Eleições nos EUA: America First vs Globalização De Novo

Não há muitas dúvidas de que o grande tema de 2020 será a pandemia de COVID-19, provocada pelo novo coronavírus. Porém, não dá pra negar que existe outro tópico importantíssimo e que fará muita diferença nos próximos anos: as eleições nos EUA. O que está em jogo na terra do Tio Sam?

Como funciona o sistema eleitoral nos EUA?

Em vigor desde 1787, a forma de votação no país em que 25% da produção mundial é feita todos os anos é no mínimo, peculiar. Os 50 estados tem suas votações (seja antecipada ou no dia D, 03/11/2020), e o candidato que ganha leva o número de delegados que representam o Estado, no modelo ‘winner takes all’, com a exceção dos estados do Nebraska e do Maine, que tem um modelo híbrido entre a votação total do estado mais o resultado de seus condados.

Por exemplo, na Califórnia, há 55 delegados que representam o estado da costa leste americana. Se o Biden ganhar de 51% a 49% ou de 76% a 24% pouco importa: os 55 delegados votam (na grande maioria das vezes) conforme o voto popular. Vale ressaltar que o exemplo da Califórnia em favor do Biden não é aleatório, uma vez que os democratas não perdem para os republicanos no estado desde 1992.

Nesse modelo, há uma corrida para estados-chave que tem um maior número de delegados, e que a vitória nesses locais pode ser decisiva para ganhar o pleito:

Mapa dos EUA separado por estados e o número de colégios eleitorais
Fonte: https://www.procon.org/headlines/the-electoral-college-top-3-pros-and-cons/

Ainda, há estados que são conhecidos por não terem uma preferência clara por um dos partidos, e por isso são chamados de swing states. São eles: Texas (38 delegados), Flórida (29), Pensilvânia (20), Ohio (18), Carolina do Norte (15), Arizona (11), Wisconsin (10), Minnesota (10), Iowa (6). A Flórida, inclusive, já protagonizou histórias de recontagem de votos e muita confusão na apuração por diferenças mínimas de votação, como foi o caso da eleição em 2000.

Esse modelo, portanto, pode levar a uma vitória no Colégio Eleitoral, mas uma derrota no voto popular, como aconteceu na última eleição, e também em 2000. Apesar da instituição do Colégio Eleitoral ter sido questionado nos últimos anos, ninguém pode dizer que a regra não é clara: são necessários 270 votos para vencer a disputa, considerando os 538 em disputa nos estados americanos.

E para complicar ainda mais o sistema, o resultado pode empatar (como aconteceu em 1800), ou ainda que nenhum candidato atinja o número de votos para ganhar (como aconteceu em 1824). Embora improváveis, os resultados descritos acima não são impossíveis de acontecer.

Duas plataformas diferentes em disputa

Possivelmente a grande diferença existente entre as duas plataformas em disputa é a seguinte: a reeleição de Trump significa a continuidade das políticas que colocam em primeiro lugar os EUA de um modo bastante nacionalista (America First) e a eleição de Biden pode significar uma volta no compasso de globalização (Globalização De Novo).

A plataforma America First é aquela iniciada com a entrada de Trump em 2016 que leva em consideração uma ampla renegociação de contratos com a motivação de posicionar melhor os EUA, que estariam de alguma forma sendo prejudicados em todos eles. Esse tipo de postura inclusive é o que gerou a Guerra Comercial que vem ocorrendo com a China nos últimos anos.

Já o conjunto de ideias Globalização De Novo sai dessa metodologia e busca uma retomada de alianças, sobretudo comerciais, mais amplas dos EUA com o resto do mundo. É líquido e certo que isso vá acontecer rapidamente? Não, ainda mais levando em conta o histórico recente de atitudes mais beligerantes, como por exemplo da saída do Acordo de Paris. É possível inclusive que essa “virada de mão” dê mais trabalho aos EUA do que inicialmente se imagina.

Vem recorde de eleitores por aí?

Até 31/10/2020, com três dias de distância para o dia “oficial”, mais de 90 milhões de eleitores já haviam votado. O recorde histórico será quebrado se a previsão para 2020, de 150 milhões, for atingida (e será o maior número de votos desde 1908 se isso ocorrer).

Apenas para efeito comparativo de como o interesse na eleição deste ano é notável, quatro semanas antes desse dia já haviam 3,8 milhões de votos registrados (contra apenas 75 mil no pleito de 2016). Detalhe importante: estamos falando até agora de mais de 90 milhões de votos antecipados – dado que hoje, 03/11, é o dia principal das eleições, em que uma parte considerável dos votos por todo o país são enfim depositados nas urnas.

E o Brasil com isso?

Temos com Bolsonaro um certo alinhamento com Trump, em questões diversas. Paradoxalmente, este alinhamento quase que incondicional não tem nos rendido frutos tão consideravelmente vigorosos quanto se imaginaria, a troca parece mesmo ser mais favorável ao Tio Sam – e um famigerado “amanhã a gente vê” para Terra Brasilis. A continuidade de Trump na Casa Branca tende a seguir essa estratégia.

Para o caso de uma vitória de Biden, a situação não ficaria muito melhor. Esse alinhamento quase cego a Trump em diversas pautas faz com que a diferença seja grande o suficiente para, ao menos em um primeiro momento, duvidar de uma “mudança considerável” que permita uma aproximação com algo tão diverso. Estaria colocada em xeque a política totalmente ideológica de Bolsonaro.

Ainda assim, esse cenário com Biden na Casa Branca pelos próximos quatro anos pode significar uma mudança. Por qual motivo? Bem, é só olhar a quantidade de “nunca farei” que viraram realidade no atual governo – como por exemplo a aproximação com o Centrão, que seria supostamente a fonte de todo o mal dos últimos 30 anos.

Qualquer que seja o caso, o mais importante a se pensar é que veremos uma volatilidade razoável adiante. Afinal de contas, a continuidade de Trump frustraria um certo conjunto de expectativas que estão sendo formadas por essa mudança e, ao mesmo tempo, a chegada de Biden não ocorreria sem certo custo de reversão de políticas colocadas em prática nos últimos anos. Ah, e claro: ainda existem a Guerra Comercial e a pandemia para lidarmos. Apertem os cintos.

Publicado no Blog da Guide Investimentos em 03/11/2020

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