, já que de fato cada governante gostaria que sua população fosse vacinada primeiro. Porém, se de um lado temos uma quantidade razoável de vacinas que, em cenário positivo, estarão entre nós nos próximos meses, não podemos deixar de levar em conta que a geopolítica certamente terá sua influência no desenrolar dessa questão.
Tão relevante quanto os impactos da “coronacrise”, será verificar, a partir de 2021, a corrida pela imunização em diferentes regiões do planeta.
